VI.

Os dois se encontravam em seu apartamento. Apesar de obviamente não se gostarem, estavam fazendo um esforço muito grande em aparentar civilidade.

-O que ele disse, afinal?-Peter quis logo saber.

-Ele preferiu escrever. Leia, é seu.

Ela entregou um envelope colado. Peter abriu: poucas linhas.

1-Ela falou a verdade sobre o seu pai, o medo dela é autêntico.

2. Matou o homem surdo. Dominou a mulher na estação para que o parceiro pudesse matá-la.

3-Não teve nenhuma preocupação com Olivia enquanto estava vivendo no lugar dela.

4-Não sente remorsos pelo que fez, só lamenta na medida em que perdeu a sua confiança.

5- Acha que seu lugar é com ela e o filho.

6- Compete com Olivia o tempo todo.

7-Odeia Olivia desde a primeira vez que a viu.

Peter deixou o papel em cima da mesa. Fez um sinal para Lee e Olivia. Ela leu e seguida entregou para o agente.

-Que mulher vigarista.-exclamou Lincoln – depois se corrigiu- Desculpe, Bishop, eu não queria ofender a ...

-Nem pense em terminar a frase Lee, ou vamos ter outro aborrecimento.

Lee deu uma risadinha abafada. Não disse mais nada.

-E agora, o que fazemos?

-Não tenho ideia, Liv. Acha que valeu a pena todo esse esforço?

-Claro que sim. – ela levantou da cadeira e afagou o ombro dele.

O agente Lee deu um salto da cadeira.

-Eu já vou indo; você vem Bishop?

-Não, vou dormir aqui .

Lincoln Lee ficou rosado. Olivia estava meio sem graça. O agente recobrou a presença de espírito e se despediu.

- Vejo vocês amanhã, no gabinete do Broyles.

Olivia foi levá-lo até a porta. Na volta Peter enlaçou-a pela cintura e falou baixinho em seu ouvido:

-Que parte de "Lincoln Lee me dá nos nervos" que você não consegue entender.

Olivia deu uma risada.

-Vou tomar um banho morno e depois dormir.

- Posso ajudá-la?

-Seria um prazer.


Peter dormia um sono pesado. Estava exausto. Olivia,entretanto, não conseguia adormecer. Ela sentia o coração aflito. Alegrava-se em saber que ele repousava, com a cabeça em seu ombro. Ela gostaria de poder protegê-lo de todo o mal, de todo o sofrimento que ela sabia que estava apenas começando. Sentia-se culpada por ter desperdiçado tanto tempo precioso com dúvidas e ponderações.

Pensava ainda nas coisas que Simon lhe dissera sobre Peter na viagem de retorno.

"O que você quer me dizer, Simon? Estou ficando nervosa."

"Não quero te afligir. Arrependo-me até hoje daquilo que escrevi. Eu não tinha o direito."

"Não, pelo contrário. Ajudou muito, a mim e a ele."

"Ele está muito angustiado, Olivia."

O coração dela deu um salto, parecia que ia sair pela boca. Ela não deixou transparecer a insegurança, o medo. Deixou que ele continuasse.

"Ele acha que você vai abandoná-lo de vez. Acha que você não vai conseguir lidar com a situação por causa da criança."

Então Peter a conhecia bem. Aquele filho que a outra gerava, a entristecia. Não pelo bebê em si, pois era um inocente, mas pelo laço. A outra impusera a ele um vínculo impossível de ser quebrado. E ela não se sentia no direito de interferir. Não queria parecer egoísta. Não queria ser egoísta. Colocar Peter diante de uma escolha era o mesmo que descer ao nível da outra.

"E o que mais?"

"Ele já ama o filho, mesmo desconfiando da mãe."

"Eu já sabia disso. Ele ama crianças, como não amaria a dele?

"Ele não sabe como proteger o filho do avô."

"E ela?"

"O que tem ela?"

"Diga você, Simon?"

"Ela o deixa confuso, mas ele às vezes sente pena dela. Lembra dela. Do que viveram."

Sentimentos que ele não deixava transparecer para não magoá-la. Ela já suspeitava. Não podia condená-lo por ter coração. Não podia censurar seus pensamentos.

"Obrigada pela franqueza, Simon."

"Tome muito cuidado, ela canalizou toda a sua frustração para você. Está presa e desesperada. Deveriam arranjar alguém especializado para falar com ela."

"Não se preocupe, vou me cuidar."


O pequeno Gabriel nasceu duas semanas depois. Uma criança aparentemente normal.A mãe fugiu exatamente três dias após o nascimento do bebê. No vídeo vimos que havia sido levadada pelo agente Taylor e mais dois policiais, sob pretexto de sair para prestar depoimento. Os documentos do translado pareciam perfeitos.O corpo de Taylor foi encontrado dentro do freezer de sua casa com as já conhecidas lesões no céu da boca. Ele havia sido substituído provavelmente desde a travessia de Dunham. Dos outros homens nem sinal. Taylor era o alvo ideal: solteiro, morava sozinho, poucos amigos. Alguém a estava ajudando e talvez não fosse o Secretário.