IV.
Olivia contemplava a sua alternativa. Só o falso espelho da sala de interrogatórios as separava. Broyles ficou olhando em silêncio, através do vidro. Fez um sinal e Lincoln Lee entrou para interrogar a prisioneira:
-Senhora ...
Ela sorriu para ele. Ele lembrou de Olivia, meses atrás, quando foram apresentados por Broyles. Lee reparou na linguagem corporal da prisioneira: apesar da barriga, empinou os ombros e mexeu os cabelos de forma desenvolta.
-Você é Linc? O deles, não é?- ela olhava o terno bem cortado e a gravata de seda com uma expressão divertida.
-Agente Lincoln Lee, senhora.
-O Lincoln Lee do meu universo é meu parceiro, somos amigos muito próximos.
-Já fui inteirado. Podemos iniciar?
Ela olhou-o com estranheza, sentiu a antipatia. Ela não costumava provocar este tipo de reação nas pessoas.
-Claro.
Ele levou cerca de vinte minutos fazendo perguntas. Quando falou do assassinato da mulher na estação de trem, ela objetou:
-Eu não matei ninguém, ela morreu durante o processo de assimilação metamórfica.
-A senhora é no mínimo cúmplice. Há o roubo de material sigiloso do depósito de evidências do FBI.
-Agente Lee, entenda uma coisa, em meu mundo eu sou um soldado. Cumpro ordens.
-A senhora é uma espiã e não está em seu mundo. Está sob a nossa jurisdição.
-Eu pedi proteção voluntariamente. Peter Bishop é o pai do meu filho.
O agente Lee olhou-a de esguelha. Ela era escorregadia. Aí ele entrou de sola.
-Os seus problemas com o senhor Bishop não são da alçada do FBI. Custódia, pensão e visitas, são assuntos para a Vara de Família. Apesar de que, não vejo nenhum grande problema para Bishop, caso ele queira a guarda, uma vez que a senhora provavelmente estará cumprindo pena.
Os olhos dela o fulminaram.
-Há ainda o corpo de um homem encontrado em um depósito de lixo. Aqui está a identificação.
Ela nem se deu ao trabalho de olhar. Lincoln Lee, acrescentou:
-Tratava-se de um homem surdo, ainda jovem. Temos todos os dados, as digitais estavam no sistema. A bala é compatível com o revólver da Agente Dunham, mas como ela não estava em nosso universo, as suspeitas recaem sobre a senhora.
-Se a arma é dela, perguntem a ela, eu não sei de nada. -falou friamente.
O Agente Lee pegou os papéis dispersos e colocou-os dentro da pasta. Quando ia se retirar, percebeu que ela o encarava de forma desafiadora. Sustentou o olhar.
-Mais alguma coisa?
-Por que me odeia, agente Lee?
-A senhora existe para mim há exatos vinte minutos.
-Eu preciso ver Peter Bishop.
-Falou com a pessoa errada, eu não tenho vínculo com o senhor Bishop. Com licença.
Ela levantou a cabeça e cuspiu as palavras:
-É por causa dela, não é? Você é amigo dela e me detesta apenas porque eu existo.
-Não fale de coisas que não sabe e de gente que não conhece... senhora.
Deu as costas e saiu do recinto.
-Penso que se você realmente colaborar, poderá evitar vários problemas.- disse Nina Sharp, pausadamente.
-Eu pedi asilo para resguardar a minha vida e principalmente a do bebê. É um menino, sabe?
Nina Sharp voltou a fitá-la sem empatia ou antipatia. Sem paixão, objetiva como sempre fora.
-Não quero ser grosseira Dunham, mas seja realista. O que achou que aconteceria aqui do nosso lado quando retornasse? Achou que poderia ir e vir, livremente? Trabalhar? Achou que Peter Bishop largaria tudo para se dedicar a você e ao bebê?
-E por que não? Ele me amou um dia. Talvez ainda me ame. A criança é a prova disso.
A mulher mais velha emitiu um profundo suspiro. Parecia um pouco cansada, mas o tom de voz continuou neutro.
-Pode dizer com total certeza que quando ele engravidou você ele não estava pelo menos em parte pensando na Olivia daqui?
- E o que importa? Era comigo que ele estava. E ela tampouco pode afirmar que ele está só com ela na relação. Quem garante que ele não pensa em mim?
-Bem, é um risco que ela aceitou correr. Nenhum dos dois está enganando o outro. Ela não mentiu pra ele, como você fez. Entende a diferença?
-Eu menti porque era parte da minha missão.
-Aí está. Era uma missão, e até acreditando que você realmente se apaixonou por ele durante o percurso, não hesitou em completá-la. O seu ato de amar Peter Bishop é indissociável do fato de que você o manipulou.
-Vocês daqui fazem sempre parecer que as pessoas do meu lado são más. Na verdade vocês é que nos causaram dano. A minha alternativa é a verdadeira intrusa. A relação entre ela e Peter é aberrante. Eles não pertencem ao mesmo universo.
Nina Sharp deu um sorriso enigmático.
-Minha jovem, você por acaso acha que tem mais direito a Peter porque ele nasceu em seu mundo?
-Como não?
-Não seja ingênua. A vida não é tão fosse assim você estaria casada com ele , vivendo em uma casinha de subúrbio com cerca branca.
-Aquele homem o sequestrou . Por acaso sabe o que os pais dele passaram? Não puderam participar da vida do filho.
-Walter Bishop salvou a vida dele. O que acharia preferível, ele viver longe deles ou morrer junto da família?
-Não é uma escolha que possa ser feita.
-Talvez. Mas alguém fez.
-Ele danificou o nosso universo para sempre. Desviou Peter do seu caminho.
-Entende a grandeza do que Walter Bishop fez? Ele arriscou tudo para salvar um filho que nem era dele, afinal. E tentou devolvê-lo, mas não conseguiu.
-Não acredito.
-É um direito seu. Pode me dizer porque me chamou?
-Preciso falar com Peter, eles não deixam.
-As suas visitas são controladas pelo FBI. Deve falar com Phillip Broyles.
