O Diário Invisível dos Exilados
Capítulo V
Sou conhecido na Academia Militar como Kurenaino Rubeus não apenas por causa de meus cabelos vermelhos: adoro libertar o sangue dos inimigos até o limite. Um guerreiro autêntico sempre almeja encontrar alguém mais forte que possa fazê-lo experimentar toda a emoção de oscilar entre a vida e a morte em questão de segundos, e ninguém melhor do que os homens com alma de fera para extrair de nós mesmos um lutador invencível. Eles representam a nossa verdadeira essência, tão aprisionada pela cultura e política absorvidas de outros, e mascarada pelo medo que muitos sentem de não serem capazes de se completar sozinhos!
Tomei gosto por lutar contra bárbaros no exato dia em que, contrariando meu instinto de sobrevivência, salvei a vida de Saffiru. Alguns dos mercenários viram minha ação, e pensaram ser mais vantajoso arrecadar um refém de valor, no caso, meu fofíssimo priminho. Abandonando a luta antes mencionada, passaram a nos perseguir.
"Cale a boca ou também vou te deixar! Não sou Demando, não dou a mínima pra você!"
Saffiru insistia em gritar pelo pai e por seu irmão mais velho. Eram gritos mais para si mesmo do que para os dois, na verdade. Ele se viu sozinho pela primeira vez, e isso fez com que surtasse. Ao final daquela confusão, eu me perguntei porque não senti o mesmo quando meu próprio pai se foi. Só consigo sentir raiva quando penso nessa pessoa.
Os mercenários que estavam atrás de nós eram muito fortes e organizados: dois deles avançavam pelas linhas laterais do corredor, lançando em nosso caminho bolas de energia moderada. Pequenas crateras se abriam por onde quer que passássemos. Eu corria com o máximo de rapidez e agilidade possíveis, evitando tropeçar ou ser atingido enquanto arrastava Saffiru pelo pulso: o merdinha havia parado de fazer escândalo e passou a fugir como se o demônio em pessoa estivesse atrás dele.
"Porque eles não estão tentando nos capturar?" Saffiru perguntou, aos berros, em meio ao som perturbador dos urros entusiasmados de nossos algozes.
Eu teria me irritado ao ouvir a voz do pequeno se a pergunta não fosse tão pertinente: além da dupla de bandidos que nos cercava, esburacando nossa trajetória, havia mais três em nosso encalço. A lâmina giratória da arma de um deles passara rente à minha cabeça várias vezes; Os restantes se limitavam a chicotear nossas costas usando pesadas correntes, mas não com força o bastante para nos fazer beijar o chão. Os cinco eram robustos e muito altos. Seria insólito terem tanto trabalho para pôr as mãos em dois moleques fujões de apenas dez e seis anos.
Nesse momento, eu respondi, "Eles estão nos caçando! Mas quando descobrirem que sua carne tem sabor de merda, será tarde demais pra tirarmos vantagem disso!"
"Você conhece o sabor da merda de tanto engolir suas opiniões quando te mandam calar a boca!"
Aquele filhinho leproso de uma puta manca...eu ali, a ponto de me dar mal por causa do traseiro dele, e o safado ainda ousava me insultar! Mas, naquele momento, o que me chamou a atenção foi o procedimento dos mercenários: eles estavam se divertindo ao me testar, querendo saber até onde eu iria para defender a cria do Rei Adamant, até onde eu era capaz de resistir...para eles, a caçada era a melhor parte da missão. Estavam brincando conosco, como os leões—uma das coisas mais interessantes produzidas pela natureza terráquea— brincam com os cervos antes de devorá-los.
Atrevo-me a dizer que, de certo modo, nosso povo tem algo em comum com os mercenários...se você não presta para coisa alguma, está fora do Clã Black Moon; ou mostra serviço ou vai parar no almoxarifado mais próximo. Os mercenários costumam matar seus parceiros incompetentes, encrenqueiros, traidores, enfim, mas, nesta família, os párias tem um destino muito pior: uma vida notoriamente miserável. O infeliz se transforma em um exemplo vergonhoso para os demais daquilo que NÃO se deve fazer para chegar ao sucesso. Alguns nascem carregando tal marca, outros acumulam fracassos ao longo da vida, e em certos casos mais graves, herda-se esta condição de alguém. Nascer de novo é impossível, mas os inteligentes sempre podem se reinventar.
"O que vamos fazer, Rubeus?" A voz infantil e preocupada de Saffiru fez, novamente, uma boa pergunta. Lembro de ter vislumbrado seu rosto cansado, contorcido pelo sofrimento, manchado de lágrimas, porém, disposto a aguentar firme, o malditozinho.
Naquele momento, enquanto as minhas pernas doíam por causa da corrida vertiginosa e meus pulmões se tornavam cada vez menos capazes de absorver ou expelir o ar nocivo que pesava sobre nós, eu constatei a superioridade dos mercenários: eles eram livres e não tinham limites. Nada de metas grandiosas a cumprir, ou códigos de honra e sociedade, bem como estratégias políticas, a seguir. Eram apenas homens que se preocupavam em conseguir o que desejam, testando a si mesmos para descobrir o quanto poderiam obter. Máximo impressionante ou mínimo aceitável, eles continuariam felizes, com uma simples dose de esperteza e ambição. Quem dera a vida pudesse ser assim para todos...
De repente, vidro quebrado vôou em todas as direções: o som da batalha ocorrendo no exterior do palácio arrebatou minha mente, vencendo-me a resistência das pernas. Empurrei Saffiru para o chão, deitando sobre ele para protegê-lo dos cacos de vidro e de novas investidas dos inimigos. Foi tudo muito rápido. Eu não pensei, apenas agi...estupidamente, claro.
Nós nos encolhíamos e gritávamos enquanto novos pares de botas saltavam rigidamente ao redor. Quando levantei o rosto, notei que não eram rústicas como as dos invasores: um pequeno grupo de soldados nemesianos invadira o palácio, e estava partindo com toda a garra para cima dos mercenários.
Foi então que dei eco, mais uma vez, à idiotice de meu pai: levantei, no meio dos ataques sangrentos, e gritei, exultante:
"Ao renascimento da nossa grande história!"
Pode rir e me chamar de estúpido, está no seu direito, mas quando vi nossos guerreiros dilacerando os bárbaros infiéis, o lema do Clã Black Moon foi a primeira coisa que me veio à cabeça. E olha que não costumo agir por impulso, isso é para os fracos!
Mercenários podem ser livres, mas também são tolos e irresponsáveis. Não fazem parte de nenhum projeto digno, jamais serão admirados, não vêem de lugar nenhum porque, geralmente, ou tiveram uma família insignificante, ou nem ao menos SABEM de onde vieram.
Orgulho e prestígio é uma bagagem que não lhes cabe, e muitas vezes, nem interessa. No final das contas, eu não poderia me sentir realizado assim, sendo um 'ninguém competente', que mata e rouba, sob contrato provisório, para acumular riquezas materiais. A ambição precisa ter ESPÍRITO para nos sustentar. A esperteza precisa ser a VOZ desse espírito.
Isso mesmo, acabei de bancar o filósofo sensível...tudo bem, isso ainda não é vergonha o bastante para merecer um brinde com veneno...
Bem, eu estava lá parado, com os braços para o alto, totalmente embebido em meu próprio nacionalismo, quando fui atingido, de raspão, por um dos balaços de energia fumegante. A pele de um dos meus antebraços aqueceu à um grau absurdo, começando a rasgar.
Aliás, as coisas 'esquentaram' de verdade...ouvi as múltiplas explosões, muito próximas, e senti uma onda de calor infernal engolfar o lugar, mas minha visão ficou turva e lacrimejante...
Berrei feito uma menininha que se descobre menstruada durante o baile e quase caí de joelhos, quando um dos nossos se colocou diante de mim, como um escudo, e gritou comigo:
"FUJA, IMBECIL!"
Eu nasci como filho único do Príncipe Peridot, e sobrinho de Sua Majestade, o Rei Adamant. Mas, agora, eu era apenas o 'imbecil' a quem um servidor salvava, movido, sem dúvida, por um senso de dever e lealdade consolidado ao longo de anos, desde a sua infância. Pode não acreditar, mas sou grato àquele militar, cujo rosto até hoje não conheço. Se fosse um mercenário, eu estaria morto. Não posso morrer antes de restaurar a minha própria grande história.
Aproveitei para tentar sair dos limites daquele campo de batalha improvisado: eles haviam iniciado um incêndio de proporções alarmantes (graças às cortinas, tapeçarias, e carpetes suntuosos tão adorados pela Rainha Amethyst), de modo que a fumaça negra rapidamente se alastrou pelo corredor.
Eu não podia abrir os olhos e nem respirar. Caminhava às cegas, estendendo os braços, com medo de esbarrar nos inimigos ou até mesmo ser morto por um dos nossos, já que ali não se enxergava coisa alguma, até que...
"ABAIXE! VAI ATINGIR EM CHEIO, BEM NAS COSTAS!"
Atirei-me ao chão automaticamente, reconhecendo a voz de Saffiru, vinda de não muito distante. Segundos depois, uma brilhante rajada de magia ofensiva passou há poucos metros acima do meu corpo, explodindo a parede dos fundos. Os corredores eram longos, mas estávamos um pouco além da metade quando nossa fuga foi interrompida.
"EMBAIXO, À ESQUERDA, CONTRA A PAREDE, LINHA RETA!"
Obedeci, e rolei para a esquerda até encontrar a parede; encolhido, arrastei-me em segurança até encontrar o final do corredor, onde a nuvem negra se dissipava.
Fiquei de pé novamente e virei à esquerda, reencontrando Saffiru, suado, sujo, ofegando igual à mim, apoiado na parede.
Tossi horrores. Quase vomitei os pulmões, mas meu estado de saúde era o que menos interessava naquele momento.
Meu primo mais novo se aproximou de mim, tentando segurar a mão do meu braço ferido, mas eu o empurrei sem a menor cerimônia.
"Você não está bem, primo Rubeus! Precisa beber água para limpar a garganta, cuidar do ferimento!"
Eu estava bem...BEM confuso e furioso.
"Como você soube? Como chegou aqui?", eu perguntei, com raiva por ter salvo a vida do pentelho apenas para, logo a seguir, ser salvo por ele e ficar sem uma dívida com que pudesse manipulá-lo depois!
Observe o seguinte: todos nós, desde a mais tenra infância, somos severamente treinados para a batalha física, mágica, psicológica e intelectual. No entanto, sempre tenho a impressão de que Saffiru está à frente dos demais, inclusive à MINHA frente. Esse miserável é um verdadeiro prodígio, porém, sendo realeza ou não, a regra tácita geral dita que devemos ser extraordinários em tudo, mas NUNCA um de nós pode se dar ao direito de ser MELHOR do que os outros. Quem quer que seja o felizardo, entra na mira dos 'colegas'. É uma questão de manter o respeito e a unidade entre os semelhantes.
"Então, Saffiru, o fogo derreteu sua língua?"
A expressão do primo me faz rir até agora: a carinha inocente, exalando aquela irritante seriedade precoce, estava cheia de indignação. Ainda podia ver as trilhas de lágrimas aparecendo entre a fuligem que cobria seu rosto.
"Você consegue ser rude até nos momentos em que as pessoas costumam mostrar o melhor de si mesmas...", foi a resposta dele, magoada e chorosa.
Dei uma gargalhada com prazer.
"E você, consegue ser um bundão até nos momentos em que as pessoas costumam mostrar sua verdadeira força!"
"Você me salvou. Eu nunca vou esquecer disso, primo. Muito obrigado."
Lá estávamos nós, dois moleques encardidos e descabelados, discutindo nosso relacionamento em meio à uma guerra onde só importava matar mais do que o outro e viver por mais tempo. Afinal, sobre o que são as guerras, se não sobre isso mesmo?
"Agradeça me contando como escapou e como sabia onde eu estava. Aliás, se não me engano, você me deixou para trás..."
Ele sacudiu a cabeça, assustado com a acusação de ser um traidor. Adorei vê-lo choramingando enquanto se explicava.
"Quando você saiu de cima de mim, corri por entre as pernas deles...não me pegaram porque estavam ocupados com a luta...achei que você estivesse logo atrás..."
O safadinho quase sorriu, por um instante. Que ódio, eu podia tê-lo matado e culpado os mercenários!
"Eu estava cobrindo sua retaguarda, seu anão covarde!"
"Você não tem de ter vergonha do seu patriotismo, primo...eu também amo nosso povo! Eu teria gritado junto com você, mas...a situação estava complicada"
"Pára de falar besteiras e vamos nos esconder!"
Agarrei-o pelo braço, com muito mais força do que antes. Senti minhas unhas atravessarem o tecido fino da camisa que Saffiru vestia. Ele chorava intensamente, apesar de não fazer nenhum ruído, mas não dei importância. Queria arranjar um lugar onde pudesse me acalmar e raciocinar.
Luzes de emergência eram a única iluminação do palácio. Minha adrenalina continuava impedindo-me de pensar com clareza: incêndio, guerra da qual o clã provavelmente sairia vencedor, pena de morte para os traidores, qualquer mal deve ser cortado pela raiz...eu era a última raiz do meu pai dentro da sociedade. Um sentimento pavoroso se apossou de mim: a consciência da morte certa.
"Vamos até a cozinha do térreo, Rubeus..."
Saffiru falou em um tom patético, de quem tenta engolir o choro e vomitar alguma grandeza simultaneamente.
"E ficar mais perto da batalha? Você é a mais estúpida criança que já existiu!"
"Você também é uma criança..."
"EU ESTOU AMALDIÇOADO!"
Soltei o braço dele, deixando um ferimento avermelhado, e o empurrei. Saffiru caiu sentado no chão, mas não esperneou.
"Fale baixo, os inimigos!"
"QUERO MAIS QUE SE DANE! EU NÃO TENHO MAIS SAÍDA! SE..."
Se eu sobrevivesse aos inimigos, não sobreviveria ao ódio implacável do clã. Mas não queria dizer isso em voz alta, na frente do princepezinho caçula.
"Rubeus...", ele continuou, tentando manter a pose. "Eles querem invadir o palácio para nos matar e roubar...eles não vão nos procurar em uma cozinha...lá não tem objetos de valor..."
"Você é realmente um GÊNIO!"
"Escute! Se estivermos escondidos lá, quando conseguirem nos invadir, será mais fácil fugirmos sem encontrar com eles! Estaremos mais perto de uma das saídas! Eles pensarão que estamos encurralados aqui, nos andares superiores!"
Eu fechei os punhos, pensando se aquele seria um bom momento para acabar com ele. Mas acabei concordando. Ainda queria saber como ele tinha me visto em meio à fumaça.
"Vamos logo! Se der tudo errado, abandonarei você sem consideração, será castigado por sua própria burrice!"
Passamos a andar separados, em passos rápidos mas cautelosos. Ele colocou a mão sobre o local onde eu o havia ferido, me fazendo sentir algo estranho. Devia estar doendo muito...mas eu tinha de ser forte!
Conseguimos desviar de dois focos de conflito durante o caminho, tomando atalhos seguros, que nos levaram mais rápido ao destino, graças ao conhecimento espantoso que Saffiru possui à respeito da arquitetura do palácio. Cada vez mais ele me intrigava.
As cozinhas são recintos meramente decorativos, um dos costumes terráqueos que a família real fez questão de manter. O tipo de alimento que ingerimos em Nemesis poderia sair diretamente de um laboratório, pois não faria a menor diferença.
Quando chegamos ao local desejado, Saffiru pegou um pouco de água (a única matéria orgânica que havia—um verdadeiro tesouro ao qual poucos em nosso planeta tem acesso), e limpou meu ferimento. Estávamos debaixo de uma grande mesa de mármore, de onde podíamos ver mas não ser vistos, ambos tentando dissimular o medo que sentiam. Talvez, por esse motivo, ele tenha começado a falar, enquanto pressionava o pano umedecido contra o meu antebraço:
"Eu descobri que posso ver as pessoas mentalmente..."
Eu estava pensando em um jeito de me dar bem (ou, pelo menos, morrer com dignidade), quando aquilo me chamou a atenção. Olhei para ele, mas o primo parecia totalmente concentrado em mim. Deixei que continuasse a tentar me curar, pois há muito tempo as pessoas tinham deixado de se preocupar com meu bem estar. É...agradável, de vez em quando, ter alguém por perto.
"Como assim?"
"Quando você estava perdido no meio daquela confusão, eu fechei os olhos e pensei em você...então, a mente, com a ajuda do meu poder de magia, recriou a assinatura da sua energia...aí, pensei no local onde estivemos antes, no caso, aquele corredor específico...então, achei sua localização..."
"Porra nenhuma!"
Fiquei estarrecido. Aquilo não podia ser verdade. Como um moleque de seis anos, por mais que dedicasse sua vida inteiramente aos estudos como todas as outras crianças, conseguiria fazer uma coisa daquelas? Tudo bem que haviam descoberto seu dom como alquimista, mas aquilo já era demais!
"É verdade, primo."
"E como é que ninguém nunca comentou sobre isso? Há quanto tempo você..."
"Eu me dei conta há mais ou menos um ano atrás...papai e mamãe acharam melhor não espalhar, e meu irmão concordou...Tio Peridot estava me ajudando a trabalhar a capacidade, até que..."
Antes que ele começasse a dar um ataque sentimental, mandei-o calar a boca. Afastei a mão que cuidava do meu ferimento, e o encarei.
"Meu pai sabia disso? Ele também tem essa...capacidade?"
"Não, mas ele entende do assunto, estava me ajudando a controlar..."
"Meu pai é um idiota, só entende nada de merda alguma! Você está mentindo! Você me viu porque a rajada de magia que cruzou o corredor e derrubou aquela parede dispersou a fumaça e iluminou..."
O pretenciosozinho começou a tremer como se um vento forte estivesse soprando sobre nós. Ele ficou ainda mais pálido, de tanta raiva.
"Se eu tivesse visto apenas no momento em que a velocidade da bola energética deslocou o ar ao seu redor, você estaria morto. Aquilo veio lá do início do corredor...só o que vi com meus olhos normais foi a energia avançando no meio da fumaça...foi tudo muito rápido...senão, eu teria visto apenas o seu...o seu cadáver estendido no chão...não...não me chame...não me chame de mentiroso..."
Saffiru baixou o rosto, e começou a chorar novamente. Só que, daquela vez, com direito a soluços e tudo o mais!
"Pare de fazer barulho, imbecil!"
"Eu...eu podia ter feito alguma coisa pra ajudar...minha mãe...meu pai, meu irmão...eles mataram a minha mãe...não adiantou nada eu ter estudado tanto...se...se eu fosse...se eu fosse forte como você...ou...ou...como meu irmão...eu podia ter salvado ela!"
"Ótimo, é um inútil, feliz dia da descoberta para você! Agora, cale essa boca!"
"Não briga mais comigo, primo! Nós temos que...nós temos que ficar juntos...! Os inimigos são os bárbaros...não são você e nem o tio..."
Arregalei tanto os olhos que eles quase saíram da órbita. Um alarme interno soou dentro de mim. Não precisava mais racionalizar sobre coisa alguma, estava tudo ali, armado.
"Você pensa que vai me enrolar com essa conversa de velhas choronas? Você quer é me fazer perder tempo aqui, até aparecer alguém pra me pegar!"
Eu deixei primeiro nosso esconderijo improvisado; ele me seguiu, totalmente apavorado, sacudindo a cabeça como se ela estivesse frouxa sobre o pescoço.
"Não! Eu nunca faria isso, primo, você também é minha família! Nós todos amamos você!"
"Faria, faria, sim! Primeiro você me deixou pra trás! Não, não, primeiro você escondeu de mim que era capaz de ver as pessoas mentalmente, como você mesmo diz, aí, então, me deixou pra trás! Agora, só porque faz um truque retardado, acha que pode me emboscar! O que está tentando fazer, Saffiru? Treinar suas bruxarias e falsidades em mim até o dia em que estiver pronto para se livrar do seu irmão e assumir o trono no lugar dele, é isso?"
A boca dele se abriu e se fechou sem emitir um único som. Saffiru levou as mãos à cabeça, engasgado pelo choro. Os olhos dele se fecharam, enquanto suas pernas se dobravam, até cair de joelhos.
Eu fiquei de pé na frente dele, furioso. Tinha certeza de que aquele era o plano do pequeno estrategista de merda. ELE é que é igual ao meu pai. A diferença é que conseguia fingir ser mais esperto, mas eu não estava disposto a cair na dele. Eu vencerei no final.
Com muita dificuldade, ele conseguiu cuspir estas palavras:
"Não fala...não fala essas coisas...isso não é verdade!"
Foi então que minha paciência acabou. Toda a tensão acumulada durante os últimos meses precisava ser liberada naquele instante: agarrei-o pelos ombros, forçando-o a ficar de pé. Ele mantinha a cabeça baixa, mas levantei o queixo dele, segurando-o entre meus dedos enquanto a outra mão apertava um de seus braços. Olhei bem fundo naqueles olhos azuis e disse, com rigor e urgência:
"Eu conheço gente feito você. Gosta de aprender demais...quem sabe das coisas mais do que deveria saber, não aceita obedecer ordens dos outros! Você não vai ter a chance de se tornar um traidor, sabe porque? Eu vou evitar que passe por essa humilhação. Você não vai crescer o bastante pra isso!"
Não sei o que me deu. Minhas mãos o soltaram por alguns instantes...alterado como estava, nem notei que também chorava copiosamente. Malditas lágrimas...nunca mais vou me deixar sangrar dessa maneira.
Observando aquele menino, não sei por qual motivo, pensei em nossas tolas implicâncias diárias...aquelas em que nos ofendíamos chamando um ao outro de coisas como 'Bobão' e 'Anãozinho'...depois rolávamos juntos pelo chão, rindo e gritando, gritando...
O passado não existe mais, porque o presente já determinou o nosso futuro. Esse foi o meu pensamento final, enquanto estávamos sozinhos naquela cozinha repleta de sombras, a guerra estourando lá fora, esperando por nós...ou não.
Meus dedos descansaram nas laterais do pescoço de Saffiru; os polegares repousaram na frente, na altura da cartilagem tiróide, mas jamais tive a chance de apertá-lo...
"PÁRA OU EU TE MATO!"
Assustado e paralisado ao mesmo tempo, movi apenas as pálpebras, piscando sem parar. Minha respiração ficou suspensa e meu senso enevoado não desenvolvia ações ou palavras.
Primo Demando surgira ao meu lado, coberto de sangue, pressionando a nobre lâmina de sua espada contra o meu próprio pescoço. Ele, ao menos, tinha me dado uma escolha.
