Título: First Love
Autora: Eri-Chan
Beta: Samantha Tiger Blackthorn e Yume Vy
Fandom: Weiss Kreuz
Casal: Aya x Omi
Classificação: NC-17
Gênero: Yaoi, Romance, Fluffy
Disclamer: Os personagens de Weiss Kreuz pertencem a Takehito Koyasu (o dono do sorriso mais 'lindo') e Project Weiss
Sinopse: Acostumado a estar sempre sozinho em meio a uma multidão, Omi mascarou seus sentimentos. Por trás de seu sorriso sempre alegre se esconde uma gama de sentimentos confusos, normal em alguém da sua idade. No meio desse mar de hormônios como o jovem hacker reagirá à chegada de seu primeiro amor?
Observação: Plot desenvolvido para o 1º Amigo Secreto do LJ Secrets Place, e a amiga sorteada foi a Yoru no Yami.
First Love
Eri-Chan
Parte III
A claridade entrava por uma pequena fresta na cortina, iluminando o jovem que ainda estava adormecido na cama. O rapaz começou a se mover inquieto, tentando fugir daquela luminosidade. Aos poucos foi despertando, abrindo os olhos de um azul intenso, incomodado com a luz.
Por alguns instantes olhou a sua volta com sua visão turvada, ainda perdido entre o mundo dos sonhos e a realidade, se bem que essa tinha sido uma noite sem sonhos. Respirou fundo tentando despertar a mente ainda embriagada pelo sono.
Mexeu o corpo para olhar o despertador, sentindo-se todo dolorido, voltando à memória os fatos ocorridos na noite anterior. Fechou seus olhos, angustiado. Não estava conseguindo manter a concentração... Antes eram apenas os sonhos quentes que tinha com Aya, que o perturbavam até a loucura e o faziam acordar molhado todas as manhãs, e agora... Agora aquela cena entre seus melhores amigos o estava perseguindo, e desta vez tinha tirado todo foco que ele tentava manter na missão.
Era isso que tinha acontecido. Colocara toda a missão em risco ao ficar divagando novamente e baixar a guarda, não percebendo que as suas costas um dos seguranças se aproximava pronto para atirar. Mais uma vez caiu na armadilha de sua mente, quase pondo tudo a perder. Seu peito se apertou, ao recordar que só estava ali, vivo, porque Aya chegou na hora certa e o salvou.
"Por que isso tinha que acontecer logo comigo? Já não basta o tipo de vida que levo? Agora ainda tenho que ser o alvo da decepção dele...? Esconder o que sinto, sufocar meus desejos, fechar os olhos para meus sonhos... O que ainda falta? Mostrar o quanto posso ser fraco e incompetente, deixando de merecer sua admiração e confiança talvez...?" – Revoltado, fechou os olhos com força, tentando bloquear o fluxo de pensamentos, a frustração só o deixava com uma grande dor de cabeça.
Sua vida estava perdendo todo o sentido. Aliás, nunca havia tido um sentido. Enquanto estava somente distante, desligado, tudo bem, mas colocar a vida de seus melhores amigos em risco era imperdoável.
Abriu os olhos voltando a mirar o teto. Tentava reprimir as lágrimas que ameaçavam cair, seu coração sangrando, sem esperança, sem um objetivo. Doía demais por tudo o que estava acontecendo, por tudo o que já aconteceu em seu passado. Sua vida era um fardo pesado, quase que demasiado, para carregar. Engoliu em seco... Não queria chorar, não agora, e além do mais não iria adiantar nada, não ia aliviar o peso da culpa e da angústia do seu coração e só faria aumentar a dor de cabeça que se instalara em si.
Com pesar, levantou-se da cama indo até a janela. Puxou as cortinas com brusquidão e abriu o vidro sendo ofuscado pelo intenso brilho solar, sua cabeça latejando com a claridade em seus olhos. Era um lindo dia, uma manhã cheia de vida, sons alegres de crianças indo pra escola, mas nada daquilo chegava até ele. Um contraste berrante entre a vida que acontecia lá fora, leve, alegre, iluminada, com a alma do rapaz, que estava nebulosa, tempestuosa, atormentada.
Retrocedeu seus passos indo até o banheiro. Retirou o pijama de forma lenta e entrou no boxe. Ligou o chuveiro na temperatura mais quente e gemeu de dor ao sentir a água batendo em seu corpo. Minutos se passaram, mais pareciam horas, até que o corpo do arqueiro relaxasse a tensão e envolvido pela nuvem de vapor quente, o hacker tentou esvaziar a cabeça e encontrar equilíbrio para se manter durante todo o dia.
Desligou o chuveiro, encostando a testa na parede fria por alguns instantes, buscando amenizar a dor que começava a afligi-lo.
Enrolou-se na toalha voltando ao quarto e mais uma vez parou em frente ao espelho, pensando em como detestava fazer isso, pois podia ver tudo o que tentava negar a si mesmo no fundo de seus olhos. Encarou seu reflexo, sem conseguir deixar de mirar seus orbes azuis, procurando no mar de sentimentos ali revelados, algo pelo que realmente valesse à pena lutar... Algo que fizesse de sua existência necessária a alguém.
Não achando respostas a suas perguntas deu as costas ao espelho, não suportando mais ver toda a confusão que sua vida tinha virado. Foi até seu guarda roupa, pegando a primeira roupa que viu. Vestiu-se rapidamente com movimentos automáticos e descuidados, olhos presos a janela sem nada ver, perdidos no nada, no abismo em que se encontrava sua alma. Sem demora o loirinho já estava descendo as escadas com sua mochila nos ombros, saindo sem preparar o café da manhã como de costume.
A claridade do lado de fora da casa parecia ainda mais intensa, mas o jovem estava tão imerso no redemoinho de seus sentimentos que nem se incomodou com isso, apenas abaixou a cabeça e começou a se afastar da casa, sem notar que alguém o observava da janela.
Tudo o que Omi queria era estar o mais longe possível dali. Não queria encontrar com nenhum dos rapazes, principalmente com Aya, pois sabia que levaria uma bronca pelo seu deslize na missão. Na noite anterior tinha subido direto para o quarto quando chegou em casa, não dando oportunidade a ninguém de chamar sua atenção, mas sabia que não escaparia e queria adiar o sermão. Naquele momento não tinha condições nenhuma de ouvir as reprimendas, nem coragem suficiente de encarar as feições preocupadas e decepcionadas de seus amigos.
Caminhava sem pressa, a cada passo mergulhando ainda mais na confusão de sua mente. Todas as cenas que queria esquecer dançavam em sua mente, como a brincar com sua sanidade. Respirou bem fundo, murmurando o que pensava sem perceber:
– Se eu não tivesse me apaixonado justamente pelo Aya não estaria me sentindo assim. – Omi paralisou ao se dar conta de suas palavras, fazendo um senhor que caminhava logo atrás esbarrar nele e reclamar com raiva. Sem se importar com isso, o loirinho falou chocado, chamando a atenção de algumas pessoas que passavam naquele momento. – O que estou dizendo? Estou apaixonado pelo Aya?
Sua visão então se abriu, entendendo finalmente o porquê dos sonhos. Achava que tudo aquilo acontecia por uma simples e estranha atração, por uma confusão de sua parte, mas agora percebia que era algo mais forte, estava longe de ser uma simples confusão, e isso o deixou assustado, desesperado, porque se antes já era complicado encarar o ruivo agora era ainda pior.
Sentiu suas pernas fraquejarem, precisava sentar um pouco e pensar com calma no que faria. Novamente se viu em frente à praça perto da escola, reparando como sempre acabava descobrindo coisas naquele lugar.
Atravessou a rua correndo e sem diminuir o ritmo foi até o banco em que tinha se sentado no dia anterior, passando reto por ele, procurando outro que pudesse se sentar sem ficar com a cabeça cheia de pensamentos 'pecaminosos'. Achou um mais afastado e sentou-se, colocando os pés sobre o banco, abraçando as pernas com força. Apoiou a cabeça nos joelhos e fechou os olhos, aguardando que a respiração alterada pela corrida acalmasse.
As cenas se passavam na sua cabeça, uma se sobrepondo a outra, todas se misturando, as reais e as dos seus sonhos, fazendo-o ver aquilo que até a poucos minutos antes estava escondido do seu entendimento. Que amava Aya de todo seu coração, e como as atenções e gentilezas do líder dos Weiss alimentavam cada vez mais o enorme amor que sentia pelo ruivo. Estava tão concentrado em si mesmo... Seus sentimentos anulando sua percepção afiada novamente, não o deixando perceber que alguém se aproximava de si.
Akishino vinha andando pela praça, aquele friozinho delicioso no estômago, pensando nas várias maneiras de surpreender seu Shun com um beijo, daqueles de tirar o fôlego e que deixava seu amado com as pernas bambas em seus braços... Procurou com o olhar pelo local do encontro, percebendo que ele ainda não chegou e ao mesmo tempo se surpreendendo ao ver que seu amigo Omi está ali. Sorriu contente de encontrá-lo, mas notou que seu estado de espírito não era dos melhores...
Chegou perto, devagar e com cuidado para não assustá-lo, percebendo que ele estava ausente, de olhos fechados, naquela posição defensiva isolado do resto do mundo, só ele e seus pensamentos. A expressão de seu rosto, geralmente alegre e disposta se encontrava abatida, possuindo olheiras sob os olhos, os lábios apertados e o maxilar tenso.
Isso o chocou, Omi era sempre tão gentil e amável, brincava com todos, era educado, sempre tinha um sorriso no rosto. Akishino admirava toda a alegria e força que ele demonstrava, chegava a ter uma pontinha de inveja por não ser igual graças a seus problemas em casa e por isso nem cogitou a possibilidade do loirinho ter algum problema.
Sentiu-se muito mal por ver aquele que sempre o ajudava mesmo sem saber de todos os seus problemas daquele jeito, arrasado, enquanto ele estava tão bem e animado. O moreno queria de alguma forma animar o pequeno loiro, fazer algo pra que o sorriso radiante voltasse e foi com essa intenção que tocou nos ombros e chamou com a voz suave:
– Omi-kun?
Omi ergueu a cabeça ao ser chamado, alarmado, só então percebendo o amigo ao seu lado a olhá-lo com um sorriso animado. Recriminou-se por ter deixado a guarda baixa mais uma vez, isso estava ficando cada vez mais perigoso. Não pôde evitar a nova onda de rubor que subiu a suas faces alvas. De todas as pessoas, Akishino era uma das últimas que queria ver naquele momento, não por raiva ou coisa parecida, mas porque ele o fazia encarar seus medos e aflições, recordando-o de coisas que o afundavam mais no mar de dúvidas e incertezas em que se encontrava. Estava tão confuso com tudo que nem tentou disfarçar seu estado, apenas encarou o moreno sem expressão alguma.
Akishino sentiu um aperto maior no peito ao fixar suas esmeraldas nos orbes azuis e desvendar toda angustia contida neles. Compadeceu-se ao perceber toda a confusão que assolava o interior do menor, pois já se sentira daquele mesmo modo, assustado, solitário. Sem deixar o sorriso esmorecer tentou imprimir um tom animado na voz para que Omi não percebesse toda a preocupação que aquela visão provocava:
– Que bom que o encontrei aqui. Era com você mesmo que eu queria conversar.
A surpresa ficou estampada na fisionomia do hacker. Em meio em todo o turbilhão de seus sentimentos o loirinho pôde perceber o brilho de felicidade que iluminava as feições bonitas de Akishino. Ao vê-lo assim tão feliz um pequeno sorriso surgiu em seus lábios, por notar toda aquela alegria, apesar de tudo que já sofreu e pensar nisso deixou o jovem Weiss ainda mais abatido por não ver uma solução para seu próprio problema, uma luz no fim do túnel.
– Precisava falar comigo, Aki-kun? – Omi perguntou em tom baixo, mas solícito como de costume, tentando manter a voz firme.
– Sim, Omitchi. – O sorriso de Akishino aumentou tentando contagiar o loirinho. O moreno não era muito bom em consolar os outros, mas achava que compartilhando de sua alegria pudesse fazer ao menos o amigo esquecer o que o aborrecia – Preciso te contar algo muito importante.
O hacker ficou em silêncio, alarmado, pelo tom animado na voz do amigo já desconfiava de qual seria o assunto e não queria falar sobre isso, não se sentia preparado para enfrentar a guerra entre seus conceitos e seus desejos... Mas era certo que não podia evitar essa conversa, pois Akishino não sabia que ele já tinha conhecimento sobre o namoro dele com Shun e uma esquiva de sua parte faria o moreno desconfiar.
Nesse momento um grupo de pessoas vestidas com roupas próprias para ginástica entrou na praça, indo em direção ao lugar onde os dois amigos se encontravam. Pararam no espaço próximo a eles e começaram a fazer uma seqüência de exercícios seguindo os comandos de um instrutor.
Akishino olhou por alguns instantes o grupo se exercitando animadamente, ouvindo as conversas altas e brincadeiras, o que não colaborava em nada com a conversa que tinha em mente. Seus olhos verdes se encontraram com os de Omi e sugeriu indicando a parte mais afastada da praça.
– Que tal procurarmos um local mais calmo para conversarmos?
Omi concordou com um meneio de cabeça. Lançando mais um olhar em direção do grupo, levantou-se, pegando sua mochila e acompanhou Aki que já caminhava em direção aos outros bancos, mas paralisou ao perceber que o moreno se aproximava justamente do lugar que tanto queria evitar. Akishino sentou-se no banco próximo aos carvalhos e sem perceber todo o embaraço e contrariedade do hacker, fez um sinal para que Omi sentasse ao seu lado.
Os olhos azuis se mantinham sobre o rosto bonito do amigo, apreensivo sobre essa conversa, desejando conseguir disfarçar sua indiscrição daquele dia, mas sabendo que como sempre seria traído pelo rubor em sua face. Decidiu então relaxar o máximo que pudesse, assim a conversa terminaria mais rápido e poderia voltar apenas a pensar naquilo que o amargurava.
– Pode falar. Estou aqui pra te ouvir. – Disse sentando-se e observando o outro.
Aki, que observava o grupo a se exercitar de forma curiosa, voltou seu olhar para o amigo, notando então que ele o observava. Percebeu o esforço do loiro para relaxar, e com um doce sorriso apressou-se a falar animado.
– Omitchi, estou tão feliz! Há algum tempo que estou para contar a você tudo o que tem acontecido comigo, mas só agora criei coragem. – Um rubor atípico surgiu no rosto do moreno.
– Gosto de te ver feliz desse jeito. – Um sorriso gentil se esboçou no seu rosto. Sentia-se culpado por estar escondendo o fato de saber do segredo dele, mas como diria isso sem parecer um bisbilhoteiro.
– Pode falar. – Abriu ainda mais o seu sorriso, tentando deixá-lo mais a vontade.
Sentindo certo desconforto, como borboletas no estômago, Aki abaixou a cabeça, tentando evitar que Omi reparasse no rubor de sua face. Muitas vezes havia pensado em contar para o amigo seu segredo, mas temia a reação dele, pois era sempre muito correto e não queria de forma alguma que algo interferisse na sua amizade. Fechou os olhos por alguns instantes, tentando acalmar as batidas irregulares de seu coração. Por fim, voltou a encarar os orbes azuis e com um sorriso um tanto acanhado disse hesitante:
– Omi, sei que pode parecer estranho, mas, Shun e eu estamos namorando.
Por mais que soubesse disso a confissão o fez estremecer. Não que tivesse qualquer preconceito quanto a isso, mas essas coisas sempre pareciam acontecer com os outros, não com quem conhecia... Não com ele mesmo. O rubor lhe subiu mais uma vez pela face pálida e engoliu em seco antes de dizer qualquer coisa.
– Eu já imaginava... – Não acreditou que isso saiu de sua própria boca. – Na verdade... Vi vocês dois aqui um dia... Foi sem querer!
O rapaz empalideceu ao ouvir as palavras do loirinho. Um tremor invadiu seu corpo, uma vertigem o fez segurar o banco com força. De todas as coisas que se preparara para ouvir de Omi, jamais esperava por isso. Aquilo abalou suas estruturas, fazendo com que toda a sua animação se transformasse em medo. Apesar de Omi não ter demonstrado nenhuma reação de repulsa, temia que aquilo fosse o fim da amizade deles.
O moreno obrigou-se a respirar fundo para se acalmar. Não tinha coragem de encarar o menor nos olhos, então voltou a observar o centro da praça, acompanhando o instrutor guiar os exercícios. Lembrou-se de cada manhã em que se encontrara com Shun escondido naquela praça e de como eram ousados ao namorar em um local tão aberto. Mas não se arrependia de nada, sabia que cedo ou tarde alguém os veria e deu graças aos céus por ser alguém de confiança, não um dos amigos de seu pai.
– Tudo bem. Sei que não, você não é do tipo que fica cuidando da vida dos outros. Mas diga-me... – Ainda sem olhar para Omi, querendo tranqüilizá-lo, disse em voz baixa, hesitante, encarando o garoto ao seu lado. – O que pensa sobre isso?
– No dia eu não sabia o que pensar. Não que fosse contra, mas apenas nunca pensei sobre isso. – Tentava soar bem, evitando dar a entender algo errado.
Segurou a mão do amigo nas suas, percebendo na sua expressão como tudo aquilo era difícil demais para Aki também.
– Como se sente? Afinal... Vocês vão enfrentar muito preconceito. – Não conseguia deixar de pensar em Aya nesse momento.
– Omi, você sabe por tudo o que já passei na vida. Ter um pai alcoólatra não é fácil, principalmente por ele me culpar por minha mãe ter morrido durante o parto. Tudo pra mim era motivo de tristeza. Sempre pensei que minha existência fosse desnecessária e só desejava a morte.
Akishino deu uma pausa, olhando para as pequenas mãos quentes que seguravam as suas, sentindo um calor gostoso invadir-lhe a alma.
– Não via motivos para sorrir. Já tinha desistido de tudo. Foi aí que Shun apareceu como um anjo, me resgatando de toda essa escuridão, me devolvendo os sonhos e me dando uma razão pra viver. E é isso que me dá forças para suportar todas as adversidades que irão surgir com nossa união.
- Mas... Vocês são dois homens, muita gente pode ser contra... A família do Shun é super conservadora. – Cada palavra de Aki calava muito fundo em sua alma.
– Sim, Omi, somos dois homens, mas o que tem de errado nisso? – Os olhos esmeraldas encararam profundamente os azuis.
– ...? – Omi não sabia o que dizer.
– Sei que a família de Shun é hiper conservadora e é justamente por isso que sempre nos encontramos escondidos... Senão eu já teria gritado ao mundo meu amor por aquele nanico.
Um sorriso radiante surgiu no rosto até então sério do jogador, que sem poder evitar imaginou a cara irritada de Shun ao ouvi-lo chamá-lo pelo apelido que mais detestava. Ainda sorrindo, apertou um pouco as mãos que continuavam sobre as suas.
– O dia em que começamos a namorar ficará gravado em minha memória eternamente. Eu estava tão cansado de tudo, meu pai havia me espancado mais uma vez, o treinador tinha brigado comigo pela minha má atuação no jogo. Eu havia chegado ao meu limite.
Suspirou, tentando relaxar da forte tensão que essa lembrança provocava em si.
– Subi até o telhado da escola, estava para me jogar quando Shun me chamou e se declarou. Um amor desses, que tem o poder de restaurar uma vida, de devolver a paz e a sanidade há tempos perdidas, tem que ser defendido. Vale a pena se arriscar por essa causa.
Omi se afastou um pouco, como se cada motivo de Aki fosse igual aos seus, como se cada sensação de solidão e abandono tivesse sido vivida por ele da mesma forma... Então a figura do ruivo parecia tomar forma na sua mente, tirando-o do abismo que estava sempre a sua frente desde os seis anos.
- Aki... Você não tem medo? Medo de se machucar ainda mais, de descobrir um dia que foi tudo um erro? – Suas perguntas já não eram apenas para o amigo, mas também para si mesmo.
– Sim. Tenho muito medo. – Akishino respondeu, encarando Omi, seus olhos cintilando cada vez mais a cada palavra.
Omi mordeu o lábio inferior ao ouvir aquela resposta.
– Medo de um dia acordar e me ver sem o Shun ao meu lado. Quando o amor é o dono da situação não há como se machucar mais, ao contrário, ele nos faz mais fortes e resistentes às afrontas. E não há porque me machucar. A sociedade pode não aceitar, mas amar é algo maravilhoso. Não tem como explicar isso com palavras, só quem vive para saber exatamente a profundidade disso.
Akishino olhou para o pedaço de céu que aparecia entre as copas dos carvalhos. Seu semblante estava sereno, em sua cabeça repassava cada dúvida que tivera com relação à decisão de ficar com Shun, cada noite em que não dormiu pensando sobre o que fazer para enfrentar o que o aguardava. A brisa matutina soprou em seu rosto, lembrando-o de como numa manhã igual a essa todas as suas dúvidas foram esclarecidas pelo seu coração. Falando mais para si do que pra Omi, comentou:
– O amor não tem sexo. Ninguém controla o coração, a alma. Todos nós temos o direito de sermos felizes. Não importa a forma, nascemos com a missão de sermos felizes.
– Você está certo... Realmente certo. – Omi se levantou, como se tivesse feito a maior descoberta de sua vida.
Olhou para o amigo, o rosto iluminado por um sorriso, uma coragem nunca antes sentida saindo por todos os seus poros.
– Aki... Amo você e o Shun... Mais do que pode imaginar! – Estava totalmente empolgado, apesar de ainda inseguro.
O moreno voltava de suas divagações, olhando para o loirinho sem entender sua atitude. A animação do garoto era evidente, nitidamente sincera e isso fez com que todo peso que havia em seu coração evaporasse. Sorriu ao ouvir as palavras de Omi, tranqüilo por saber que a pessoa que Shun e ele mais estimavam os apoiava. Olhando o relógio, percebeu o quanto estava tarde e meio afobado se levantou chamando o hacker.
– Omi, está tarde. A conversa foi tão boa que o tempo voou sem que percebêssemos. Se não formos agora iremos nos atrasar.
Omi assentiu com a cabeça, um turbilhão passando por sua mente, pois como agüentaria esperar até que as aulas terminassem? E se perdesse a coragem de fazer aquilo que tencionava? Novamente seu rosto se contraiu, dessa vez, preocupado e temeroso. Corria o provável risco de ser repudiado por Aya, ou pior, se ele fosse compreensivo, mas dissesse não. Mas como saber se não tentasse?
– Vamos... Eles nos esperam. – Seguiu caminhando ao lado dele, apesar de sua cabeça estar muito distante dali.
O moreno olhava para Omi, percebendo que o menor estava pensando em algo. Isso o deixou intrigado. Depois de toda a conversa que tiveram, vê-lo daquele jeito atiçou sua curiosidade, querendo adivinhar o que se passava na mente do chibi. Nesse ritmo, seguiram rapidamente até a escola e de tão concentrado que estava em Omi que nem se deu conta de que Shun acabou não comparecendo ao encontro deles.
Tudo parecia ter outra cor para Omi, as pessoas que ia encontrando na escola estavam distantes, como se sua mente só tivesse lugar para sua resolução de que não passaria mais um dia carregando esse segredo apenas para si. Não importava a resposta do ruivo que lhe roubava os sonhos, importava apenas que faria isso por si mesmo, que colocaria seu destino como uma folha ao vento e que acontecesse o melhor... Seu primeiro amor... A primeira vez em que baixaria totalmente a guarda e se exporia por completo a alguém. Sem máscaras, sem subterfúgios... Apenas ele e Aya.
ooOoo
Os dois amigos entraram juntos na sala, encontrando todos os outros colegas que já estavam lá. Omi mal notava as pessoas que o cumprimentavam, tão absorto estava nas decisões que sua cabeça estava tomando. Andou como um autômato até o seu lugar, só saindo do transe em que estava quando Shun veio falar com eles.
– Que bom que chegaram. Achei que não viriam. Estava ficando preocupado...
– É que... Nos encontramos na praça e... Aproveitei para falar com ele sobre nós.
Shun e Omi se entreolham ruborizados, mas um sorriso singelo iluminou o rosto dos dois amigos que se entenderam com o olhar.
– E você não vai acreditar... – Akishino continua vendo o rubor nas faces deles, sentindo a sua levemente quente. – Ele já sabia! – Olhou para o namorado com estranheza. – Aliás... Você não apareceu...
– Você esqueceu, Aki? – Olhou-o descrente. – Nós desmarcamos ontem... Lembra?
– Ah, é... Eu... Eu esqueci. – Sorriu enlevado para o namorado.
Omi sorria ainda encabulado ao presenciar o olhar dos dois, quando o professor entrou na sala e todos os alunos se sentaram em seus lugares, prestando atenção na aula de matemática que se iniciava. Omi tentava se concentrar, mas a imagem de Aya e as palavras de Akishino lhe vinham à mente toda hora, o atrapalhando.
Somado a isso, sentiu a nuca se arrepiando constantemente, a sensação de estar sendo observado o incomodando o tempo todo. Olhava de vez em quando à sua volta, até que percebeu o par de olhos cor de mel fixos em si, que se abaixaram quando descobertos. Omi enrubesceu levemente e voltou o olhar para frente.
Em pouco tempo estava divagando novamente. Completamente esquecido das aulas. Via-se chegando à floricultura... Entrando em casa e subindo para o seu quarto, tomando um banho rápido, como fazia todos os dias e colocando um short e uma camiseta, para então descer para a sala e encontrar Aya. Aproximando-se e antes que o ruivo lhe falasse qualquer coisa declararia seu amor. Então eles se olhariam e... Saltou na cadeira, assustado com o sinal, encerrando as aulas do dia.
ooOoo
Omi pouco se recordava do trajeto que fez para casa. Flashes de memória revelavam que depois que se despediu de Akishino e Shun na escola foi correndo até a floricultura, sem prestar atenção em nada do caminho.
Agora estava de frente para a porta de entrada e a realidade tinha caído como um balde de água gelada em sua cabeça. Havia tomado uma decisão e não voltaria atrás, mas um medo incontrolável, um nervosismo insano tomou conta de seu ser.
Enchendo-se de coragem, ergueu a mão lentamente e empurrou a porta, entrando na floricultura abarrotada das estudantes que gritaram frenéticas à sua chegada. Respirando fundo para se controlar, caminhou rapidamente até o balcão atrás do caixa, sem prestar atenção em ninguém e disse com a voz baixa, porém firme:
– Aya-kun, será que podemos conversar em particular?
Aya terminou de atender um cliente, entregando o troco a ele, fechando a gaveta do caixa, e olhou para Omi, perscrutando a fisionomia do chibi que o olhava ansioso. Tinha algo mais em seu olhar que não conseguia definir. Os minutos passavam sem que nada transparecesse na expressão fria do ruivo, que assentiu e respondeu baixa e calmamente:
– Claro, Omi-kun, vá na frente. – Olhou para os outros dois. – Enquanto isso vocês cuidam da loja.
O loirinho assentiu com um meneio de cabeça e sem pressa caminhou até a porta de comunicação, lançando mais um olhar ao ruivo antes de entrar em casa. Sentia as pernas fraquejarem, por isso subiu as escadas de dois em dois degraus, chegando meio ofegante ao seu quarto.
Parou em frente à porta por alguns instantes, esperando o fôlego voltar à normalidade, a consciência de que logo estaria contando à Aya seu segredo fazendo com que entrasse logo no quarto, deixando a porta aberta.
Instantes se passaram, minutos de espera que pareciam horas, angustiando o pequeno coração. Caminhava de um lado para outro, pensando em inúmeras formas de abordar o ruivo, mas nenhuma delas o satisfazia. Cansado das cogitações resolveu não planejar nada e seguir o que o coração mandasse.
Já estava ficando meio zonzo de tantas voltas que já dera no quarto. Postando-se na janela, sentou no peitoril, ficando de costas para a porta. Ali ficou a observar a movimentação agitada da rua, o entra e sai das estudantes na floricultura. Suspirando, fechou os olhos com força, à espera quase o sufocando de tanta ansiedade.
ooOoo
Aya tirou seu avental, o pendurando no gancho ao lado da porta de comunicação da floricultura com a casa. Entrou e fechou a porta atravessando a sala e mal colocou o pé no degrau da escada, Yohji entrou logo atrás de si.
– Aya... – Chamou ofegante. – Veja lá como vai falar com o chibi, ele não está no normal dele. Não vá piorar a situação com esse seu jeito insensível!
– Volte ao trabalho... – Respondeu friamente, irritado com as palavras do loiro. – Eu sei o que estou fazendo. Ele não colocou só a vida dele em risco, mas também as nossas e a missão. Agora deixe de besteiras e vá.
Subiu as escadas, ainda irritado. Não era insensível, era prático e lógico. Além do mais, a última coisa que queria era ver chibi ferido e ele quase fôra morto na véspera.
"Se eu não tivesse chegado no momento certo..." – Parou em frente da porta aberta, encostando-se no batente, observando o loirinho totalmente absorto dentro de si mesmo, andando pelo quarto, olhando pela janela e sentando no batente, alienado a tudo que acontecia em volta, da mesma forma que acontecera durante a missão.
– Precisamos conversar, Omi... – Aya entrou no quarto, percebendo o sobressalto quase imperceptível do chibi ao som de sua voz.
O hacker se assustou ao ouvir a voz de Aya atrás de si, pois estava novamente perdido no emaranhado de seus pensamentos.
– Você está estranho nas últimas semanas. Desatento, lento, distante, completamente diferente do Bombay que eu conheço. – Enumerou os problemas com cautela, mirando os olhos dele, vendo a miríade de emoções que passava pelas íris azuis. – Você nos colocou em risco, a todos nós e a missão também e isso não pode voltar a acontecer. Ou vou ser obrigado a afastar você do trabalho...
Voltou-se lentamente na direção da porta, ficando de frente para o mais velho, evitando olhá-lo nos olhos, o pequeno coração falhando uma batida ao sentir a áurea de autoridade que emanava do Líder dos Weiss. Seu corpo se arrepiou, demonstrando todo seu nervosismo.
Ao apreender as palavras do ruivo, sentiu abalar o pouco equilíbrio que passara a manhã toda pra conseguir e não sabendo o que responder apenas abaixou a cabeça. Não queria de forma alguma ser afastado do trabalho, pois isso significaria ter que se afastar dos rapazes e principalmente de Aya e só de cogitar essa possibilidade já era doloroso demais. Os Weiss tinham se tornado sua única família e, apesar da vida difícil, não conseguia mais se ver longe dos três homens.
Mais uma vez a culpa pelo dia anterior o atingiu. Ainda não se conformava em como colocou as pessoas mais importantes em sua vida em risco, sentia vergonha por deixar que Omi interferisse em Bombay daquele jeito, decepcionando aos amigos. Com esforço conteve um suspiro, não queria que o espadachim percebesse seu real estado.
– Não fique assim, não estou zangado, apenas preocupado. – Colocou as mãos sobre os ombros do garoto. – Posso ser racional e prático, mas não sou um insensível como Kudou gosta de alardear por aí. Veja por exemplo o caso dele: é atrevido e meio inconseqüente, mas não posso imaginar os Weiss sem ele. Ele é eficiente no que faz. – sentiu um aperto no peito ao vê-lo daquele jeito e aquela sensação incomum o surpreendeu. – Assim como Hidaka e você também são... Preciso saber qual é o problema.
Omi se surpreendeu com o rumo da conversa, não achava que Aya iria direto ao ponto que o chateava mais. Ergueu a cabeça ao sentir as mãos quentes sobre seus ombros, o toque transmitindo choques elétricos pelo corpo do mais novo, irradiando um formigamento intenso em seu baixo ventre. Preocupado com essas reações de seu corpo e querendo evitar embaraços ainda maiores, Omi afastou-se, voltando à posição em que estava anteriormente, sentado no beiral da janela.
Mais uma vez ficou a observar o movimento da rua, tentando com isso aplacar a onda de pensamentos que passavam por sua cabeça e o deixavam ainda mais ansioso... O medo de ser repelido aumentara consideravelmente agora que estava diante do espadachim. Mexia com as mãos nervosamente enquanto tentava conciliar sua lógica com o coração para que pudesse começar a falar. Enchendo-se de coragem começou:
– O problema é que... – Deu uma pausa, puxando o ar com força. Virando um pouco o corpo encarou Aya. A hesitação tomou conta, fazendo com que suas palavras travassem. Ainda moveu os lábios, tentando formar as palavras, mas som algum parecia querer sair e o rubor em sua face apenas aumentou. Tentou mais uma vez retomar o controle sobre si, forçando as palavras. – É que... Eu...
Frustrado com sua incapacidade de falar, o chibi desviou o rosto do ruivo, voltando a olhar pelo vidro da janela sem nada enxergar realmente, deixando um longo e profundo suspiro escapar por seus lábios.
– Por que você hesita tanto? – Aya puxou a cadeira colocada diante da escrivaninha do garoto e se sentou nela, cruzando as pernas longas, apoiando o braço no encosto. – O que você teme? Não vim aqui para julgá-lo, e sim para ajudar a resolver o seu problema. – Ao vê-lo calar-se e se voltar para a janela, suspirou exagerado. – É tão difícil assim? Você me acha um carrasco?
– Não! Não é isso! – As palavras de Aya o fizeram voltar à realidade.
Levantou-se, recomeçando a andar de um lado para o outro no quarto. Chegara a hora mais esperada, diria tudo o que estava preso em seu peito e que o angustiara durante as últimas semanas. Precisava desse desabafo, mas não sabia por onde começar... Sentindo os olhos violetas sobre si, escolheu as palavras com cuidado.
– É complicado dizer tudo o que sinto e o que está acontecendo. Nessas últimas semanas muitas coisas mudaram e ainda estou tentando me adaptar a elas.
– Não precisa ter receio. – Aya tentou tranqüilizá-lo com suas palavras calmas. – Já disse que não estou aqui para julgá-lo seja o que for que o esteja perturbando. – Falou devagar num tom baixo, mostrando os fatos de forma clara.
"Eu sei disso, mas..." – Omi sentia seu coração batendo mais forte, ainda tentando organizar seus pensamentos para falar tudo o que estava preso em sua garganta.
– Sei que algo está atrapalhando seus dias e suas noites, você não dorme direito, notei as olheiras, não se alimenta como deve, não sorri mais, não fala com os rapazes, nem com Ken com quem tem mais afinidade... Está desatento e retraído, tenho observado. A missão foi a gota d'água, você podia ter morrido se eu não chegasse a tempo. – Parou um instante tomando uma resolução, prestando bastante atenção na reação às suas palavras. – Kudou disse que você está apaixonado... E que não é correspondido.
Omi se esforçou para que a surpresa e o choque não ficassem evidentes em seu semblante. Sentiu, com pavor, seu rosto esquentar, denunciando um intenso rubor. Parou em frente a sua cama, sentando-se na beirada, de frente para Aya. Agora já não havia mais como voltar atrás... Deveria ter imaginado que por toda a experiência que Yohji tinha, o mais velho iria perceber seu estado e o fato de Aya já saber disso apenas o deixava mais nervoso.
"O que será que Aya está pensando de mim por estar assim por causa de uma paixonite não correspondida?" – Angústia e dor permeava seu coração, fazendo-o quase vacilar. Chacoalhando levemente a cabeça para espantar esses pensamentos, se concentrou em sua decisão. Precisava revelar a Aya tudo o que sentia, não importando a reação dele. Assim disse em tom baixo sem olhar para o ruivo:
– Sim, estou apaixonado. – Deu uma pequena pausa, suspirando pesadamente antes de continuar. – Essa é a primeira vez que o amor bateu de frente comigo. Antes eu via essa pessoa apenas como amigo, como alguém que eu admirava muito, mas agora mudou tudo de vez.
Mais uma pausa, um nó se formava na garganta do rapaz, impedindo-o de prosseguir. Seu coração disparara no peito e de repente o quarto parecia apertado demais, sem ar, fazendo-o se sentir claustrofóbico. Suas mãos mexiam-se ansiosas e seu olhar cintilava, revelando a intensidade do sentimento.
Algo dentro de Aya se partiu e foi com surpresa que sentiu uma dor forte como se uma mão apertasse o seu coração ao ouvir dele a confirmação das palavras de Yohji. Seus sentimentos o incomodavam, tinha decidido nunca mais amar e de repente tinha percebido que seu coração o traíra. O amor encontrara frestas em sua armadura e invadira sorrateiramente sua alma, curando suas feridas.
E agora, seu chibi estava apaixonado... Mas ele dissera amigo... Será que era um rapaz? Algum dos colegas de classe dele? Isso explicaria muita coisa, as reações dele ao confronto das meninas por exemplo. Olhou para o modo como Omi apertava e torcia as mãos denunciando seu estado de espírito, atormentado pela angústia. Talvez pensasse que ele o rechaçaria por estar gostando de alguém do mesmo sexo...? Arregalou os olhos ante essa perspectiva, não era preconceituoso! Levantou o olhar, procurando as íris azuis.
– Pelo que estou entendendo, ainda não disse nada a ele... – Aya observava atentamente o rosto do hacker. – Acho que se trata de um rapaz, mas você não acha que eu vou te recriminar por isso, ou acha? Na vida que nós temos não há espaço para preconceitos idiotas, mas não importa se é ele ou ela, Omi. – Enfatizou com toda clareza. – Você está se torturando antecipadamente, acho que nem sabe o que ele pensa ainda. Se vocês são amigos de verdade, converse com ele, diga o que sente, ele vai te ajudar.
O loirinho ergueu o rosto ao ouvir as palavras de Aya. Realmente não tinha noção do que o ruivo pensaria com sua revelação. Respirou um pouco mais aliviado por ver que o fato de estar apaixonado por alguém do mesmo sexo aparentemente não chocou tanto o mais velho e isso lhe deu forças para falar.
– Minha vida não tinha sentido. Dia após dia me via perdido na escuridão, sem rumo, sem esperança. Achava que não merecia ser amado. – Encarou os olhos violetas fixos em si. – Quando vi que estava apaixonado por outro homem me desesperei. Primeiro pelos problemas que acarretariam caso eu me declarasse a ele. Tinha medo de ser repudiado e repelido. Segundo pela sociedade, se já não bastasse eu viver à margem de uma vida normal por ser assassino temi a reação das pessoas ao saberem desses meus sentimentos.
Desviando o olhar, viu uma borboleta azul pousar no peitoril da janela. Sorriu de leve ao pensar que ela não poderia ter aparecido em momento melhor, pois sua vida estava para mudar drasticamente, para melhor ou para pior, tudo dependia da reação de Aya às suas palavras.
– Mas então, flagrei meus melhores amigos da escola namorando no parque. Todos os meus conceitos de certo e errado foram postos à prova. Em minha cabeça milhões de pensamentos passavam a mil por hora e foi nessa confusão que fui para a missão de ontem. – Mais uma vez o jovem Weiss olhou para as mãos, corando envergonhado.
Aya ouvia tudo atentamente, nunca desviando o olhar do chibi.
– Sei que decepcionei e preocupei vocês, por isso hoje sai cedo, tinha vergonha de encará-los. Fui até a praça para pensar no rumo que minha vida estava tomando e acabei por encontrar meu amigo da véspera. Ele me fez ver que pelo amor verdadeiro vale a pena arriscar a tudo. E assim decidi me arriscar e me declarar. – Omi revelou, deixando um suspiro escapar.
Aya fazia um enorme esforço para manter aquele diálogo. Falara mais do que geralmente o fazia, mas era por Omi... Por causa dele faria qualquer esforço, porque o amava mais do que o garoto poderia supor e queria que ele ficasse bem.
– Você não nos decepcionou, preocupou sim, mas não decepcionou. – Queria que ele recobrasse a confiança em si mesmo. – Nenhum de nós iria te recriminar por causa disso, não tem do que se envergonhar Omi. – Sentiu-se preocupado com as implicações daquele amor intenso, mas tinha obrigação de alertá-lo. – Converse com ele... Mas aviso que não vai ser fácil conciliar o que sente com o que acontece no nosso dia a dia.
– Eu sei disso. Só que esse não é o problema maior. – Omi continuava a torcer as mãos enquanto falava. – Não é tão fácil assim falar com aquele que amo. Não tenho esperança alguma de ser correspondido, pois sei que há muito tempo ele desistiu do amor e duvido muito que vá aceitar meus sentimentos... – Sua voz demonstrava uma profunda tristeza.
Aya sentiu aquela tristeza de Omi e não estava gostando disso. Tinha que ajudá-lo!
– O meu real desejo é apenas que ele saiba como me sinto. É injusto eu carregar toda essa carga sozinho. Acho que ele tem o direito de saber que é amado, mesmo que ignore isso.
– Então vá ao encontro dele e diga isso. Você não tem como saber como ele se sente, as pessoas são imprevisíveis. – Sentia-se enciumado. Não acreditava que alguém pudesse não se sentir ao menos envaidecido por ser amado por Omi. – Já pensou que ele pode se sentir da mesma forma que você?
– Duvido muito. – A insegurança fez com que a voz do chibi elevasse um tom. A incredulidade estampada em seu rosto. – Mas como eu disse já me decidi e falarei assim mesmo. – Dizendo isso se levantou, caminhando até a janela, onde ficou em pé observando o horizonte.
Aya se levantou e caminhou até ele, parando logo às suas costas. As mãos impacientes, doido para tocá-lo, mas não o fez, mantendo-as ao longo do corpo.
Sentindo a aproximação de Aya o corpo de Omi estremeceu, um longo arrepio desceu desde sua nuca até a base da coluna. Cada vez mais se surpreendia de como a simples presença do ruivo lhe afetava... Ouvi-lo falar tão próximo de si foi torturante e em sua cabeça passavam milhões de formas de fazer o que havia proposto pela manhã, mas nenhuma lhe agradava. A coragem lhe faltava.
– Você parece conhecê-lo muito bem. – Sentia ciúme, ternura, tudo junto. Estava quase curioso para saber quem era tão amado assim pelo chibi. – Então vá falar com ele, não adianta adiar, é pior para você. Quando voltar, estarei aqui se quiser conversar.
Deu meia volta, encaminhando-se para a porta... Agora era com Omi, só podia torcer pela felicidade do garoto que amava.
Enquanto coração e a mente gritavam o amor inegável que sentia pelo ruivo, as palavras não saíam. Mas quando viu que Aya iria sair do quarto... Quando percebeu que suas chances de falar estavam acabando se desesperou. Sabia que se deixasse aquela oportunidade passar talvez nunca mais conseguisse a coragem necessária para se confessar.
Continua...
Aqui está mais um cápitulo dessa fic tão querida pra mim.
Mais uma vez dedico à minha amiga Secreta Yoru no Yami.
E agradeço as minhas betas Sam e Yume por toda paciência que tiveram comigo. Não importa quantas vezes eu agradeça, sempre faltará palavras para expressar tudo o que sinto por vocês.
E sem esquecer, Mommis Anúbis, sem você não teria terminado essa fic.
Espero que tenham gostado de mais esse capítulo. O próximo será o último.
Espero pelos comentários.
Beijos
Eri-Chan
25 de Abril de 2009 - 12h:30min
