França, 1184. Pequena vila próxima a um castelo.

Balian, o ferreiro, estava trabalhando durante a noite. Seu aprendiz já havia se retirado. Os cavalos estavam silenciosos. O único ruído que se ouvia era do martelo batendo contra o ferro retorcido em brasa ardente. O fogaréu estava crepitando, enquanto ele batia sem sossego. Suas roupas já estavam sujas de carvão, suas mãos há muito estavam amortecidas pelo movimento incessante. O barulho, o fogo, os músculos doendo, o brilho do ferro em brasa, tudo isso era hipnotizante. O viúvo estava com o corpo dolorido, mas sua mente se recusava a descansar. Ela não lhe dava trégua. Sua amada esposa Nathalie se fora junto com seu filhinho. Para que viver? Para martelar o ferro em brasa, para sentir o calor do fogo amortecendo suas mãos e a fuligem cobrindo suas roupas. Ele vivia por viver. Porque era um animal agarrado à vida. Porque ele não acreditava que a morte solucionaria alguma coisa. Ele acreditava na vida.

Aquele ritual de celebração do trabalho foi insidiosamente corrompido, pelo aparecimento do pároco, seu meio-irmão. Até hoje, Balian não sabia como semelhante sujeito ardiloso e amoral havia se tornado padre. Decerto Deus não percebera que uma cobra havia se instalado no seu jardim. A família do ferreiro por parte do seu pai postiço, era muito apegada a coisas materiais, e seu meio-irmão Michael não era exceção. Eles há muito cobiçavam a terra em que o viúvo morava. Ela não servia para nada, e de certo que eles não a cultivariam, apenas queriam saber-se possuidores de mais uma gleba. O filho bastardo do Barão de Ibelin os entendia, mas sentia repulsa pela cobiça deles.

Seu meio-irmão sorrateiro se esgueirou até onde Balian estava trabalhando em uma lâmina de ferro. Então sibilou sua língua viperina. O ferreiro percebeu que ele estivera escutando a conversa, que este tivera com seu verdadeiro pai mais cedo.

_Eles teriam te levado para Jerusalém, longe de tudo isso. Eu sou teu padre, Balian. Eu te digo, Deus te abandonou. Eu te juro, que não terás paz enquanto viver aqui. Nenhum homem precisou tanto de um novo começo. A vila não te quer. Se fores para as Cruzadas, podes aliviar a situação da tua esposa no além. Eu falei delicadamente, ela se suicidou, foi para o inferno. Além disso, o que ela pode fazer lá sem a cabeça?

O ferreiro não acreditou no que escutou. Aquele homenzinho travestido de religioso ousava tripudiar sobre a morte de sua esposa. Ela era uma santa. Apenas amara demais seu filhinho e não suportou a dor de perdê-lo. Quem era ele para reivindicar o inferno para a sua amada Nathalie? E o pior de tudo é que Balian tinha certeza que por trás de tudo isso, lá no âmago daquele sujeito asqueroso, ardia a chama da cobiça, o desejo de usurpar o que não lhe pertencia. E por causa disso ele não respeitava nem o luto de um meio-irmão.

O filho bastardo do Barão de Ibelin virou-se para o pároco. Queria jogar toda a sua indignação em cima de semelhante abutre. Mirou nos olhos do padre Michael e então outro brilho chamou sua atenção. Seu meio-irmão agora tinha um novo enfeite no pescoço. Um pingente de prata em forma de crucifixo. Este pingente costumava estar atado em um cordão de couro, enfeitando o suave e delicado colo de sua adorada esposa. Balian segurou o pingente na mão. As últimas palavras de Michael ecoaram em sua mente: "... o que ela pode fazer no inferno sem cabeça?" Aquele desgraçado, miserável, verme imundo, filho de uma ogra, havia decapitado o cadáver imaculado de Nathalie, porquê ela era uma suicida, ele que era indigno de ostentar o crucifixo de seu anjo morto no pescoço. O ferreiro foi tomado de fúria.

O jovem viúvo segurou com força o pingente de prata com uma mão, enquanto com a outra empunhou a lâmina de ferro em brasa, e a enfiou selvagemente no monástico abdômen de seu meio-irmão, urrando como um urso bravio, como um marido ultrajado e ferido, pela morte trágica de sua querida mulher. O pároco caiu sobre a fornalha, e viu assombrado a proximidade de seu próprio fim. Balian ao puxar o pingente de sua esposa, arrastou consigo seu meio-irmão em chamas. A tocha humana rodopiou espalhando fagulhas em todo o ambiente, levando a velha choupana a arder em fogo. O ferreiro levou seu cavalo para fora. Montou e partiu velozmente. Não havia mais nada para ele naquele lugar.

A noite estava iluminada pela lua nova, que dava um brilho azulado em tudo. Os dentes de leão voavam levados pela brisa. O vento que batia no peito e no rosto do cavaleiro, o deixava amortecido e com a respiração difícil. Balian era alto e bem proporcionado. Tinha negros cabelos compridos, cortados na altura dos ombros. Seus olhos eram lagos profundos e escuros. Seu rosto era suave e calmo. Semelhante placidez era um aviso, para que nunca provocassem aquele homem, pois ele era enérgico na paz, mas se tornava terrível na guerra. Ele encontrou o que procurava algumas horas depois. A comitiva de seu pai, o Barão Godfrey de Ibelin.

_Esperem aqui. - O barão se dirigiu a sua comitiva, ao ver seu filho a cavalo aproximando-se. Cavalgou até seu filho e o inquiriu. - Você veio me matar? Mesmo nestes dias, isso é difícil. Então?

_Eu cometi. Assassinato.

_Nós todos não cometemos?

_É verdade que em Jerusalém eu posso apagar meus pecados? E aqueles de minha esposa? É verdade?

_Nós podemos descobrir juntos. Mostre-me sua mão.

Balian mostrou sua mão enrolada em um trapo. Ele a havia queimado quando retirara o crucifixo de sua esposa de seu meio-irmão em chamas.

A comitiva acampou em uma clareira e fez uma fogueira. Balian aproveitou para dormir, embolado em sua capa. Os outros cavaleiros passavam o tempo conversando e andando. Sir Godfrey resolveu preparar seu filho para o que o aguardava. Pegou uma espada e a arremessou sobre seu filho adormecido.

_Apanhe-a. Vamos ver do que é feito. - O barão berrou para seu filho que agora já acordara, e o olhava temeroso.

_A mão dele está ferida, meu senhor. - O cavaleiro hospitalar o advertiu.

_Uma vez eu lutei por dois dias, com uma flecha atravessada no meu testículo. - Respondeu o barão.

Sir Godfrey atacou seu filho com a espada. Balian mal teve tempo de se defender, mas ele o fez.

_Nunca use uma guarda baixa. Você luta bem. Vamos desenvolver suas habilidades. Use uma guarda alta, como essa. - O barão ergueu ambas as mãos empunhando a espada sobre a cabeça. - Os italianos chamam isso "La posta del falcone". A guarda do falcão. Ataque do alto, como isso. - O barão deu diversos golpes do alto para baixo. - Faça isso. Alinhe a espada. Vamos, perna baixa, dobre os joelhos, alinhe a espada. Defenda-se.

O barão atacou seu filho, que se defendeu melhor dessa vez, mas sofreu um contragolpe com o cabo da espada.

_A lâmina não é a única parte da espada. Ataque. - O barão ensinava ao filho.

Balian atacou, mas o barão o desarmou facilmente com um golpe lateral.

_Eu posso ter a sua vez? - Odo, um dos cavaleiros pediu a primazia de ensinar o filho do barão a lutar com espada. O barão consentiu.

_Preste atenção. - O gigante louro, com tranças de viking, chamado Odo, falou calmamente para Balian, enquanto assumia a "guarda do falcão".

Uma sucessão de golpes depois e Balian já estava se acostumando aquele estranho modo de lutar.

Fim do Capítulo