Ponto de Vista do Edward
-Oh droga! - ela gritou de repente, saltando do meu
colo.
Me vi puxado da cadeira pra ficar em pé então.
-Edward,
pra debaixo da mesa. AGORA!
-O que? Por quê? - eu perguntava, mas
ela já me enfiava embaixo da mesa dela. Meus pés haviam acabado de
serem colocados também quando ouvi a porta se abrir. Os pés dele se
mexiam nervosamente.
-Bom dia Bella. Aqui esta a agenda pra você
dar uma olhada.
-Hum, Ang. Eu estou cuidando de umas coisas
pessoais aqui. Será que você pode voltar daqui a pouco?
-Claro.
Com licença.
-Toda - eu conseguia ouvir o nervosismo da voz
dela.
Ouvi o clique da porta e ela se abaixando na mesa pra falar
comigo puxando minhas mãos.
-Vem pra cá, rápido.
Ela me
levantou, estava vermelha, o coque já deixava alguns fios
escaparem.
-Olha aqui ...
Ela apontou para o monitor que
mostrava o corredor e parte da mesa da sua secretaria onde
provavelmente ela havia avistado Ângela chegando na sala.
-...vou
dar um jeito de tirar ela daqui... Você vê pelo monitor se não tem
ninguém e some daqui.
-Qual o problema de alguém me ver
aqui.
-VAI AGORA!
Pelo visto ela não estava para brincadeiras
então esperei que ela levasse Ângela pra longe da porta e sai do
escritório.
Cheguei à minha nova sala ainda um tanto chocado.
Pela primeira vez aquilo me passava na cabeça.
Será que por ser
apenas um assistente e ela simplesmente a dona? Será que Isabella
tinha vergonha de mim? Por não estar no mesmo nível social que ela?
Essa possibilidade doía mais do que podia imaginar, mentiras eu
poderia contornar, mas será que ela poderia contornar os
preconceitos que a sociedade impunha?
Ponto de Vista da Bella
As entrevistas com os
candidatos a assistente iam bem. Eu já havia falado com três deles.
Hoje falaria com mais um, e amanhã tomaria minha decisão. Seria
complicada a minha escolha, mas pelo motivo contrario pelo qual eu
esperava.
Nunca pensei que pessoas tão bem preparadas como essas,
tentassem uma vaga para um cargo tão abaixo do conceito normal.
O
candidato de hoje, por exemplo: James Possebom, formado em
administração, com pós-graduação em relações exteriores. Fala
fluentemente três línguas, fez vários cursos fora do país e
trabalhou como estagiário para dois dos melhores amigos dos meus
pais no ramo Serafim e Munhoz.
O motivo de alguém com toda essa
formação, estar procurando por um simples cargo de assistente era
um mistério. Eu havia me mantido calada ate agora, mas talvez esse
pudesse matar minha curiosidade.
Que todas as informações
contidas no currículo eram verdadeiras eu sabia. Havia
sobrecarregado Ângela ao pedir que ela confirmasse com rigor cada
uma delas.
Eu estava sendo rigorosa assim pelo senhor Mars afinal
ele ficou sem assistente durante um mês por minha causa quando Andy
partiu e tendo em vista que Edward só ficou interessado na proposta
de Miranda porque percebeu que eu havia ficado com ciúmes dela sua
segunda perda também era culpa minha.
As quatro em ponto
Ângela me avisou que o rapaz tinha chegado. Me surpreendi com aquela
descrição. Com toda aquela vivencia que continha no currículo,
imaginei logo um semi-coroa, metido a garotão. Um homem formado
talvez.
Oh men, formado eu não sei, mas homem... Ui. Com certeza
é.
Eu fiquei em pé como sempre pra receber o candidato, mas
dessa vez uma das minhas mãos se apoiaram na mesa.
Ele era...
Lindo? Não. Lindo era Channing Tatum. Eu não sei dizer o que ele
era...
Loiro, alto, olhos azuis, maxilar quadrado e bem formado,
um sorriso lindo e então ele se virou pra fechar a porta. Ai Deus,
me segura, que bunda é essa? Foco Bella... Foco.
-Boa tarde - ele
me estendeu a mão por sobre a mesa.
-Boa tarde - fechei a boca -
Me desculpe se demorei pra te atender, estava resolvendo umas
coisas.
É. Eu estava fazendo charme. Não estava fazendo nada a
vinte e cinco minutos e sabia muito bem que ele havia acabado de
chegar.
-Não tem problema. Tenho certeza que a razão e mais do
que justa.
Cristo. Para de sorrir assim pra mim! Eu preciso
respirar.
-Certo - fiz com a mão para que ele se sentasse - E
então senhor... - dei uma olhada na ficha a minha frente -
James...
James Possebom... Será que ele tinha Orkut? Será
que ele tinha foto sexy no Orkut? Foco Bella... Foco.
-Isso. Está
correto - ele disse quando viu que eu fiquei calada. Babando, na
verdade.
-Certo... James - encarei aquele olhar matador um pouco
mais preparada daquela vez - Bem, eu devo dizer que fiquei um tanto
intrigada com você - primeiro por causa da sua bunda e segundo
porque - Por que alguém com um currículo destes esta procurando por
uma vaga de assistente?
Tentei parecer o menos interessado
possível porque meu pai que me perdoe, mas a menos que ele seja um
ex-viciado, eu contrato ele agora.
-Oh, sempre me
perguntam isso - ele cruzou perna na cadeira deixando o sapato Armani
a mostra. Como um assistente teria dinheiro pra comprar um daqueles?
- Na verdade...
Ele parecia um tanto constrangido. Eu tinha medo
do que estava por vir.
-Bem, meu pai é dono da rede Beira Rio
supermercados - eu conhecia um deles, na verdade cinco. Eu acho. -
Vou assumir a empresa dentro de uns cinco ou seis anos eu acho. Então
estou tentando experimentar um pouco de tudo.
Experimentando? Com
uns olhos azuis daqueles não teria como não pensar em coisas...
Muitas coisas.
-Eu não queria prejudicar ninguém como a minha
instabilidade então optei por cargos como estes onde posso ser
facilmente substituído.
Não. Não. Não era fácil substituir um
loirão como você. A menos que fosse pelo meu... Pronto estava
demorando pro Edward aparecer na conversa, digo, na minha
mente.
-Você acha que tenho chance? - ele perguntou se inclinando
um pouco pra mim. Chance? Claro que tem chance. Quando quer se
casar?
-Bem. Para o seu azar apareceram ótimos candidatos dessa
vez em outras ocasiões que eu já estive com esse currículo você
não sairia daqui sem assinar um contrato.
Acabei sorrindo. Eu
havia deixado escapar mais do que pretendia, mas ele parecia
satisfeito com o que eu havia dito, sorria também.
-Ótimo, e bom
saber que impressionei.
Ah meu bem. Você não tem idéia de
quanto.
Tempo era o que eu
menos tinha nos últimos cinco dias. Minha mãe me ligou,
criticando-me como se isso fosse alguma novidade, por eu não ir
visitá-la há algum tempo. Então lá fui eu com minhas malinhas pro
hospital na quinta feira.
Não imagino o que havia acontecido com
Edward ate aqueles dias, não me ligou, não me procurou, não falou
mais comigo, não que eu achasse que tinha alguma obrigação para
com ele, mas acabei ligando avisando que ia passar o feriado de sexta
e o resto do fim de semana com minha mãe.
-Tudo bem. Eu já tinha
umas coisas pra fazer, só não entendi porque esta me avisando - sua
voz era seca.
-Eu também não sei por que ainda perco meu tempo
falando com você.
Ele ficou calado por um momento minha mão se
preparava pra desligar o telefone na sua cara quando ele falou.
-Você
não precisa eu já disse. Não quero ouvir você falando. Só
gemendo...
Pronto. Agora minha mão não ficou só na vontade.
Desliguei de uma vez. Eu não era obrigada a agüentar isso. Eu não
agüentava mais isso pra falar a verdade.
Será que a vida de
viciados era dessa mesma forma você sabe que é errado, promete pra
si mesmo que vai largar, mas quando sente o cheiro ou vê aquele
sorriso torto, percebe que não poderia viver sem...
Meu fim de semana com minha mãe não foi ruim. Ela estava bem já. Ainda tinha náuseas, por causa da quimioterapia eu cheguei até a prender meu cabelo pra colocar uma de suas perucas loiras. Não teve como pensar a reação dele se me visse assim. Até eu estava me achando gostosa loirona daquela forma.
Minha casa andava com cheiro de museu,
constatei ao entrar ali. Disse ao meu pai que faria o jantar, mas ele
recusou. Aquelas 'férias' no hospital pareciam o estar
engordando, mas eu também não estava com fome. Então segui direto
pro meu quarto.
A porta estava aberta. O que era estranho. Sempre
que eu viajava, trancava a porta. Mas sinceramente a briga com Edward
havia me deixado tonta. Eu não me lembrava muito bem de como ou
quando havia saído de casa. Meus olhos ainda ardiam pela dor que ele
havia me causado. Até quando feridas poderiam ser abertas e
ignoradas como eu vinha fazendo com todas as que ele me causava?
Meu quarto estava na
penumbra. Outra coisa estranha porque eu nunca fechava as venezianas
completamente. Mas ate que era boa aquela escuridão, tudo o que
queria agora era uma boa noite de sono e a iluminação do jardim
poderia atrapalhar.
Joguei minhas coisas em qualquer canto. Só
ouvi o barulho da minha mochila caindo no chão, tirei meus tênis,
fiquei de meia e arranquei minha calça jeans. Deixando ela ali
jogada no chão, me jogando na minha cama.
Tateei pela cama a
procura do meu travesseiro redondo preferido e acabei encontrando
outra coisa.
-AHHHHHHH!
Uma mão. Aquilo era mão. Tenho
certeza que uma mão havia tocado em mim. Saí correndo pelo quarto
pra ascender à luz, mas como era de mim que falávamos, tropecei na
calça que deixei jogada no chão e cai de cara.
Fiquei assim por
um tempo com o nariz ardendo por causa da batida e senti duas mãos
me puxando pra cima.
-ME SOLT...
-Schh - uma mão tapou minha
boca e as minhas tentavam matar o estuprador que invadiu meu quarto,
mas só se fosse de rir. Com aqueles tapas 'fortes' que eu tinha.
- Para de me bater sua louca.
Minhas mãos pararam de se mexer
então.
-Edward? - me soltei dele dando um passo atrás - O que
você ta fazendo aqui seu maníaco?
-Cala a boca. Quer que seu pai
escute?
Não respondi meus ombros relaxaram um pouco e senti ele
me empurrar até encostar na parede.
-Senti sua falta - ele
murmurou na minha orelha mordendo meu pescoço. Suas mãos já
procuravam a barra da minha camiseta levantando-a.
-Que porra você
pensa que esta fazendo... - eu disse segurando suas mãos que tentava
me levantar na parede apoiadas na minha bunda.
-Faz tempo que
agente não coloca nosso trato em pratica - minha camiseta se foi
para longe. Eu ainda não havia visto ele na escuridão.
-Não. Edward.
Escuta...
-Bella... - senti sua respiração forte, descompassada
na minha jugular - cala a boca.
O fecho frontal do meu sutiã
havia sido aberto. Este que se foi também. Era tão bonitinho, preto
de bolinha e ele nem viu...
-Mas meu pai está aqui - eu tentava
raciocinar uma ultima vez, sentindo-o me sugar.
-Agente não faz
barulho... - ele era bom nisso. Não havia levantado o som desde que
havia se revelado ali. Aliás, como é que ele havia chegado ali
mesmo?
-Eu não acho que agente devia - ai Deus. Era difícil
raciocinar quando ele sabia exatamente o que fazer pra me deixar em
ponto de bala.
-Eu vou ter que te mandar calar a boca de novo? -
meus pés já não sentiam mais o chão. Ele me carregava pra cama -
Será que você gosta disso?
Perguntas retóricas era a cara dele.
Que como viu que eu não movimentava um nervo ainda meio em choque
por me dar conta que meu deus grego estava dentro do meu quarto
escuro chupando meu pescoço. Retirou a própria camiseta.
-Diga
que sentiu minha falta Bella - eu sentia suas mãos apertando minha
cintura, meu quadril, minhas pernas. Pareciam estar em todo lugar -
Vamos Isabella...
Só me lembrei de que minha calça jeans já não
seria mais um empecilho pra ele quando senti seus dedos me tocando
por dentro da calcinha me penetrando.
-Como foi - um gemido
involuntário escapou doa meus lábios quando ele ficou mais
rápido... - Como foi que você entrou aqui?
É. Eu gostava de
conversar enquanto transava. O que você quer que eu faça? Eu sou
assim e ele gosta.
Fui levantada pra sentar no colo dele com uma
perna de cada lado. Músculos nem tanto, mas força o bofe tem.
-Alice manda lembranças
e diz que sou seu presente de boas vindas.
Alice, sempre Alice. Eu
só não sabia se mandava antas ou um buque de rosas pelo o que ela
fez.
Não tive tempo de decidir. Um beijo molhado já tirava o
resto de consciência que me sobrava. Sua língua escapou da minha,
desceu pelo meu pescoço. Eu já não tinha mais noção de mim mesma
só daquela boca que me fazia ter todos aqueles arrepios.
-Bella.
Está acordada meu amor? - escutei a maçaneta ser forçada gelei por
um momento, mas me lembrei que a havia trancado.
Respirei três
vezes antes de responder. Tentando inserir sono ao meu tom.
-Algum
problema pai?
-Será que você pode se vestir e abrir a porta um
minuto?
Me virei pra ele novamente que havia ficado estático
assim que ouviu meu pai.
'Manda ele embora' ele cochichou no
meu ouvido. É claro que eu não poderia fazer isso. Três semanas
sem falar com ele direito, não podia dispensá-lo simplesmente
assim.
Tentei me levantar de cima dele, que tentou me impedir.
-Me
solta agora - fiz cara de má, e ele me obedeceu. Me levantei e fui
ascender a luz. Ele já estava em pé ao lado da minha cama tentando
arrumar o cabelo.
Apontei pro banheiro pra que ele entrasse lá e
por mais estranho que pareça ele foi sem reclamar. Eu precisava
dizer que ele estava lindo, sem camiseta, de calça esporte preta?
Deus grego, simplesmente um deus grego.
Dei uma arrumada no cabelo
e só então percebi que estava nua da cintura pra cima. e agora?
Como eu is explicar pro meu pai o porquê estava parecendo um
pimentão ambulante se havia acabo de acordar.
Coloquei minha roupa de
volta no lugar antes de abrir a porta.
Charlie estava com os
cabelos molhados.
-Me desculpe a demora pai, eu já tinha pegado
no sono.
-Acho que sou eu quem tem que pedir desculpas aqui - ele
me deu um sorriso torto, enfiando as mãos nos bolsos - Será que
aquele jantar que você me ofereceu ainda esta em pé? Me deu uma
fome depois do banho.
E então ouvi um barulho estranho. O
estomago do Charlie? Coitado, estava mesmo com fome.
-Tudo bem
pai. Eu desço em cinco minutos e te preparo alguma coisa.
-Nem
pensar. Você se arruma. Eu conheço um restaurante que ainda deve
estar aberto.
-Desço em cinco minutos então.
Ele assentiu e
saiu pra escada, fechei a porta e tranquei. Tirei minha camiseta e
fui pra minha cômoda procurar uma roupa leve. Quando me virei ele
estava lá encostado no batente do banheiro com a cara mais frustrada
do mundo.
-Não posso deixá-lo sozinho, ele fica triste sem minha
mãe... - tentei amenizar as coisas com um sorriso torto. Ele não
sorriu de volta.
Apenas chegou mais
perto tirando as roupas da minha mão jogando-as no chão. Colocando
sua boca na minha.
Não sei dizer ao certo, aquilo parecia
saudade. A rapidez com que nossas línguas se tocavam se parecia com
raiva. A forma como ele colava seu corpo ao meu devia ser desejo. O
desespero com que nos dois nos beijávamos em outros tempos,
talvez... Talvez fosse chamado de amor, mas quando se tratava de nos
dois eu já não sabia do que se tratava.
-É melhor você colocar
as roupas agora.
Ele disse se afastando de mim. Eu não respondi.
Eu não sabia o que dizer.
Enquanto me trocava ele não perdia um
movimento atento a tudo. Quando terminei. Me aproximei para beijá-lo
uma ultima vez, mas ele virou o rosto.
-Depois que você sair eu
vou embora. Deixo a chave no lugar de sempre.
Ele não olhava
enquanto falava. Eu apenas saí de lá, calada.
Ponto de Vista do Edward
Ah cara, francamente. Eu sei que deveria entender. O pai esta num momento delicado, precisa dela, mas ninguém precisava mais dela do que naquele momento. O pai dela a teve durante toda a semana. A vida dela não era outra coisa ultimamente a não ser trabalhar e se enfiar naquele hospital. Eu me orgulhava a ser praticamente o único a proporcionar alguns momentos de prazer a essa miss independent turrona, mas ver que ela não tinha a mínima consideração e que não pensava duas vezes em me largar nesse estado em que estou por um simples jantar com o pai me deixava puto. Eu pretendia falar umas boas verdades, pretendia deixar bem claro que não queria mais vê-la na minha frente, mas como eu sabia que isso não era verdade e que muito menos cumpriria com essa promessa resolvi apenas virar o rosto quando ela tentou me beijar, para que visse que eu não estava nem um pouco satisfeito com aquela situação.
Minha noite foi
horrível. Ângela me perguntou se eu caí da cama quando me viu as
cinco da manha encostado em sua mesa. Eu não podia dizer a ela que
havia acordado cedo pra ter feito isso. Eu precisava ter dormido
então apenas respondi com um sorriso torto.
-Faz tempo que estão
juntos? - ela perguntou sem me encarar, mexendo em algo no
computador.
Me espantou a indagação. Ela geralmente era muito
discreta a respeito da vida dos outros. Eu sabia que o que quer que
eu respondesse, não sairia dali.
-Temos um relacionamento
complicado - eu respondi movendo os ombros com
indiferença.
-Diferenças sociais? - ela perguntou arqueando uma
sobrancelha.
-Diferenças mentais - eu respondi com um sorriso um
pouco maior.
Ela se levantou da mesa então com uma chave não mão
abrindo a porta e olhando pra mim.
-É melhor que você espere por
ela aqui dentro, se mais alguém chegar não poderá falar com ela
tão cedo.
Ângela tinha um sorriso simpático no rosto. O que ela
queria dizer com aquilo? que seria como o padre de Romeu e Julieta
para nos dois, de romance épico? Nós dois não tínhamos nada. Isso
eu posso garantir, mas já que ela estava oferecendo a cadeira do
chefe para eu me sentar e esperar. Quem era eu pra negar?
Fiquei ali por algum
tempo. Um instinto de fuçar tudo o que houvesse na minha frente me
surgiu, mas eu não poderia fazer isso. Havia um resto de respeito em
mim para com ela. Que me impedia da fazê-lo. Não que eu achasse que
encontraria algo de interessante.
Então ouvi Ângela
cumprimentado com um bom dia. Pelo visto apenas um segundo antes dela
abrir a porta foi que ela a alertou sobre a minha presença.
Quando
Bella entrou parecia com o rosto cansado, parecido com aquele rosto
que eu havia visto a pouco no espelho. Muitas pessoas haviam passado
a noite em claro.
Ela me olhou assustada ali sentado na mesa dela,
depois do choque inicial pareceu estar indiferente. Jogou a pasta na
mesa, vindo se sentar no meu colo abraçando meu pescoço.
Eu
esperava uma discussão matinal e não uma seção de amassos como a
que ela começava agora. Sua boca procurando a minha quase que
desesperadamente como se seu ar estivesse todo ali e fosse necessário
pra sobreviver.
-Me desculpe - ela disse depois de um tempo ao
encontro do meu pescoço. Sentia aquele meu pedaço de pele se
umedecer. Ela estava chorando.
-Tudo bem - esfreguei seu braço -
Acho que posso me acostumar com beijos seus pela manha.
-Você
sabe que não estou falando siso - ela disse rindo baixo.
-Eu sei
- respondi ainda com aquele carinho em seu braço - eu sei.
-Ele
vai se separar dela - quando falava, não olhava pra mim, parecia
estar querendo confirmar aquilo pra si mesma - Eu não vou perdoar
ele, não vou mesmo.
Dei um jeito de abraçá-la mais forte, para
que ele se ajeitasse em meu peito.
-O que você quer dizer. Que
seus pais vão se divorciar?
-É. Minha mãe esta quase tendo
previsão de alta e quando eu achava que minha vida finalmente
voltaria ao normal ele me vem com essa bomba. Ele não pode fazer
isso comigo - sua voz estava ficando mais fraca, a última parte foi
apenas um sussurro... - Não pode.
Eu podia sentir seu choro vindo
sem controle enquanto ela apertava mais meu ombro.
-Bella -
desviei- me dela para que me olhasse nos olhos. - Acho que vou ser eu
a ter que explicar algo a você.
Choque e depois medo passou por
seus olhos. O que ela pensava que eu diria afinal?
-Você não
pode deixar que a normalidade da sua vida dependa tanto assim de
outras pessoas.
Deixei que ela absorvesse aquilo que eu havia dito
quando seus olhos se voltaram para mim novamente, continuei.
-Sua
alegria, seus planos... Tudo o que você espera do mundo, você tem
que fazer com que tudo isso seja construído a partir de você. Não
pode deixar que sua felicidade dependa tanto dos outros, que dependa
de eu te ligar mais tarde ou não, de seus pais ficarem juntos ou
não. Agir desse jeito faz com que sua vida seja uma eterna espera e
acredite, ela é curta demais pra ser utilizada dessa maneira.
Ela parecia relutante
em entender o que eu havia dito. Talvez parecesse um tapa na cara,
talvez um sermão de pai ou talvez um simples conversa franca entre
amigos. Esperava que ela escolhesse a ultima opção, para o meu
bem.
-Acha que eu não deveria estar triste por meu pai estar
abandonando minha mãe no momento mais difícil da vida dela?
-Não.
Só acho que você não deveria ter a ilusão de que quando ela
voltar do hospital, num estalar de dedos toda a sua vida volte ao
normal. Que você volte pra seu curso de antro sei lá o que, que seu
pai volte a cuidar da empresa, que Alice seja novamente sua melhor
amiga solteira sem um bebe a caminho, que eu volte a ser um cara que
você simplesmente observava do outro lado da rua. - quando citei
aquele fato ela desviou o olhar, parecia vergonha.
-Eu sei que
você nunca mais vai me olhar com os mesmos olhos.
-Esse não e o
ponto - meus dedos levantaram seu queixo pra que olhasse pra mim -
Pelo o que você me contou, seu pai foi forte todo esse tempo. Ficou
ao lado da sua mãe nas horas mais difíceis, arriscando ate um
patrimônio como esse aqui deixando tudo em mão inexperientes como a
sua - algo que eu discordava totalmente, completei mentalmente. Eu,
mais do que ninguém, via como toda aquela responsabilidade estava
sugando a vitalidade da Bella aos poucos.
-Mas ainda não acabou,
ela ainda tem a recuperação em casa.
-Imagine você no lugar
dele, já não amando mais a pessoa, vendo-a passar pelo o que sua
mãe passou - ela me olhou, parecia estar fazendo o que eu mandava -
Imagine que você se sente a cada momento mais sufocada por tudo. Ele
provavelmente esta vendo este divorcio com as mesmas ilusões que
você via os dois juntos. Talvez ele pense que os problemas acabarão
junto com o casamento, mas não se preocupe, a vida vai ensiná-lo
que não e bem assim.
O silencio imperou então. Não sabia se ela
concordava comigo ou se achava que o que eu havia dito era
simplesmente um monte de besteiras. Eu apenas passei pra ela o que eu
achava apenas a aconselhei a fazer o que do meu ponto de vista seria
o melhor caminho. Não que o fato de a alegria do seu dia depender de
uma ligação minha não fizesse um bem danado ao meu ego, ela fazia
muito bem pro meu ego.
-Em que livro de auto-ajuda você leu isso?
- ela perguntou fungando a seção 'choro Isabella' parecia ter
acabado.
-Em livro nenhum. São apenas anos de convivência com
meus tios que tiveram anos de convivência com seus antepassados.
Ela
assentiu balançando levemente a cabeça.
Minhas mãos tiraram um
pedaço da blusa que estava presa por dentro da saia apertada. Queria
sentir a textura da sua pele, sentir a reação que seu corpo sempre
tinha quando estava em contato daquela forma com minhas
mãos.
-Agradeça a eles por mim - ela disse beijando meu
pescoço... - digo - uma mordida - seus tios.
-Eu faço isso...
Me
virei para alcançar sua boca. Era incrível como Isabella beijava
diferente de Bella.
Essa era confiante em puxar meu cabelo pra me
fazer aproximar, em ditar o ritmo do beijo, em sentir meu cheiro ao
mesmo tempo em que sentia meu gosto naquele beijo que eu tinha
certeza que só ela no mundo saberia me dar.
-E agradeça aos seus
pais por mim também, por terem feito um filho com um beijo tão
bom.
E agora? Contar ou não contar sobre a triste historia de um
rapaz que tinha pais já idosos com seis meses de idade? Melhor
deixar pra depois, a seção choradeira já havia sido longa
demais.
-Falando nisso, você nunca me falou da sua ma...
Ela
foi interrompida por Ângela à viva-voz.
-Bella... James já esta
esperando pela reunião do dia.
-Quem e James? - foi instintivo,
algo me dizia que não era um dos coreanos.
Ela abriu e fechou a
boca duas vezes antes de responder.
-James e o novo assistente do
senhor Mars - porque eu sentia um tanto de culpa naquela resposta.
Afinal que mal havia do assistente estar ali? Melhor investigar...
-E
o que ele esta fazendo aqui?
Essa era uma pergunta crucial. Se ela
responder 'nada, não e da sua conta' tudo bem, ela ta limpa. Mas
se enrola demais, ai tem coisa.
-Ele esta me ajudando
com a festa de apresentação da campanha dos coreanos. Sabe...
Fiquei até meio chateada com senhor Mars porque ele me aporrinhou
tanto ate que eu te contratei. Então você saiu e ele me encheu mais
ainda e agora que James é todo dele me pede pra arrumar ocupações
pra ele, pois essa e uma época mais fraca do na para as obrigações
ele. Então aqui estou eu. Tendo que arruma coisas pro rapaz
fazer.
Explicou demais. Ai ai ai dona Isabella. Pensa que esta
lidando com quem?
Eu não respondi, apenas assenti e sai da sala,
minha confirmação viria agora e ela veio. Loiro bonito, e não me
venha com esse olhar. Eu sou bem resolvido quanto a minha
sexualidade. O que não significa que meu ego não me deixe saber
quando há concorrência forte por perto.
O loiro se levantou
assim que me viu saindo da sala me encarando como se tivesse motivo
pra isso. O que? Será que ele sentia cheiro de concorrência de
longe também?
Ele que não se animasse muito. A cama da herdeira
em quem ele devia estar de olho já estava muito bem ocupada por mim.
E o coração... Bem, desse eu não preciso nem comentar.
