O Diário Invisível dos Exilados
Capítulo III
Eu não gosto de gente que se lamenta, que chora sobre memórias e tem ataques de frescura por causa de sentimentos enquanto o tempo passa. Já perdi muitas coisas, mas o que não posso deixar acontecer é isso, desperdiçar o meu tempo. No momento, é a minha única arma. Meu mestre favorito da academia diz que é melhor fabricar ou descobrir suas próprias armas do que depender de alguém, "ser senhor dos seus próprios meios", é como ele costuma colocar. Prefiro usar o tempo para encontrar o significado exato disso.
Ninguém deseja me receber de braços abertos, Rubeus, o filho do traidor. Do pobre príncipe banido, do irmão menos capaz, que ficou louco ao ser rejeitado pelo destino...destino, é o cacete! Meu pai foi muito burro. Ele era um fraco. E reconhecer esse fato, me torna melhor do que ele. Muitos não acreditam, mas eles vão ver! Talvez seja a última coisa que irão ver, considero isso absolutamente emocionante!
Fazendo um balanço rápido da minha vida, vejo que estou indo até bem demais para alguém que perdeu prestígio, riqueza, tem um pai imprestável, uma mãe em paradeiro desconhecido e vive sob suspeita constante: estou com catorze anos agora, ou seja, falta apenas dois para me formar na academia. Não fui expulso, o que é ótimo. Será quase impossível arranjar um posto decente no governo, o que é ruim, mas não desesperador: é para isso que existe o submundo, para gente que tem valor e precisa de oportunidades, mas não tem crédito na praça, como eu. Quando chegar onde quero, eles vão precisar tanto de mim que não terão outra saída.
Já exerço influência sobre um grupo de aristocratas da minha classe, que sente muita segurança enquanto está descendo as suas escadas de mármore e gritando ordens para os criados...mas, quando eles saem para as ruas, o letreiro do meu detector de otários enche os céus do reino com luzinhas coloridas.
Moro com a família de minha mãe, comerciantes patéticos, aduladores de plebeus operários. As mulheres da classe baixa, além de pobres e deselegantes, precisam ser paparicadas para comprar os tecidos grosseiros e os perfumes aguados daquele bazarzinho barato. Pareço condescendente? A corte costuma ser ainda mais gentil comigo, então, só estou retribuindo.
Eu tinha dez anos quando vi meu pai perder a razão e cavar o próprio túmulo. Ele enterrou a minha compaixão consigo...droga, detesto ser melodramático, mas, às vezes, não consigo evitar!
"Peridot! Acabe com isso e vamos conversar! Nós somos irmãos, eu posso te dar outra chance!"
Enquanto lutava contra um grupo de mercenários que havia conseguido penetrar no palácio, meu tio, o Rei Adamant, ainda tentava convencer papai a se entregar de uma forma pacífica. Não sei como puderam se desentender...dois idiotas formariam uma ótima dupla.
De onde eu estava, escondido atrás de uma escultura enorme de granito, podia ver a luta: havia uns vinte bandidos ali, sendo enfrentados por alguns guardas, minha tia Amethyst, meu tio Adamant, e meu primo mais velho, Demando, que tinha se recusado a deixar os pais sozinhos.
Vi quando um dos inimigos entrou sorrateiramente no quarto de Saffiru. Minha tia correu pra lá, mas foi interceptada por um dos invasores, que acertou-lhe um soco no queixo. A mulher nem chegou a cair e revidou o golpe, atirando uma bola de energia contra o rosto do infeliz. Enquanto ele se contorcia sobre o carpete, aparando em suas mãos pedaços do rosto queimado, ela entrou no quarto do meu primo menor, retornando pouco depois, carregando o estuporzinho. Nesse momento, as paredes e o teto começavam a rachar e se desfazer, tal era a violência da batalha. Alguns dos invasores trocavam golpes de energia sobrenatural com o rei e dois de seus guardas mais poderosos; um par de mercenários e três guardas já estavam abatidos, mergulhados em poças de sangue, seus cadáveres fumegantes e despedaçados sendo pisoteados pelos lutadores. Era uma visão adorável.
Considerei que sair de meu esconderijo improvisado seria o mais prudente. Mas pra onde ir, com a cidade naquele caos? Eu tinha que fugir, pois com certeza seria encarcerado ou morto quando papai falhasse, sim, porque eu já sabia onde aquilo ia dar: meu pai sempre falha. O talento para fracassar é o que o mantém vivendo até hoje. É a única explicação para ainda estar vivo. Se fosse eu, já teria me suicidado, destino esse bem mais honroso do que a prisão.
Mas, enfim, voltando ao meu dilema...precisava fugir, sem dúvida, mas pra onde é que era a questão. De repente, todos perceberam que, se não pegassem leve com a magia, seriam soterrados por toneladas de mármore e cristal, portanto, diminuíram a dose e passaram a lutar mais com as próprias mãos. Isso deu idéias perversas ao pessoal, de modo que cada grupo rival tentava se reunir na área segura, com o objetivo de fazer o outro recuar e isolá-lo no extremo do corredor sem saída, para então provocar um desmoronamento e esmagá-lo.
Minha tia manejava a espada com uma das mãos, porém, seu outro braço estava ocupado com o peso morto do Saffiru. Do ponto de vista bélico, a dupla tentativa de engendrar fuga e armadilha era o que havia de mais belo, parecia um balé sincronizado em alta velocidade, cujas conseqüências seriam mortais...os guerreiros de ambos os lados tentavam saltar (saltos incríveis!) por cima das cabeças dos demais, para chegar ao ponto da rota de escape, mas eram impedidos por chutes poderosos que rasgavam o ar instantaneamente.
Mas aquela merda relativamente divertida não atava e nem desatava; Tia Amethyst inclinou o corpo de lado para defender o filho mais novo do golpe de uma alabarda giratória, então recebendo-o ela mesma através da barriga.
Meu tio gritou com muito desespero ao ver a mulher praticamente cortada ao meio; não sei o que me deu naquela hora. Talvez fosse algum vestígio da estupidez do meu pai, tentando encontrar vazão em minha vida.
Agarrei um fragmento pontiagudo de pedra, caído provavelmente de uma das colunas, e golpeei a cabeça do cara antes que ele tivesse tempo de retirar sua arma do corpo da Rainha Amethyst. Desorientado, o bastardo me deu tempo de alcançar o pulso do Saffiru e arrastá-lo para longe dali. O pequeno inútil chorava e berrava, enquanto um cortejo de violência estava tentando abocanhar nossos calcanhares: havia outros mercenários nos perseguindo.
Sem dúvida, eles teriam me deixado ir (ou, quem sabe, até me adotado como aprendiz) se eu tivesse entregado o filhinho caçula do rei para lhes servir como refém. Porém, só o que fiz foi implorar ao desgraçadozinho que calasse a maldita boca.
