O Diário Invisível dos Exilados
Capítulo IV
"Não se afaste de mim, nem por um segundo!", meu pai me deu essa recomendação no começo da batalha, mas morreu poucas horas depois. Ele foi o primeiro a descumprir o trato.
Garnet, meu tio materno, estava liderando a resistência do lado de fora, e antes de adentrar o palácio para nos ajudar, quis ter certeza de que ao menos metade dos inimigos seria aniquilada. Ele não poderia correr o risco de sermos encurralados.
Aqueles demônios sem pátria e nem honra, os malditos mercenários infiltrados em Nemesis graças ao meu tio, fizeram muito mais do que tentar tomar o palácio. Nunca se deve confiar nessa escória, pois seus únicos objetivos são dinheiro e suprir suas próprias perversões. São pessoas incapazes de lutar com decência e responsabilidade: imorais, traem quem os contratou, se desviam do combinado quando avistam lucro maior...
Eles cometeram saques, vandalismo, assassinatos...abusaram das nossas mulheres e crianças...meu estômago revira de nojo quando penso nisso...entre as ocorrências mais escabrosas, consta que dezenas de crianças da classe plebéia foram amarradas e queimadas vivas junto aos seus pais, em uma vil manobra para eliminar testemunhas...outra foi o rapto de meninas órfãs, mal saídas da infância para, provavelmente, serem vendidas como escravas sexuais em algum reduto de canalhas...
Muitos deles só conseguiram escapar devido à sua natureza covarde: uma vez conseguindo tudo o que lhes interessava, mandaram meu tio e os outros mercenários para o inferno e fugiram...muitos deles sequer chegaram a participar da batalha. Vieram aqui só para roubar, matar e violar. Um dia, ainda vou apanhar esses miseráveis e ouví-los implorar, enquanto mergulho suas mãos sujas em ácido fervente...
Meu tio Peridot não passa de um louco estúpido. Se não tivesse sido responsável pela morte de meus pais e o vilipêndio do povo, talvez sentisse pena dele. Talvez ainda pudesse chamá-lo de 'meu tio favorito', aquele que passeava comigo e com Saffiru enquanto papai estava ocupado, que apaziguava o temperamento de mamãe quando ela e meu pai discutiam...
Após presenciar a morte de minha mãe, assisti a Rubeus desaparecer com Saffiru, os dois seguidos de perto por alguns dos mercenários que lutavam conosco. Eu gritava feito louco, trêmulo, tentando abrir passagem entre os inimigos com golpes errantes da espada...foi então que papai perdeu a paciência: liberou energia para explodir o teto e as paredes de uma só vez. Em seguida, ele nos teletransportou para o saguão logo após o corredor.
Apenas nós fugimos a tempo. Tanto os mercenários quanto nossos companheiros de luta foram atingidos pelos raios ricocheteantes, mentalmente controlados pelo rei, depois, esmigalhados em uma só massa de carne sangrenta pelo desabamento.
Meu tio também havia escapado: ao ver papai desaparecer e se materializar ao meu lado, compreendeu o que estava em curso, e acabou adotando a mesma estratégia de fuga.
Eu estava aterrado: de um lado, os mercenários tentavam capturar Saffiru. De outro, meu pai havia feito supremos esforços físicos e psíquicos. Ao surgirmos no ponto de chegada, ele caiu de joelhos, suando frio, sangrando pelos olhos e nariz. Meu tio permaneceu parado há alguns metros de distância, olhando para nós com uma expressão tão assustadora que até hoje não consigo descrever com certeza...era um misto indecifrável de lucidez e loucura.
"Você está cansado demais, Adamant..." ele se dirigiu ao meu pai usando um tom de voz categórico, mas muito quieto. "Você não pode mais lutar...nem mesmo o Grande Sábio pode estar presente...entende agora o que eu digo? Esse homem não é a resposta que procuramos! O poder dele não é indispensável ou extraordinário. É apenas um parasita sugador de espíritos...se fosse tão poderoso assim, ele estaria aqui, liquidando os nossos inimigos em um piscar de olhos..."
Meu tio havia aprisionado Wiseman, impedindo-o de nos auxiliar na batalha. A construção do reator do cristal negro também estava em perigo: os comparsas de Peridot ameaçavam destruir o que já tínhamos progredido. Mas, felizmente, o General Serpentine e o Sargento Ayakashi estavam no local, do outro lado do palácio, lutando para proteger o projeto do nosso clã.
"Nossos inimigos?!" Indignado, meu pai ignorou toda a dor cruciante que provavelmente sentia, e se levantou. "Foi você... quem enfiou esses bandidos nessa terra imunda que nos restou... eles estão matando... e roubando o nosso povo... e tudo porque você... é incapaz de aceitar que está errado!"
"Onde está Wiseman agora, Adamant? Onde está o seu Grande Sábio? Você já tentou chamar por ele em voz alta ou em pensamento? Ele respondeu à você com todo o fervor, como eu tenho respondido a vida inteira?"
"Você tem alguma noção do que está acontecendo, Peridot? Como se já não bastasse...vivermos feito bastardos...eles vão nos saquear até a última moeda! E depois, vão tentar acabar com todos...para não correr o risco de algum dia sofrerem uma vingança! Liberte Wiseman...ele pode ajudar as pessoas, elas estão sofrendo aí fora, e você é responsável por isso!"
Naquele momento, eu já não me importava com meu pai, que mal podia ficar de pé, e muito menos com aquela discussão. Havia acompanhado o suficiente os desentendimentos entre os dois, cada vez mais sérios e violentos. O que tanto me fizera sofrer, agora não fazia mais diferença. Os mercenários estavam atrás de Saffiru. Rubeus o levara embora arrastado. Eu sabia que não era para ajudar. Meu irmãozinho acabaria servindo ao nosso primo como a 'última moeda'. Portanto, sem hesitar, dei as costas ao meu pai.
"Eu preciso salvar Saffiru. Eu...vou ter de deixar você."
Até hoje, tento mentalizar a expressão dele ao se ver abandonado pelo filho mais velho. Meu pai...cada vez mais distantes estão os momentos em que eu e Saffiru nos escondíamos no gabinete dele para vê-lo trabalhar...
A vida de alguém se resume à tudo em que essa pessoa acredita. A verdadeira herança de meu pai é muito maior do que um trono real ou uma fortuna...ele me deixou todos os seus sonhos inacabados. É algo deixado nas mãos apenas de quem confiamos. Talvez isso me ajude a perceber melhor que tipo de pessoa ele era, já que, apesar de ter sido um bom homem e um rei dedicado, suas responsabilidades jamais nos permitiram ter uma convivência completa.
Às vezes imagino se, mesmo em meio à tormenta, papai compreendeu a necessidade de nos separarmos. Em um aspecto, Peridot tinha razão: o rei estava muito cansado, já não podia mais lutar. A partir de então, eu teria de ser o guia do meu destino e do nosso povo, mas me recusava a começar essa caminhada sem Saffiru. Por mais forte que seja, nunca vou estar pronto para a solidão.
"Você não pode ir sozinho! Procure o Sargento Ayakashi e peça ajuda à ele...você chegará mais rápido se for por aquela passagem que lhe mostrei, lembra?"
Eu assenti, e já me preparava para ir à luta, quando Peridot tomou uma surpreendente atitude, que me causa ódio, dor e dúvida até hoje:
"Lute com todas as suas forças, Demando. Não permita que tirem seu irmão de você, como aquele demônio tirou seu pai de mim!"
Não respondi, pois tinha preocupações maiores. Mas mesmo que tivesse tempo, não saberia o que dizer. Saí correndo na direção oposta, sentindo o suor tornar escorregadio o punho da minha espada. O sangue alheio escorrendo da lâmina me lembrou de desejar, em pensamento, que meu tio estivesse morto quando eu voltasse.
