III.
O Broyles estava com uma cara horrível. Ele nos fulminava com o olhar. Felizmente a cara do Lee estava bem pior do que a minha. Eu socara bem no olho, deveria ter mirado no nariz para estragar aquela carinha bonita. Bundão. Eu estava com um corte na testa que entrava por dentro dos cabelos e algumas escoriações. Fisgava. Para ele aprender a não se meter com a mulher dos outros. Sujeitinho intrometido. Tinha certeza que o Broyles depois do sermão, iria nos suspender, quer dizer, suspender o Lee, porque eu não sou do FBI, só presto consultoria . Aquele olho roxo e inchado estava lavando a minha alma. Que babaca...
Bishop está me encarando por causa do olho. Está horrível. Merda. Ele acha que é o tal. Está querendo me provocar. Cretino. Na próxima vez não vai ter Olivia, nem Cal e nem gente para apartar. Vou rachar o resto da sua cabeça oca. Imbecil. Que cara cínica. Não sei o que ela viu nesse sujeito. Um tipo à toa. Todo o mundo protege esse cara. Devia ir em cana, passar umas boas noites no xadrez para ver se é valente com os marmanjos.
Ainda bem que Peter Bishop e Lincoln Lee não podiam ler pensamentos. Broyles olhava para ambos e via dois animais querendo demarcar o território. Imaginava quem deixaria primeiro um pouco de urina nos pés de Olivia Dunham. Aquilo era inaceitável. Expor uma moça séria a uma situação ridícula. Peter Bishop era pior. Parecia ter talento natural para encrenca. Um desperdício. O QI era de 190, mas suas habilidades para lidar com mulheres eram bem... primárias . E o agente Lee? Quem poderia imaginar... Há poucos meses em Boston e já metido em confusão . Tanta mulher sozinha e ele cercando a agente Dunham. Desde que ele chegara Broyles estava fazendo vista grossa, pois não gostava de muita intimidade entre seus agentes. O relacionamento entre a agente Dunham e o jovem Bishop lhe inspirava preocupação. Mesmo simpatizando com o rapaz, achava que ela merecia alguém menos complicado. Alguém que tomasse conta dela e não lhe trouxesse mais aborrecimentos. Mas como Peter não era realmente membro do FBI, não se julgava no direito de interferir ou emitir opiniões. Mas o agente Lee não, era impossível deixar passar batido.
-Pode sair, Bishop. Voltaremos a nos falar em breve. - Broyles enfatizou a última palavra.
Peter levantou e saiu da sala. Deu um sorriso debochado enquanto fechava a porta. O agente Lee conteve o impulso de ir atrás dele para continuar a briga do dia anterior. Aquela cara cínica pedia uns sopapos.
-Agente Lee?
-Senhor?
-Afinal, o que aconteceu?
-Eu estava no restaurante do Cal com a agente Dunham. Ela não estava se sentindo nada bem. Pedimos duas cervejas. Estávamos calados. O Bishop entrou logo depois pisando duro, e disse, cheio de autoridade:"Olivia, vamos para casa."
-Falava como se eu não estivesse ali. E parecia que a casa dos dois era a mesma.
Broyles passou por cima do último comentário. Lincoln Lee prosseguiu:
"Estou tomando a minha bebida. Não vou sair agora. Depois nos falamos."
"Ande logo Olivia, se quiser beber, beba em casa. Precisamos conversar."
Ele falava sem me olhar, como se eu não estivesse ali. Ela continuava calada, olhando para o copo. Então ele se irritou, colocou a mão no ombro dela. Aí eu tive que interferir.
"Olhe só, Bishop, a Olivia veio comigo, não está no seu melhor dia. Respeite. "
-Ele fechou a cara e não disse nada. Segurou o braço da agente Dunham, ela não se moveu. A essa altura muita gente já estava prestando atenção. O Cal saiu da cozinha e ficou no balcão. Aí eu levantei e fiquei bem ao lado dele. A agente Dunham se assustou e acabou pegando o casaco para segui-lo e acabar com a discussão.
"Não, Olivia, você só sai daqui se quiser."- eu disse.
"Não se meta onde não é chamado, Lee. Nada aqui é problema seu." – a essa altura ele estava falando alto.
Broyles o interrompeu, com o cenho franzido.
-Deveria ter deixado que ela fosse com ele, agente Lee.
Lincoln Lee não recuou. Falou tranquilamente.
- Lamento, mas na minha frente ele não fala com ela daquele jeito.
-Agente Lee... – a voz de Broyles estava irritada, como se ele tivesse que explicar uma coisa óbvia a uma criança.- eu não gosto de me exprimir nestes termos, mas vou falar assim mesmo para não correr o risco de não ser entendido pelo senhor. Ele age assim porque são amantes, entendeu?
Pronto. Havia falado. No íntimo achou que havia exagerado na crueza. Agora estava feito.
Ao contrário do que se poderia esperar, o agente Lee não se deu por achado.
- Ele está errado. Nem se eles fossem casados ele poderia fazer com ela as coisas que vem fazendo.
Broyles sentiu que perdera o seu tempo. Odiava perder tempo. Cortou secamente:
-Está liberado, agente Lee. Conto que o incidente não se repita.
O agente Lee saiu sem responder.
O sujeito gostava de Olivia. Também. E apesar de jovem, era osso duro. Que droga. Broyles sentiu a cabeça latejar. Sentia que os aborrecimentos ainda estavam por começar.
