Reino do Céu

Capítulo 5: "Suas qualidades serão conhecidas pelos seus inimigos."

A água era gelada e toda vez que uma onda se aproximava, ameaçava tragá-lo para o fundo. Havia alguns pedaços de madeira por perto, mas era difícil alcançá-los devido ao movimento do mar. Ao longe Balian escutava gritos e relinchar de animais. Estava escuro e caia uma chuva fina irritante. Tudo aconteceu muito rápido. A nau em que viajava não suportou a tempestade em alto mar, levando-os a pique. Tudo se perdeu. Balian havia corrido até seu cavalo para soltá-lo, para quem sabe dar-lhe uma chance de sobrevivência. Então quando o grande barco naufragou, as águas engoliram seu pobre animal. O movimento contínuo das ondas o empurrava para mais longe. Ele não tentava nadar, mas apenas manter-se respirando, com a cabeça fora da água, se ao menos não houvesse essas ondas enormes...

Tudo era tão repetitivo, seu corpo enregelado por permanecer tanto tempo submerso, quase não lhe transmitia sensações. Na verdade foi o cheiro de peixe que atraiu sua atenção. Isso e o calor. Calor suficiente para torrar a carne de um homem ao sol. Balian deu braçadas para manter-se sobre as águas, mas seus braços e mãos se encheram de areia. Areia? Ele abriu os olhos e verificou com assombro e felicidade que estava em uma praia. O mar não o quisera e o empurrara para terra firme. Levantou-se com dificuldade e ficou de joelhos. Os trapos das suas roupas pendiam malemolentes de seus ombros. Ele fechou os olhos e abriu os braços. Emocionado e sincero agradeceu a Deus por estar vivo.

Balian tratou de explorar aquela praia. Vagueou pela orla até escutar um relinchar conhecido. Ele correu esbaforido até deparar-se com seu cavalo. O bom animal havia sobrevivido ao naufrágio. Balian sorriu para o companheiro e lhe fez um afago na cabeça. Procurou frutas e ervas para alimentar-se, então se pôs a cavalgar por ali para saber onde estava. Quanto mais cavalgava a vegetação ia escasseando até sobrarem apenas areia. Balian pensou em voltar por seus passos, mas ele se negava a ficar confinado na orla, sem dúvida, mais cedo ou mais tarde ele encontraria civilização. O tempo passou e o sol ficou a pino. Seu cavalo e ele mesmo estavam sedentos, pois a água do mar era muito salgada e tinha um gosto estranho. Ele ansiava por água doce.

A sua frente apareceu um oasis, belas palmeiras e um poço construído por homens. Balian desceu do seu cavalo e retirou aquela água fresquinha e bem vinda. Bebeu um pouco e serviu o seu cavalo também.

_ Ei você! Saia daí, este poço não te pertence. _ Uma voz ecoou as suas costas.

Balian deixou o cavalo bebendo em uma cumbuca e virou-se para a voz. Havia dois homens vestidos de branco, a cavalo, com turbantes na cabeça. Mulçumanos.

_ Peço desculpas por usar o que não é meu, mas eu e meu cavalo estávamos morrendo de sede. Literalmente. Já nos retiraremos Senhor. _ Disse Balian tentando resolver a questão pacificamente.

_ Você é um cristão. Você é nosso inimigo. Diga-me por que eu não devo matá-lo aqui e agora. _ O mulçumano mais alto e sério o advertiu.

_ Porque eu não sou um guerreiro. Apenas um homem com sede. _ Falou Balian tentando manter o sangue frio. Instintivamente sua mão massageou a bainha da espada de seu pai que estava presa às correas do cavalo. A lâmina de Sir Godfrey ainda estava lá.

_ Pois eu lhe mostrarei misericórdia, cristão. Deixe seu cavalo e sua espada aqui, e siga a pé em direção norte. Essa rota o levará para a praia, onde poderá sobreviver. _ Disse-lhe secamente o mulçumano alto e marcial.

_ Não, eu não quero voltar à praia. Eu vim de lá. Também não abandonarei meu cavalo nem minha espada. Eu seguirei para Jerusalém. _ Balian falou enfático.

Os mulçumanos riram. O mais alto desceu e sacou sua espada. Esse gesto foi seguido por Balian, que empunhou a sua.

_ Essa é sua última chance cristão. _ O islâmico o advertiu.

_ Não, essa é a sua. Você deveria pegar seu pajem e seguir em seus cavalos para bem longe daqui, enquanto pode. _ Balian sibilou a ameaça. Ele não sabia de onde lhe vinha aquela força e aquela audácia. Apenas raciocinava que se o mar não o matara, não seria a lâmina de um encrenqueiro que levaria a melhor.

Os dois se engalfinharam em uma luta de espadas acirrada, observados pelo segundo mulçumano, que provavelmente era um escravo daquele fanfarrão. Balian venceu a luta. O seu oponente morreu na ponta da lâmina de Sir Geofrey. Balian voltou-se para o servo que não pôde salvar a vida de seu senhor.

_ Agora que seu mestre está morto, você será meu guia até Jerusalém. A não ser que queira ter o mesmo destino deste outro. _ Balian o interpelou.

_ Eu o levarei para Jerusalém, Senhor.

E assim os dois seguiram a cavalo até a cidade sagrada de Jerusalém. Ao atravessar seus portões Balian libertou o mulçumano. Ele não acreditava em escravizar pessoas, principalmente um inimigo. O servo fez uma saudação islâmica e quando já estava longe lhe falou.

_ Suas qualidades serão conhecidas pelos seus inimigos. Você será famoso antes mesmo que os encontre. _ Então se foi.

Como cristão temente a Deus, Balian sabia que deveria seguir ao Gólgota, o lugar onde Jesus Cristo fora crucificado. Ele piamente esperou por um sinal, uma visão, uma ordem direta do todo poderoso, que lhe indicasse o caminho a seguir, pois ele estava empenhado em salvar sua esposa e ele mesmo da danação eterna. Nada aconteceu. Balian enterrou o pequeno cordão que sua esposa usava na hora da morte, no monte Gólgota. Ele então resolveu assumir a herança de seu pai.

Jerusalém era uma cidade fervilhante. Havia muito movimento e muitas línguas se falavam ali. Ele poderia identificar sem dificuldade, quem era mulçumano, quem era cristão, e quem era judeu, naquele reino ancestral. Havia muitos comerciantes, artesãos, muitos soldados, de diversos uniformes, diversas ordens, etc. Para uma cidade em guerra perene, aquele era um reino pacífico. Não havia terror. Isso o espantou. Alguém bateu no seu ombro. Quando se virou para reclamar, um sujeito baixo e cheio de verrugas o alertou.

_ O rei está vindo, tem que ficar de joelhos em deferência ao rei. _ O homenzinho o ensinou, já ele mesmo assumindo a posição subserviente. Balian o imitou.

Através de rápidos erguer de olhos, ele pôde ver o monarca de Jerusalém passar em seu cavalo, em direção ao palácio real. O soberano estava completamente coberto, da cabeça aos pés, e sua face era uma máscara áurea. O rosto de metal virou-se em sua direção, e Balian rapidamente abaixou a cabeça para o chão. Balian era um filho bastardo de um nobre, ele tinha direitos de sangue para encarar outro nobre de igual para igual, mas naquele momento não convinha criar confusão por causa disso. Mais tarde ele se dirigiu ao palácio de Baldwin IV, o rei de Jerusalém.

_ Então você é o herdeiro legítimo de Sir Geofrey de Ibelin? _ Perguntou-lhe o nobre Tiberias, o xerife de Jerusalém.

_ Sim Senhor, ele me reconheceu como filho e me ordenou cavaleiro antes de morrer. _ Balian mostrou-lhe o anel de cavaleiro e a espada.

_ Tudo bem. Já conhece Ibelin? Não? Perceberá logo que não fez um bom negócio em sair da Normandia para vir até aqui, reclamar por suas posses. Atualmente estamos em trégua da batalha, mas mais cedo ou mais tarde, uma das partes vai cometer alguma imprudência e entraremos em guerra novamente. É melhor ficar longe do fogo cruzado Balian de Ibelin.

_ Obrigado pelo conselho, Senhor. _ Balian agradeceu humilde. Apesar de ter de provar quem era, ele tinha certeza que toda a sua vida já era de conhecimento de todas aquelas pessoas da pequena nobreza de Jerusalém. Sentiu-se em um ninho de cobras.

Ao afastar-se da audiência com o xerife, Balian reencontrou o cavaleiro hospitalar, amigo de seu pai e agora seu também, de quem havia se separado na malfadada viagem de barco. Abraçaram-se e cumprimentaram-se. O nobre cruzado o acompanhou até Ibelin, a propriedade de seu pai. Uma grande extensão de terra seca, sem utilidade, com plantas rasteiras, poucos animais e um clima de desolação. Adiante sua moradia, construída à moda dos mulçumanos. Por alguma estranha razão, Balian amou aquilo tudo, muito mais do que alguma vez amara o torrão onde nascera. Sentia que havia voltado para sua verdadeira casa.