Ser Normal Para Ser Diferente
Capítulo 18 : Vertebrae by Vertebrae
Hibria Cetacea observava as árvores enregeladas com os olhos azuis cortantes. Eles tinham um quê de estranho, variando do cinza ao azul, a pupila dilatando e contraindo de acordo com a vontade da dona dos olhos. Os cabelos, completamente cheios de amarras, impedia que os fios se movessem livremente. As pernas contraídas e musculosas indicavam que ela estava tensa, preparando sua força para o ataque. As lâminas nas suas duas mãos, apesar de parecerem primitivas, eram bastante eficazes. Mas ela não precisaria das lâminas quando tinha seus poderes para ajudá-la.
"Up on the toe
There is a view"
A brancura da sua pele era um ponto positivo. Era quase tão branca quanto a neve, e às vezes um disfarce caia bem, mas não era o objetivo daquele povo. Seus seios estavam amarrados firmemente com bandanas brancas, justas, enquanto uma saia cheia de franjas, azul, aberta completamente dos lados, para dar-lhe mobilidade, cobria a parte de baixo do corpo, mas só como objeto de beleza, pois, abaixo da saia, havia mais bandanas protegendo suas partes mais íntimas. Cetacea não se preocupava com o frio. O calor era seu maior inimigo, na verdade.
"Up on the toe
And the spine"
Tatuagens azuis cobriam sua pele, formando imagens que se pareciam com círculos. Crianças Dords eram tatuadas assim que nasciam, e recebiam um nome.
Cetacea.
As tatuagens de Cetacea indicavam ondas do mar, onde a mulher de estatura baixa se dava melhor. Não que sua força em terra fosse pouca, era mais forte que qualquer macho humano ou Dord que cruzasse seu caminho, mas na água seu poder se intensificava de forma esmagadora. Suas unhas eram firmes como metal, e seus sentidos super aguçados. Sabia há muito tempo que Harvi Náttúra estava a olhando de longe, e estava só esperando a amiga chegar perto.
Quando Náttúra o fez, Cetacea piscou os olhos pela primeira vez desde que estava de guarda. Virou-se para a outra mulher, vestida de maneira igual, mas com cabelos mais curtos. Essa era a forma de mostrar superioridade. Quanto maior o cabelo, mais importante você era. Os cabelos de Náttúra eram na altura dos cotovelos. Os de Cetacea, um pouco abaixo da metade da coxa.
"Straight and erect
Hungry and curious"
- Halic a chama, Cetacea. – Náttúra falou. Para os Dords, o nome que significava a pessoa era seu nome. O primeiro nome era o sobrenome.
- Náttúra, sabe tão bem quanto eu que não estou preparada para ir ao Conselho. – Cetacea respirou fundo, guardando as lâminas em bainhas acomodadas ao lado de sua cintura fina.
- Mas você está na idade, Cetacea. Não pode atrasar o Conselho. – A outra rebateu, mostrando a lógica da lei na Tribo dos Dords.
- Estamos numa guerra. Sou uma guerreira, e não posso me dar ao luxo de ter Kikimrarins na minha barriga agora. – Cetacea se exasperou, levantando-se de um salto. Suas pernas curtas e grossas se contraindo de raiva. – Não posso cuidar de pequeninos. Não agora.
- Pensei que não concordasse com a guerra, Cetacea. – A outra mulher, que detinha olhos verde-escuros como lodo e tatuagens com formas mais rígidas, menos onduladas e cheias de pontas, como folhas, sorriu com dentes extremamente brancos. Dentes de marfim.
- Não concordo. Mas o que podemos fazer? Ela diz que a guerra e necessária, e o Conselho concordou. O que posso eu fazer? – Cetacea segurou os longos cabelos, com dreadlocks coloridos, num sinal claro de nervosismo. – Eles vão nos matar, Náttúra!
"Up on the toe
Looking forward to"
Cetacea saiu andando com seus passos delicados por cima das rochas amareladas de redondas que demarcavam o começo do território da tribo Hirctacian, uma das tribos vertentes da Grande Tribo. Descendo um pouco na passagem secreta dentro da neve, um mundo completamente diferente se descobria. Árvores gigantescas seguravam a neve que disfarçava o local. Eram centenárias, monstruosas gigantes com troncos da cor do metal, e folhas extremamente verdes, apesar da neve. Liquens e musgo se espalhavam pelas paredes de gelo formadas ao longe, delimitando o local. Um rio de gelo derretido caia do alto, por trás de uma das gigantes, a que parecia a maior de todas. As casas ao redor das árvores centenárias pareciam grandes iglus, totalmente feitas de gelo... E diamantes. Os estranhos Inuits desfilavam com suas roupagens azuladas,homens cuidando de crianças, garimpando no gelo, pescando ou colhendo seiva das árvores, enquanto as mulheres, algumas com barrigas enormes, indicando que chegaram à idade de carregar Kikimrarins e se cuidavam para a chegada dos pequeninos nenéns. As que não estavam grávidas cuidavam de aprender a usar lanças, lâminas e todo o tipo de armas. Ao contrário da maioria das espécies, as fêmeas Dords eram extremamente mais fortes que homens, sendo elas as guerreiras. Grandes estruturas interligadas, ao redor da Grande Árvore, formavam o palácio do Conselho, onde sábios e sábias designavam o destino dos Dords. Eram dotados de grande conhecimento, mas alguma coisa os havia modificado. Uma mulher pequena e bela, que os encantou por ser diferente das Dords. Parecia uma criança humana, no entanto, não tinha nada a ver com uma. Cetacea sentia maldade toda vez que olhava para o ser que chegava ainda a ser menor que ela. O que todos os sábios estariam pensando?
"The air is thinner here"
Quando ela desceu mais um pouco e começou a caminhar em direção à sua própria casa, um homem a interceptou. Os machos Dords eram altíssimos, em comparação com suas fêmeas. Por conta de seu desenvolvimento psicológico, os Dords quase não mantinham relacionamentos amorosos, o que fez o Conselho obrigar as mulheres Dords a engravidarem assim que chegassem a uma idade propícia.
- Cetacea! – O homem branco exclamou entusiasmadamente, fazendo com que os cabelos negros repicados e compridos, quase tanto quanto os de Cetacea, sacolejassem com o vento frio que invadia o território. Ao contrário das mulheres, os homens não possuíam as amarras que prendiam os cabelos, mas vários brincos em uma das orelhas. O corpo do homem, nu da cintura para cima, era coberto de tatuagens marrons, que indicavam montes de terra. Comparado-o aos homens humanos, esse ser era muito mais musculoso e sadio. O corpo, apesar do frio, não tinha nenhum pelo aparente, a não ser as sobrancelhas e os cabelos – no calor, os pelos só ajudariam na carbonização do corpo.
- Mons! – Cetacea abriu os braços. O homem era quase que exatamente igual à ela, com a exceção de um sinal acima da sobrancelha esquerda. Mas ambos os narizes eram iguais, as sobrancelhas tinham o mesmo formato, a boca e falam do mesmo jeito. Hibria Cetacea e Hibria Mons eram irmãos gêmeos.
"She came here
To lose face"
- Então você se revoltou e não vai ao Conselho? – Mons indagou, com um sorriso cínico nos lábios.
- Não posso me dar ao luxo de casar agora, Mons. – Cetacea continuou se dirigindo para sua casa, agora ao lado do irmão. – E, além do mais, não quero ver aquela Kirkchark novamente.
Mons estranhou a irmã. Cetacea não era habituada a xingar absolutamente ninguém, quanto mais com nomes chulos. Kirkchark era como os Dords chamavam as mulheres que não tinham "casa" e não esperavam o Conselho para se juntar com alguém. Não conseguiam marido, e ficavam com muitos homens até ter uma criança.
- Nossa, que adjetivo mais peculiar, irmã. – Mons falou. A calça azul com franjas arrastando as barras no chão, enquanto se abaixava para entrar pela porta da casa de gelo. Uma mulher estava tecendo uma saia, e olhou para o lado quando os gêmeos chegaram.
"Got down on her knees
The beast is back!"
- Você não foi. – A mulher, que parecia ser mais velha que Cetacea, falou. Não deu muita importância ao fato, mas pareceu aborrecida.
- Não estou pronta, hika. – Cetacea falou, se referindo à mãe, Hibria Cirrus. A mulher se vestia basicamente como a filha, mas os cabelos eram mais curtos e as tatuagens formavam curvas almofadadas no corpo, como nuvens. O pai da mulher mais nova morrera há anos, quando caçava peixes maiores no mar aberto, e se chamava Hibria Selachimorpha. Um nome muito potente para um homem muito potente. Tinha cabelos tão compridos que era necessário amarrá-los.
"On four legs
Set her clock to the moon
Raises her spine"
A cultura dos Dords era extremamente intrigante. Acreditavam em deuses que desciam em naves de metal brilhoso, que se pareciam com eles, mas um pouco diferentes... Mais perfeitos. Tinham a pele acinzentada e as mesmas tatuagens dos seus seguidores. O interior das casas eram pintados com a história dos Dords, como eles chegaram, como se adaptaram. Em um mundo normal, com pessoas normais, em uma sociedade normal, o mundo Dord seria considerado impuro e sem sentido. O corpo das mulheres era projetado para sempre ter dois filhos, então, as mulheres Dords só conseguiam engravidar uma vez na vida.
Cetacea sentou-se no chão, mexendo num de seus dreads. Ela estava louca para tirar as amarras, mas para isso precisaria de um marido. Os cabelos era o maior símbolo sexual para os Dords. Enquanto para mostrar sua beleza e força os homens deixavam os cabelos excessivamente negros e lisos soltos, para que as mulheres se encantassem, as mulheres deveriam deixar os cabelos presos, para que homens quisessem "tirar as amarras". Os cabelos das mulheres Dords eram firmes, lisos e tão negros quanto os dos homens, e apesar de saberem disso, os homens queriam que as mulheres tirassem as fitas das madeixas, quase tanto quanto um homem humano gostaria que uma mulher tirasse as roupas.
"Vertebrae by vertebrae
Up on the toe
Looking"
Cetacea sabia que o que a "mulher" estava fazendo era errado. Apesar de as coisas estarem mudando, a moça sabia que os humanos e o Povo das Fadas também estavam sendo afetados. O mundo em que eles moravam estava morrendo, e era óbvio que em qualquer lugar que eles fossem continuaria da mesma forma. Mas parece que o desespero havia tomado conta das pessoas, principalmente dos sábios do Conselho, e eles não haviam se dado conta disso... Tudo por conta daquela coisinha minúscula.
"I have been filled with steam for months, for years
Same old cloud, claustrophobic me"
- Acho que eu deveria fazer algo. – Cetacea falou, de repente, fazendo sua "hika" olhá-la com olhos arregalados.
- Você vai trair seu povo! – Exclamou a mulher mais velha, se levantando. Era tão pequena quanto Cetacea, mas seu corpo era bem mais delicado e frágil. Era o que acontecia quando as Dords tinham filhos. Ficavam fracas.
- Não posso trair um povo que já foi traído por seus superiores! – Uma lágrima desceu de um dos olhos da moça. – Não posso trair um povo que já traiu a si mesmo!
- E o que você pretende fazer, Cetacea? – Mons indagou, sem sair de sua postura compenetrada de sempre.
- Pretendo encontrar os humanos. Não sei como, mas o farei. E eles irão entender. – Cetacea levantou-se e olhou para um espelho que tinha atrás de si. Na casa não havia cadeiras ou camas, apenas almofadas rústicas feitas com peles de focas e lençóis de alguma outra pele que não dava para se identificar.
"Let it burst like old train sounds
Make them leave me nature"
Tudo o que Cetacea viu foi um ser pequeno, com cabelos enormes, pele branca e azul, olhos azulados, dedos pequenos e levemente gordinhos, pernas curtas e grossas, uma cintura fina e fitas no seu corpo. Mas Cetacea sabia que por trás disso tudo havia uma guerreira pronta para matar e talvez morrer por seu povo – ainda mais por seu planeta. Quantos navios ela já não havia destruído por causa da destruição do povo marinho? Não era esse seu dever? Os humanos estavam destruindo a Terra, e era dever deles protegê-la. Se estavam fazendo errado, então, melhor que morressem. Mas Cetacea sabia que uma guerra só aumentaria a destruição e a contaminação do pouco que eles ainda detinham.
"Vertebrae by vertebrae by vertebrae"
Saiu batendo os pés descalços no chão coberto de neve, sua raiva fazendo com que sua pupila diminuísse para quase um pontinho. Suas mãos se apertavam, enquanto alguém corria atrás dela.
- Cetacea! – Harvi Insula, irmão gêmeo de Náttúra, corria atrás dela, esperando que ela parasse. – Srta. Cetacea!
A mulher virou, e o outro quase se chocou com ela. Parou, fez uma reverência – dobrando o pescoço para frente e cruzando os braços no peito, e olhou nos olhos dela, firmemente. Suas tatuagens azuis eram quase como as dela, mas com alguns pontos marrons.
- Mandaram avisá-la de que tem o tempo máximo de até o Sol tocar na montanha Laesk para comparecer ao Conselho e justificar sua não ida. – Os cabelos de Insula eram um pouco abaixo do ombro, o que mostrava sua inferioridade perante Cetacea.
A mulher girou os olhos e se dirigiu até o castelo do Conselho, não parando para cumprimentar nem uma criança sequer.
"My arms squeeze out of my shoulders!"
O Conselho era formado por quatro homens e quatro mulheres. Todos eram idosos, os cabelos acinzentados incrivelmente compridos eram amarrados em tranças, e ornamentados com pequeninos diamantes ao redor da cabeça, como uma coroa. Para eles, diamantes eram como flores... Bonitos, mas nada raros. A mulher mais à direita olhou para Cetacea com desprezo, e lhe dirigiu uma pergunta simples.
- Porque não veio?
- Sou uma guerreira, e estamos numa guerra. Não há tempo para que pessoas como eu tenham filhos. – Cetacea não pestanejou. Sua voz era firme.
- Mas até mesmo vocês, guerreiras, devem ter filhos. – Falou o homem que estava ao lado direito da mulher que lhe falou a pouco, e parecia muito com ela.
- Não eu, Cetacea. Tenho coisas mais importantes a fazer do que cuidar de crianças. Há muitas outras que desejariam ter um filho desesperadamente. Chamem-nas. – Quando estava pronta para virar as costas, viu um pequeno ser parado junto à porta. Tinha cabelos louros e orelhas pontudas, mas parecia muito com uma criança. – Graças a você, querida, todos perderam a razão. – E saiu, passando ao lado do ser que, com um sorriso, cogitava o que a outra acabara de lhe dizer. Estava tudo dando certo...
"And the arms squeeze out of my shoulders
I curl my tail in words"
Cetacea estava ficando desesperada. Tinha que sair daquele casulo que chamara de lar por anos. Mas como? Estava no meio de um deserto de gelo, e apesar de ter poderes que poderiam lhe mostrar o caminho para os homens, a distância era muito grande, e, andando, como a pobre criatura conseguiria chegar a tempo? Só quem detinha esse poder eram os sábios, e eles não falariam a ela nem que ela os ameaçasse. Como? Como?
"I set my clock on the moon
Vertebrae by vertebrae"
De repente, algo iluminou sua mente. Um par de olhos azuis, pele branca e cabelos negros, curtos. Cetacea mexeu sua cabeça para que aquela imagem saísse de seus olhos, e então se deu conta de que ela sabia a solução, e a solução estava prestes a chegar. Só bastava que ela esperasse. Esperasse...
Por quantos anos ela havia esperado?
"Please release this pressure of me"
Chegou em casa extasiada. Um sorriso delineava seus lábios vermelhos e perfeitos. Seu rosto belo era uma máquina mortífera, e ela só precisava pensar um pouco para causar a morte de alguém que ela quisesse. Mas não era a hora, agora. Ela precisaria da ajuda dele para prosseguir. Somente ele poderia fazer com que isso acabasse, e ela sabia que ele ajudaria.
"Let off some steam"
Continua...
N/A.: Esse foi rapidinho! Bem estranho, né? Foi só pra mostrar quem é esse novo povo com quem estamos nos metendo dessa vez... Muitas coisas estão pra acontecer, e quem conseguirá impedir de essa guerra acontecer? Descubra nos próximos caps!!
Bjos da Polly!
