Capítulo II - Três
Suna parecia ainda mais devastada que Konoha – se aquilo fosse possível. Possuidora de arquitetura arredondada com prédios altos, a Vila da Areia agora tinha apenas construções predominantemente térreas e ruínas. As pessoas se cobriam do sol escaldante com o que podiam, e os que percebiam o shinobi da folha o olhavam desconfiados, mas Shikamaru não os condenava por isso. Três dias de viagem ininterrupta certamente lhe deram uma aparência no mínimo cansada.
Ele caminhou pelo que pensava ser uma das principais ruas da Vila, tentando reconhecer o lugar. Temari morava com os irmãos em uma casa não muito longe do escritório do Kazekage. Tampou os olhos com o braço, tentando protegê-los de uma rajada de vento carregada de areia. Sem a proteção das construções mais altas, Suna estava mais vulnerável à fúria do deserto.
Batendo o pó do colete, o Nara percebeu que estava um pouco perdido. Todos os referenciais que tinha foram destruídos, e não lhe restava outra alternativa senão pedir ajuda.
- Desculpe, senhora. Sabe onde moram os irmãos do Godaime Kazekage? – ele perguntou a uma mulher pequena que passava a seu lado, puxando um pano sobre sua cabeça.
- Kankuro-dono e Temari-san? – a mulher perguntou e o shinobi confirmou com a cabeça. – Nessa mesma rua, no próximo quarteirão. Olhe, Kankuro-sama está saindo do mercado! – ela apontou para a construção do outro lado da rua.
Shikamaru olhou para o lugar apontado, mas levou alguns segundos para reconhecer o irmão de Temari. Kankuro não usava proteção na cabeça, tampouco pintura facial, e uma grande cicatriz era visível no lado esquerdo de seu rosto. Trajado como um civil, usava calças e camiseta das mangas compridas, ambos negros, e carregava uma sacola em uma das mãos, apoiando no outro braço uma criança.
Uma criança? O ninja de Kononha franziu o cenho. Ele aparentemente tinha começado uma família cedo. Não conseguia ver as feições do pequeno, por estar encoberto por uma espécie de manta, mas pelo tamanho parecia ter cerca de um ano. E assim teria nascido pouco antes do término da guerra.
Pensou em atravessar a rua e falar com o Sabaku, mas a expressão de Kankuro era de poucos amigos e seu chakra estava levemente alterado, como se ele estivesse alerta e pronto para qualquer ataque. Cauteloso, preferiu segui-lo de longe, observando quando ele entrou na casa de dois andares que esteve procurando anteriormente.
Suspirou ao ver que a casa continuava igual, não aparentando ter sofrido nenhuma avaria. Sorriu levemente, observando a porta. A ansiedade agora parecia sufocá-lo, mas ao mesmo tempo não encontrava forças para se mover.
Algo se moveu em sua visão periférica e ele virou a cabeça para ver o que era. Então o tempo parou quando fixou os olhos na mulher que caminhava pela rua. O cabelo continuava dividido em quatro chiquinhas, os olhos verdes parcialmente cobertos pela franja dourada. Ela usava um kimono preto, simples, com o obi vermelho na cintura, e ele não conseguiu ver o hitaiate em nenhum lugar visível. Ela nunca lhe parecera tão bela e ele sentiu sua respiração entrecortada enquanto achava ter uma espécie de visão. O sol poderia muito bem ter fritado seus miolos e ele poderia estar vendo coisas.
Mas então ela parou, olhando-o intensamente. Viu-a abrir a boca e derrubar vários pergaminhos que trazia nos braços. Shikamaru então deu um passo hesitante na direção dela, que abriu um sorriso faiscante.
- Shikamaru? – ele ouviu seu nome naquela voz que não ouvia há tanto tempo, e foi como se seu peito doesse. Começou a andar mais rápido enquanto Temari fazia o mesmo, sorrindo daquele jeito que ele tanto amava.
Ele próprio estava sorrindo agora.
E então um punho o atingiu em cheio no queixo com força absurda, e a expressão surpresa de Temari, ainda longe, foi a última coisa que ele viu antes de desmaiar.
xXx
A consciência voltou lentamente, e Shikamaru franziu o cenho, movimentando a mandíbula. Estava dolorida, mas ainda inteira. Abrindo os olhos lentamente, ele girou a cabeça e se descobriu deitado em uma cama macia.
Piscou algumas vezes e observou o aposento. A cortina fechada filtrava a iluminação do dia, mas ainda estava claro o suficiente para que ele visse a bancada de ferramentas e a imensa quantidade de marionetes e peças espalhadas pelo quarto amplo. Não havia dúvidas quanto a quem ele pertencia.
Levantando-se da cama, ele percebeu que estava descalço e sem o colete, e estes não estavam em nenhum lugar que pudesse ver. Saindo do quarto, ouviu vozes vindas da cozinha.
- Não deveria ter batido nele.
- Acho que um soco foi pouco. Deveria ter espancado aquele preguiçoso até a morte.
- Não seja dramático, Kankuro. E ele não tem culpa de nada, até hoje eu não sabia se ele estava vivo!
- O que faz com que tudo fique muito conveniente para ele!
Descendo as escadas e parando na entrada da sala, o Nara pôde ver Temari servindo chá ao irmão, que estava sentado à mesa, de costas para ele. Suspirando, abaixou a cabeça e esfregou os olhos, sentindo-se levemente tonto. Quando os abriu novamente, deu de cara com um garotinho que o encarava curioso.
Shikamaru deduziu ser a criança que havia visto com Kankuro e se permitiu estudá-lo também. Estava vestido com um short preto, uma pequena camisetinha azul, babador branco e chupava uma chupeta azul-clara, presa ao babador por uma fita decorada com raposas. Os cabelos eram negros, se aglomerando em um pequeno tufo no alto da cabeça, os olhos eram castanhos e as sobrancelhas finas. Ele piscava lentamente, estudando-o como se ele fosse um ser de outro planeta.
Era estranhamente familiar.
- Yo. – ele disse em voz baixa para o garotinho, que piscou mais uma vez e continuou observando-o com tédio, impassível.
E então, para sua surpresa, outro garotinho apareceu, arrastando um coelho cinzento pela orelha. Era absolutamente idêntico ao primeiro, e trajava um pequeno macacão amarelo-claro. O babador também era branco, mas tinha uma discreta letra "S" bordada em uma das pontas, a chupeta era verde-clara e a fita que a prendia ao babador era decorada com guaxinins.
Shikamaru olhou de um para o outro tentando encontrar alguma diferença, sem sucesso. Gêmeos idênticos. Ambos o estudavam com irrefreável curiosidade infantil. Kankuro estava animado. Se estivesse em Konoha, ganharia o prêmio prometido por Kakashi.
- Você já se levantou. – o tom suave de Temari o sobressaltou, e ele viu que ela estava à sua frente. – Vejo que já conheceu os dois mais novos homens da casa. – ela completou com um sorriso.
- É.
- Como se sente? – ela tocou-o no queixo e o Nara estremeceu, sem saber dizer se era pelo toque dela ou pelo maxilar dolorido.
- Bem, problemática. – ele respondeu com um meio sorriso.
Os olhos dela brilharam e o sorriso aumentou ao ouvir o velho apelido. O pulso do Nara acelerou. Ela estava ainda mais linda do que a última vez em que a viu, e ele controlou a vontade de puxá-la para si. O perfume que emanava da kunoichi tomou seus sentidos de assalto e lhe deu a sensação de nostalgia. Sem desviar os olhos dos dela, ele deu um passo a frente, encurtando a distância. Havia tanto para dizer, tanto tempo a compensar...
Um resmungo quebrou o clima entre os dois. Um dos pequenos queria a atenção da Sabaku apenas para si.
- O que foi, meu bem? – a loira se inclinou para o menino vestido de amarelo, que puxava a saia do kimono dela.
O pequeno tinha as sobrancelhas franzidas.
- O que foi, Shiori? – a loira insistiu.
- Ele deve estar incomodado com o nosso hóspede. Eu estou. – Kankuro comentou, olhando por cima do ombro.
Temari pegou o garotinho nos braços. Ele ainda olhava Shikamaru com uma careta.
- Quer água? – a kunoichi sugeriu, indo em direção à cozinha quando o bebê confirmou com um aceno curto. O outro menino a seguiu em pequenos passos infantis ainda um tanto incertos, acabando por tropeçar e engatinhar com agilidade.
- Shikamaru, venha tomar chá. Não é bom ficar tanto tempo de pé depois de ter desmaiado. – a Sabaku pediu, dirigindo um olhar de censura para o irmão enquanto entregava uma mamadeira com água ao garotinho, que foi colocado novamente no chão.
Saindo do corredor, Shikamaru dirigiu-se para a cozinha, mas surpreendeu-se a ver outra criança. Uma garotinha dessa vez, sentada no chão e brincando com carrinhos. Ela tinha os cabelos castanhos, preso em duas chiquinhas. Usava uma camiseta sem mangas branca, calcinha cor de rosa e quando o olhou, Shikamaru deparou-se com enormes olhos verdes, idênticos aos de Gaara, circundados por cílios espessos e escuros.
Era a menina mais linda que ele jamais havia visto, sem sombra de dúvidas.
O Sabaku mais novo havia morrido no início da guerra, logo aquela menina não poderia ser filha dele. E ela regulava em idade com os meninos, então o mais provável era que fossem irmãos. Gêmeos. Trigêmeos.
Uau, quanta potência por parte de Kankuro.
Sentou-se à mesa, de frente para o manipulador de marionetes, que olhava-o com uma careta.
- O que foi que eu fiz? – Shikamaru perguntou exasperado quando o outro não diminuiu a intensidade do olhar.
- O QUE FOI QUE VOCÊ FEZ? – Kankuro vociferou. – Temari! – ele olhou para a irmã mais velha, que servia chá ao Nara.
- Kankuro, agora não. – ela balançou a cabeça, censurando-o.
Shikamaru franziu o cenho por não entender a conversa criptografada e tomou um gole do chá, sentindo-se reconfortado pelo calor da bebida. De repente todo o cansaço da longa viagem o abateu, e ele se sentiu exausto.
A cadeira ao seu lado foi ocupada e ele olhou para Temari. Vê-la ali, ao lado dele, viva e bem fez com que seu estômago se contraísse.
- Eu estou tão feliz por você estar viva. – ele disse com absoluta sinceridade e nenhuma intenção de se conter. Não tinha tempo para meias palavras quando tanto tempo havia se passado.
Ela sorriu.
- Eu também. Mas antes de qualquer coisa, precisamos conversar.
O Nara sentiu o tom de seriedade na voz dela e se limitou a balançar a cabeça em concordância enquanto ignorava o alarme dado por sua mente. Não soava como boa coisa. Deu uma rápida olhada para Kankuro e percebeu que o shinobi tinha um sorriso quase sádico no rosto.
- Acho que você viu todas as crianças. Os nomes deles são Shiori, Yuri e Ume. – ela gesticulou com a cabeça em direção aos pequenos, que agora brincavam juntos.
Shikamaru observou-os também, bebericando chá distraidamente. Os meninos eram rigorosamente iguais, e estranhamente familiares. A menina também lhe parecia familiar, mas não tanto quanto os meninos.
- Eles têm oito meses. – Temari continuou. – São trigêmeos.
O ninja das sombras assentiu, tendo suas suspeitas iniciais confirmadas. Por que ela estava detalhando tanto era no que pensava enquanto bebia outro gole.
- Eles são meus filhos. – ela disse de maneira direta.
Shikamaru congelou a mão no meio do caminho para outro gole, processando a informação lentamente. Filhos dela, Temari. Claro, não poderiam ser do Kankuro, nem ao menos se pareciam com ele ainda que distantemente, e não havia outra mulher na casa. Agora ele sabia por que a menina parecia familiar. Quantos anos ela disse que eles tinham mesmo? Oito meses. Somando-se a isso os nove meses de uma gestação regular, então ela havia engravidado em...
Fazendo a matemática, ele arregalou os olhos e virou a cabeça lentamente, olhando para a Sabaku.
- Temari? – ele balbuciou, com medo de concluir o pensamento sozinho.
Ela balançou a cabeça em confirmação.
O manipulador de sombras observou as crianças, tentando normalizar sua respiração. Um dos garotos o olhou com uma expressão de desinteresse que ele conhecia tão bem, por que ele próprio a fazia com muita freqüência. Como era idiota! Era por isso eles eram tão familiares. Eram Nara até a raiz dos cabelos, e assombrosamente parecidos com ele.
Pousou o copo na mesa lentamente, sentindo-se novamente exausto. Era por isso que Kankuro bateu nele e o estava tratando daquela forma.
Os pequenos eram filhos dele.
Três filhos.
Um já seria problemático o bastante.
- Temari, o idiota parece ter entrado em coma. – Kankuro observou.
- Shikamaru? – Temari chamou com uma ponta de ansiedade na voz. – Diga alguma coisa, onegai.
Ele pareceu sair do transe, percebendo que vários minutos haviam se passado em silêncio, e olhou para a Sabaku com a única pergunta que conseguia formular, apesar de sua mente trabalhar com velocidade assustadora.
- Por que não me contou?
A kunoichi jogou a franja para trás.
- Quando eu descobri que estava grávida, você tinha acabado de partir para a batalha da Névoa. Eu nunca soube que você havia conseguido voltar de lá até te ver andando na rua hoje.
O Nara observou os olhos verdes se encherem de lágrimas e sentiu uma culpa que não conseguia explicar. Nunca havia visto Temari chorar, e não imaginava as dificuldades que ela havia passado, carregando os filhos dele em meio a uma guerra cruel, pensando que ele estava morto. Um gosto amargo subiu-lhe à boca. A batalha da Névoa havia sido especialmente cruel para ele. Fora a batalha em que Chouji morreu.
Ela se controlou rapidamente e sorriu de maneira doce. Shikamaru reconheceu o tom de alívio na voz feminina.
- Mas você voltou.
Ele teve vontade de tomá-la nos braços e implorar perdão, fazer qualquer coisa que pudesse de alguma forma compensar tudo pelo que ela tinha passado. Ele não a merecia. Ela havia tido três filhos dele sozinha, no meio de uma guerra, assumindo muito mais responsabilidades em um período já difícil. Sabia que qualquer kunoichi com o mínimo de conhecimento em jutsus médicos sabia como interromper uma gravidez indesejada, e Temari não o havia feito, mesmo acreditando que ele havia morrido. Não sabia se era digno de uma mulher como ela.
- Você não ia querer ver como ela ficou quando estava grávida. – Kankuro disse, tirando-o do devaneio. – Parecia que essa mulher enorme havia engolido a Temari e mais duas melancias.
- Idiota. – a loira acusou o irmão, que riu.
- Quando soube que eram três? – Shikamaru perguntou, refletindo sobre o comentário do manipulador de marionetes.
- Eu sempre soube que era mais de um bebê. Quando eles se mexiam eu sentia em lugares diferentes ao mesmo tempo, mas certeza mesmo só no parto. Não temos médicas-nins tão boas quanto as de Konoha, ou Hyuugas. Ainda mais na guerra.
- Kami-sama. Três de uma vez...
- Eles não dão mais tanto trabalho. Quando eram mais novos era mais complicado, mas Kankuro sempre me ajudou muito, e kage bushins nunca foram tão úteis. – ela direcionou um sorriso para o irmão, que suavizou a expressão.
A garotinha engatinhou até a mãe, que a pegou nos braços. Shikamaru observou novamente o quanto elas eram parecidas e sentiu uma onda de ternura lhe acertar em cheio. Assim como em seus planos infantis, ele tinha uma garotinha. E também o garoto, que tinha vindo junto com a irmã, e dobrado. Mas isso era mero detalhe.
- Já segurou um bebê antes, preguiçoso? – Temari perguntou com ar divertido.
- Não. – ele franziu o cenho, com medo do que poderia vir a seguir.
Sorrindo, Temari colocou a filha dele em seu colo. Retraindo cada músculo de seu corpo, Shikamaru segurou- a pelas costas. A garotinha olhou-o com curiosidade.
- Ume. – ele sorriu. E então se deu conta de algo. - Ah não. – gemeu desconsolado.
- O quê?
- Minha mãe vai me matar quando souber que eu tenho três filhos, e o nome de nenhum deles começa com "Shika".
xXx
O resto do dia havia passado voando, Shikamaru se deu conta mais tarde. As necessidades de três crianças eram imperativas e muitas, e, como estava decidido a ajudar Temari e recuperar um pouco do tempo perdido com os pequenos, se viu envolvido em atividades que antes lhe eram inimagináveis, como banhos, mamadeiras, fraldas e todo um universo infantil com o qual só havia tido contato quando era ele próprio um bebê.
Os meninos ainda o enxergavam com certa desconfiança, mas Ume já o tratava como parte da família. A garotinha havia roubado o coração dele no primeiro sorriso. E vê-los dormindo, quietinhos, tão pequenos e vulneráveis fez com que ele sentisse um arroubo de sentimentalismo que não lhe era característico, ainda mais depois de uma guerra. Aquelas pessoinhas pequeninas eram filhos dele e ele seria um homem morto antes de permitir que qualquer mal lhes acontecesse.
Apoiado no parapeito da janela, ele permitia que o vento gelado da noite o acertasse em cheio. Havia ido para Suna com um propósito, mas tudo havia sido esquecido com a descoberta daquela tarde. Mas agora os motivos para que ela aceitasse se casar com ele e fosse para Konoha eram ainda maiores. Mas a mulher era problemática e patriota o suficiente para não concordar com muita facilidade. Temari não era famosa por ceder, no fim das contas.
- Vai acabar ficando doente tomando esse vento.
Ele se virou ao ouvir a voz autoritária atrás de si, e sua respiração ficou presa na garganta. Temari estava usando uma camisola lilás de tecido leve, com os cabelos soltos pelos ombros. Não conseguia se lembrar de quando a havia visto com o cabelo solto pela última vez – ou de camisola.
Fechou a janela e tentou desviar o foco da atenção.
- E as crianças?
- Continuam dormindo. Eles não costumam acordar muito de madrugada, dormem bem a noite toda. Acho que puxaram ao pai. – ela informou com um sorriso zombeteiro.
- Heh. E Kankuro?
- Foi ver a Matsuri. Ele a ajuda também, passando algumas noites na casa dela. Ela perdeu uma das pernas no atentado em que Gaara morreu. – ela disse em tom desprovido de emoção.
Shikamaru balançou a cabeça, concordando. Mais uma tragédia para adicionar à lista.
O silencio se prolongou e ele coçou a cabeça, plenamente consciente do fato de que estava sozinho num quarto com Temari.
A loira sorriu antes que o clima ficasse estranho demais.
- Vem, vou te mostrar umas fotos que tenho dos gêmeos. – ela saiu do quarto com a camisola dançando atrás.
O Nara a seguiu até o quarto dela, parando na porta enquanto observava a kunoichi caminhar até a mesinha do lado da cama grande. Sentiu uma enorme sensação de déjà vu quando percebeu que pouca coisa havia mudado naquela parte da casa.
Temari acenou com um pequeno maço nas mãos.
- Entre. – ela sorriu debochada. – Não precisa ficar aí na porta.
Ele entrou pé ante pé até ficar ao lado dela, que se sentou na cama e fez sinal para que Shikamaru fizesse o mesmo. Ela estendeu a primeira foto quando ele se sentou.
- Essa é uma foto deles com dois dias de vida. – ela explicou. – Nessa, eles já tinham três meses, e aqui, cinco.
Passando as fotos que ela estendia, ele viu o quanto eles já haviam crescido. A foto de recém-nascidos era um pouco assustadora, eles pareciam incrivelmente pequenos e frágeis, e talvez até um pouco amassados. Seria errado pensar que seus filhos pareciam amassados? Não seria estranho se efetivamente estivessem, visto que haviam dividido um espaço pequeno por nove meses.
Mas nas outras fotos eles pareciam quietinhos, olhando para a câmera com curiosidade. Doeu um pouco saber que ele não estava lá para vê-los.
- Aqui Kankuro está com os meninos, e essa é a única foto que eu tenho com eles. – Temari entregou mais duas fotos. Shikamaru observou o sorriso do manipulador de marionetes com um garoto em cada braço. Era errado sentir raiva do cunhado? A quantidade de emoções estranhas que teve naquele dia era inacreditável. Passando a foto, olhou para Temari sorrindo com os três no colo. Sorriu.
Não havia maneira de voltar para Konoha e se casar com Sakura.
- E essa é de quando eu estava grávida. – ela entregou a última imagem. – Sorte ter uma dessas.
Ele abaixou os olhos para uma Temari com uma barriga enorme, com o obi vermelho trespassado logo abaixo dos seios.
- Kankuro tem razão, você ficou realmente grande. – ele comentou erguendo as sobrancelhas.
- Claro, havia três bebês aí dentro. – ela ergueu as sobrancelhas finas.
- Como conseguiu as fotos? – o shinobi perguntou, entregando as imagens para ela. – Não deve ter sido fácil durante a guerra.
- Ah, quando alguém tinha uma câmera, tirávamos uma foto. Mas revelar era um pouco complicado, por isso tenho tão poucas.
O silêncio voltou enquanto ela guardava as imagens. O ninja das sombras suspirou, havia chegado o momento.
- Eu... ainda não te disse por que estou aqui. – ele começou a explicar enquanto Temari pareceu curiosa. – Um motivo que se tornou ainda mais especial depois do que descobri hoje.
- E o que é? – ela perguntou com o cenho franzido.
O Nara respirou fundo antes de explicar resumidamente a missão que os homens de Konoha haviam recebido, o pedido de Kakashi e a decisão de ir procurá-la. Temari ouviu com expressão absolutamente neutra, como se ele falasse de algo que não a envolvia, e ficou um longo minuto quieta depois que ele terminou.
Só quem não a conhecia não notaria a agitação refletida nos grandes olhos verdes. Ela passou a mão nos cabelos, tentando aparentar tranqüilidade.
- E então, o que decidiu?
Shikamaru franziu o cenho, enervado com a reação dela.
- Como assim o que decidi? Não estou aqui? Não te encontrei? – ele remexeu os bolsos, puxando um documento dobrado e mostrou para a kunoichi. – E não é seu nome nessa certidão de casamento aqui?
Temari pegou o papel e leu-o cuidadosamente. Logo um levíssimo sorriso surgiu em seus lábios. Aquilo irritou Shikamaru ainda mais. Mulher problemática.
- Uau, Nara. Você realmente sabe como pedir uma garota em casamento. – ela sorriu debochada.
- Tsc, problemática. – ele resmungou enquanto enfiava as mãos nos bolsos. – Vai aceitar ir comigo para Konoha ou quer que eu me case com a Sakura?
A Sabaku fez uma careta.
- Não vai se casar com a Sakura, isso eu te garanto. – ela disse enquanto cruzava os braços.
- Isso é um sim? – o shinobi perguntou hesitante.
- Você é tão inteligente para umas coisas, mas tão lerdo para outras... – Temari balançou a cabeça e sorriu.
Shikamaru revirou os olhos antes de também sorrir.
- Só que é você quem vai dar a notícia ao Kankuro. - a loira avisou. – Não sei qual vai ser a reação dele quando souber que você vai levar os sobrinhos dele embora.
- Por mim ele pode até ir para Konoha com a gente, só quero ir para casa com os meus filhos. – o Nara respondeu. – Eu tive medo que você não aceitasse. Sei como ama Suna. – ele admitiu.
Temari suspirou.
- Eu amo, mas fomos a Vila mais destruída durante a guerra e o deserto começa a cobrar seu preço, é difícil até sair de casa. Não quero que meus filhos cresçam assim. – ela disse em tom reflexivo, encarando a parede. - Ainda trabalho para o Kage como examinadora e embaixadora na Folha. Tenho que falar com ele amanhã, talvez seja uma boa hora para retomar a diplomacia. E ele sabe que o pai dos meus filhos não é daqui. – ela o olhou de soslaio.
- Konoha está em um estágio bem mais avançado de reconstrução, pelo que pude ver daqui. – Shikamaru informou. – O clã está restaurado, e é um saco, mas teremos que morar com os meus pais enquanto não construirmos nossa casa.
A kunoichi balançou a cabeça em concordância e ficou olhando para as próprias mãos, torcidas no colo. Shikamaru coçou a nuca. Quando foi que aqueles silêncios estranhos se instalaram entre eles, fazendo com que ficassem sem jeito? Maldita distância!
- Será que eu posso, por Kami-sama, te abraçar? – acabou perguntando exasperado. – Tem pelo menos 500 dias desde a última vez em que pude fazer isso!
- Você é mesmo um idiota preguiçoso, Nara. – Temari sorriu, balançando a cabeça. - Depois de 500 dias eu esperava que esse fosse o tipo de coisa que você não precisaria mais perguntar.
Ele mal ouviu o final da frase e a puxou para si, apertando-a nos braços. Foram quinhentos e catorze dias, uma guerra sangrenta, crises de insônia e um peso no peito que pareceram se dissolver no calor que vinha dela. E ela ainda cabia ali direitinho, e tudo parecia tão certo. Temari reunia tudo o que importava na vida dele, o pedido de Kakashi agora parecia vago e impossível de ser cumprido.
Com os olhos fechados, ele subiu o rosto pelo pescoço longo, inalando o perfume da Sabaku. Ela enterrou os dedos nos cabelos dele, e ele descansou a testa na dela, abrindo os olhos para os orbes verdes que o observavam. Acariciando a bochecha da loira por um longo momento, ele beijou os lábios semiabertos dela de maneira lenta.
O beijo foi longo e saudoso, repleto de tudo o que fez muita falta durando o período de separação. Ele era um maldito sortudo por ela estar viva. Quantos ninjas haviam perdido tudo, tendo até a vontade de serem enterrados vivos, junto daqueles a quem amavam? E ele havia ganhado, por Kami-sama, ganhado uma família. Traçando uma trilha apressada de beijos pela bochecha dela, ele voltou a abraçá-la apertado para depois pousar uma mão sobre a barriga dela.
- Você teve três filhos meus sem saber se eu estava vivo, você enfrentou uma guerra com eles. Não sei o que fiz para merecer isso. – ele suspirou e a encarou. - Eu... - começou a falar, sem ter certeza se conseguiria terminar aquela frase tão cafona, mas ainda assim verdadeira. Aquele devia ser o dia mais atipicamente sentimental de toda a sua vida.
Eu amo você.
- Eu sei. – Temari evitou o momento embaraçoso. – Eu também. E você está aqui, vivo. O meu pesadelo mais cruel não existe mais.
Shikamaru balançou a cabeça, sonolento. Há tempos não sentia aquele tipo de cansaço, sem nada para atormentá-lo, apenas uma sensação de felicidade e satisfação. E também uma vaga lembrança de que não dormia há bastante tempo.
- Você não mudou nada mesmo. – Temari riu enquanto o puxava para a cama e os cobria. – Vamos dormir, preguiçoso.
- Tsc, mulher, temos muita coisa para arrumar e uma viagem longa para fazer. – ele resmungou enquanto a abraçava e aninhava a cabeça no pescoço dela. – Precisamos descansar. Não seja complicada.
- Tudo bem, você viajou, apanhou e absorveu muita informação em um dia só, merece descansar. Vou perdoar hoje, mas você também vai levantar se algum dos bebês acordar. – ela disse debochada.
- Problemática. – foi a única coisa que ele articulou antes de adormecer.
N/a: Bem, tinha uma moça no meu serviço que tinha voltado da licença maternidade, e como eu ia e voltava com ela eu acabei ouvindo muito, muito, muito sobre bebês. E por mais que eu mesma não tenha coração mole para pequenos seres humanos, eu tenho um coração mole pra pequenos Shikamarus. Pensar nessas crianças me deixava sonhando uma tarde inteira, imaginando as carinhas de sono... ui! Se eles fossem de verdade, apertaria tooooooooooooooodos! E sei que a Natii tbm gosta, então tcharam!
Esse negócio de eles se perderem a depois de um tempo se encontrarem e ela ter filhos nã é lá muito original, mas pelo menos o meu número de filhos foi diferente, hehehe. No fim das contas, eu quis sair do briga-apelido-sexo-etc. Espero ter conseguido.
Agradecimentos especiais à minha beta, Lirit! Obrigada de novo ^^
Bem, to no prazo e de acordo com a programação, então o próximo capítulo é um epílogo, e curtinho. Obrigada pra quem leu, e se leu, deixem reviews, pilantras!
