Ser Normal Para Ser Diferente
Capítulo 17: 50 Receitas
Os ombros de Artemis estavam tensos quando entrou no carro negro. Butler tomou sua posição de sempre, olhando de soslaio para o patrão, que parecia mais pálido do que de costume.
- Relaxe, Artemis. – Disse o homem. – Pior do que está não pode ficar. Pode?
Artemis deu de ombros. Estava prestes a se reencontrar com Diana. Não sabia se ria ou se chorava, se tinha raiva ou amor. Treinou em sua mente o que queria falar para ela milhares de vezes, pedir perdão por seus erros, tê-la nos braços novamente, mas diante da perspectiva de vê-la, tudo se anuviava e ele não conseguia mais lembrar de nada. O que poderia estar acontecendo com ele? Essa falta de controle por si próprio era fora do normal, até para uma pessoa normal que se apaixona. O que Diana havia feito com ele? O que Diana havia feito dele?
"Eu respiro tentando encher os pulmões de vida
Mas ainda é difícil deixar qualquer coisa entrar"
As nuvens passavam como um turbilhão de imagens. Diana mexia os pés sem ter controle de suas emoções. A Terra estava em perigo, e era responsabilidade dela fazer com que ninguém morresse, e ainda por cima, não soubesse que estava em perigo. O caos seria tremendo se as pessoas soubessem que o mundo estava prestes a acabar. Os Dords, apesar de serem pacíficos, quando se metiam numa guerra, não havia nada que pudesse pará-los. Dotados de poderes sobrenaturais, a aparência humana era apenas uma fachada. Costumes extremamente diferentes, poucas pessoas compreendiam com exatidão o que eles realmente eram.
Mas o pior não era essa responsabilidade arrasadora. O pior era saber que teria que olhar para Artemis mais uma vez. Não que ela estivesse com raiva, mas estava um pouco magoada. Ele não poderia saber quem ela era verdadeiramente, nunca. Mas agora teria. E o pior é que, provavelmente, ele não a iria querer, ou, ao contrário, ele iria querer justamente por isso. Não era isso que Diana queria. Ela queria que ele a amasse como o que ela sempre fora: uma menina baixinha e extravagante, com um sorriso nada discreto e cabelos tão grandes que cobriam seu rosto. Fechou os olhos e respirou fundo. Por que tudo tinha que ser tão difícil?
"Ainda sinto por dentro toda a dor dessa ferida
Mas o pior é pensar que isso um dia vai cicatrizar"
O sol o cegava um pouco enquanto eles atravessavam as ruas de Dublin. Seus dedos com nós cor-de-rosa estavam nervosos. Estavam chegando e ele não conseguia pensar em nada para dizer, não conseguiria nem conter o nervosismo. Seus ombros estavam tensos, e ele estava com vontade de vomitar de tanto que sua barriga dava voltas. Os olhos azuis piscavam, e ele estava com vontade de gritar.
- Artemis, você está inquieto. – Butler afirmou, virando uma esquina.
- Como você estaria, homem? – Artemis quase gaguejou. Sua voz estava rouca.
Butler não respondeu, apenas levantou um canto da boca, formando um sorriso. Artemis estava virando o que ele mais temia: um adolescente cheio de hormônios. Maior parte da confusão não era saber que tinha errado, e sim saber que encontraria Diana mais cedo ou mais tarde. A garota era totalmente diferente dele, mas, ainda assim, ele gostava dela. O prédio do aeroporto já era visível, o que fez o rapaz pálido se inquietar ainda mais.
"Eu queria manter cada corte em carne viva
A minha dor em eterna exposição"
Diana via Dublin se aproximar cada vez mais. Já podia ver a silhueta de Levez a esperando em baixo, na plataforma. A guarda-costas mantinha seus braços cruzados, enquanto os cabelos presos num rabo-de-cavalo se esvoaçavam com o vento solto pelas turbinas do jatinho. Estava a uma boa distância, para que nada impensado acontecesse. Quando pousou, Diana pôs para fora suas botas Jimmy Choo. Seus olhos estavam fora de foco. Os cabelos negros enormes estavam caindo por cima dos óculos de grau Dior. As sardas pareciam mais evidentes, e os olhos estavam mais verdes. O vestido leve marrom acentuava a brancura da menina, e moldava o corpo pequeno, mostrando que havia uma mulher ali dentro.
- Senti saudades, pequena. – Levez falou, chegando perto da menina.
- Eu não! – Diana falou, rindo e quase chorando. Agarrou a guarda-costas, que acariciou levemente seus cabelos negros.
As duas permaneceram nesse abraço por poucos 30 segundos, até que Levez levantou o rosto da moça e observou, séria:
- Diana, você está parecendo triste.
Dc olhou para baixo, e começou a andar em direção à saída. Suas botas faziam um "toc-toc" característico, e os cabelos da moça balançavam com o vento, e o sol acentuava a negritude das madeixas. O silêncio era um sinal de que Diana não desejava falar sobre o assunto, o que bastou para sua guarda-costas, afinal de contas, Levez ainda era um assalariada e não gostaria de ser despedida, por mais que pensasse que sua relação com a chefe era mais que profissional.
- Vai encontrá-lo? – A mulher de traços fortes perguntou, enquanto a pequena piscava, tirando os óculos quando entraram na área interna do aeroporto.
- E tenho outra escolha? – Dc balançou a cabeça como que acordando do mundo e continuou o percurso que a levava para fora do aeroporto, onde seu carro estava esperando – Diana odiava limusines, então nunca contratava uma. – Você já está a par dos acontecimentos mais recentes, Levez. Sabe tão bem quanto eu que não posso deixar Artemis fora disso. Ele está tão dentro disso quanto eu estou.
- Mas... Eu pensava que ele apenas era conhecido do povo das fadas. – Levez piscou, mediante sua falta de informação. Não era sempre que isso acontecia.
- Há muitas coisas sobre o Povo das Fadas que você desconhece, Levez. – Diana olhou para a guarda-costas por cima do ombro, seus olhos adquirindo uma coloração acinzentada, enquanto sua língua se modificava na ponta, sugerindo uma bifurcação. – Estamos numa guerra. Não posso me dar ao luxo de deixar pessoas importantes fora da jogada.
- Se estamos numa guerra, Diana, não deveríamos informar aos líderes mundiais? – Levez fez a pergunta óbvia, mesmo sabendo a resposta.
- Quem iria acreditar que fadas e gnomos estão prestes a destruir o mundo, Levez? Quem? – Foi a resposta desesperada da pequena princesa élfica.
"E sair nos jornais e na televisão
Só pra te enlouquecer
Até você me pedir perdão"
Artemis relembrava a pergunta que sua mãe lhe fizera no dia anterior. "Você irá pedir desculpas?". Sim, ele iria. Mas como? Para Artemis, essa situação era quase impossível de acontecer. Passou a mão nos cabelos no momento em que viu Diana atravessar as portas automáticas do aeroporto, gingando como sempre. Parecia mais madura, mais séria... Mais mulher. Isso o incomodava. Adorava a Diana extremamente diferente dele e a queria de volta. Saiu do carro sem esperar que Butler abrisse a porta, e começou a caminhar em direção à moça. Sua garganta estava seca e, apesar de suas mãos estarem firmes, um turbilhão de emoções passava pelo seu corpo, como milhões de elétrons livres. E ele estava prestes a se eletrocutar.
"Eu já ouvi 50 receitas pra te esquecer
Que só me lembram que nada vai resolver"
Na mente de Diana se passavam milhares de coisas diferentes. No momento que viu Artemis, notou que ele estava mais alto. Que ironia. Enquanto ele crescia, ela diminuía. Os cabelos da menina começaram a se espalhar por conta do vento, a fazendo ficar com o rosto parcialmente encoberto pela camada negra, que lhe dava um pouco de confiança. O rapaz estava ficando cada vez mais perto, e ela não sabia o que fazer. Não se atrevia a olhar para a mulher que a acompanhava, com medo de revelar sua insegurança. E agora, o que poderia fazer?
"Porque tudo, tudo me traz você
E eu já não tenho pra onde correr"
O terno negro que usava o incomodava longamente. Como? Como ele pronunciaria aquelas palavras que mal ousavam pousar em sua língua, quanto mais sair de sua boca? A sua amada estava a alguns poucos metros de distancia, que Artemis vencia com velocidade, devido a suas pernas compridas. Será que ele estaria tão mudado assim a ponto de chegar e dizer, sem medo, que estava errado?
"O que me dá raiva não é o que você fez de errado
Nem seus muitos defeitos
Nem você ter me deixado
Nem seu jeito fútil de falar da vida alheia
Nem o que eu não vivi aprisionado em sua teia"
Quando Artemis chegou perto dela, Diana fez algo que nunca imaginaria fazer na vida. Ela sentia que ele estava arrependido, então não precisava ter dúvidas. Ele não a iria trair. Ela sentia que o coração do rapaz estava dolorido, e sabia da sua insegurança. Diana não queria perder tempo, assim como não queria que ele fizesse algo que ela sabia que era difícil para um Fowl, especialmente para Artemis Fowl II.
Então o que fez, foi simplesmente esperar que ele se aproximasse, ficar na ponta dos pés e dar-lhe um beijo na boca. Apesar de sentir que ele ficou surpreso e abalado, ele não a negou. Ao invés disso. Artemis a segurou pela cintura e a levantou do chão, com força. Lágrimas começaram a se formar nos olhos de Diana, mas ela se controlou. Não choraria na frente dele.
"O que me dá raiva são as flores e os dias de Sol
São os seus beijos e o que eu tinha sonhado pra nós
São seus olhos e mãos e seu abraço protetor
É o que vai me faltar
O que fazer do meu amor?"
- Dia... – Artemis começou a falar, mas a moça o interrompeu.
- Preciso falar de um assunto urgente. Deixemos o sentimentalismo de lado, por hora. – Foi ai que Artemis notou que Diana merecia a riqueza que detinha. Somente ai ele notou porque ela era uma agente secreta, ou porque viajara para tantos outros lugares. Ela era uma mulher de negócios nata, e nem um beijo sôfrego de saudades mudaria o intuito do encontro deles. – Quero que você vá à minha casa, às 19:00. Precisamos conversar num local onde não haja tantos olhos e ouvidos. – Artemis olhou ao redor, notando que o estacionamento do aeroporto estava praticamente vazio, com exceção de Butler, ele, Diana, Levez e algumas outras poucas famílias que se reencontravam. A única coisa que fez foi concordar com a cabeça e preparar-se para dar meia volta, quando a moça o agarrou pela manga do terno.
- E, Artemis. – Ela sorriu. – Senti saudades. Espero que o mau entendido tenha sido corrigido.
Como ela sabia sobre o que ele pensara quando eles terminaram? Artemis não ficou pensando muito nisso. Afinal de contas, ela o havia perdoado e ele não tivera que pedir desculpas.
- Sim. – Foi o que disse, se dirigindo logo após para o carro negro onde Butler o esperava.
- Parece que você não precisou tomar uma decisão, não é? – O guarda-costas relaxou de sua postura levemente quando Artemis se aproximou. Sua mão estava no cinto, onde Artemis sabia que havia um revólver simples, mas eficaz, fora as outras armas embutidas no corpo de Butler.
- Não. – Artemis entrou no carro, e esperou que Butler ligasse o automóvel para continuar. – Mas parece que o assunto está longe de terminar.
"Eu já ouvi 50 receitas pra te esquecer
Que só me lembram que nada vai resolver"
- Foi bem invasivo, não acha? – Levez perguntou à Diana, quando as duas chegaram na mansão praticamente vazia que pertencia a família Corr, onde alguns empregados andavam por todos os lados, dando últimos retoques em tudo. A sala onde estavam era extremamente organizada e branca, tendo um ar de tecnologia avançada característico do excesso de dinheiro da família Corr, uma das mais ricas da Irlanda, que contrastava com sua cozinha, rústica e caseira, especialmente projetada por Diana, que passava a maior parte do tempo lá.
Atrás dos sofás brancos, cobertos por um tecido de veludo prateado milimetricamente arrumados, havia duas estantes, também brancas, cheias de livros, que Diana havia estudado um por um. Ia de Platão a Sun Tzu, A moça passou algum tempo olhando os livros, ganhando tempo. Dali a uma hora e meia Artemis estaria à sua porta, pontual como sempre. Subiu as escadas e se arrumou, colocando uma roupa mais caseira, mas, de qualquer forma, elegante. Prendeu os cabelos num coque e substituiu as botas por sandálias creme. Quando foi à sala novamente, Levez a esperava, tendo acabado de desligar o telefone.
- Quem era? – Diana perguntou casualmente.
- A pequena Levez...
- Que de pequena não tem nada. – A moça pálida falou, se referindo à filha de Levez. Nunca tinha visto a moça, mas Levez lhe dera muitos detalhes sobre os filhos que tinha.
- É. – A guarda-costas concordou, observando Diana descer os degraus.
- Agora é só esperar. – A menina falou, sentando-se no sofá. Seu coração pulando, mas um objetivo na mente. E não tinha nada a ver com sentimentalismo. Ou será que tinha?
"Porque tudo, tudo me traz você
E eu já não tenho pra onde correr"
Continua...
N/A.: Noooossa, faz muito tempo que eu não posto nada! Isso é um crime, não tem justificativa... Mas eu sempre tenho uma! No começo foi simplesmente a falta da música certa. Depois, falta de criatividade, e finalmente, quando a criatividade veio, escrevi um cap enorme... que o ffpontonet rejeitou... o PC quebrou e eu perdi o cap... e veio novamente a falta de criatividade, até que consegui terminar esse aqui! Espero que tenha ficado bom! A história está chegando ao seu ponto crucial, e faltam poucos capítulos para o final. E ai, o que irá acontecer?
