O Diário Invisível dos Exilados
Capítulo VI
Eu devia ter matado Rubeus quando tive oportunidades legítimas para fazê-lo.
Agora, quatro anos depois, não posso mais acabar com meu primo: ao poupar sua vida quando, obviamente, pretendia matar meu irmão menor, e após, na ocasião do dramático julgamento de Peridot, eu lhe concedi perdão de forma automática.
De acordo com nossas leis, o perdão não é algo que possa ser retirado ao menor sinal de inconveniência, ou depois de pensar melhor sobre o assunto...o perdão, nesta terra, é considerado um item sagrado, devendo ser usado com o máximo de seriedade. Você deve ter absoluta certeza do que está fazendo. Talvez, por isso mesmo, o hábito de perdoar em Nemesis seja quase inexistente.
"PÁRA SENÃO TE MATO!"
Refletindo sobre aquela cena muito tempo depois, vejo a razão de ter hesitado ao invés de matá-lo rapida e facilmente: fui tomado pelo espanto ao ver, em seu rosto, a mesma expressão que meu tio carregava no instante em que abandonei papai...talvez desespero, uma espécie de...busca doentia, por alguma coisa que só eles mesmos podiam ver...aquilo me chocou...fiquei atordoado, porém, mesmo assim, eu precisava resgatar Saffiru...
"Irmão...abaixa isso...ele não tava fazendo nada...só...estávamos pensando...no que fazer..."
"Rubeus...tire as mãos de cima dele! AGORA"
Quando o espanto se dissipou, uma voz dentro da minha cabeça me disse para matá-lo. A voz do meu irmãozinho, angustiada e cansada, plantou em mim a indecisão. E o miserável não se movia! Ele continuava com as mãos no pescoço do meu irmão! Verdade que não o estava estrangulando quando apareci, mas...
O pranto de um soldado Nemesiano simboliza o sangramento de sua alma, portanto, ele já não tem mais a perder e tampouco a ganhar — é um velho ditado de nossa sociedade. Tolo e piegas, mas só na teoria. As lágrimas escorrendo pelo rosto de Rubeus tornavam aquele cenário ainda mais aterrador.
Cada segundo que passava pesava como uma eternidade sobre nós, o som da batalha desenfreada, os gritos dos guerreiros, de êxtase e de dor, chegando até a cozinha como se, a qualquer momento, todos fossem irromper pela porta e nos pisotear.
Meu maior medo era que, num só movimento, Rubeus quebrasse o pescoço de Saffiru—uma das muitas técnicas especiais de combate corpo-a-corpo ensinadas aos pupilos da nossa Academia Militar Unificada Nacional. Eu também poderia derrubá-lo com um só golpe certeiro de espada. Ainda não dominávamos tais habilidades com a precisão necessária para enfrentar e vencer um homem adulto, mas fazer estragos mortais em um moleque não é tarefa difícil...
"RUBEUS! Última chance! Larga ele ou morre!"
Um gesto bastou para trocar de posição e sacar minha adaga—projetei a ponta estreita contra a entrada do ouvido de Rubeus, enquanto a lâmina maior ameaçava rasgar o ventre de meu primo do umbigo até o tórax.
"NÃO!", foi o protesto zangado e ameaçador de Saffiru, quando sangue começou a minar através da camisa de Rubeus. A lâmina de minha espada era relativamente curta, portanto, eu poderia causar-lhe um ferimento de advertência que talvez resultasse em um mar de tripas espalhadas pelo chão, ou, atravessar quase todo seu crânio usando a bela adaga que ele próprio me dera como presente de aniversário, sem problema algum. Ou não.
"Se você fizer isso, nunca mais falo com você! Vou te virar as costas, irmão, juro que vou! Eu vou embora, vou viver no deserto, qualquer lugar bem longe de VOCÊ!"
"Calado!"
Ralhei com Saffiru sem tirar os olhos do perturbado Rubeus. É no mínimo irônico que um prodígio como meu irmãozinho seja tão inoportuno em sua bondade.
"Demando...", a expressão facial de Rubeus não mudou enquanto ele pronunciava suas primeiras palavras desde minha aparição, "...ouça...eu quero que você me mate. Agora."
Saffiru começou a falar muito rápido, chorando, mas não lembro o que disse.
"Seja qual for o truque, não vai funcionar! Deixe Saffiru ir!"
Então, meu primo sorriu. Sim, ele sorriu! Há muito eu não o via fazer isso...desde aquele dia, é algo que não desejo mais ver. Era um sorriso mórbido, cruel, desiludido...um sorriso de monstro em um rosto de criança, embalado por um tom de voz suave e resignado.
"Eu respeito você demais para usar truques, primo...sei que você não quer me matar...mas precisa fazer isso...é só o que falta para fazer de você o nosso rei..."
Antes de tentar transmitir um pouco do que é a estonteante lógica de Rubeus, deixe-me organizar algumas coisas: ele e Saffiru estavam diante um do outro, 'Kurenaino' com as mãos no pescoço do meu irmão, este, por sua vez, com suas mãozinhas entrelaçadas, como se estivesse fazendo uma prece, consciente ou inconscientemente, não sei; eu estava posicionado na diagonal, num ângulo onde me era possível olhar Saffiru de esguelha, à distância de um dos meus braços, mais ou menos, e encarar Rubeus diretamente. Quando ele olhava para Saffiru, apenas sua face direita entrava no meu campo de visão...
Lá estávamos nós, formando aquele triângulo maldito, eu no topo, os dois na base, um dependendo do outro para, de certo modo, destruirmos a nós mesmos e aos demais...se Rubeus apertasse o pescoço do maninho, eu o mataria...matando Rubeus, eu perderia o respeito e a confiança do meu irmão...sofrer tais perdas, para mim, seria o mesmo que estar morto...sem falar no outro aspecto...a vida de Kurenaino Rubeus valia (ainda vale) bem mais do que todos imaginam.
A situação se tornava mais complicada por conta de uma inusitada variante: a já mencionada e estonteante lógica de Rubeus:
"Eu respeito você demais para usar truques, primo...sei que você não quer me matar...mas precisa fazer isso...é só o que falta para torná-lo nosso rei..."
Eu não pude acreditar naquilo. Não porque pensasse ser um truque, mas porque sabia que não era. Ele realmente estava disposto a me entregar sua vida...
No entanto, Rubeus também sabia que eu não estava disposto a matá-lo de imediato...por causa de Saffiru (única razão da qual ele tem pleno conhecimento, assim espero) e também por causa de...não...eu não quero pensar nesse aspecto: tenho procurado desativar esses sentimentos que trazem ódio, dor e dúvida, pois só servem para tornar a bagagem de minhas imensas responsabilidades inutilmente pesada.
"Não tente me distrair com falsas reverências...se mover um só músculo, posso acabar com você antes que..."
"A sucessão do trono será aberta esta noite...a história interrompida pelos demônios medíocres será retomada e escrita por você...meu tio foi um homem formidável, mas ele não se compara a você, Demando..."
O suor queimava nossos olhos, mas nenhum dos três se mexeu; Nemesis é uma terra fria, mas parte de nós ainda é humana.
Em uma coisa, sei que Rubeus e eu concordamos: os sentimentos são experiências complexas demais para serem colocados em primeiro plano. É melhor restringí-los ao inofensivo campo da imaginação enquanto tratamos, com mais segurança e liberdade, das questões práticas que movem a vida.
Naquela época, éramos tolos e irresponsáveis, ainda não entendíamos a importância da racionalidade. Decidi conversar com ele: a grande verdade é que eu queria dividir com alguém o sofrimento e a raiva causados pela cisão entre nossos pais. Aquele alguém deveria ser Rubeus.
Diante de Saffiru, eu sempre tive a necessidade de ser o irmão mais velho forte e destemido. Eu queria saber o que aqueles dois esperavam...se Saffiru creditava a mim alguma carta na manga...e se Rubeus ainda pensava como um dos nossos.
Para ser sincero, apenas saber o que ele pensava já me faria sentir melhor.
"Irmão...", Saffiru estava apreensivo, o pobrezinho.
"Continue interrompendo o curso das coisas, e logo vamos ficar nervosos, o que resultará em inevitável desgraça...cale a boca e todos nós vamos ter um final feliz...", após fazer essa promessa, em tom de repreensão, à Saffiru, observei Rubeus, em silêncio. Seria uma perturbadora conversa, que até hoje resta inacabada...
"Um final já estaria de bom tamanho..." disse Rubeus, olhando-me nos olhos. Ele conservava a mesma emoção opaca de antes. "Eu não quero sair vivo daqui...quero que a minha morte marque o início do seu reinado, primo Demando...extirpar a raiz do mal será o seu primeiro ato como Rei do Planeta Nemesis..."
"Você fala como se tivesse certeza da morte do atual soberano...o que o levou a tal conclusão?"
Fiz a pergunta com ar e voz severos, mas tremendo dos pés a cabeça, sem deixar de prestar atenção à Saffiru ou ao meu interlocutor, sem parar de pensar em meu pai e na batalha. Tudo isso sem calcular pós, contras, possíveis desfechos, atitudes indispensáveis a tomar, pessoas a procurar ou evitar, enfim, esses aspectos básicos com que um príncipe herdeiro e órfão deve se preocupar. Eu tinha medo de enfraquecer sob o peso da pressão e tombar, como o Rei Adamant.
Procurei concentrar-me em minhas armas, o único ítem objetivo naquela cena: elas me garantiriam o controle, ao menos naquele exato momento.
"O povo jamais ficará do lado de Tio Adamant..."
"O povo sempre esteve ao lado de seu REI!"
Canalizei minha revolta para a ponta da adaga: intensifiquei a pressão contra o ouvido de Rubeus. Queria que o gelo do metal desse à ele a certeza da morte. Ingenuidade minha: a julgar pelo seu estado, Rubeus já havia feito descobertas piores.
Meu primo baixou os olhos, com humilde indiferença. "O povo jamais ficará ao lado de seu Rei após Sua Majestade ter sido traído pelo próprio irmão...por isso, o Rei Adamant morrerá"
Saffiru deixou escapar um doloroso gemido. Este que vos fala estreitou os olhos, sentindo as lágrimas queimando por dentro e forçando passagem. Quando meu primo levantou o olhar, vi que estava muito sério e cheio de energia, já não chorava. Então, Rubeus retomou a palavra:
"Nossa família foi o guia do Clã Black Moon durante séculos...mas agora...nós nos tornamos apenas um...câncer que ameaça a existência do povo inteiro...depois da traição de meu pai...como poderemos dar o exemplo...e manter todos unidos? Nossos ancestrais...foram quase destruídos pela purificação maculadora daqueles que desafiam o poder do Criador...para quê? Apenas para gerarem um...punhado de bandidos exilados? Mercenários e rebeldes sem pátria? Nunca! Devemos nós mesmos iniciar a verdadeira purificação...aquela que lava com sangue e é feita de sacrifício...e não de magia herege, que oferece...vantagens extraordinárias aos fracos de caráter! Vida e juventude eternas...para quê precisamos de tais anomalias, se não somos capazes de lutar contra a desonra que tenta se apossar de nosso espírito? O Criador...quis que os homens cuidassem juntos do universo...com suas próprias mãos...não que desafiassem a natureza...e reconstruíssem mundos inteiros em um passe de mágica, colocando-os sob o controle de um único ser...terreno e imperfeito...e é por isso, primo Demando, que VOCÊ deve continuar lutando! Só você pode fazer com que tudo seja como deve ser...e para isso...nós devemos purificar primeiro nossa linhagem...imperdoavelmente manchada por aquele monstro infiel chamado Peridot..."
Não contive mais as lágrimas: parecia que meu peito ia explodir. Chorei um choro exasperado, soluçando e detestando cada segundo. Jamais em minha vida ouvi, ou provavelmente ouvirei, um discurso tão sincero e lúcido sobre o que significam o Clã Black Moon e sua cruzada.
Quando Rubeus acabou de falar, e sorriu para mim mais uma vez, toda aquela aura odiosa que o oprimia desvaneceu. Era como se ele tivesse voltado a ser meu primo Rubeus, meu pequeno homem de confiança. Sinto-me infinitamente mais forte quando as pessoas ao meu redor acreditam em mim com todo o seu coração. Parece contraditório, e é, mas...seus sentimentos de confiança...de lealdade, de esperança...e de amor, todos dirigidos à mim, são o o que me impulsiona...posso ser o líder mais competente e implacável que este universo já viu, desde que seus corações estejam comigo. Eu não preciso do meu próprio coração...às vezes, sinto que ele já não sente muita coisa.
"Rubeus...", eu balbuciei seu nome, totalmente desarmado. É uma coisa tão boa e tão ruim que me dá medo até hoje. "Porque...porque você diz que...eu sou o escolhido para nos guiar? Porque EU?"
"Só os atos explicam verdadeiramente o porque da existência de alguém...é o que nosso Rei costumava dizer, certo? Por isso ele detestava aquela literatura emotiva, narrada em primeira pessoa...concordo com ele, grande estupidez"
A lembrança de um fato do nosso cotidiano, algo que humanizava meu pai, tornou-me ainda mais vulnerável. Mas não somente minha pessoa: Rubeus tirou as mãos do pescoço de Saffiru, deixando cair seus braços aos lados do corpo. O mano ficou parado no mesmo lugar, soluçando, evidentemente em dúvida sobre quem deveria abraçar primeiro: até que ele escolheu correr para Rubeus, a quem eu ainda mantinha sob ameaça.
"Abaixa isso, irmão! Por favor!"
Eu obedeci, lentamente, mas ainda as mantive em alerta. Rubeus voltou a falar:
"Ainda não terminamos aqui..."
Emocionado como estava, quase não percebi o perigo. "Não terminamos o quê?"
"Ei, será que falei tudo aquilo à tôa? Vocês não estavam me ouvindo?"
As mudanças bruscas de humor do meu primo não são famosas a troco de coisa alguma: ele se tornou impaciente e ultrajado em um estalar de dedos.
"Primo Rubeus, agora tudo ficou bem..."
Saffiru ainda estava agarrado à cintura de Rubeus, olhando para cima, esperançoso. Foi a minha vez de demonstrar apreensão, principalmente quando Rubeus devolveu à Saffiru um olhar de absoluta frieza.
"Você realmente É um desperdício de espaço, primo mais novo! Afaste-se, vamos lá, isso é coisa de homem!"
Sempre bancando o machão...comecei a sentir raiva dele outra vez.
"Rubeus, que..."
Ele apontou o dedo na minha cara, decidido e zangado."Você tem uma missão! E não pode fugir dela! Depois de tudo o que conversamos, espero que tenha entendido!"
Minha única intenção era conversar...tentar compreender porque exatamente meu tio estava nos traindo...não poderia ser apenas por causa de sua discordância em relação à guerra contra a Terra...tinha algo mais ali...imaginava que Rubeus talvez pudesse me contar, já que tudo estava caminhando para um desfecho harmônico entre nós dois. O que poderia ter sido tão mais importante para nosso tio do que a nossa família? Que sentimentos estavam por trás de seus atos?
O primo empurrou Saffiru para o lado, depois ficando de joelhos no piso. Ele tirou a camisa, revelando o ferimento feito por mim anteriormente.
"Agora, mate-me de uma vez e dê início ao nosso plano!"
Se não fosse a excelência do treinamento da Academia, eu teria deixado as armas caírem, tamanha foi a surpresa. "Rubeus, de que diabos você está falando? Saffiru, fique onde está, não chega perto dele!"
Meu irmão parou de andar, enquanto Rubeus começava a me desafiar com gestos lépidos mas amenos, indicando a si mesmo, como se estivéssemos em uma animada competição infantil de espadas.
O infeliz estava contente e agitado! Eu tremia só de imaginar qual seria o resultado do próximo sorteio de emoções.
"De um só golpe, por favor. Eu não quero ter espasmos, sabe, agonizar é simplesmente ridículo! Eu me sentiria como aquelas crianças idiotas que brincam de fingir estar nadando nos lagos da Terra! Nada de espasmos nem de últimas palavras, quando se morre, deve-se morrer de uma vez só, igual àqueles guerreiros milenares que habitaram o Japão em tempos onde os terráqueos ainda faziam alguma coisa além de regar plantas e vagabundear pelas lojas de bugigangas...como era o nome deles, Saffiru?"
Tanto eu quanto Saffiru estávamos tomados pelo pânico absoluto. Rubeus é assim: quando você pensa que ele está bem, aí é que tudo piora de verdade. Posso até estar enganado, mas ele parecia estar com medo também, tentando tornar aquela situação natural...ele sabia o que tinha de fazer, mas não queria fazer ou não queria pensar em suas atitudes...ou talvez, quisesse convencer à nós (e a si mesmo) a não dramatizar demais o acontecimento...
"Saffiru...nosso primo lhe fez uma pergunta...responda, por favor...", com calma e sutileza, resolvi tentar reverter o quadro.
"Eram os samurais!", o horror do meu irmão era patente, mas não descontrolado. Confiando em mim como sempre, entendeu que eu planejava impedir o primo de prosseguir com a aquela sandice de purificação através do sacrifício. Hoje, me arrependo de não ter seguido em frente.
"Isso mesmo! Ah, Saffir-chan, os outros pequenos imbecis de Nemesis deveriam ser iguais a você: um pouco menos imbecil mas não totalmente esperto!"
Contribuindo com meu plano, e movido pelo desejo de salvar Rubeus, Saffiru tentou sorrir, mas acabou fazendo uma careta de dor de barriga. Acredite ou não, tive vontade de rir. Sim: admito que a loucura pode ser um mal da nossa família.
"Rubeus...o que você acha de conversarmos mais um pouco antes do golpe final? Tem algumas coisas que eu gostaria de saber...e só você pode me dizer...se morrer antes, me causará grandes problemas..."
Os olhos do meu primo mais novo brilharam de felicidade genuína. Achei que fazendo com que ele se sentisse útil, poderia ganhar tempo. Ledo engano: Rubeus detesta ser melodramático, e quase sempre consegue, mas, em compensação, se torna incrivelmente sádico quando procura ser objetivo. É muito complicado aproveitar a qualidade se há um defeito demasiadamente unido à mesma, como se fosse uma cabeça adicional em um só corpo.
"O que você quer saber, Demando-sama?"
"Muito bem...", eu não conseguia raciocinar direito, tomado pela maldita emoção. Não sabia se deveria me aproximar dele ou não, se deveria abaixar as armas, se seria prudente entregar a adaga à Saffiru. Era como se meu cérebro tivesse murchado! "...você e Saffiru estavam discutindo quando eu cheguei...porque vocês se desentenderam?"
Rubeus descansou as mãos atrás da nuca e fitou Saffiru de soslaio, como se o tivesse flagrado espionando uma garota trocar de roupa. "Ele é um sabe-tudo egoísta! Aprendeu um truque maneiro e NÃO ensinou ao primo Rubeus! Mas isso não vem mais ao caso, eu o perdôo...pensando bem, não é tão ruim...se ele contou à você, eu o perdôo..."
Presumi que se referia à Visão Espiritual de Saffiru. Conhecimento nesta terra é poder, mas se não estiver bem distribuído, costuma gerar focos de insatisfação dos injustiçados. Isso é que, de fato, significa desigualdade social em Nemesis.
"Muito bem...você perdôou Saffiru, apesar dele ter sido...ter sido um...tão..."
Maldito seja o medo de perder alguém. Eu temia perder aqueles dois, e ainda não sabia se podia oferecer à eles o que tanto desejavam.
Saffiru interveio. "Eu fui traiçoeiro. É como me comportei. Fui traiçoeiro."
O que ainda restava do meu coração se despedaçou ao ver Saffiru rotulando a si mesmo como um traidor, a suprema vergonha que poderia se abater sobre o Clã Black Moon, rivalizando, talvez, com a inutilidade. Ele amava Rubeus ou sentia piedade? Ele também sente um amor como esse por mim, ou será diferente, naturalmente maior?
Se algum dia eu falhar, Saffiru ainda me amará e sentirá admiração por mim? Ou só piedade?
O sangue de um traidor, fraco de caráter e de espírito confuso, corre em nossas veias. Que efeito isso terá sobre nós?
De repente, não sei porque, pensei em minha prima, Esmeralda. Onde estaria Esmeralda naquele momento? Como eu queria ouvir sua voz e ter a certeza de que ela estava bem...
