Capítulo 3: "E eu também tinha o direito de levar meu filho."
Nicholas Du Château era um jovem de índole enérgica. Ele fora criado e treinado para servir ao príncipe, que possuía as terras do vale até além dos montes azuis. Manejava bem a espada e o arco e flecha. Era temível em duelos, e todo mundo na aldeia sabia que ele tinha o poder na mão. Cabia a ele impor a lei e a ordem. Inclusive arrastar para o calabouço aqueles devedores de impostos, os desordeiros e os ladrões. Quanto aos assassinos e agressores, só havia uma coisa a fazer: execução pura e simples. Ele era implacável e rígido na execução de suas funções.
Quando o conselheiro do príncipe o avisou da presença de Sir Godfrey de Ibelin em terras principescas, ele viu aí a oportunidade de aumentar suas posses, pois era de conhecimento público que o cavaleiro cruzado possuía uma importante propriedade na terra santa. Ele sabia que embora sendo seu sangue, Sir Godfrey não lhe beneficiaria em nada, nem mesmo sua amizade. Portanto, a vida do Barão de Ibelin, seu tio, não era mais valiosa para ele, do que a vida de qualquer daqueles aldeões, que viviam como cães sarnentos e preguiçosos.
Ele arquitetou o plano de emboscar a comitiva do cavaleiro cruzado e matá-lo. Então iria até a terra santa reclamar o que era seu por linhagem genealógica, uma vez que Sir Godfrey não tinha herdeiros conhecidos. Então aconteceu algo inesperado que se ajustou aos seus loucos planos como uma luva. Aparentemente um ferreiro assassinara o pároco local, e acontece que este ferreiro estava acompanhando o Barão de Ibelin, na sua volta à terra santa. Cabia a Nicholas como xerife daquele feudo, prender e executar aquele assassino. Azar teria seu tio por ficar no meio dessa ação.
Sir Godfrey estava sentado, observando o treinamento de seu filho e herdeiro, Balian, o ferreiro. Ao longe surgiu uma patrulha a cavalo. Usavam roupas do principado, e eram liderados pelo xerife, seu sobrinho Nicholas Du Château. Aquilo não lhe pareceu um bom augúrio. Não quando Balian havia lhe confessado que assassinara um homem.
_ O que é isso? _ Sir Godfrey perguntou a si mesmo, levantando-se e inconscientemente, preparando-se para o pior.
Todos os cavaleiros ficaram alertas para a chegada daquela patrulha. Todos portavam espadas, e embora elas não estivessem posicionadas para combate, eles sentiam o sangue ferver um pouco, com o afluxo súbito de adrenalina em suas veias. O xerife aproximou-se a cavalo de seu tio. Ele estava impassível, e de certa forma divertido, por antever a morte que ele daria a seu próprio sangue.
_ Vocês têm entre si um homem, Balian, que matou um pároco. Eu fui designado pelo bispo, para levá-lo de volta. _ Nicholas disse secamente.
Sir Godfrey ponderou sobre o que escutara. Embora o discurso fosse plausível, ele não poria a mão no fogo pela ladainha daquele parente distante. Então Balian aproximou-se e o mirou direto nos olhos. Ele falou resignado e convicto.
_ O que ele diz é verdade. Eles têm o direito de me levar.
Sir Godfrey encarou o jovem a sua frente, sabendo na sua alma e no seu coração que ele era verdadeiramente seu filho, pois era correto em seus sentimentos e no seu proceder.
_ Eu digo que ele é inocente da acusação. Se você diz que ele é culpado, então nós lutaremos. Deus decidirá qual é a verdade. _ Apartou Odo, o cavaleiro com ascendência bárbara, que estivera treinando Balian, no manejo da espada. Os cavaleiros cruzados instintivamente colocaram seus elmos e assumiram posição de combate.
_ Meu amigo nórdico é quase um estudante das leis. _ O cavaleiro hospitalar apoiou Odo.
_ Apenas o entregue a mim. Eu lutarei contra vocês em outra oportunidade. Ele é um assassino. _ O xerife Nicholas tentou fazer valer a voz da razão.
_ Assim como eu. Quem quer que morra aqui hoje, pode ter certeza que você estará entre eles. _ Respondeu-lhe seu tio, Sir Godfrey.
_ Você é um nobre. Eu sou obrigado a lhe dar passagem. _ Replicou o xerife pragmático.
Nicholas Du Château deu um pequeno sorriso, depois atiçou seu cavalo a ir embora, acompanhado de sua tropa, ou assim pareceu. Sir Godfrey não acreditou na benevolência daquele parente frio e implacável. Temeu sofrer uma emboscada. Todos ficaram temerosos e esperando o pior.
Então as flechas começaram a chover de todos os lados. Os cavaleiros cruzados foram crivados de flechas. Os homens do xerife estavam usando bestas e grandes arcos. Sir Godfrey foi atingido na parte lateral da barriga, mas ele era duro na queda. Continuou lutando com sua espada e derrubou quantos se aproximavam dele.
Odo foi flechado no pescoço, mas o velho urso nórdico não se deixou abater. Foram precisos mais do que flechas, estocadas, ou o ataques de vários homens ao mesmo tempo, para derrubar os cavaleiros cruzados, mas eles foram vencidos. Na mesma proporção em que iam recebendo os ataques, eles golpeavam e matavam os homens do xerife.
Nicholas Du Château, ao ver que seus homens estavam sendo dizimados, tratou de bater em retirada, mas foi seguido por Sir Godfrey.
_Agradeça ao bispo por seu amor. _ Gritou Sir Godfrey ao partir a cabeça de seu sobrinho com um golpe de espada.
O cavaleiro hospitalar, o batedor, Balian e Sir Godfrey, foram os únicos sobreviventes do massacre. Eles tiveram que enterrar seus mortos e seguir sem seus fiéis amigos. Ironicamente, eles tinham sobrevivido às cruzadas, enfrentando os temíveis árabes, mas não sobreviveram ao ataque covarde de seu próprio povo.
Mais tarde naquela noite, ao redor da fogueira com que se aqueciam do frio, e cauterizavam ferimentos, o cavaleiro hospitalar tentou retirar a flecha encravada no flanco de Sir Godfrey. Uma parte da flecha se quebrou, e ficou no corpo do nobre cruzado. Sir Godfrey, sob o efeito do vinho que tomou para amortecer os sentidos, e com isso diminuir a dor, gemia e soluçava, mas tentava resistir à dor insuportável.
_ Você quebrou a flecha. Se os quadris são quebrados, o tutano pode entrar no sangue, e neste caso você tem uma febre e morre. Ou um cisto se forma e você viverá. Você está nas mãos de Deus. _ Disse-lhe o cavaleiro hospitalar.
_ Você poderia me conseguir mais vinho? _ Gemeu Sir Godfrey. Ele então chamou seu filho com um movimento da mão.
_ Não é que eles não tivessem o direito de te levar. Foi o modo como eles pediram. _ Sir Godfrey falou ao seu jovem filho, que deveria estar se recriminando por toda a mortandade que houve naquele dia.
Balian estava consternado e sentindo-se miserável. Ele não era ingênuo. Sabia que a animosidade entre o xerife e seu pai deveria existir desde muito tempo, mesmo assim, não conseguia parar de pensar, que se houvesse se entregado, todos estariam vivos. Pelo preço de uma vida. A dele.
_ Eles tinham o direito de me levar. _ Balian falou gravemente.
_ E eu também. _ Sir Godfrey falou em meio ao sofrimento que estava passando, que era infinitamente menos doloroso do que perder o filho recém-encontrado. O filho da única mulher que amara verdadeiramente. Balian o olhou agradecido.
Eles seguiram viagem a cavalo, de volta à terra santa, com Sir Godfrey aguentando as dores de seu ferimento estoicamente. Ele sabia que talvez a misericórdia divina não fosse destinada para ele, pois afinal já havia matado muitos, e presenciado tudo de bom e de ruim que a vida pode nos proporcionar.
Ele voltara a sua terra natal atrás do fruto de um amor puro e despojado. Encontrara um filho que tinha mais em comum consigo do que ele poderia supor. Um filho de quem ele muito se orgulhava e já amava, como se houvessem passado a vida inteira juntos. Se o preço a pagar por essa bem-aventurança era a sua própria vida, ele o pagaria de bom grado.
Fim do Capítulo
