II.

Ela saíra do bar com dor de cabeça. Alguém havia se interposto entre os dois e a briga acabara antes de tomar maiores proporções. Nenhum deles estava seriamente ferido. Então ela pegara um táxi sozinha. Agora estava voltando para o seu apartamento, lugar onde ela ficava pouco, ultimamente.

Estava preocupada, no íntimo gostaria de ter cuidado de Peter, mas não achava justo deixar Lincoln para trás, e era difícil naquela momento colocá-los juntos no mesmo ambiente. Peter estava de cabeça quente. Ela nunca o vira assim. Só quando foi infectado pelo vírus. Ele saíra do controle durante o confinamento. Ele não era uma pessoa agressiva, não era parte de sua natureza.

Ela estava triste. Toda a esperança de uma vida mais tranquila se esvaíra nesta manhã que ela nunca esqueceria. A outra dera a última palavra. Peter estava ligado a ela para sempre.

Resolveu tomar um banho quente. A água do chuveiro batendo em sua cabeça , ao longo de suas costas, foi um alívio. Seu estômago estava vazio. Não conseguiria comer o que fosse. Escovou os dentes, colocou um pijama velho e fez uma coisa inédita: pegou um dos soníferos prescritos pelo médico na ocasião de seu retorno e engoliu com um pouco d'água. Deitou. Em poucos minutos estava dormindo.


Peter chegou em casa som algumas contusões no rosto e sangue seco nos cabelos e na camisa. Estava decepcionado, pois tinha uma remota esperança que Olívia tivesse ido para a sua casa, onde ela agora passava a maior parte do tempo, quando não estava trabalhando. Pensou em ligar para Rachel, mas achou pouco provável que Olivia deixasse a cidade com uma situação delicada como a que estavam vivendo ainda pendente. Ela era responsável. Colocava o interesse dos outros sempre antes do dela. Esse senso de responsabilidade era a maior esperança de Peter.

Não dormia direito desde a noite anterior. Não entendia como a outra pudera engravidar.Ele sempre usava preservativos . Sempre não. Na primeira vez ele não tinha usado nada.Havia sido apanhado de surpresa. Ela garantira que estava usando contraceptivos, mas como ele bem sabia, a palavra dela não valia muito. Como a palavra confiança tomava conotações tão diversas com duas versões da mesma pessoa? Olivia estava certa: elas eram muito diferentes. Ele estava aprendendo a lição do pior modo possível.

A briga com Lee não o preocupava muito. Desde as primeiras vezes em que o vira perto de Olivia sentira que algo assim iria acontecer. Inevitável. No íntimo sabia que o agente sentia algo por ela. Agora aquilo o machucava mais, porque Lincoln Lee era um homem livre de complicações. Estava totalmente disponível para ela. Com certeza Lee era um partido melhor à luz do bom senso, mas era dele que Olivia gostava. Se não o amasse, não estaria tão suscetível. E Lincoln Lee sabia que eles estavam juntos. Era impossível que não soubesse...


Após tomar banho e trocar de roupa. Peter resolveu ir ao apartamento de Olivia. O celular não atendia. Ele lembrou da ironia da situação: algumas horas antes ele evitara atender os chamados de Olivia, agora era a vez dela.

Chegou e viu as luzes apagadas. O carro também não estava no estacionamento. Lembrou que ela tinha se jogado dentro de um táxi, ele vira quando fora atrás dela, após a briga.

Abriu a porta com a sua chave. Acendeu a luz. Viu logo o casaco e o celular em cima da mesa. Sentiu um alívio muito grande. Ela estava no quarto dormindo. Quando viu a embalagem com os soníferos, soltou um palavrão mentalmente, já ia tentar acordá-la quando percebeu que a embalagem estava quase cheia. Deitou-se ao lado dela. Só a presença de Olivia fazia com que ele se sentisse melhor.

Ele dormira cerca de três horas. Estava exausto. Quando despertou ela estava lá, apenas olhando.

Ele sorriu. Ela tocou o ferimento da testa com a ponta dos dedos .

-Você não devia ter levado uns pontos?

-Não foi preciso. Um curativo foi suficiente.

-Estou morta de fome. Não comi nada hoje.

-Não tomou nem o café da manhã?

Ela ficou muda.

-O que foi?

-Tive uma crise de ansiedade e vomitei tudo. Depois você chegou e acabou com o meu almoço antes mesmo que ele começasse. Dizem que o filé do Cal é delicioso...

Ele sentiu que ela estava tentando descontrair.

-Eu preciso que você me desculpe.

-Já está feito, Peter. Não tem mais jeito. Temos que descobrir como administrar a situação.

-Eu sei. Mas mesmo assim eu queria explicar. Ela disse que não havia perigo, que tomava anticoncepcionais. Eu sempre tomei cuidado, só pode ter sido na primeira vez...

-Eu realmente não quero mais falar sobre o assunto, desculpe...

-Eu é que devo desculpas.

-Não. Ela é assim.

Ele se levantou. Tentava parecer animado.

-Vou preparar alguma coisa para você comer, Olivia. Que tal ovos com bacon?

-Ótimo. Eu vou ligar para o Lincoln para saber como ele está.

Peter não disse nada, foi andando para a cozinha.

Quando ela entrou ele estava lidando com a frigideira. Ela o abraçou detrás e apoiou o rosto em suas costas. Primeiro ele segurou suas mãos. Depois ele se virou e a encarou. Finalmente conseguiu expressar o medo que não o abandonava desde a véspera.

-Olívia, você vai me deixar?

Ela devolveu o olhar e foi totalmente sincera.

-Peter, quem tem que decidir o que vai fazer é você. No momento as opções são suas.

-Do que você está falando, Livia?

-Um filho é um elo poderoso, você tem que seguir o seu coração. Eu não posso influir na sua escolha.

-Não há o que escolher. Eu assumo o bebê, mas não quero ficar com ela. Nem se estivesse sozinho eu ficaria, Olivia.

-Eu só quero que você se sinta... à vontade. Não pense que tem nenhuma obrigação comigo. Realmente eu não me sentiria bem se fosse assim.

-Eu estou com você porque eu te amo. E confio em você.

Ela deu um daqueles seus sorrisos melancólicos.

-Sim, eu sei.