Reino do céu

Capítulo 4: "O que um rei poderia pedir de um homem como eu?"

Caminho de peregrinação _ Estrada para Messina

_ Matar um infiel não é assassinato. É o caminho para o céu. _ Repetia eternamente um religioso, plantado em meio ao ermo, dirigindo-se a peregrinos que rumavam para Messina, escala para a Terra Santa.

Ele procurava justificar crimes cometidos em nome de Deus. Os peregrinos não se importavam com suas palavras, mas de certa forma isso ficava em seus subconscientes, como a lhes dar paz de espírito, caso acabassem matando outro ser humano por conta de diferenças de credo.

Haviam nobres cavaleiros acampados ali perto. Usavam os símbolos de cavaleiros templários. O mais importante deles era Guy de Lusignan.

Godfrey e os outros acamparam para descansar e cuidar do ferimento do Barão de Ibelin. Guy de Lusignan, vestido com as cores dos templários, mas aquecido por uma túnica de peles de animais, aproximou-se. Ele era famoso em Jerusalém por sua arrogância e por freqüentar os altos círculos do poder, inclusive casando-se com a irmã do rei Baldwin IV, Sibylla. Guy aproximou-se de Sir Godfrey e perguntou sem cerimônias, referindo-se a Balian:

_ Quem é este?

_ Meu filho. _ Respondeu Sir Godfrey, francamente desgostoso da proximidade com aquele homem venenoso.

_ Será que eu teria te combatido quando ainda eras capaz de gerar bastardos? _ Sir Guy fez mangoça.

_ Eu conheci sua mãe quando ela estava gerando os dela. Afortunadamente, você é muito velho para ser um dos meus. _ Respondeu na mesma moeda, Sir Godfrey, segurando os olhos do outro nos seus, como a reafirmá-lo de que ainda tinha fibra para derrubá-lo em uma disputa limpa. Os outros cavaleiros não gostavam de Sir Guy, deixando isso claro na forma como o olhavam. Até Balian passou a gostar menos daquele homem, ao perceber seu veneno e modos desrespeitosos.

_ Tudo será acertado. _ Sir Guy despediu-se com um sorriso.

Mesina - Porto para a Terra Santa

Balian e os outros cavaleiros conseguiram chegar até a cidadezinha de Messina, na qual havia um porto que despachava naus antigas e vagarosas para a Terra Santa, Jerusalém. Gaivotas grasnavam, a maresia enchia os olfatos de sal e frutos do mar. O sol dava um toque dourado àquele lugar. O vento fresco que soprava da costa enrolava os cabelos e curtia ainda mais suas peles ásperas e salgadas. Havia uma multidão de cavaleiros de diversas ordens e procedências. Dizia-se que todo o mundo cristão havia mandado soldados para aquela guerra.

Sir Godfrey não agüentava mais cavalgar. Seu estado geral já não o permitia ficar sentado, então os cavaleiros passaram a transportá-lo carregado em uma liteira. Foi levado a um hospital improvisado em um monastério local.

Balian foi falar com seu pai que estava no leito hospitalar, no grande salão com muitas passagens para o ar circular melhor.

_ Você sabe o que tem na Terra Santa? _ Sir Godfrey perguntou com a respiração difícil, e o semblante destruído pelo sofrimento. _ Um novo mundo. Um homem que na França não tinha casa, na Terra Santa é o Senhor de uma cidade. Ele que foi o Senhor de uma cidade, implora na sarjeta. Lá no fim do mundo, você não é o que você nasceu para ser, mas o que você almeja ser intimamente.

_ Eu espero encontrar perdão. Isso é tudo o que eu sei. _ Balian respondeu ao pai, pesaroso de seu estado. Segurou sua mão.

_ Qualquer que seja sua posição, você é um dos meus, e isso significa que você servirá ao rei de Jerusalém.

_ O que um rei poderia pedir de um homem como eu?

_ Um mundo melhor do que o que vivemos. Um reino de consciência. Um reino celestial. No qual há paz entre mulçumanos e cristãos. Onde vivemos juntos, ou entre Saladin e o rei, tentamos viver. Você acha que isso se encontra no fim da cruzada? _ Sir Godfrey perguntou ao seu filho, que respondeu negativamente com um movimento da cabeça. _ Mas isso está lá. Meu filho, você é tudo o que me restou. Não me desaponte.

Os cavaleiros passaram alguns dias em Messina, aguardando transporte em Naus, e esperando que Sir Godfrey melhorasse. Balian e Phillip vaguearam pela cidade e foram para o alto de uma fortificação, admirar a vista de Messina. Banhada pelo mar portentoso. Ao longe, Balian viu pessoas ajoelhando-se na praia, várias ao mesmo tempo. Isso não era algo típico dos católicos.

_Quem são estes homens?

_ Mulçumanos. Sarracenos.

_ E eles têm permissão para fazerem suas preces?

_ Se eles pagam as taxas, sim. _ Phillip falou algo em árabe. _ "Que todas as graças sejam para Deus. É apropriado lhe dar graças."

_ Soa como nossas preces. _ Balian ponderou.

Pela primeira vez começava a ver o inimigo, não como o demônio encarnado, mas como seres humanos, tentando levar uma vida pacata, apenas com pontos de vista religiosos um tanto diferentes. No fundo, todos eram filhos de Deus, devendo aprender a tratarem-se como iguais.

Um dia, estando sentado para comer ao ar livre, Phillip ofereceu caranguejo para Balian comer, o que ele considerou estranho, pois não tinha hábito de comer aqueles estranhos animais. Um dos cavaleiros cruzados, com a cruz templária, aproximou-se. Ele bateu na mesa com seu bastão de couro e madeira flexível, que usava para atiçar o cavalo. Ele não se incomodou de mostrar-se desrespeitoso, ou inconveniente. Na verdade parecia desprezar todos que se banqueteavam com aqueles frutos do mar.

_ Quando o rei morrer, Jerusalém não será amigável com amigos de mulçumanos, ou traidores da cristandade, como seu pai. Eu sou Guy de Lusignan. Lembre desse nome. _ O cavaleiro templário bateu no rosto de Balian com o bastão. _ E de mim. _ Balian arrancou o bastão da mão dele. _ Pode ficar com isso. _ Sir Guy retirou-se.

_ Meu Senhor. Como cavalgará se não tiver um bastão para bater no cavalo? _ Balian atirou o bastão para o nobre arrogante.

_ Ele será o rei de Jerusalém um dia. _ Phillip o alertou.

Balian não se importava quem era aquele tipinho metido a ser supremo. No fundo era um covarde incompetente, que só estava em posição de superioridade, por conta da fatalidade do seu nascimento, em clã de nobres. Não valia a pena perder a cabeça com estes fanfarrões, pois o próprio destino se encarregava de lhes dar duras lições.

Balian estava à beira da fogueira rezando intimamente para sua querida esposa falecida, quando Phillip veio em seu encalço.

_ Balian! _ Phillip o guiou até o quarto de seu pai, no monastério. _ Apresse-se! Eu não posso ir adiante. _ Phillip parou atrás de cortinas, e abriu passagem para Balian.

No quarto, no qual velas foram dispostas e uma cruz de madeira lhe dava a aparência de oratório, havia algumas pessoas, cavaleiros. O cavaleiro hospitalar estava ao lado de seu pai, que moribundo, sustentava-se sentado com esforço. Aquilo era uma cerimônia ou um ritual, e Balian parecia estar envolvido naquilo.

_ Fiqueis de joelhos. _ Ordenou-lhe seu pai, com o que foi prontamente atendido. Os cavaleiros ajudaram seu pai a ficar de pé. _ Sede sem medo em face de teu inimigo. Sede bravo e justo para que Deus possa te amar. Faleis a verdade sempre, mesmo que ela te leve a tua morte. Salvaguardais os indefesos e não cometais erros. Este é o teu juramento. _ Seu pai exausto e lavado em suor, retirou o anel de cavaleiro do dedo e o entregou a Balian. A seguir esbofeteou-o. _ E isso é para que te lembres. _ Caiu sentado, sem forças. O cavaleiro hospitalar lhe entregou a espada, que repassou ao filho.

_ Levanta-te um cavaleiro e Barão de Ibelin. _ Disse-lhe o cavaleiro hospitalar. Balian ergueu-se e teve que amparar seu pai, que ameaçava cair da cadeira.

_ Defendais o rei. Se o rei não mais existir, protejais o povo. _ Disse-lhe seu pai.

_ E chegada à hora, meu Senhor, de confessar ao Santo Deus, não para seu filho. Arrepende-te de todos os teus pecados? _ O cavaleiro hospitalar inquiriu Sir Godfrey.

_ De todos, menos um. _ Sir Godfrey de Ibelin Olhou para seu filho uma última vez. Fechou os olhos e sua cabeça pendeu no regaço do cavaleiro hospitalar, que lhe deu a extrema unção. Todos os presentes ficaram muito tristes, pois aquele era um homem de honra e caráter.

Fim do Capítulo