V.
Lincoln Lee olhou o estacionamento quase vazio. Viu Olivia dentro do carro. Resolveu esperar que ele saísse, mas nada. Quando finalmente resolveu se aproximar, viu que ela estava com a cabeça baixa, encostada no volante. Abriu a porta pelo outro lado.
-O que houve, Olivia? Está passando mal?
Ela não levantou a cabeça, estava chorando. Lincoln, meio sem jeito, acariciou sua cabeça, depois tirou-a do volante e aconchegou-a em seu ombro. Quando ela se acalmou, perguntou:
-Diga, Liv, como eu posso ajudar?
Ela deu um sorriso triste, os olhos estavam inchados e vermelhos.
-Já está ajudando, meu amigo.
-Vou levá-la para a sua casa.
-Não.
Lincoln ficou meio embaraçado, mas acabou perguntando.
-Então, quer que eu a deixe na casa dos Bishop?
-Não, se você puder me levar à casa de um amigo, Simon Phillips, eu ficaria eternamente grata. É um pouco longe. Mas creio que ele pode nos ajudar.
-Sem problemas. É melhor deixar seu carro aqui, vamos no meu.
-É melhor prevenir ao Broyles.
-E ao Bishop, senão ele vai ficar preocupado. Eles ainda estão lá, vendo o que pode ser feito.
-Tudo bem, eu agradeço. Não acho que esta seria uma boa hora para eu falar com Peter.
Ele parou e perscrutou seu rosto atentamente.
-Mas o que está havendo, Liv? Achei que vocês tinham se acertado.
-Não é isso, Lincoln. Eu estou tentando dar a ele ...espaço.
-Espaço para quê?
-Para decidir com quem ele quer ficar, onde e que tipo de vida ele quer levar.
-Entendo. Você está tentando ser equilibrada. Mas é uma situação muito difícil. Vou ligar para o Broyles.
No saguão do prédio, Broyles atendeu a chamada. Estava acompanhado por Nina Sharp, Peter e pelo agente Taylor.
"Broyles... Sim, agente Lee."
Ao ouvir o nome do agente Lee, Peter ficou prestando atenção.
"Sim, entendo. Talvez seja melhor que ela tire o dia de folga" – ele fez uma pausa, depois concluiu "Eu falo com ele, está bem ao meu lado."
Peter já estava com todos os seus sentidos despertos. Nina e o agente Taylor notaram que algo estava errado.
-O que houve?
- Olivia não está passando bem. Vai ficar com uma pessoa amiga e só virá amanhã, na parte da tarde.
A expressão de Peter havia mudado. O rosto estava tenso.
-A pessoa amiga seria o agente Lee?
-Nada disso, ele só vai levá-la de carro porque ela não está em condições de dirigir. Não quero ouvir mais nenhum comentário impróprio por aqui.
O agente Taylor fingiu que nada entendia.
Simon Phillips acolhera Olivia com gentileza. Apesar do desconforto que lhe causaria, convidou o agente Lee a pernoitar. Lincoln recusou.
"Não, preciso voltar, mas amanhã depois do almoço venho apanhá-la. Não se preocupe"
Olivia sorriu , ele sempre a colocava para cima.
Quando ele saiu ele reparou que Simon estava dando um de seus sorrisos tristes.
"O que foi?"
"Se eu te disser o que ele quer fazer com o Peter Bishop, você vai entrar em pânico e chamar a polícia."
"Eles brigaram, se atracaram dentro de um bar."
"Por sua causa."
"O Peter anda muito nervoso"
"Olivia, o seu amigo Lee também não é nenhum santo."
"Como assim?"
"Bom, ele está gostando de você."
"Você leu a mente dele..."
"Detalhe. Basta olhar para ele. Com certeza o seu Peter já notou, não dá para culpá-lo."
Ela corou.
"Boa noite Simon."
"Boa noite, Olivia. Durma bem."
A prisioneira foi conduzida a uma sala. Aguardou uns cinco minutos, depois Peter Bishop entrou.
-Dunham.
-Peter... – ela fez menção de levantar, mas ele cortou seu gesto
-Por favor, não se levante.
Ela o olhava atentamente. Não o via há alguns meses, e ele lhe pareceu tristonho. E cansado, muito cansado. O rosto estava machucado.
-Eu sinto muito.
-Não adianta mais falar esse tipo de coisa. Já passamos desta fase. Por que veio para cá?
-Eu já expliquei ao agente Lee, estava correndo perigo. Seu pai estava monitorando a gravidez, eu me sentia vigiada. Tive medo pelo bebê. Achei que ele iria tirá-lo de mim... de nós.
-Ouça, Dunham. Eu acho que você conhece o Secretário melhor do que eu. O que esperava? O fato de estar aqui não é uma garantia muito forte de que ele não nos alcançará...
-Eu não conhecia esse lado dele, Peter. Para mim era um homem admirável. Não sei se você me entende?
_Dunham, será que durante o tempo em que esteve infiltrada, enganando a todos, dormindo comigo, fingindo ser a Olivia, não conseguiu prestar atenção em nada? Não olhou à sua volta? Não conseguiu entender que não éramos monstros, mas pessoas como vocês?
Ela olhava para ele com os olhos verdes muito abertos, parecia prestes a chorar. A expressão lembrava a de Olivia quando estava com medo.
-Você também acha que eu presto. Agora. Mas você me amou Peter, não pode negar...
Ele continuou impassível. Quando ela parou, ele simplesmente disse:
-Não vamos saber a resposta nunca. Era uma mentira. Você diz que depois virou verdade, mas assim mesmo você me apontou uma arma.
-Eu nunca te faria mal, Peter.
-Com certeza. Eu sei que o Secretário deu ordens expressas para não me matarem.
-Peter, eu estou grávida. Não vou aguentar ficar presa. Vou acabar enlouquecendo.
-Foi escolha sua. Você quis ficar grávida.
-Eu não fiz de propósito.
-Como é? Eu cansei de perguntar, você dizia que estava tomando pílulas.
Ela baixou a cabeça e não falou mais nada, seu rosto estava molhado das lágrimas.
Peter se pôs de pé, na porta falou.
-Quer que chame um médico?
-Não.
Ele queria falar alguma coisa , mas parecia hesitante. Como ela ainda o olhava, ele não se conteve.
-Só uma última dúvida. Nunca se preocupou com Olivia presa do outro lado, sendo torturada?
Ela não respondeu, virou o rosto. Ele abriu a porta e saiu. No outro compartimento Peter juntou-se a Simon Phillips, que havia assistido a entrevista pela janela de observação. Os dois saíram e foram ao encontro de Olívia.
Olivia estava sentada em uma grande sala de reuniões com Lincoln Lee ao seu lado. Estavam examinando papéis. Quando Peter abriu a porta, estacou e a fisionomia acusou uma irritação repentina. Ele continuou parado.
-Olivia – chamou Peter.
Ela levantou a cabeça e sorriu. Lincoln Lee olhou também. Peter e Simon se aproximaram.
-Então, como foi?
-Uma droga, ela ficou repetindo as mesmas coisas.
-Não, eu discordo –falou Simon, discretamente – acho que pude perceber algumas coisas interessantes.
- O quê, exatamente?
-Por motivos óbvios, eu prefiro conversar apenas com Olivia. Podemos voltar para a minha casa?
-Claro, Simon. Vamos pegar o carro. Peter e Lincoln, nós poderíamos nos reunir no meu apartamento, à noite. Eu passo tudo para vocês.
Os dois trocaram um olhar enviesado, mas não fizeram nenhuma objeção.
