VII.

O bebê era lindo. Tinha os cabelos escuros de Peter. Os olhos pareciam verdes, mas talvez mudassem com o tempo. As mãozinhas eram uma graça. Gordinhas e inquietas.E tinha lindas covinhas. Nós o estávamos levando para casa. Nina Sharp e Broyles haviam insinuado outras alternativas, mas Peter não quis nem ouvir falar. Queria o filho perto dele. Eu não podia tirar o seu direito, mas ao mesmo tempo sentia-me preocupada com a segurança do menino.

Ele era uma criança risonha. Parecia saudável. Eu me sentia aliviada em perceber que, contrariando nossos temores, ele parecia estar feliz. Mas ainda assim alguns aspectos da situação faziam com que eu me sentisse insegura. Desconfortável, mesmo. Sabia que num futuro muito próximo eu e Peter teríamos problemas. E eu não estava errada. Assumi o compromisso de ajudar Peter e manter o bebê seguro. Mas às vezes eu ficava amargurada .

Um dia, conversando com Nina Sharp, ela fez uma observação que me deixou surpresa.

"Você me surpreende, Olivia. Eu achei que em breve você iria engravidar."

Aquilo me doeu como uma bofetada. Eu respondi, incisiva:

"Não estou competindo com ela. Eu não sou irresponsável."

Nina pareceu constrangida.

"Não vi a situação por esse ângulo, Olivia. Achei que seria o encaminhamento natural do relacionamento de vocês."

Eu senti um pouco de vergonha pela agressividade da resposta. Respirei fundo.

"Desculpe-me. Eu amo crianças, adoraria ter um filho com Peter, mas mal damos conta da segurança do Gabe, como poderia aumentar as preocupações de todos tendo outro bebê?"

"Vendo por esse lado, você tem razão. Mas eu achei que você gostaria de ter seu próprio filho, um dia."

"Amo o Gabe como se fosse meu e se vou ter um bebê... só o tempo dirá."

Em casa as situações eram delicadas.

"Vá com a mamãe, Gabe."-dizia Walter.

"Olivia, Walter."

Ou então era Peter, com um "Mamãe chegou, Gabe."

O pequeno ria e abria os bracinhos para que eu o pegasse no colo. Peter não via nada de mais, parecia ter apagado a verdade de seu cotidiano. Quando o bebê completou seis meses, eu o chamei para uma conversa.

"Temos que parar com isso, de uma vez."

"Do que você está falando, Liv?"

"Não podemos deixar que o menino cresça achando que eu sou a mãe dele."

"Mas você é a mãe dele. Você o alimenta, banha, perde noites de sono, se preocupa com ele. Na minha cabeça é a única mãe que ele tem."

"Ele tem mãe, Peter. Ela quis que ele nascesse, ela o carregou por nove meses, não vai nunca desistir dele. Eu não desistiria."

"Ela abandonou o filho."

"Ela acha que não havia outra maneira. Fez um recuo estratégico, mas um dia virá buscá-lo. E aí, como ele fica?"

"Fica comigo e com você. Não vou deixar aquela louca pegar o nosso filho. Nunca."

Ele dissera 'nosso filho'. Eu estava falando ao vento, com as paredes. Ele se obstinava em não enxergar a realidade. Ela estava livre, eu tinha certeza que ela nos observava. E se eu a conhecia bem, aquela usurpação do seu direito de mãe a irritava. Era questão de tempo apenas, até ela tentar alguma coisa. Eu tinha consciência que eu era o alvo principal. E bem lá no fundo, eu me questionava se a minha vida com Peter e a proximidade do bebê não eram uma espécie de vingança ou provocação subconsciente pelo que ela havia me tomado.Só que eu não era assim... Eu precisava ser melhor do que isso.

"Mas ele merece saber a verdade."

"Ele vai saber. Tudo a seu tempo. Não gosto de mentiras, Liv."

Peter havia contornado temporariamente a situação, mais uma vez.


Eu saíra do trabalho para beber. Só uma dose ou duas. Sozinha. Ele havia chegado como que por acaso, nós ficamos conversando por uns trinta minutos. Depois eu fui embora. A vida me esperava em casa.


Eu virei no tamborete para acompanhá-la. Não queria deixá-la partir. Voltar para ele. Se eu tivesse a certeza de que ela estava feliz, eu me conformaria. Mas ela não estava. E parecia cansada, porque fingir que tudo está bem, o tempo todo, deve ser extenuante. Como ele não percebia? Se Bishop a amasse de verdade, talvez parasse de achar que a vida gira em torno dele. Pensaria nas necessidades dela.


Alguns dias depois, eu nem me dei ao trabalho de fingir que o encontraria casualmente no bar. Só fiz um sinal e ele pegou o casaco. Bebemos muito pouco, mas ele me fez prometer que eu ligaria, quando chegasse em casa.

Cheguei. Enquanto tirava o celular do bolso do casaco, vi Peter no alto da escada com o menino. Acenei para Gabriel. Ele fez um barulhinho adorável.

-Linc? Cheguei bem. Até amanhã.

Ele desceu lentamente, com o bebê no colo. Parou bem perto de mim.

-Estava falando com quem, Olivia?

-Com Lincoln. Nós saímos para tomar um uísque.

Ele ficou mudo por alguns instantes. Eu aproveitei a deixa e comecei a subir as escadas. Alguns minutos depois, ele entrou sozinho.

-O Gabe adormeceu?

-O que você está fazendo? Está flertando com aquele filho da mãe para me deixar com ciúmes? Está perdendo o seu tempo...

Senti como se ele tivesse me esbofeteado, mas não queria discutir.

- Preciso tomar um banho e descansar. O meu dia foi muito difícil.

-Você torna tudo difícil, Olivia. Não tem talento para a felicidade.

Ele estava me machucando, senti a raiva me dominar.

-Por que você não vai morar com quem tem realmente o dom da felicidade? Deve ser difícil para você ter que se contentar com alguém como eu, não é?

Ele ficou me olhando. Entrei no banheiro. Tomei meu banho com calma. Quando saí percebi que ele não estava no quarto. Fui ao quarto de Gabe, ele estava quietinho, mas não estava dormindo. Levei-o para nossa cama. Eu precisava de alguém a quem eu amasse muito perto de mim, para me lembrar que todo aquele sofrimento fazia algum sentido.


Eu já estava arrependido. Mais uma vez eu a destratara. Eu a censurara por não ser do jeito que eu queria, por não se comportar da forma que eu gostaria. Mais uma vez eu não percebera que ela estava no seu limite. Sob pressão. Ela tentara conversar, mais de uma vez, e eu sempre minimizava o seu ponto de vista. Se ela resolvesse nos deixar, como ia ser? Eu pensava nisso diariamente. No entanto eu não conseguia dizer nada a ela. Eu não tinha ciúmes do Lee, não realmente. Sabia que ela gostava era de mim, mas eu tinha medo dessa compreensão tácita que ele parecia oferecer. Ele estava lá quando ela precisava, sem exigir nada, sem recriminá-la. Eu precisava falar com ela. Mas a coragem para me expressar, para admitir meus erros, minhas limitações, não era o meu forte. Lá em cima estava tudo silencioso. Eu desliguei a televisão. Não saberia dizer que programa estava assistindo. Pensei em ficar no sofá do quarto do bebê. Mas antes eu iria ver se ela já estava dormindo.

A porta estava entreaberta. Só o abajur da mesinha aceso. Ela estava deitada de lado com o bebê bem perto dela, sobre uma manta verde. Ela amava o meu filho, ela me amava. E eu sabia que parte da agonia que ela estava sentindo era medo de nos perder. Deitei com cuidado ao lado dos dois. Por algum tempo ainda lutei contra o sono, eu precisava prolongar aquele momento.


NOTA .Originalmente a história não terminaria no sétimo capítulo. O confronto entre as duas estava previsto. Sei que a seção Fringe em português é despovoada, mas qualquer forma

gostaria de opiniões para saber se continuo ou não. Grata.