Capítulo 10 – Covarde


Peter Pettigrew

Eu achei o jantar ótimo. A namorada de James era super simpática. Era engraçado, Amy morava no mesmo andar que eu. Fiquei feliz com a ideia e fui ajudar Sirius com as coisas.

- Então, a quantas andas o seu humor? – Eu perguntei fazendo uma pilha com os pratos.

- Péssimo – resmungou - aquela garota é inacreditável, uma víbora.

- Isabela? – perguntei distraído enquanto abria as janelas da cozinha.

- Quem mais poderia ser?

- Sei lá - dei de ombros – o que aconteceu?

- Ela insinuou ter passado a noite comigo e ficou se fazendo de vitima excluída na faculdade – ele bufou – quanto você aposta que ela vai envenenar Luma?

- No sentido literal da palavra? – Eu fiquei confuso.

- Claro que não Peter. – Ele disse impaciente. – É, alguém retirou o pouco de juízo que você tinha.

- Me poupe. – Amarrei a cara.

- Olá, pessoal, precisam de minha ajuda? – Remus juntou-se a nós.

- Claro! – Sirius sorriu. – Pode começar a lavar os pratos.

- Hei! – Remus resmungou.

- Eu preparei o jantar sozinho e ainda levei Luma ao hospital. – Sirius sorriu triunfante. – Já fiz minha parte de hoje.

- Safado. – Remus pegou a esponja e começou a lavar a louça.

- Hospital? – Eu perdi alguma parte da conversa.

- Sim, Luma veio me ajudar a preparar o jantar e cortou a mão, daí precisou ir ao médico para levar pontos. – Eu abri a boca enquanto Sirius falava. – Ela está bem. – Ele complementou em um tom de óbvio.

- Ah sim. – Eu me lembrei. – Então, o que vamos fazer?

- Bem, eu vou tomar banho e dormir. – Sirius falou. – Amanhã tem aula.

- É verdade. – Remus suspirou. – Abrir cadáveres.

- Eu vou falar com Dumbledore.

- Sobre? – Sirius abriu a geladeira.

- Quero fazer jornalismo. – Falei empolgado. – Aliás, eu vou fazer jornalismo.

- Quê? – Os dois perguntaram assustados.

- Sim, estou abandonando administração para fazer jornalismo. – Eu sorri. – Não é certo eu fazer algo que minha mãe quer, eu que tenho que querer.

- Isso é coerente. – Sirius sorriu. – Qualquer coisa, estamos do seu lado.

- Obrigado.


James Potter

Lily estava em meu colo, seus braços envolviam o meu pescoço. Ela aninhou-se melhor em meu peito e soltou um bocejo.

- Acho que eu deveria ir dormir, tenho aula amanhã.

- Tudo bem, eu também devo fazer isto. – Eu suspirei, poderia passar o resto da noite ali. – Quer carona amanhã?

- Obrigada, mas vou em meu carro, tenho aula os dois períodos. – Lily falou sentando-se.

- Tudo bem, nós vemos no almoço? – Perguntei.

- Claro. – Sorriu.

- Passarei no seu bloco as doze.

- Ótimo. – Ela ficou de pé e eu fiz o mesmo. – Eu poderia passar a noite inteira abraçada em você.

- Então passe. – Desafiei.

- Adoraria, mas eu realmente não posso. – Ela deu um meio sorriso.

Eu a acompanhei até a porta, ficamos um bom tempo namorando ali na porta do apartamento dela.

- Eu amo você James Potter. – Ela sorriu antes de entrar.

- Eu também.

Fiquei parado um bom tempo olhando para cada detalhe do hall. As paredes eram impecavelmente brancas, que destacavam as portas de madeira dos dois únicos apartamentos do andar. O chão era de mármore branco, no canto esquerdo de quem saia do elevador a escada de emergência e o acesso para a cobertura. Do lado direito tinha uma grande parede espelhada com um sofá preto luxuoso encostado nela. Várias almofadas em dégradé do vinho ao branco. Ali tinha um pequeno centro de vidro sob o grande tapete com detalhes dourados e duas pequenas poltronas também na cor preta.


Luma Schmidt

Eu simplesmente estava com um misto de emoções. Era muito difícil para mim, pensar no que sentir, talvez, de cabeça fria, eu chegasse a alguma conclusão. Eu chorava de raiva por ter levado um pé na bunda daquele jeito, chorava por ele estar mal, chorava porque eu estava me apaixonando por ele. Mas com a minha sorte em relacionamentos amorosos, foi completamente estúpido de minha parte pensar que este, por fim, daria certo.

Enxuguei as lágrimas, em vão, e o barulho irritante do elevador me alertou que já estava no último andar. Tudo o que eu queria era me enfiar debaixo da minha coberta quente e chorar. Não percebi a presença de ninguém ali, não até ouvir uma voz rouca e com ar de surpresa e preocupação.

- Luma? – James quis confirmar.

- Ah. – Eu me assustei, fiquei surpresa por ele estar parado ali. Não era tão estranho, afinal ele morava naquele andar.

- Você está...

- Horrível. – Eu suspirei completando, embora soubesse que ele não ia dizer isso. – Desculpe minha aparência, você me pegou num dia de morte.

- Aconteceu alguma coisa?

- Nada demais. – Dei de ombros. – Boa noite, James. – Saudei abrindo a porta do apartamento para não dar brecha dele continuar com o assunto.

A sala estava escura, tateei a parede em busca do interruptor e ascendi as luzes. A sala estava arrumada, como sempre, era incrível como estávamos conseguindo manter tudo em ordem. A portas de rolar com vidro transparente que davam acesso a varanda estavam abertas deixando uma brisa agradável. Tratei de fechá-las e ir seguir para meu quarto.

A luz da cozinha estava acessa, Amy estava bebendo água. Era incrível, quando eu não queria ver ninguém, uma chuva de pessoas caia do céu.

- Pensei que você fosse demorar. – Ela acusou com segundas intenções.

- Não enche. – Eu resmunguei e ela viu que eu estava chorando.

- Aconteceu alguma coisa? – Sua voz era séria.

- Não, choro por hobbie. – Falei azedamente abrindo o freezer e pegando um pote de sorvete de Negresco.

- Um poço de doçura. – Amarrou a cara.

Eu a ignorei completamente pegando uma colher, uma jarra de água e um copo para, por fim, me refugiar em meu porto seguro.

Fechei a porta com chave e coloquei tudo que peguei da cozinha sob a escrivaninha e fui para o banheiro. Tomei um banho rápido e frio, sem lavar os cabelos. Coloquei um pijama de algodão e voltei para o quarto.

Procurei alguma coisa para ver, escolhi ver a primeira temporada de Two and a Half Man. Coloquei o DVD no aparelho e corri para as cobertas para assistir.

Me concentrei em assistir os episódios e apreciar o sorvete, resolveu, pois logo eu estava empolgada rindo. As duas da manhã me levantei para escovar os dentes e colocar o pote de sorvete vazio no lixo. Retornei ao quarto colocando fones de ouvidos e pegando o Ipod da gaveta do criado mudo. Escolhi um cd dos Beatles e coloquei no volume máximo, me encolhendo em formato de bola, assim eu adormeci.


Sirius Black

Acordei assustado com o barulho infernal do despertador, abri os olhos assustado e fechei imediatamente os olhos com a claridade. Odiava quanto James abria a persiana. Filho da mãe! Deixava tudo claro e ia embora, tenho minhas suspeitas que James tem as chaves de Hogwarts, só assim para ele sair extremamente cedo, abrir a escola!

Sentei-me irritado na cama, com sono, comecei a considerar voltar a dormir. Sonhar acordado era melhor que enfrentar três aulas de resistência dos materiais.

Antes que eu mudasse de ideia, coloquei-me de pé e fui me arrastando para o banheiro. Tomei uma ducha de água gelada e sai me enrolando em uma toalha branca para ir escolher uma roupa. Escolhi o básico, minhas gavetas com roupas limpas estavam ficando vazias. Uma calça jeans escura, camiseta vermelha com detalhes estilizados e All Star marrom surrado (meu predileto). Catei todas as coisas que precisaria e a chave do carro.

Na sala, Peter estava esparramado no sofá, trajava ainda a calça comprida azul de seu pijama. Com uma grande tigela de cereais de chocolate e também um copo considerável de leite, ele assistia A Mansão Foster Para Amigos Imaginários. Revirei os olhos e fui para a cozinha.

- Bom dia, Remus! – Falei abrindo a geladeira.

Remus comia apressado, olha o outro porteiro! Em seu prato havia ovos com bacon e para acompanhar bebia suco de laranja. Peguei a garrafa de leite e o sucrilhos de chocolate em coloquei em uma tigela e fui me juntar a Peter.

- Bom dia, Sirius. – Ele falou empolgado.

- Bom dia. – Joguei-me no sofá. – Pensei que você fosse tomar as providencias para estudar jornalismo.

- Sim, eu vou. – Ele sorriu. – Vou a Nova York, meu pai quer falar comigo.

- Boa sorte. – Eu falei.

Fiquei com os olhos na TV, mas sem ter ideia do que estava vendo. Remus saiu e eu continuei comendo meu cereal. Por fim, terminei e escovei os dentes rapidamente e me despedi de Peter.

Apertei o botão do elevador e fui me sentar no sofá para esperar que ele subisse, antes que eu me sentasse, a porta do apartamento da frente se abriu.

Lily, a namorada de James, estava sorridente. Estava toda vestida de branco – inclusive o tênis. Abraçando vários livros, em uma das mãos tinha a chave de um carro. Ela sorriu para mim.

Luma estava fechando a porta. Não estava em nenhum de seus saltos, um All Star azul clarinho, calça escura e uma bata azul escura. Seu cabelo estava preso em um rabo de cavalo. Portava uma bolsa enorme que, provavelmente eu entraria dentro. Sua expressão era cansada, triste. Ela não sorriu.

- Bom dia garotas. – Eu saudei me aproximando. – Deixa que eu te ajudo com esses livros.

- Bom dia Sirius! – Lily continuava sorrindo. – Obrigada, muito gentil de sua parte.

- Bom dia, Sirius. – Luma falou sem emoção alguma.

O elevador fez o seu tradicional 'plin', nós entramos. Ele bem espaçoso, se comparado aos elevadores. Completamente espelhado, exceto pelo teto e piso.

- Sirius, você faz o quê? – Lily me perguntou.

- Engenharia civil. – Respondi. – Ah, Luma, quer carona?

- Obrigada. – Ela deu um meio sorriso. – Lily, eu vou com ele, seu bloco é distante do meu.

- Tudo bem. – Ela deu de ombros. – Aquela garota, do jantar, é sua namorada?

- Hein? – Eu me engasguei com minha própria saliva. – Minha o quê?

- Namorada. – Lily revirou os olhos.

- Não tenho namorada. – Eu falei. – Isabela acha que temos alguma coisa.

- Ahh.- Foi a única coisa que ela disse.

Chegamos até a garagem e eu acompanhei Lily até seu carro. Coloquei suas coisas do banco do carona.

- Muito obrigada. – Ela sorriu. – Até mais tarde.

- Até. – Luma respondeu se virando para ir até o meu carro.

- Até mais, Lily.


Emily Benson

Deixei minha querida irmã em seu bloco e fui dirigindo até o meu bloco, era uma coisa desagradável ter que dividir o carro com ela, principalmente recentemente que Isabela sofria alguma espécie de rebeldia adolescente retardatária.

Minha família tem uma casa em Odessa, no Texas. Vivemos em um bairro de classe média, uma casa com dois pavimentos, confortável, porém, sem luxos.

Uma casa amarela com janelas e portas de madeira escura, era recuada com um jardim mediano. O gramado verde, estava sempre impecavelmente aparado. Do lado esquerdo, tinha uma parte de cimento que dava acesso à garagem, pequena que só comportava nosso carro pequeno e o sedan velho de meu pai. No meio do jardim havia uma pista estreita de blocos de cimento, na lateral estavam plantadas umas plantas baixinhas com cerca de um palmo de altura que definiam a parte que dava acesso a casa. No lado direito, haviam varias coqueiros. Os dois muros das laterais da casa eram revestidos com plantas.

No térreo havia uma varanda grande, duas redes de descanso, algumas cadeiras que lembram as de praia e uma mesinha branca circular com cadeiras metálicas pintadas de branco também. Todos os cômodos da casa eram médios. Uma sala de visitas, sala de jantar, cozinha, escritório, três quartos e dois banheiros.

Meu pai trabalha como gerente de uma empresa de papeis, tem um salário razoável que consegue sustentar as duas casas da família. Minha mãe fica em casa, é uma despesa a menos com empregada.

Estacionei na vaga mais próxima do prédio que encontrei. Peguei minha mochila no banco traseiro e fui andando em direção à lanchonete. James estava sentado em uma das mesas no sol lendo sobre direito constitucional e bebendo cappuccino.

- Café em excesso não faz bem. – Falei sentando-me na cadeira em frente.

- Bom dia, Emily. – Ele ignorou o comentário.

- Bom dia James. – Eu sorri. – Não é muito cedo para estar estudando?

- Não estudei nada ontem. – Ele suspirou.- Estou muito displicente.

- James, calma, ainda estamos na primeira semana de aula. – Informei. – Até parece que você precisa estar se matado de estudar para ser sempre um dos primeiros e olha que você raramente presta atenção as aulas.

- Só fico atrás de você Mrs Nerd. – Ele riu. – Hei! – Protestou - Eu presto atenção sim, eu consigo fazer várias coisas ao mesmo tempo.

- Como você é modesto. – Revirei os olhos.

- Bom dia, bom dia. – Remus se aproximou de nós sorrindo.

- Ah, nem vem, não vou ficar de vela! – James amarrou a cara.

- Não se preocupe. – Ele riu a apenas me dando um beijo rápido.

- Você veio fazer o que aqui? – James perguntou voltando a ler.

- Ver Emily, obvio. – Remus suspirou.

- Vou ser bem legal e ficar lendo meu livro. – James falou mantendo os olhos no livro.

- Como se eu precisasse de sua permissão. – Remus revirou os olhos. – Emily, vem.

Remus me estendeu a mão e eu aceitei, peguei a minha mochila e me despedi de James. Ele me levou para o jardinzinho ao lado do meu bloco e se se encostou a uma árvore e me puxou para ele.

- Fiquei com saudades. – Ele falou.

- Ficou?

- Sim. Você é muito especial para mim.

- Você também. – Sorri.

- Emily, quer namorar comigo?

- Sim.

Eu respondi e ele me puxou para mais perto, unindo nossos lábios. Ficamos ali namorando até faltar apenas dez minutos para o inicio da aula, quando ele foi em seu carro para seu bloco.

Fui caminhando para o bloco e encontrei com James na escada de acesso para o quarto andar. Eu estava sorridente, James ao me ver gargalhou.

- Que foi? – Ergui uma sobrancelha.

- Deixe me adivinhar. – Ele fez cara de pensativo enquanto andávamos. – Vocês estão namorando?

- Como você sabe?

- Sabendo. – Deu de ombros. – Essa sua cara de pinto no lixo entrega tudo.

- Panaca. – Empurrei ele.


Olivia Schmidt

Desci as escadas correndo e peguei a minha mochila, cheguei a cozinha ofegante. Meus irmãos estavam sentados tomando seu café da manhã. Meu prato de ovos com bacon já estava posto a mesa.

Mamãe mexia os ovos para meu padrasto.

- Bom dia. – Minha voz saiu falha.

- Se você não ficasse até tarde conversando com aquele seu namoradozinho, você acordaria mais cedo Olivia. – Daniel, meu padrasto falou enquanto lia seu jornal.

- Ele não é meu namorado. – Falei entre dentes.

Eu odiava quando Daniel se metia na minha vida, se achando o meu próprio pai. Ele tinha quarenta anos, não era muito alto e também não era um exemplo de boa forma. Seu rosto era arredondado, com barba e bigodes sempre para fazer. Os olhos eram verdes claros e o cabelo era curto de um castanho escuro desbotado. Mike era a cópia fiel de Daniel.

Minha mãe, Lauren, era linda. Seus cabelos eram loiros escuros e bastante lisos, um pouco abaixo dos ombros com uma franjinha na altura dos olhos. Seu rosto era oval, com algumas rugas devido a idade, mas mesmo assim ela parecia jovem. Seus olhos eram azuis claros, lindos. Não era alta e estava um pouco acima do peso. Lauren tinha uma pele morena bem clara. Minha irmã, Julie, era igualzinha a ela.

Eu me sentia completamente excluída da família. Eu era muito branca, quase albina, com os olhos azuis esverdeados. Eu era alta demais. Meus cabelos eram castanhos escuros com algumas mechas castanhas claras. Estava longe de ser como o de Lauren e Julie, eram lisos pesados com ondulações. Eu o odiava e vivia em guerra constante.

- Seu café está na mesa. – Minha mãe falou. – Se apresse, vai se atrasar.

- Tudo bem.

Eu me sentei depressa para comer, engoli o meu café em uma velocidade incrível e sai pelas portas do fundo. Meu melhor amigo, Zachary Roberts, estava sentado no balanço debaixo da árvore me esperando.

- Oi, Zach! – Eu sorri.

- Oi Olivia.

- Quase que não levanto. – Comentei enquanto começávamos a andar em direção a escola.

- Eu percebi. – Ele riu. – Seu padrasto não parece gostar muito de mim.

- Ele acha que você é meu namorado.

- Ah. – Zach passou a mão nos cabelos.

Era bastante irritante ficar ao lado de Zach e seus um metro e noventa e seis de altura. Ele era lindo, com seus olhos incrivelmente castanhos e sobrancelhas largas, pele clara corada e um sinal perto dos lábios no canto esquerdo. Cabelo mediano com um corte bacana.

- Não fique constrangido. – Eu falei. – Daniel acha que é meu pai e se acha no direito de ter paranóia com amigos.

- Entendo. – Sua voz era esquisita.

- Vamos, Zach, pare com isso. – Eu pulei em suas costas para que ele me carregasse, eu envolvi um dos braços no pescoço dele e com a mão livre comecei a bagunçar seu cabelo. Ele me segurou.

- Tudo bem. – Ele sorriu. – Então, vamos mesmo começar a procurar pelo seu pai?

- Claro. – Saltei de volta para o chão. – Amanhã, temos projeto no laboratório de ciências, lembra?

- Claro que sim.


Luma Schmidt

Meu mau humor matinal estava mais perceptível que nunca. Acordei assustada com o despertador do criado mudo, levantando impaciente e rumando ao banheiro. Demorei no banho quente e peguei a primeira roupa que vi no guarda-roupa, o resultado foi trágico, mas não havia tempo nem paciência para uma troca. Fui para a cozinha já trajando uma calça jeans escura que a séculos não usava com uma bata horrorosa azul escura com um all star claro, roupas da minha época de adolescente rebelde.

Lily e Amy já estavam tomando seus respectivos cafés da manhã. Eu estava enjoada do pote de sorvete da noite anterior e a menção de colocar algo garganta abaixo me fez sair correndo para o banheiro do meu quarto para vomitar.

Eu odiava sentir aquele gosto, mas foi completamente inevitável. Lavei o rosto e os dentes e fui para a sala esperar Lily. Amy estava irritada por minha grosseria na noite anterior. Sentei no sofá e fiquei encarando o teto.

- Malu, você vai comigo? – Lily perguntou me cutucando, eu já estava cochilando.

- Claro, se não for incomodo. – Eu saltei do sofá.

- Claro que não é. – Fez uma careta.

- Já vou ganhar meu carro, inacreditável. – Eu sorri torto.

Lily saiu de casa com aquela pilha de livros na mão. Eu tinha minhas dúvidas que ela fosse usar aquilo tudo, mas dei de ombros e fui fechar a porta.

- Muito obrigada. – Ela sorriu. – Até mais tarde.

- Até. – Luma respondeu se virando para ir até o meu carro.

- Até mais, Lily.

- Bom dia garotas. – A voz já conhecida de Sirius ecoou em meus ouvidos. Era o que realmente não precisava, aliás, ele não precisava ver minha cara azeda tão cedo. – Deixa que eu te ajudo com esses livros.

- Bom dia Sirius! – Lily estava sorridente em sua roupa completamente "tomei um banho de água sanitária". – Obrigada, muito gentil de sua parte.

Eu por fim, para não ser mal educada abri a boca e falei um "Bom dia, Sirius". Minha voz não tinha emoção, talvez estivesse tediosa, enjoativa. Fiz uma careta e suspirei, definitivamente hoje era o dia que ninguém precisava lidar comigo. Aquele barulho irritante do elevador informou que ele estava no andar, fiquei nervosa, não queria ficar tão próxima das pessoas a ponto de me sentir obrigada a conversar com elas.

- Sirius você faz o quê? – Lily perguntou interessada.

- Engenharia civil. – Ele respondeu, estava prestes a me desligar do ambiente quando eu fui requisitada na conversa. – Ah, Luma, quer carona?

- Obrigada. – Eu dei um meio sorriso, na verdade eu não queria, mas seria bem conveniente para Lily não precisar fazer uma contramão só para me deixar. A culpa é minha se eu não tenho carro. – Lily, eu vou com ele, seu bloco é distante do meu.

- Tudo bem. – Ela deu de ombros, certamente estava cogitando qualquer possibilidade para depois tirar onda com a minha cara. - Aquela garota, do jantar, é sua namorada? – Eu suspirei, eu sabia que ela de algum modo usaria aquilo contra mim.

- Hein? – Ele se engasgou, certamente com a saliva. Foi engraçado, dei um meio sorriso, se eu não estivesse de tão mau humor, certamente cairia na gargalhada. – Minha o quê?

- Namorada. – Lily revirou os olhos, divertindo-se com a situação.

- Não tenho namorada. – Ele falou com urgência e seus olhos chegaram aos meus, vazios. – Isabela acha que temos alguma coisa.

- Ahh. - Foi a única coisa que ela disse. Sim, Lily Evans estava cogitando isso para usar contra mim.

Era típico dela tentar empurrar todos os homens solteiros e bonitos para mim, em tentativas de curar minhas depressões. Eu poderia não ter falado nada, mas certamente ela já sabia que eu tinha levado um senhor fora ontem.

Ao chegar a garagem no subsolo, Sirius acompanhou Lily até seu carro. Era uma Mitsubishi vermelha, quatro portas que lembrava um Volvo C30. Eu não conseguia imaginá-la dirigindo outro carro senão aquele.

- Muito obrigada. – Lily, como sempre, sorriu. – Até mais tarde.

- Até. – Eu respondi virando-me para procurar o carro de Sirius.

- Até mais, Lily. – Ele falou e começou a andar atrás de mim.

Não era justo que além de me dar uma carona, Sirius precisasse aturar meu estado de calamidade pública. Inalei todo o ar que meus pulmões conseguiam e senti o aroma do perfume masculino de Sirius. Balancei a cabeça e formei um sorriso nos lábios.

- Pode entrar. – Ele sorriu para mim enquanto adentrava em seu carro acomodando-se no banco de motorista. Abri a porta com suavidade e coloquei minha bolsa embaixo do pé e vir-me-ei delicadamente para encaixar o cinto. – Tudo bem com você?

- Claro. – Menti. - E com você?

- Eu estou bem. – Ele pausou e girou a chave na ignição. – Sei lá, achei você um pouco abatida.

Merda.

- Impressão sua. – Dei de ombros.

- Talvez. – Ele considerou falar mais alguma coisa, mas calou-se. A esta altura saímos da garagem escura para a claridade do dia. A luz solar permitia ver cada detalhe de sofisticação da máquina. GPS e um som turbinado, porém, muito discreto e de bom gosto, foram as duas primeiras coisas que vi. – Então, e sua mão? – Mudou de assunto.

- Bem, eu diria que ela está colada ao meu braço. – O humor negro aflorou. – Ela está bem.

Eu mostrei a mão do curativo pra ele e dei um tchau. Sirius riu, mostrando aqueles dentes perfeitamente brancos e alinhados. Talvez a impressão correta de que eu estava mal tivesse passado.

- Planos para o fim de semana? – Ele me perguntou.

- Não sei. Vou colocar minhas roupas para lavar e fazer meus deveres de casa. – Mordi os lábios.

- Luma, você não tem deveres de casa.- Ele revirou os olhos. – Você tem assuntos para estudar.

- Tanto faz. – Dei de ombros.

- O que você acha de ir ao jogo de basquete este sábado. – Ele falou mantendo as mãos segurando levemente o volante. Estávamos a 120 por hora, onde era permitido apenas 70. – Eu ia com James, mas certamente ele tem planos com Lily.

- Claro. – Dei um sorriso verdadeiramente empolgado. – Bem, mas devo colocar previamente que eu não entendo absolutamente nada de basquete.

- Tudo bem. – Ele sorriu. – Eu te ensino algumas coisas.

- Ótimo, vai ser divertido.

- Tenho certeza que sim.

- Você dirige muito rápido. – Comentei distraída enquanto olhava pela janela. – Quantas vezes você já bateu?

- Nunca. – Ele gargalhou.

- Pode contar. – Eu encorajei. – Eu não vou abrir a janela e me jogar.

- Eu nunca bati com o carro, Luma. – Ele disse com a voz controlada, mas com um sorriso nos lábios. – Eu tenho reflexos muito bons.

- Exibido. – Rolei os olhos e fiz uma careta.

Nem me dei conta, andávamos tão suavemente que eu não havia percebido que já estávamos parados no estacionamento de Hogwarts, exceto pelo click do cinto.

- Uau! – Eu exclamei. – Nós já chegamos.

- Claro que sim. – Ele não entendia.

- Lily demora pelo menos meia hora para chegar aqui. – Comentei e ele gargalhou novamente.

- Modesta parte, eu dirijo muito bem.

- Oh. – Eu revirei os olhos e abri a porta.

Sirius saiu do carro e deu a volta postando-se ao meu lado para começarmos a andar.

- Obrigada pela carona.

- Não precisa agradecer, não foi incomodo algum. Pelo contrario, gosto de conversar com você. – Ele colocou sua mochila nas costas. – Te vejo na saída?

- Se não for incomodo.

- Claro que não é.

- Tudo bem, te encontro no carro. – Eu disse sorrindo pegando o caminho oposto para a minha aula. – Até mais!

- Até!


Amy Meester

Depois de dois tempos de aula teórica de fisiologia, sai me arrastando até a lanchonete do bloco que fiava no térreo. As pessoas de minha sala eram estranhas, eu preferia me manter isolada. Eu estava bem assim.

Tinha um garoto, Linus Brown, ele era asqueroso, parecia ter saído direto de algum filme de terror macabro. Era extremamente alto, desengonçado. Seu rosto redondo, de pele marcada de espinhas mal tratadas e outras novas. Brancas, parecia que ao menor toque elas explodiriam e jorrariam pus para todos os lados.

As garotas eram retardadas demais. Ao pouco que conversei com algumas, elas só pensavam em drogas, sexo e rock ´n´roll. Eu, em tão pouco tempo, já fui eleita como 'anti-social por nível de superioridade'. Como se eu me importasse com isso.

Comprei um suco de laranja e uma pizza de calabresa com catupiry e fui me sentar em uma mesa mais afastada onde eu podia ver com facilidade os estábulos.

Meus pensamentos vagaram até a noite anterior, no jantar e no encantador Remus. Ele tinha um jeito diferente, era engraçado e tão lindo. Eu realmente esperava que aquela garota, Emily, não passasse de amiga, pois, eu, a qualquer custo, ficaria com Remus John Lupin ou eu não me chamaria Amy Meester.


Lily Evans

Faltavam apenas quinze minutos para o término da aula. Eu estava empacada em duas laminas. Suspirei e fiz alguns rabiscos no caderno. Apenas isso, foi tempo suficiente para o sinal estridente soar.

- Olá, Lily! – Minha colega de sala, Jennifer Anderson apareceu sorridente ao meu lado.

- Oi Jennifer. – Eu sorri com o mesmo entusiasmo, colocando minhas coisas dentro da mocilha.

- Me chame de Jeny, por favor. – Ela ainda sorria. – Então, temos aula a tarde, onde você vai almoçar?

- Bem. – Eu fechei o zíper da bolsa e olhei para ela. – Eu estou indo encontrar com o meu namorado, vamos almoçar juntos.

- Ah.. – Seu sorriso diminuiu um pouco. – Então, almoçamos juntas em outra oportunidade.

- Claro! – Eu fiquei de pé.

Saímos da sala e fomos pegar as escadas do lado oeste para descermos.

- Você é de Chicago, Lily?

- Não, eu nasci em Nova York. E você?

- Sou de Chicago, não me imagino morando em outro lugar. – Sorriu amarelo.

- Eu estou gostando daqui.

- Que bom, já conhece os lugares badalados?

- Ainda não, podemos sair depois de amanhã, daí te apresento minhas amigas que moram comigo.

- Ótimo, vai ser divertido! – Jennifer se empolgou, ela tinha um jeito infantil adorável. – Nossa, que carro fodástico!

Jennifer exclamou quando alcançamos a entrada principal. A maquina incrível a qual Jennifer se referia era de James, dei um sorriso e me virei para ela.

- É meu namorado, James, te vejo na aula Jeny!

Ela acenou sorrindo e virou-se para o lado do estacionamento onde havia sombra. Eu fui andando rápido até o carro branco e entrei acomodando-me no banco do carona.

- Oi, James! – Falei antes de unir nossos lábios em um beijo rápido.

- Fiquei com saudades. – Ele deu um sorriso. – O que você quer comer?

- Não sei. – Mordi o lábio inferior pensando. – O que sugere?

- Vamos apelar para comida chinesa? – Ergueu uma sobrancelha.

- Sim. – Eu falei coloquei o cinto. – Gosto de comida chinesa e você?

- Também. – Ele sorriu e começou a dirigir. – Qual sua cor predileta?

- Depende do meu estado de humor. E a sua?

- Branco. Bebida predileta?

- Coca-cola. E?

- Coca-cola. Banda?

- Não sei.

Fomos durante todo o caminho fazendo os mais diversos tipos de perguntas, assim como durante o almoço. Depois disso James me deixou na porta do bloco novamente e nos despedimos com um beijo e a promessa de nos vermos a noite.


Isabela Benson

Conviver com Narcisa e Bellatrix era bem mais complicado que eu jamais pude imaginar. As duas eram muito ricas, com seus carros luxuosos e pais liberais. Era difícil acompanhar as conversas sobre lançamentos de marcas que eu jamais usei, ou seria ridículo convidá-las para fazer trabalhos no pardieiro que eu dividia com minha severa irmã.

Eu nunca podia sair com as duas para me divertir. Elas sempre iam a restaurantes e boates caríssimas que certamente me custariam em uma saída o dinheiro do mês inteiro. Era impossível sair com elas sem ficar bêbada o suficiente para Emily ligar para nossos pais. Era incogitável sair com elas sem ter o meu carro.

O sinal acabara de tocar, Narcisa e Bella me convidaram para almoçar em um restaurante novo de cozinha francesa, como sempre, eu inventei uma desculpa qualquer para não ir.

A sala estava quase vazia, os três já populares e bajulados pelo corpo docente, arrumavam as ultimas coisas que restava na mesa. Eu ainda não havia falado com Luma, queria que ela pensasse que eu estava bastante chateada com a noite anterior. Levantei-me arrastando o meu salto preto até a mesa dos três.

Não havia prestado atenção, ela estava ridícula. Certo que eu não tenho um guarda-roupa invejável, mas, certamente, eu jamais sairia de jeans, all star e bata.

- Hei, Luma! – Falei com um sorriso no rosto apoiando-me na mesa. – Podemos conversar?

- Claro!

Ela se despediu dos outros e murmurou um 'depois eu ligo'. Seguimos para o corredor que estava relativamente vazio – poucos alunos tinham aula no décimo andar.

- Pode falar.

- Eu não queria que você falasse com o Sirius. – Fiz uma pausa esperando algum protesto. – É que eu e ele tivemos um lance semana passada e no dia do baile. Sabe, algo sério... Intimo demais. – Tratei de enfatizar bastante o 'demais'. – Eu não quero que você não se meta em nosso namoro.

- Bem... – Ela pareceu considerar as palavras certas. – Eu não estou interessada em seu namorado, eu não gosto dele, não de um jeito que você precise se preocupar comigo. E, sinceramente, eu não vou me afastar dele, por mais que isso te incomode.

- Mas...

- Desculpe-me, mas eu não vou deixar de aceitar as caronas dele ou de falar com ele por mais que isso te incomode.

- Você quer comprar uma briga comigo? – Ameacei.

- Se é o que você quer. – Ela deu de ombros e saiu.

- Vaca. – Murmurei fechando os olhos e as mãos.


Luma Schmidt

Meu humor já estava melhor, a carona com Sirius e a promessa de uma programação divertida no sábado melhoraram parcialmente meu humor negro. As duas primeiras aulas foram de desenho e as duas últimas de história da arte, por sorte não havia calculo na lista, pois, certamente, tudo o que eu menos queria era olhar para ele.

O sinal tocou e a professora de história da arte saiu da sala feito um foguete, provavelmente ela tinha muita urgência de visitar o banheiro ou estava com medo que continuássemos com pérolas do tipo 'Monalisa foi pintada por Picasso' ou 'pinturas corporais são aquelas que são feitas no corpo'. Que alto nível de intelectualidade.

- Graças a Deus! – Damian resmungou. – Pensei que ela não fosse parar com a lista de livros!

- Ah, Damian, nem foram tantos assim. – Sophie revirou os olhos.

- Não, só seis para semana que vem. – Eu ri.

- Maníaca dos livros. – Damian comentou de enquanto amarrava o cadarço do tênis.

- Ei, não esqueçam do jantar amanhã em minha casa, eu quero que vocês conheçam meu namorado Charlie.

- Tudo bem. – Tentei imitar um soldado, mas saiu algo muito bizarro que causou a gargalhada dos dois.

- Hei, Luma! – Isabela sorriu apoiando-se na mesa. – Podemos conversar?

- Claro! – Eu coloquei-me de pé. – Depois eu ligo. – Pisquei os olhos para os dois.

Fomos para o corredor do andar – décimo – que estava praticamente deserto, eram poucas as pessoas que tinham a infelicidade de ter aula no último andar.

- Pode falar. – Falei quando já estávamos perto do elevador.

- Eu não queria que você falasse com o Sirius. – Ela parou, eu resolvi não me expressar de imediato. – É que eu e ele tivemos um lance semana passada e no dia do baile. Sabe, algo sério... Intimo demais. – Ela fez uma grande ênfase no 'demais'. – Eu não quero que você não se meta em nosso namoro.

- Bem... – Eu estava prestes a dizer 'se liga, otária, ele diz que não tem namorada', mas eu ia deixar que ela se iludisse com o fato de que eles namoravam. Na verdade eu não sabia se eles tinham algo juntos, mas, obviamente, ele não sentia o mesmo em relação a ela. – Eu não estou interessada em seu namorado, eu não gosto dele, não de um jeito que você precise se preocupar comigo. E, sinceramente, eu não vou me afastar dele, por mais que isso te incomode.

- Mas...

- Desculpe-me, mas eu não vou deixar de aceitar as caronas dele ou de falar com ele por mais que isso te incomode. – Eu a interrompi.

- Você quer comprar uma briga comigo? – Ameacei.

Quase me urinei de medo, aliás, de tanta vontade de rir.

- Se é o que você quer.

Eu dei de ombros e entrei em um dos três elevadores. Eu escutava tanta barbaridade. Revirei os olhos e apertei o botão para o térreo. O telefone tocou.

- Oi pai! – Falei empolgada.

- Oi querida. – Eu quase podia vê-lo rindo do outro lado. – Vai fazer algo sexta?

- Sim, Sophie me chamou para jantar com ela, apresentar o namorado.

- Ah, sim. – Ele pausou. – Sábado?

- Meu vizinho me chamou para ir ver um jogo de basquete com ele. – Embora meu pai fosse pensar abobrinha, decidi que o melhor caminho era ser sincera.

- Arran, sei. – Ele gargalhou.

- Ah, pára pai. – Revirei os olhos. – Podemos almoçar no domingo?

- Claro que sim. – Sua voz era urgente. – Bem querida, vou mandar sua passagem para Nova York, a noite eu te ligo.

- Tudo bem, pai, até mais. – Eu suspirei. Ele era tão ocupado. – Te amo.

Lamentava bastante o fato de meus pais serem tão ocupados. Eu sentia tanta falta de passar muito tempo com eles. O elevador me alertou, mas ainda estávamos no terceiro andar e uma multidão invadiu o espaço. Fiquei espremida até que ele parou no segundo e no primeiro, mas sempre havia um alvoroço de gente falando 'tá cheio' ou 'ah, espera o outro'. Por fim, quando eu pensei que já estava no inferno, as pessoas iam saindo. Eu estava no térreo com todo o ar da terra.

Caminhei apressada até onde Sirius havia estacionado o carro pela manhã. Lá estava ele, encostado na porta do motorista. Perdi o fôlego com a vista. Uma perna apoiada na porta do carro e a outra sustentando no chão, ele estava de cabeça baixa mexendo no celular.

- Oi Sirius! – Falei saltitando – uma de minhas manias ridículas de infância – e abrindo um sorriso. O ar me fazia muito bem.

- Olá Luma. – Ele riu.

- Ah, me chama de Malu! – Protestei fazendo beicinho.

- Bem. – Ele passou a mão nos cabelos e deu um meio sorriso. – Eu acho 'Luma' mais bonito.

- Tudo bem, então.

- Podemos ir?

- Ah claro e por sinal desculpa a demora, tive alguns problemas durante o percurso. – Eu comentei gesticulando desnecessariamente.

- Como está sua mão?

- Bem, ela sobreviveu ao massacre dos humanos-esfomiados-com-vontade-de-ir-para-casa. – Eu falei o final involuntariamente rápido e ele gargalhou.

- O que você acha de aprender a dirigir hoje.

- Supimpa! – Eu fiquei empolgada e ele riu dessa gíria absurdamente idosa. – Mas, você não tem que estudar?

- Tenho, mas não estou com humor para isso.

- Ah, por mim tudo bem.

Entramos no carro e eu coloquei o cinto de segurança e depois ele fez o mesmo. Ficamos conversando sobre música e rapidamente nós já estávamos no nosso andar. O tempo fluía tão facilmente.

- As três está bom para você? – Ele perguntou.

- Claro, às três.

Eu entrei no apartamento sorrindo e fui para o banho.


James Potter

- Vamos, James, deixe de sonhar acordado e fazer comentários como 'Deus do céu, como ela é linda' e comece a estudar! – Emily reclamou.

- Mas...

- James, por favor, não me faça meter uma panela na sua cabeça! – Emily colocou as mãos na cintura. Sua voz era decidida.

- Tudo bem. – Eu suspirei. – Então vamos lá. Impeachment? é matéria de competência do Senado. É lei estadual que qualifica e regulamenta as eleições gerais nos estados, inclusive para deputados e senadores. Procedimentos internos são regulamentados pelo Congresso. Também é competência do Congresso matéria afeta a salários, privilégios e imunidades dos congressistas. O processo legislativo é concebido pela constituição dos Estados Unidos, fixando-se competência do Congresso em matéria tributária, orçamentária, naturalização, falências, moeda falsa, correios e telégrafos, tribunais inferiores à Suprema Corte, pirataria, guerra, exército, marinha, entre outros assuntos. – Ela fez uma pausa breve, era incrível como ela se empolgava. - Há vedação expressa de confecção de leis retroativas e de leis de exceção. Há cerca de 535 membros no Congresso norte-americano, que conta com cerca de 20.000 funcionários. Voltando-se ao texto constitucional norte-americano, proíbe-se a outorga de títulos de nobreza. Veda-se também que servidor público norte-americano receba sem autorização do Congresso qualquer emolumento, título, cargo ou prebenda de governo de outro país.

- Impeachment

- Nerd. – Revirei os olhos. – Ah, será que é sempre assim, médicos namoram advogados e vice e versa?

- James, CALA A BOCA! – Ela me acertou a borracha na cara.

- Calma, mas não se irrite!

- Quer saber? Eu desisto. – Resmungou. – Você vai estudar sozinho, na sua casa.

- Então... – Eu me revirei na cadeira sorrindo. – Vamos comer besteira e ver TV?

- É, já que você hoje não está mentalmente capaz de raciocinar. – Revirou os olhos e foi para a cozinha.


Peter Pettigrew

Na noite anterior liguei para meu pai informando que precisava conversar com ele urgentemente. Pedi sigilo, aquela altura, minha mãe já haveria esquecido a minha ideia supondo que eu estava com uma grande quantidade de álcool no sangue.

Peguei o primeiro voo da manhã para Nova York. Peguei um táxi para o prédio da empresa de meu pai. Ele tinha uma empresa de marketing, muito famosa na cidade, boa parte dos eventos da elite nova-iorquina era promovida pela Pettigrew´s Marketing e Eventos.

Entrei e fui recebido com sorrisos e acenos dos funcionários. Peguei o crachá 'visitante' e subi para o qüinquagésimo e último andar. O salão estava com uma decoração diferente, sofisticada. Diferentemente dos outros andares superlotados com pessoas se movimentando com urgência com pilhas de papeis na mão.

- Peter! – Harumi, a secretária de meu pai saltou de sua cadeira sorrindo e veio em minha direção.

- Olá, Harumi, como vai você? – perguntei gentilmente sentando-me no sofá de revestimento escuro.

- Muito bem. Faz séculos que você não aparece aqui. – Comentou. – Está tão diferente... Bonito.

- Obrigado, emagreci bastante.

Ela era uma japinha simpática. Deveria ter seus 30 anos no máximo, nunca lhe perguntei sua idade, minha mãe sempre disse que é uma grosseria perguntar a idade de uma mulher.

Tinha a pele bem clara e os cabelos extremamente lisos e pretos. Rosto redondo, com bochechas que pareciam mais duas maçãs entaladas e os típicos olhos orientais. Não era nada alta.

- Meu pai está ocupado?

- Sim. – Ela tinha um sotaque engraçado. – Deve sair de uma reunião em quinze minutos ou meia hora.

- Ah. – Rolei os olhos. Eu iria mofar ali.

- Não se preocupe, não vai demorar. Posso pedir alguma coisa para você?

- Claro! – Me animei. – Bem, eu vou querer um Big Mac, fritas grandes, McNuggets e uma coca-cola grande.

- Que apetite!

- Ah, e um McFlurry!

Não demorou muito e meu pedido estava em minhas mãos, a reunião demorou mais que os quinze minutos que Harumi havia informado. Como eu havia previsto eu estava ali a mais de uma hora, eu sabia que aquele lanche era meu almoço.

Eu estava na sala de esperas que eu ficava quando era pequeno, desenhando bobagens enquanto esperava meu pai sair do trabalho na hora do lanche da tarde para passear comigo no parque.

A porta se abriu e meu pai entrou. Era a minha versão alguns anos mais velhos com uma barriga bem saliente de bebidas.

- Oi, pai!

- Oi, Peter, a que devo a honra de sua visita? – Meu pai era irritantemente ocupado, as conversas eram objetivas demais.

- Bem. – Eu pausei e repousei a coca cola na mesa. – Não quero mais fazer administração.

- Por que, esta empresa será administrada futuramente por você.

- Mas eu quero ser jornalista.

- Tem certeza? – Ele sentou-se na cadeira giratória.

- Absoluta.

- Então, o que você quer que eu faça? – Isso era frio da parte dele.

- Consiga uma vaga em Princeton, Harvard ou Yale para mim.

- Tudo bem, vou ver o que posso fazer, mas e o apartamento?

- Bem, eu posso visitar os garotos um fim de semana sim outro não.

- Claro. – Ele ficou de pé. – No jantar de dou uma resposta, agora preciso ir trabalhar.

- Obrigado, pai.

Mas ele já estava fora.


Luma Schmidt

Estava sozinha em casa, isso era um péssimo sinal. Eu teria que preparar meu almoço ou pedir alguma coisa, considerando o caos ambulante que eu sou. Era mais racional fazer o uso do telefone caso eu não quisesse ver dez viaturas do corpo de bombeiros com mangueiras no térreo apagando as chamas.

Peguei o catálogo e disquei para o Mcdonalds e pedi um Premium Salad Grill e um Frappé de frutas vermelhas. Fui para o banheiro e tomei um banho demorado, lavando os cabelos com meu xampu 'Berry Kiss' da Victoria Secrets. Vesti um roupão de toalha e fui secar os cabelos.

O barulho do interfone me fez parar de secar e moldar os cachos e fui pegar meu almoço. Às duas e quarenta eu estava pronta, olhando impaciente para o relógio.

Escolhi uma calça jeans clarinha, uma blusa preta de mangas curtas com alguns detalhes discretos e um All Star prateado, me parecia confortável o suficiente para aprender a dirigir. Meus cabelos estavam soltos, ainda úmidos, mas definidos exalando o aroma suave de framboesa.

Sai dez minutos antes do combinado e fiquei esperando o elevador que estava no sétimo andar. Não demorou muito e o já conhecido barulho soou em meus ouvidos. Fui direto para a garagem no subsolo e procurei pelo carro prateado.

Exatamente na hora combinada ele apareceu com as chaves na mão, estávamos com roupas de cores semelhantes, exceto pelo tênis dele que eram brancos.

- Ah, qual é, Luma, você está me imitando! – Ele riu.

- Lamento, espero que você ainda tenha aquelas botas rosa pink para irmos iguais para Hogwarts amanhã.

- É obvio que eu tenho. – Desmunhecou a mão. – Minha peça favorita! – Nós gargalhamos.

- Você não existe, Sirius. – Revirei os olhos.

- Claro que existo. – Fez-se de ofendido. – Você esta falando comigo.

- Oh. – Revirei os olhos de novo.

- Então, vamos indo?

- Claro. – Sorri.

- Bem, vamos para algum subúrbio, é melhor você não aprender com tantos carros.

- Sim.

Entramos no carro e colocamos os cintos de segurança. Sirius ligou o som que estava sem música e conectou com seu Ipod. A primeira música que tocou era conhecida para mim, Cold Play, Yellow.

- Ah, adoro Cold Play! – Comentei entusiasmada.

- Eles são ótimos. – Ligou o carro. – Temos gosto musical bem semelhante.

Ele dirigiu para fora da cidade, como sempre ultrapassando os limites de velocidade, mas ele estava mais prudente pela cidade. Quando alcançamos um lugar menos movimentado, o velocímetro aumentou consideravelmente. Era gostoso ver as arvores passando como um borrão aos meus olhos.

Começamos conversando sobre música, cores, hobbies, família e depois o assunto alcançou o lado pessoal. O lado romântico, amoroso, desastroso. Era tenso ir fundo nessas feridas recém-abertas.

- É ótimo ser filho único. – Ele comentou distraído. – Principalmente para mulheres, deve ser ótimo não ter irmãos mais velhos implicando com os namorados. Os pais já devem ser suficientemente estressante para lidar.

- É. – Meu vocabulário estava escasso.

- Então, você está namorando?

- Não. – Eu me encolhi no banco. A voz fora um fiasco. Eu não queria falar de romances de minha vida amorosa catastrófica.

- Hum... – Ele percebeu meu tom de voz morto. – Eu nunca namorei.

- Hein?- Ergui uma sobrancelha e me virei para olhá-lo.

- Bem... – Ele tirou uma mão do volante e passou nos cabelos.

- Não ouse a tirar a mão do volante! – Eu falei depressa, assustada e ele gargalhou.

- Bem, eu nunca namorei sério. – Ele corrigiu-se. – Não de conhecer pai e mãe essas coisas todas.

- Ah. – Foi a única coisa que saiu. – Por quê? – Era melhor jogar o foco da conversa nele.

- Não sei. – Deu de ombros.

Então ele parou o carro. Estávamos em um lugar que eu não conhecia, mas não sentia curiosidade de saber qual era. Uma parte não tão movimentada parecia um bom lugar para aprender. Por sorte, não tinham tantos postes, nem ônibus e carros assim.

- Acho que aqui está bom. – Ele freou suavemente. – Pronta?

- Sim.

Então ele começou a me passar as informações básicas, aparentemente, era algo bem simples. Depois de meia hora de aula teórica o estalar do cinto de segurança dele era um aviso para eu fazer o mesmo e começar a praticar. Fui para o banco do motorista e coloquei de imediato o cinto – Eu não queria sair voando pela janela.

- Então, você entendeu tudo?

- Yeah. – Eu fiz uma pausa. - Embreagem, primeira marcha, acelerador...

- Ótimo.

'Ótimo mesmo' Eu pensei, eu realmente esperava não bater em nada, pois eu não queria que doar meu carro novo para reparar os dados feitos a este.

Pisei na embreagem e chequei se o banco estava confortável e os espelhos e retrovisores estavam legais. Depois eu girei a chave do carro na ignição e o motor suave ganhou vida. Afundei o pé na embreagem e coloquei a primeira marcha, pisando levemente no acelerador eu tiro o pé da embreagem até achar o ponto de alguma coisa e desaperto o freio de mão. Seta para a esquerda e vejo se está vindo carro, por sorte, não. Saio lentamente pela rua.

Então eu tirei o pé da embreagem, acelerando mais, o carro arrancou. Eu tirei o pé do acelerador prá pisar na embreagem para trocar para a segunda marcha, solto a embreagem e piso no acelerador com mais força.

Eu avistei a placa PARE, pisei lentamente o pé no freio afundando na embreagem. Seta para direita, passo para a primeira marcha e olho pelo retrovisor um ônibus passando, ali era uma avenida movimentada. Daí passou o ônibus, depois um carro, outro carro e mais outro. Passei pelo menos meia hora esperando, quando o sinal fechou pela sétima vez, eu tirei o pé do freio e pisei de leve no acelerador, entrando na avenida.

Andando pela avenida um ônibus que vinha da outra rua passou em nossa frente. Eu pisei na embreagem e tirei o pé do acelerador, coloquei para a segunda marcha ficando atrás do ônibus. O sinal fechou e eu afundei o pé no freio. Sirius arregalou os olhos.

O carro morreu – acho que esse é o nome. – Pisei na embreagem e coloquei em ponto morto, tiro o pé da embreagem depois liguei o carro e tirei o pé novamente da embreagem passando a primeira marcha e pisando no acelerador. Os pneus cantaram escandalosamente. Eu não vi, mas tinha uma pomba atravessando a rua – não exatamente atravessando no sentido literal da palavra, estava parada. Eu freei, mas foi tarde demais, a pomba morreu.

- Ah, meu Deus! – Eu exclamei batendo a cara no volante com o impacto da freada.

- Calma, Luma, você está bem? – Ele não parecia ter sido lançado janela a fora.

- Eu sou uma... – Eu estava em choque. – Eu sou uma assassina!

- Hei. Foi uma... Fatalidade.

- Eu vou para o inferno. – Eu não ia dormir hoje.

- Luma, eu acho melhor eu dirigir de volta.

- Claro. – Falei com os olhos fixos no asfalto.

Trocamos as posições do banco. Agora ele dirigia, fazia aquela maquina dançar graciosamente pela pista. Eu estava quieta, pensando na vida que eu havia tirando injustamente. Era uma pomba, uma vida que não merecia ter acabado por uma destrambelhada sob quatro rodas.

- Hei, vamos comer alguma coisa. – Ele falou preocupado. – Mcdonalds?

Certo que seria a minha segunda refeição do dia lá, mas tudo bem.

- Pode ser.

- Não fique se culpando, não foi culpa sua.

- Claro.


Sirius Black

Trocamos de lugar. Agora, eu tinha o total controle do volante, ou seja, não sairíamos por ai com o carro maluco. Ela dirigia muito mal, mas eu não a culpava, era sua primeira vez em um carro que tem uma aceleração muito rápida. Ao menos, eu estava feliz por ela não ter batido em nenhum poste.

Não me sentia desestimulado a ensiná-la, era divertido passar o dia com ela. Eu tinha plena consciência de que ela era capaz de, modesta parte, dirigir como eu. Luma estava histérica, em estado de choque com o incidente da pomba. Talvez ela tivesse um espírito ambientalista, mas eu ainda estava satisfeito por não ter sido nem um poste ou uma pessoa.

Eu estava preocupado, ela estava muito calada, triste. Eu, definitivamente, não gostava de vê-la assim. Estava encolhida no banco, olhando pelo retrovisor, olhar vazio. Talvez ela precisasse de açúcar, gordura. Esses tipos de coisas que mulheres gostam quando estão deprimidas. É, eu estava ficando bom nisso.

- Hei, vamos comer alguma coisa. – Eu falei preocupado. O primeiro lugar com todos esses tipos de coisa. – Mcdonalds?

- Pode ser. – Ela falou sem se importar muito.

- Não fique se culpando. – Eu disse começando a ficar chateado por ela estar se culpando. - Não foi culpa sua.

- Claro. – Falou descrente.

Se ela continuasse se lamentando pela pomba intrusa, eu iria dar bons cascudos nela. Dirigi mais um pouco e meu celular quebrou o silencio. Luma deu um meio sorriso com o toque "ben... ben..". Isso é resultado de uma pessoa viciada em Two And A Half Man.

- Luma, olha, por favor, quem é. – Pedi. O celular estava entre os dois bancos.

- Hum... '666'. – Ela fez uma careta.

- Ah, é minha mãe. – Eu revirei os olhos e ela prendeu o risinho. Fiquei feliz por fazê-la sorrir. – Com licença.

Encostei o carro e atendi.

- Oi, mãe. Tudo bem?

- Ah, querido, graças a Deus você atendeu. Por sorte você não está enfurnado em um motel com qualquer uma que você encontrou na esquina... – Sua voz era rouca, como se tivesse passado a noite inteira chorando. Minha mãe costumava ter crises depressivas e descontava em mim. Na verdade, ela ficava carente.

- Mãe... – Meu tom foi de alerta. Eu não ia escutar calado. – Pode ir direto ao assunto?

- Querido, você precisa vir para Nova York, urgente.

- Não posso. Mãe, eu tenho aula! – Interrompi. – Eu não posso simplesmente está me locomovendo daqui para Nova York todas as horas!

- Querido, sua bisavó, entrou em coma esta manhã. – Eu podia até ver a cor se esvaindo do meu rosto.

- Como ela está?

- Mal, os médicos não têm muitas esperanças.

- Tudo bem, eu vou pegar o primeiro voo para ai. – Eu desliguei o telefone, frustrado.

Abaixei a cabeça, encostando-a no volante, passei a mão nos meus cabelos tão negros quanto o nosso nome. Me distraí em meus pensamentos.

Minha bisavó querida. Violetta Bulstrode Black. Era da terceira geração da família Black, a que acreditava que éramos sangues puros, descendentes da nobreza inglesa. Naquela época, primos casavam com primos. Meu bisavô, Cygnus Black, não se casou com prima, mas Violetta fazia parte da nobreza também.

Vovó já estava com noventa anos, mas completamente lúcida. Para mim, ela era o verdadeiro exemplo de determinação e superação. Ela sempre sorria, estava lendo, andando nos chás com suas velhas amigas. Ela não namorou nenhum coroa enxuto, mas ela era feliz. Eu adorava visitá-la em sua casa de campo. E agora ela estava em coma, mal. Uma nostalgia passou por mim.

"Sirius! Saia já daí, você não é um macaco!" Eu me lembrei do dia em que ela me encontrou pendurado em uma árvore na casa dela.

Fechei os olhos e respirei fundo. O aroma de framboesa era delicioso. Levantei a cabeça olhando para frente, com o olhar vazio, perdido em memórias.

- Sirius, você está bem? – Luma me trouxe ao presente, lembrando-me que ela estava ali. – Você está muito pálido! Aconteceu alguma coisa?

- Minha bisavó. – Eu suspirei girando a chave na ignição. – Ela entrou em coma.

- Oh, Deus! – Ela levou as mãos ao meu ombro, um gesto carinhoso com um olhar significativo. Aquele olhar significou muito, eu sabia que podia contar com ela nesse momento difícil.

- Obrigado. – Dei um meio sorriso. – Luma, eu preciso ir para Nova York, se importa de eu te deixar em casa logo?

- Claro que não.

- Ah, o jogo sábado. – Eu queria tanto ir. – Bem, eu duvido que eu volte a tempo, não ficará chateada?

- Claro que não, Sirius, não seja tolo! – Ela fez uma pausa. – Você tem que ir ficar com a sua família. Nesse caso eu vou no sábado de manhã para Nova York para a casa de meu pai. Ele me ligou pela manhã, querendo que eu fosse na sexta, mas eu não podia e sábado eu ia sair com você, então vou antecipar minha visita.

- Urrum, quem sabe agente não se esbarra por lá.

O resto do caminho foi silencioso. Ela não tirou a mão do meu ombro, estava distraída fazendo círculos involuntários sob a camisa. Fiquei grato por ela estar comigo. Dirigi mais devagar do que eu estava acostumado, estava conturbado, não queria que acontecesse nenhuma tragédia.

Chegamos ao edifício, não estacionei no subsolo, eu iria sair em breve. Pegamos o elevador e fomos direto para a cobertura.

- Sirius. – Era a voz mais doce e angelical que eu conhecia. – Saiba que apesar do pouco tempo que agente se conhece, você pode me considerar uma amiga. Conte comigo no que você precisar.

- Obrigado, Luma. – Eu dei um sorriso torto. – Me dá seu telefone, para eu te ligar quando sentir falta das suas maluquices e para ter certeza de que você conseguiu passar o final de semana sem sofrer nenhum acidente.

Ela me mostrou a língua, feito uma criança de cinco anos. Trocamos os números.

- Até logo. – Beijei sua testa – Comporte-se.

Entrei no apartamento, estava vazio, como eu imaginava. Entrei no quarto e liguei para o aeroporto e reservei uma passagem enquanto preparava uma mala para quatro dias. Deixei um recado na porta da geladeira "Precisei viajar para Nova York, me liguem. S" e fui para casa.


Remus John Lupin

O sinal tocou às seis e trinta da noite. Eu estava exausto. A tarde inteira foi prática de anatomia. Eu havia sido nomeado monitor.

- Ei, Remus! – Eu escutei uma voz em meio a multidão. Era Edward. Parei para que ele pudesse me acompanhar.

- Fala, Edward. – Eu dei um sorriso amigo.

Edward fora meu monitor no primeiro ano, agora ele estava no sétimo período. Era um cara legal, as vezes, saímos depois das aulas para beber alguma coisa em um pub com os demais colegas. Edward não bebia, normalmente, ele sempre se encarregava de deixar as pessoas que extrapolavam.

Apesar de todo o 'camaradismo', eu tinha que admitir que ele era muito estranho. Bem, todas as garotas simplesmente só faltavam desmaiar pelos corredores quando ele passava, mas Edward estava sempre sozinho. Talvez, a opção dele fosse pelo mesmo sexo. Eu não achava errado, errado é se meter na felicidade das pessoas, mas, eu, se tive todo o ar de galã de Hollywood, certamente, pegaria todas as garotas de Hogwarts.

- Então, amanhã, sexta dos amigos? – Ele me perguntou. Já começávamos a andar pelo corredor abarrotado de gente.

- Não sei, eu estava pensando em sair com minha namorada. – Falei.

- Ah, você está namorando? – Perguntou surpreso.

- É. – Eu ri.

- Uh uh. – Ele revirou os olhos. – Bem, caso mude de ideia, você avisa amanhã.

- Tudo bem, vai o pessoal do sétimo período? – Perguntei por curiosidade.

- É, talvez dois ou três do nono. – Deu de ombros. – Bem, vou pegar as escadas do leste, meu carro está para o outro lado.

- Tudo bem, vejo você amanhã.

Desci pelas escadas, tentar o elevador era o mesmo que suicídio social. Vinte minutos eu já estava no térreo respirando o ar gelado da noite e o cheiro de café do 'Café expresso'. O bloco de medicina tinha que se orgulhar, tínhamos o melhor café de todos os blocos. É, era preciso um café bom e forte para reanimar os ânimos dos alunos que sempre viravam noites aos livros.

Fui para o meu carro que estava estacionado não muito longe. Coloquei minha mochila e o jaleco sob o capô e comecei a procurar pela chave que estava no bolso interior. Entrei no carro e coloquei a chave na ignição, pus o cinto de segurança e liguei o som. Rock pesado me parecia legal. Girei a chave o motor grunhiu e depois morreu.

- Ah, vamos lá. – Resmunguei para a máquina e girei de novo, o motor apelou. – Vamos, não me deixe na mão...

Mais algumas tentativas e nada aconteceu.

- Puta que pariu! – Xinguei batendo as duas mãos no volante, sem querer bateu na buzina.

Sai do carro e tranquei. Emily não estava no campus, nem Sirius, James ou Peter. Pedir um táxi para me buscar dentro do prédio demoraria um século. Resmunguei mais alguns palavrões e sai caminhando até a entrada principal que daria para a pista. Amanhã eu chamaria o mecânico para consertá-lo enquanto estivesse na aula e pegaria uma carona com James.

Caminhei mais um pouco pela calçada do canteiro e logo ouvi uma buzina e um carro encostando ao meu lardo. Um Porshe amarelo estacionou, a pessoa abaixou o vidro.

- Hei, Remus! – Não dava para ver o rosto, mas a voz era feminina. Olhei melhor, os cabelos vermelhos vibrantes não negavam, era Amy. – Está sem carro?

- É, aquela porcaria acabou de pifar. – Resmunguei. – Amanhã vou chamar um mecânico.

- Anda, entra, eu te deixo eu casa.

- Meu deus, Amy, você é um anjo!

Entrei no carro.

- Ah, desculpe a bagunça, não tive tempo de arrumar.

Estava cheio de papeis de chiclete na sacolinha ao lado da marcha e duas latas de refrigerante.

- Não se preocupe. – Eu dei um sorriso. – Isso acontece sempre comigo, aliás, obrigado pela carona.

- Imagina, não é incomodo algum. - Eu dei um sorriso. – Ah, você não se importa, eu preciso parar para comprar, sabe como é morar só. Eu tenho certeza que Luma não fez nada, aliás, eu espero que ela não tenha tentado fazer nada, ela é simplesmente catastrófica, tenho medo até de pensar que ela colocou fogo no prédio. – Eu gargalhei depois que ela terminou o monologo dela.

- Bem, nesse caso, eu também espero que ela não tenha tentando fazer nada. – Pisquei para ela. – Então, porque agente não toma um café, daí eu já compro o estoque para minha noite de estudos.

- Ah, de boa!


Amy Meester

Eu nem acreditava que ele estava ali no meu carro. Parece que o cara lá de cima estava disposto a me ajudar com o meu plano de ficar com Remus. Luma diria, "É, às vezes, a sorte lhe sorri". Tentei não dar um grito histérico de felicidade, provavelmente, ele pularia a janela achando que eu estava tendo um acesso de loucura e isso não seria nada útil.

Nós iríamos jantar, na verdade, comprar coisas em um café para comer em casa, cada uma na sua, mas mesmo assim, estava satisfeita por ele estar ali comigo. Seu cheiro era muito inebriante.

Eu parei em um café que ele apontou. Sozinha, eu tinha certeza absoluta que jamais encontraria um tão perto de casa sem passar pelo menos uma hora rodando pela rua. Isso era um sinal dos meus péssimos reflexos, ainda mais com certas companhias ao meu lado.

Comprei croissants e chocolate quente, era uma comida apropriada para a manhã, mas eu adorava croissants. Remus pediu três cappuccinos e dois cafés expressos. Eu fiquei abisma com a quantidade de cafeína que ele pretendia digerir naquela noite.

- Você vai beber todos esses cafés? – Perguntei boquiaberta.

- Sim, eu preciso estudar. – Ele riu. – Daqui a algumas semanas você vai ver o que é isso, aliás, quer um conselho? – Antes que eu o respondesse, ele falou. – Não acumule assunto, isso é péssimo.

- Obrigada pela dica. – Dei um sorriso 'eu tenho 32 dentes'. Feliz por ele se preocupar em me repassar essa dica, mesmo ela sendo um tanto óbvia. – Agente poderia aproveitar e jantar junto, hoje. Você deveria comer alguma coisa antes de beber isso tudo. – Sugeri.

- Tipo um encontro?

- É... – Respondi de imediato, afobada e animada. Ele ergueu uma sobrancelha com meu entusiasmo. Droga, Amy, com calma. – De amigos. – Acrescentei cautelosa, vendo a expressão dele.

- Bem, seria bacana agente conversar, mas eu realmente preciso estudar e adiantar os assuntos para sair com minha namorada amanhã a noite ou com os amigos da faculdade.

- Ah, namorada, claro. – Engoli seco. – Tudo bem, fica para a próxima. – Dei de ombros, fingindo não estar interessada.

- Claro, claro. – Concordou balançando a cabeça.

Pagamos e saímos do café com sacolas com um cheiro delicioso. Entrei no carro e coloquei cautelosamente no banco de trás o meu jantar. Ele entrou parecendo um Deus, colocou o cinto de segurança e seu estoque de café sob as pernas. Perdi o ar.

Comecei a dirigir em silêncio, a única coisa que se ouvia era Scorpions. Fiquei perdida em meus pensamentos. Ele tinha uma namorada, isso não ajudava as coisas. Certamente era aquela morena, razoavelmente simpática do jantar. A idéia de uma concorrência não me deixava feliz, pois eu tinha que admitir: ela era bonita.

Depois me lembrei da noite anterior, eu estava furiosa com minha companheira de apartamento, Luma. Ela fora extremamente grossa comigo, estar chateada com alguma coisa não dava o direito dela ter me tratado daquele jeito. Fechei a cara.

- Então, você está namorando? – Ele perguntou distraído.

- Não, ainda não achei a pessoa certa. – Menti. – Aliás, encontrei, mas ele não está disponível, infelizmente.

- Ah. – Foi a única coisa que ele respondeu.

- Remus, você sabe onde tem algum pet shop?

- Claro. – Ergueu uma sobrancelha.


Isabela Benson

Depois da aula Emily foi me buscar em meu bloco. Atrasada quinze minutos, eu odiava ter que esperar. Almoçamos em casa a lasanha que ela colocou para assar no microondas. Não trocamos muitas palavras, só o necessário. Ela mencionou estar namorando com Remus, não dei muita importância, achei que demoraram até demais.

Trancafie-me em meu quarto para estudar a matéria do dia. Às duas horas, ouvi o interfone tocar, não demorou muito para a voz e risadas de James ecoarem pela casa. Eles iam estudar. Deitei na cama para ler um dos vários livros de história da arte, era insuportavelmente tedioso. Algum tempo depois – menos do suficiente para estudar alguma coisa – a TV estava ligada e o cheiro de pipoca exalava no ar. É "estudando", eu adoraria estudar assim.

Narcisa e Bella me chamaram para uma boate hoje, mas tive que rejeitar, isso tornou o meu péssimo humor algo estressante para Emily. A leitura 'interessante' fez meus pensamentos vagarem para Sirius Black. Não era necessário nenhum esforço ou uma leitura pavorosa para minha mente se distrair em seu rosto angelical. Então tive uma idéia.

Emily costumava ter enxaquecas freqüentes, principalmente quando estava de TPM. Seu remédio era extremamente forte e eu era alérgica a ele. Descobri no primeiro ano que eu não deveria tomá-lo caso eu não quisesse parar no hospital. Aquilo seria perfeito! Sirius não ia se recusar de me ver caso eu estivesse muito mal.

Então fui andando a passos lentos até o quarto de minha irmã, peguei o remédio e voltei para o meu quarto. Bem, já que eu estou indo para o inferno, é melhor fazer bem feito, então tomei os dez comprimidos que restavam na cartela.

Sentei-me para aguardar o efeito do remédio. Já era noite, eu pude ouvir James indo embora algum tempo depois que eu ingeri os comprimidos. Acho que meia hora se passou e eu começava a sentir os danos de tanto medicamento em meu estômago.

Uma náusea profunda tomava conta de mim, eu sentia que a qualquer momento eu poderia colocar todo o meu almoço para fora. Não importava, ele iria me ver. Então minhas pernas ficavam bambas e depois começaram a ficar dormentes. O mundo girava, eu estava péssima, sentindo que iria morrer a qualquer momento, mas antes de morrer eu precisava falar com ele. Então, por um impulso, disquei para Sirius.

- Alô? – Ele atendeu com aquela voz linda.

- Sirius? – Minha voz era grogue, horrível. – Sirius, preciso de você, não me sinto bem, acho que ou morrer...

- Não estou em Chicago. – Bufou. – E quer parar de fingimento só para que eu vá vê-la?

- Eu te amo muito, eu preciso de você ao meu lado. – Tudo girava mais e mais. – Não é justo que você me troque por aquela sonsinha, dondoca... Eu te amo mais que ela, ela não o merece...

- Isabela... – Tom de alerta.

- Sirius, está tendo um terremoto... Fuja! – E estava mesmo. – Tá tudo giran...

E tudo ficou preto.


Amy Meester

Dirigi em silêncio entretida em meus pensamentos maléficos. Eu estava tentando não rir diabolicamente para não assustar a carona. Acelerei pelo trecho conhecido e cheguei no prédio.

Não desatei o cinto de segurança como Remus fez, ele me olhou curioso, esperando que eu fizesse algo, mas não fiz nada além de dar um sorriso.

- Você não vai descer? – Ele me perguntou.

- Não. – Eu continuava sorrindo, radiante. – Eu tive uma idéia, vou ao pet shop.

- Odeio gatos, sou alérgico. – Fez uma careta.

- Ah... – Eu amarrei a cara.

- Bem, obrigado pela carona. – Sorriu mostrando aquela arcada dentária perfeita. Suspirei.

- Não foi incomodo. – Ao contrário, um prazer. – Amanhã se precisar de carona...

- Ah, não, obrigado. – Fez uma pausa, eu murchei. – Vou com o mecânico para entregá-lo a chave.

- Tudo bem. – Dei de ombros.

- Boa noite.

- Boa.

Quando ele saiu, acenou e eu arranquei com o carro dali. Fui ao salão de beleza, o mesmo que tinha pintado de ruivo, eu tivera uma idéia genial. Depois do salão, com cabelos renovados, fui ao pet shop.


James Potter

Eu estava agitado demais para estudar. Então Emily e eu preferimos ver um filme, comer pipoca e conversar besteira. Depois, em nossas respectivas casas e mesas de estudo, seriamos capazes de colocar toda a matéria em dia.

- Ah, James, quer mais pipoca?

- Não, Emily, obrigado. – Coloquei-me de pé e peguei meu copo e o recipiente onde estava a minha pipoca. – Eu vou para casa, vou tomar uma ducha gelada e vou repassar a matéria.

- Eu realmente espero que você consiga estudar. – Ela revirou os olhos, depois me olhou séria e falou com um toma maduro, maternal. – Não acumule assunto, a não ser que você queira ir para a reavaliação.

- Tudo bem, eu não irei acumular assunto. Não se preocupe.

Ajudei a lavar a louça que havíamos usado e depois a guardá-la. Já conhecia aquele apartamento como se ele fosse meu, exceto pelo quarto de Isabela. Fomos para a frente do pequeno apartamento que fazia parte daquele conjunto residencial enorme.

O céu já estava escuro, as luzes dos postes iluminavam a ruazinha bem arborizada. Beijei sua testa e entrei em meu filho – meu carro – e acelerei até a guarita e fiz uma pausa para telefonar.

- Alô? – A voz suave e angelical atendeu ao telefone.

- Lily, querida, que saudades de você.

- Oi, James, também sinto saudades. – Ela suspirou. – Mas eu preciso muito estudar.

- Eu também. – Pausei e comecei a dirigir. - Vou virar a noite estudando.

- Então, podemos nos ver na pausa para o lanche. – Ela sugeriu animada.

- Será ótimo, as duas na cobertura?

- Claro. Ah, James, vou desligar, preciso dirigir.

- Tudo bem, até mais tarde.

- Até.

Ela não desligou.

- Lily?

- Sim?

- Eu amo você.

- Eu também o amo.

Eu desliguei e comecei a dirigir mais rápido, o telefone tocou. Encostei o carro e olhei no visor 'Sirius'.

- Já estou chegando em casa, não se preocupe. – Falei por antecipação.

- Não estou em casa. – Sua voz estava séria. – Estou em Nova York.

- Sério? – Me espantei, ele não gostava de visitar os parentes em NY. – Aconteceu alguma coisa?

- Sim. – Suspirou. – Minha bisavó entrou em coma esta manha.

- Como ela está? – Fiquei extremamente preocupado, adorava a Sra. Violetta.

- Mal. – Murmurou. – Mas liguei por Isabela, acho que ela desmaiou.

- Sério? – Ergui uma sobrancelha. – Acabei de sair de lá.

- Então aquela idiota estava mentindo..

- Mas... – Eu considerei. – Ela passou a tarde inteira trancada no quarto.

- Tudo bem, informe a Emily, talvez seja sério. – Sirius resmungou. – Qualquer noticia que eu tiver aqui eu te ligo.

- Claro, claro. – Balancei a cabeça. – Melhoras para vó Violetta.

- Obrigado.

Desliguei o telefone e liguei imediatamente para Emily. No terceiro toque.

- Oi, James, esqueceu alguma coisa?

- Não. Sirius acabou de ligar, falando que Isabela estava passando mal.

- Está?

- Não sei. Ele disse que talvez ela pudesse estar desmaiada.

- Eu vou olhar isso.

Escutei os barulhos de passos e Emily chamando pela irmã.

- Ah não! – Ela exclamou do outro lado da linha. – Sua imbecil, você estava tentando se matar!?

- Emily?

- James, por favor, me ajuda! – Ela estava chorando. Liguei o carro e fiz o retorno. – O que aconteceu?

- Essa idiota tomou comprimidos que ela é alérgica! Dez comprimidos!

- Já estou indo aí.

Desliguei o telefone e acelerei mais. Em dez minutos eu já estava de volta ao condomínio. Sai rápido do carro e bati na porta, Emily correu para abri-la.


Luma Schmidt

Assim que cheguei ao apartamento vazio, ascendi as luzes e fui para o meu quarto. Ele estava tão arrumado, que me assustei, mas isso era apenas um sinal de quase eu não ficava ali. Tomei um banho quente e vesti um roupão vermelho. Peguei minhas roupas sujas e fui até a área de serviço para colocá-las na máquina de lavar roupas.

Eu fui para a cozinha arrastando meu notebook comigo. Coloquei a música no volume alto, mas nada que incomodassem os vizinhos. Eu tinha que estudar, eu não poderia simplesmente deixar tudo para as vésperas de prova. Peguei os cadernos e preparei um chocolate quente e comecei a estudar na bancada da cozinha ao som de Debussy.

Estava há quase três horas compenetrada na arte pré-histórica, quando a porta da sala se abriu. Não me importei com quem chegava, não até meu nariz arder em chamas e a garganta se fechar, imediatamente eu comecei a espirrar. Para poder falar, prendi o nariz com as mãos, minha voz ficaria anormal.

- Oi, Luma! – Amy chegou contente a cozinha com uma bola de pelos na mão. – O que achou de meu cabelo?

Seu cabelo estava diferente. Ela tinha cortado e pintado de novo, mas desta vez, estava ridículo. Em camadas, o ruivo vibrante, cor de sangue, dava lugar a um vermelho desbotado e a camada mais longa era de um laranja cenoura também desbotada, quase amarelo.

- Seu cabelo está... – Procurei uma palavra não tão ofensiva ao ego dela, mas eu não sabia mentir. – horrível. – Fiz uma careta.

- Oh. – Ela me fuzilou com os olhos. – Sabe o que é isso?

Balancei a cabeça negativamente. De fato eu não sabia o que era.

- Inveja. – Eu abri a boca e franzi a testa. – É isso mesmo. Inveja, porque você não sabe ousar.

- Ah, claro. – Revirei os olhos.

- É, você vai ser sempre a Barbie renegada que quer ser comum.

- Ousar, não significa parecer que atearam fogo no cabelo. – Fiquei de pé. – Ah, sim, o que você faz com essa bola de pelos no apartamento? Eu sou alérgica!

Espirrei.

- E daí? – Deu de ombros.

- E daí? – Repeti incrédula, terminando com outro espirro. – E daí, que eu moro aqui também e não mereço viver com alergias constantes só por causa do seu capri... – Espirrei de novo, já havia destampado o nariz por estar com falta de ar. – capricho de der essa coisa peluda e nojenta em casa.

- Essa coisa peluda e nojenta. – Me encarou. – Brucomela é uma gata da raça Persa.

- A peste mais peluda que tinha você resolveu comprar, não é? – Agora eu a fuzilava com os olhos.

- Não me interessa se você é alérgica, ela vai morar aqui.

- Vai uma ova! – Bati a mão no balcão.

- Se eu fosse você, eu iria logo comprar o remédio de alergia. – Deu de ombros e foi para o quarto.

O sangue subiu a cabeça, eu queria quebrar tudo que tinha ali naquela casa e atirar a gata pela janela. Então eu me lembrei da pomba e me encolhi no banco, eu não havia feito um funeral para ela. Senti-me uma péssima pessoa por isso, eu não havia prestado socorro. Eu ia precisar de mais açúcar.

Preparei mais chocolate quente e me sentei, esperando minha raiva diminuir, o que não aconteceu. Fui andando para o quarto, talvez um banho ajudaria, mas a gata estava no corredor. Era de propósito, nada além disso. Amy estava p. da vida comigo pela noite passada e, por isso, ela resolveu se vingar. Tão típico dela. Trancada no quarto com seu "animalzinho" de estimação do lado de fora.

Peguei a gata pela coleira e espirrei bastante, mas com a outra mão bati com ferocidade na porta do quarto. Ela abriu instantes depois.

- Ponha... Essa coisa dentro do... Seu quarto. – Houve uma sequencia de espirros. Era quase uma orquestra sinfônica. – Eu não tenho obrigação de aturá-la.

- Estou ao telefone, ela está miando, isso atrapalha no momento.

- Ah, é? – Cerrei os olhos. – Bem, pois ela vai miar mais ainda. – Andei com a gata até a sala e gritei. – Reze para ela realmente ter sete vidas, afinal, estamos acima do décimo andar!

- Não se atreva! – Ela saiu correndo do quarto.

A maçaneta girou e Lily entrou no apartamento e nos fitou incrédula. Fechou a porta e colocou as coisas depressa no sofá e parou perto de nós.

- O que é isso? – Perguntou séria.

- Essa idiota quer matar a minha gata! – Amy acusou.

- Ah é? – Eu jurava que as veias de meu rosto explodiriam. – Essa sonsa trouxe essa gata para casa sabendo que eu sou alérgica. Para completar a palhaçada, ainda tem o atrevimento de se trancar no quarto e deixar essa coisa do lado de fora!

- Ah. – Lily suspirou. – Amy, o que diabos você fez nesse cabelo?

- Uru hú. – Comecei a dar pulinhos e girar no lugar fazendo cara de deboche. – Eu não disse que estava horroroso?

- Cale a boca.

- Isso me parece um sim. – Debochei ainda com a gata na mão. Houve mais um espirro.

- Bem... – Lily revirou os olhos com a minha dançinha e acrescentou mudando sua expressão para séria. – Amy, você precisa devolver a gata. Luma é alérgica e eu não acho gatos higiênicos, são duas contra uma.

- Eu não vou devolvê-la.

Tomou a gata da minha mão e foi para seu quarto.

- Droga. – Lily murmurou tateando o bolso da calça. Pegou o telefone e o atendeu. – Oi James. – Pausa. – Isabela? Arrã. – Outra pausa. – Sei, coitada, está bem? Ah, sei... Eu estou indo ai.

Ela desligou.

- Aconteceu alguma coisa? – Perguntei.

- Sim. Isabela, irmã da Emily, foi internada por ingestão descontrolada de medicamentos que ela é alérgica.

- Que maluca!

- É. – Ela suspirou e olhou para o relógio. – Vou lá fazer companhia ao James e a Emily que estão lá sozinhos. Que ir?

- Não. Odeio hospitais. – Fiz uma careta. – E os visito muito frequentemente.

- Tudo bem. – Lily revirou os olhos. – Tente se manter longe de confusão. – murmurou olhando para o corredor. – Enquanto eu estiver ausente.

- Tá. – Rolei os olhos para o teto e suspirei irritada.


Lily Evans

Eu estava exausta, mas sabia que quando eu começasse a trabalhar seria assim. Chegar em casa cansada do trabalho e eu receberia telefonema por alguma emergência. Ao menos estava me acostumando com minha futura rotina.

Dirigi cautelosamente até o hospital que James indicou, não foi difícil de achar, eu já estava me acostumando com o trânsito local. Fiquei feliz por isso.

O hospital estava lotado de médicos e enfermeiros andando ou correndo de um lado para o outro. Respirei aquele "cheiro de hospital" que era simplesmente éter. O saguão de espera estava muito cheio de pacientes a espera de atendimento. Passei direto para a recepção.

- Boa noite. – Saudei educadamente. – Por favor, onde fica o apartamento 302?

- Boa noite. – Deu um sorriso mau-humorado. – Vá até o final deste corredor e vire a esquerda e depois no primeiro corredor à direita e siga até o final para o elevador e vá até o terceiro andar. Pegue o corredor a direita e procure o apartamento.

- Obrigada. – Dei um sorriso torto, repassando as informações mentalmente.

- A Srta é médica? – Ela me perguntou tentando ser simpática.

- Ainda não. – Dei um sorriso reluzente.

- Ah. – Ela virou-se para atender outro paciente.

Não foi difícil encontrar o lugar onde eles estavam. Emily estava com os olhos vermelhos e com a cara de pura irritação, James lhe servia algum chá.

- Boa noite! – Falei quando eu cheguei. – Como ela está?

- Fazendo uma lavagem gástrica. – Emily resmungou.

- O que ela tomou? – Perguntei interessada no quadro clinico.

- Cefaliv. Meu comprimido para dor de cabeça. – Bufou.

- Quantidade?

- 10 comprimidos.

- Uau.

- Parentes da Srta. Benson? – Um homem de branco chegou para nós.

- Sim. – Emily ficou de pé. – Sou irmã dela.

- Ela já está no quarto. – Informou.

Entramos para visitá-la. Sua expressão era cansada, ainda estava pálida e com o soro na veia.

- Emily! James! Lily! – Ela falou eufórica e olhava para a porta. – Onde está Sirius?

- Em Nova York. – James falou. – A bisavó dele está doente.

- De verdade. – Emily falou entre dentes.


Luma Schmidt

Sem dúvidas eu não estava com um bom humor para continuar estudando. Isso era revoltante. Não o fato de não estudar, mas aquela criatura de quatro patas e uma quantidade anormal de pelos morando sob o mesmo teto que eu.

Voltei para a cozinha e fiquei olhando meus livros e os juntei para levar para o quarto. Eu precisava de um banho, é talvez um banho ajudasse, ao menos o cheiro irritante de gato sumiria.

Liguei o chuveiro com água gelada e entrei, molhando os cabelos. Comecei a lavar o cabelo com o meu shampoo de framboesa. O meu celular começou a tocar do quarto. Devia ser Sirius com alguma noticia de sua bisavó.

Eu não havia ligado ainda, a estas alturas ele devia estar chegando por lá. Estremeci, mas não por efeito da água gelada e pela própria ligação em si. Eu esperava de coração que ela ficasse boa logo, a idéia de vê-lo triste por sofrer pela avó, me deixava triste também. Era estranho, eu mal o conhecia. Peguei a toalha branca que estava pendurada e me enrolei depressa e sai correndo para o quarto. Óbvio, que não seria normal se eu não me estatelasse no chão – de bunda – quando alcancei o piso de madeira.

Murmurei algumas inteligíveis e peguei o celular no móbile ao lado da cama. Olhei no visor, era um número desconhecido. Meu coração acelerou pelo menos umas dez vezes.

- Alô? – Ofeguei.

- Filha, que saudades de você! – Minha mãe falou eufórica do outro lado.

- Ah, é a senhora. – Soltei o ar para fora, o que pareceu que eu estava bufando.

- Claro que sim, estava esperando alguma ligação? – Sua voz era muito sugestiva.

- Não, mãe. – Suspirei. – É claro que eu não estava esperando ligação alguma. Então, tudo bem?

- Sim. Estou em Nova York, querida! – Ela estava muito empolgada, isso era sinal de que ela começaria a tagarelar na linha e eu só precisaria falar 'arrã', 'hmm', 'claro', 'sei' e outras coisas do gênero. Fiquei feliz por isso. – Vai ter um desfile este fim de semana! Querida, a coleção está tão glamorosa, você precisa ver! Os sobretudos e botas! Não se preocupe, vamos renovar o seu guarda-roupa. Deus, isso é tão excitante! – Ela fez uma pausa, ofegou. – Então, falei com seu pai hoje, ele disse que você iria almoçar no domingo com ele e, obviamente, que eu me escalei para almoçar com você. Sinto tanta a sua falta querida. – Sua voz passou para melancólica. – Ah, me lembrei agora fui chamada para ficar na redação! Vou ter uma coluna fixa todas as semanas, não se preocupe, vou te mandar todas as semanas!

- Que ótimo, mãe! – Não pude não deixar de ficar feliz.

- É. – Eu quase podia vê-la sorrindo do outro lado. – Seu pai disse que você vem no domingo pela manhã.

- Ah, eu vou poder ir no sábado pela manhã. - Disse de má vontade, não por ir, mas por não sair mais com Sirius. – Meu amigo cancelou, problemas familiares.

- Ah, que ótimo...

- Mãe! – Eu a repreendi.

- Ah, que ótimo, quero dizer, você poderá ir ao desfile comigo sábado à noite.

- Claro, claro. – Concordei, embora não estivesse com vontade de ver um desfile de moda. Todas aquelas modelos lindas e magras me causavam muita inveja.

- Luma, querida, tive uma idéia! – Isso não me parecia uma boa idéia. – Que tal você ir desfilar?

- NÃO! – Eu quase deixei o telefone cair no chão. – Claro que não, mãe.

- Mas...

- Mas, que eu vou voltar para o meu banho. Te vejo sábado, assim que chegar em Nova York eu te ligo.

Desliguei o telefone e voltei para o meu banho. Não havia nada o que fazer então sequei o cabelo e me vesti para dormir – um conjunto de short curto e uma regata, ambos brancos.

Liguei o Ipod na pasta de rock que eu havia baixado recentemente, coloquei o volume no máximo e me abracei debaixo do cobertor.

Minhas pálpebras se fecharam em um deserto abaixo de zero. Eu caminhava sozinha, por algum motivo minha perna direita sangrava, doía muito.

Eu andava em um corredor estreito, era um abismo do céu até o inferno, só que gelado. Ao fundo do vasto corredor entre as duas montanhas de rochas escuras com o topo coberto de neve, havia um fiasco de luz. Eu ouvia o barulho do vento cortante que fazia a pele exposta de meu rosto arder e gritos. Gritos de desespero, um pedido de ajuda.

Comecei a correr em direção à luz, minha perna doía mais a cada instante. Um baque ensurdecedor tomou conta da cena. Quando parecia que eu não ia mais chegar, eu cheguei.

Era um lago congelado, cercado de montanhas de gelo. Havia uma cabeça. O barulho havia sido uma avalanche, a pessoa estava soterrada. Eu corri para alcançar a pessoa, era Sirius. Dei um grito histérico e acordei sufocada, suando.

Não consegui pregar os olhos o resto da noite. Fiquei bolando na cama até o amanhecer, quando resolvi que estava cedo o suficiente para me arrumar com calma. Depois de pronta, verifiquei minha bolsa e meu horário: cálculo. Suspirei, seria uma longa manhã.

O café foi silencioso. Amy decidiu que estava com raiva e comeu seu cereal em silêncio. Apenas os sons dos talheres tomavam conta do lugar. Peguei uma carona com Lily até Hogwarts.

- Presumo que vocês não brigaram mais, certo? – perguntou.

- Não. Ela se trancou com a bola de pelos no quarto dela. Deve estar nojento, inabitável. – Fiz uma careta. – E como foi no hospital, não te vi chegar.

- É, cheguei às duas. – Suspirou cansada. – Esperei Isabela ter alta.

- Ela está melhor?

- Sim, mas não irá à aula hoje, precisa de repouso. – Lily balançou a cabeça contrariada. – Não entendo porque ela tomou aqueles remédios sabendo que é alérgica.

- Tentativa de suicídio. – Dei de ombros.

Conversamos o resto do caminho sobre nossas perspectivas de final de semana. Lily iria estudar esta noite e amanhã pela manhã. A tarde sairia com James para o cinema e depois os dois iriam jantar. Ela me poupou detalhes para depois do jantar. Comentei vagamente que iria jantar com Damian, Sophie e o novo namorado dela e que no sábado iria ao desfile com mamãe e almoçaria com os dois no domingo.

- Você se vira na volta?

- Claro, não se preocupe. Obrigada, boa aula!

Fui me arrastando até a sala de cálculo, era cedo demais, estava vazia. Peguei o livro da matéria e comecei a tentar fazer os exercícios. Pouco a pouco a sala foi enchendo, ninguém falou comigo, provavelmente achando que eu estava concentrada demais. O sinal irritante tocou, meu estômago gelou.

Sophie e Damian me deram 'bom dia' e eu respondi, mas continuei encarando os números do papel. A qualquer momento ele poderia entrar.

Então houve um 'Bom dia turma', mas não era a voz dele. Levantei a cabeça e vi que tínhamos um novo professor de cálculo. 'Eu irei substituir o antigo professor de vocês de hoje em diante. Andrew Matt.'

- Covarde. – Murmurei baixinho e suspirei levando a minha atenção para a aula.


Oiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiie!

Eu demorei, mas postei, né? espero que perdoem a demora, mas fazer ballet exige MUITO tempo.

então, tomara que vocês gostem e deixem aquela review básica que eu adoro.

obrigada pelas reviews, ou por lerem mesmo sem comentar.

beijos, Jéssica