Ser igual para ser diferente
2 – Diana Corr
Subindo as escadas, lado a lado e sem olhar um ao outro, Diana e Artemis espumavam. A menina de cabelos tão negros quanto os dele batia os pés com força, carregando uma mala marrom, e parecendo ser pesada. Artemis, não pisando tão forte, mas mesmo assim pisando fortemente, trincava os dentes com força, e então percebeu que ela tirava um MP4 do bolso, colocava os fones de ouvido e, de repente, sem nenhum barulho, ela começou a gingar. O ritmo era meio contagiante e ela pisava como se estivesse voando, agora... O cabelo negro, solto, balançava, às vezes, acertando Artemis no rosto.
- Nossa... – Artemis murmurou... Essa colega de quarto dele era LOUCA... Foi então que ela começou a cantar.
- "Now that you got it!
What you gon' do about it
Now that you got it!
What you gon' do about it". – Ela pulava os degraus da escada a cada trecho da música, e Artemis sentiu alguma coisa dentro dele pular. Ele estava se contagiando pela voz dela! Ele só escutava música clássica, e música irlandesa! E agora essa menina cantando em inglês americano, pulando as escadas, faziam-no se perguntar o quê, exatamente, ela estava fazendo num colégio para gênios.
Ele a cutucou, levemente, no ombro, com medo de se machucar.
- Quê? – Ela virou-se para ele, subindo as escadas de costas, e tirando os fones.
- O que você está fazendo? – ele perguntou, se referindo à ela estar andando de costas.
- Cantando, oras. É proibido? – ela perguntou.
- Não! Como você consegue andar assim? – ele perguntou, esquecendo totalmente o assunto da música.
- Ah... – ela soltou um sorriso amarelo. – Não sei. Apenas consigo... Ando assim desde pequena, e não preciso olhar pra frente, sei o que tem no meu caminho e... – ela tropeçou num dos degraus e caiu de bumbum no chão. – Certo, na MAIORIA das vezes, eu sei o que tem atrás de mim.
Ele segurou um risinho irônico e a ajudou a levantar.
- Você vai ser MESMO minha colega de quarto? – ele perguntou, sem acreditar.
- É o que parece, senhor... – olhou na mala negra dele. – Fowl.
- Onde é? – ele perguntou, já que não paravam de subir nunca.
- No... No último andar... Vamos andar um pouco hein, Fowl? – ela falou, puxando a mala pesada.
Ele a olhou de lado, pela primeira vez a vendo realmente. Os cabelos dela eram na cintura, enormes, tinha um nariz fino, pele quase tão branca quanto a sua. Um nariz fininho e sardas por toda a região do nariz e maçãs do rosto. Quando olhou para ela, na recepção, notou que os olhos dela não tinham cor definida. Eram amarelados, com castanho, rodeados por um verde florestal e raios cinzas. E ela não era muito alta. Ele devia ser pouco mais de 15 centímetros mais alto que ela e, contando que tinha 1.75 de altura, ela deveria ter 1.60, por ai. Percebeu que, quando ela cantava, ou falava, sua voz tinha uma entonação estranha, quase mágica. Uma voz delicada, mas ao mesmo tempo persuasiva.
- Finalmente! – ela gritou, pulando os últimos três degraus da escada sem fim, e chegando no quarto 250. – Nossa, são mais de 500 pessoas nesse colégio!
- Como você sabe? – ele perguntou, sem prestar atenção.
- Estamos no último quarto, o 250, e são duas pessoas num quarto. Duas vezes 250 é igual a 500!
- Ah, isso... – ele nem tinha percebido, mas era verdade. Ela era atenta à tudo, até a esse detalhe miserávelzinho. – Por que está aqui? – ele perguntou, esperando ela abrir a porta com a chave.
- Minha mãe. Disse que tenho que ter um colégio à minha altura. – ela falou, olhando para ele.
- Por que exatamente este? Você é um grande gênio? – ele perguntou, chegando perto dela, arrastando a mala.
- Não sei, mas sou muito boa em matemática e tenho memória fotográfica. – ela falou, abrindo a porta, revelando um quarto muito escuro. – você é? – perguntou, enquanto entrava.
- Sim. – ele respondeu. Ia falar algo sobre o que fazia, mas perdeu a voz quando ela acendeu a luz do quarto. – Meu Deus!
- "Meu Deus", digo eu! Olha que bagunça! – ela chutou alguns objetos do chão, entrando numa sala totalmente desarrumada. Vários móveis estavam cobertos de um pano branco, havia poeira em todo lugar... Toda a esperança de Artemis de não ter rinite ali fora vã. – Isso precisa de uma arrumação.
- Eu que o diga. Não tem uma empregada por perto, não? – ele perguntou, displicente.
Ela o olhou, com os olhos arregalados.
- É claro que não, senhor "chiqueza". Nós vamos arrumar isso aqui. Você e suas mãozinhas manicuradas vão mexer na MASSA.
Foi a vez de Artemis arregalar os olhos. A única vez que tinha feito algum esforço foi a quase 2 anos atrás, quando fora resgatar o pai na Rússia, com ajuda de Buttler, Holly e Raiz.
- Vamos começar agora. Ou você quer dormir na poeira? – ela tirou o casaco e jogou-o em cima de um móvel, mostrando o corpo magrinho numa regata azul, colante. Ela também tinha sardas nos ombros.
- Eu não vou fazer isso. – ele disse, soltando a mala.
- Ah, você vai sim, riquinho... Ah, se vai! – Ela o puxou para dentro, trancou a porta e pôs a chave dentro do bolso.
- Não, não vou não. – Ele falou, sério, olhando diretamente nos olhos dela.
- Ah, vai! – ela olhou de volta. Um raio desprendeu dos olhos dela e grudou no dele. Era um cabo de guerra.
Ele olhou mais fortemente para ela, como se todo o corpo dele quisesse que ela o dominasse. Com Diana não era diferente, o olhar dele tinha um quê de controlador. Não era algo com que estava acostumada. Ela fazia isso com as pessoas.
Os raios ficaram mais fortes e eles sentiram um impulso de chegar mais perto, ou a linha invisível iria se separar. Era um guerra de mentes e olhar.
- Você está cansado, Artemis? – ela perguntou, na sua voz doce e controladora.
- N-não... – ele gaguejou, sucumbindo.
- Ah, você está sim... Você precisa relaxar... – ela falou, usando o tom de voz mais doce que podia.
- N-não... Não preciso... – ele falou, mas indo para trás levemente.
- Ah... Seus olhos estão ficando tão cansados, Artemis... – ela falou, sentindo-se cansada. Seus olhos começaram a juntar lágrimas.
- Acho que... que não... - ele olhou diretamente para ela, ambos cansados. Então ela piscou, e uma lágrima desceu pelos olhos dela. E quando ele piscou, sentiu uma lágrima quente descer pela bochecha. Ela sentou num sofá, respirando forçadamente.
- O que foi isso? – ele perguntou, se apoiando num móvel.
- Artemis... Você é um "Difícil"! – Ela saltou. – Incrível! Só encontrei duas pessoas assim na vida!
- Como assim? – ele perguntou, se desapoiando do móvel. Sua calça escorregou um pouco, mostrando um pedaço da cueca.
Ela olhou para lá por alguns segundos e olhou para ele.
- Nada de mais, Artemis. Por favor, me ajuda arrumar essa bagunça. Juro que não canto depois das 21:00! – ela fez um "X" no ombro, e ele soltou um risinho. Que promessa!
- Certo, o que tenho de fazer? – ele perguntou.
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Depois de algum tempo empurrando moveis, ajeitando tapetes, varrendo o chão e limpando armários, eles se sentaram nos sofás brancos, um de frente para o outro, exaustos.
- Cara, você é hilário... – e ela soltou uma gargalhada, lembrando dos tombos que Artemis sofrera. Afinal, ele não era acostumado a fazer esse tipo de serviço.
- Vamos, ria da minha cara, tampinha. Não fui eu quem bati minha própria cabeça na porta, tropecei nos meus próprios pés e sofreu, no mínimo, 10 topadas em 5 minutos. –ele falou, com um risinho sarcástico nos lábios.
- Já estou acostumada com tudo isso. – Ela se levantou e foi até ele. – Mas da próxima vez que você me chamar de tampinha, riquinho, eu vou te dar um soco na cara. Promessa. – Diana pegou a mala e foi para seu quarto, ajeitar as roupas.
Não bem ela cruzou as portas e Artemis soltou da sala.
- Tampinha.
Ela parou, jogou a mala na cama e foi até ele.
- Vai me bater, tampinha? – ele perguntou, crente que a ameaça dela era um blefe.
- Já que perguntou... – Ela juntou os dedos, num punho, e jogou toda a força do corpo na mão, que acertou em cheio no rosto dele. – Sim. – e voltou pro quarto, deixando um Artemis atordoado no sofá, mas já sabendo que não poderia brincar com sua nova colega de quarto. Levantou-se e foi para seu quarto, resmungando algo sobre "quebrar meus dentes" e "deformar meu rosto".
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- Acorda. Acorda. – silêncio. Barulho de coisas caindo.
PÉÉÉÉÉÉÉÉÉNNNNNNNNNN!!!!
- ACORDAAA! – Um barulho ensurdecedor zumbiu no ouvido de Artemis, fazendo o pular da cama. – Está atrasado!
- É o quê?!?!?!?! – Perguntou um desorientado Artemis, com uma mão no ouvido. – Você é louca? Você quase me matou de... – então viu que ela estava vermelha e sem reação. Olhou pra si mesmo... E estava só com as roupas de baixo. – Ah! – puxou os lençóis para cima do corpo. – O que você quer?! Me matar de vergonha?
- Você está com vergonha? – ela começou a rir. – Que bonitinho! – Ela puxou os lençóis que ele, relutantemente, soltou. – Vamos logo! Você devia ter acordado há meia hora. – disse, saindo com a "buzina" na mão.
- Está certo, minha xará. – Disse ele, lembrando da relação entre "Artemis" e "Diana", a mesma deusa na mitologia. – Você não perde por esperar.
-Continua-
