VIII.
O bebê chorou baixinho. Estava com fome. Quando Peter o segurou, viu que ele estava molhado. Levou a criança ao seu quarto para trocar a fralda . Enquanto o fazia, ouviualguém descendo as escadas. Quando entrou na cozinha, Olivia já estava aquecendo a mamadeira. Parecia muito cansada. A essa altura Gabe já estava chorando alto. Ela veio em nossa direção e o colocou no colo. Ele ficou mais calmo. Ela o levou consigo, sentou no sofá da sala e começou a alimentá-lo. Ele se aquietou. As mãozinhas pararam de se agitar.O único ruído era o das bochechas sugando a mamadeira. Peter ensaiou um sorriso desajeitado e tentou romper o silêncio.
-Ele estava bem comigo. Quando sentiu você por perto, começou a fazer manha.
Olivia não disse nada. Percebeu que ele já estava arrependido das coisas que dissera, e que aquela era a maneira que ele havia encontrado para mostrar que sabia o quanto ela amava o bebê e que valorizava isso.
Ficaram um tempo em silêncio. Depois ela falou calmamente, sem que ele pudesse notar qualquer vestígio de ressentimento em sua voz:
-Vá descansar, quando eu terminar aqui, subo também.
Ele assentiu. Foi, mas não conseguiu pegar no sono. Ficou esperando. Uns quinze minutos depois, ela subiu para colocar Gabe no berço. Peter ficou na expectativa. Não sabia se ela voltaria para o quarto. Se ainda estava magoada com as coisas ásperas que ele lhe falara. Com toda a certeza, ela ainda estava chateada. A memória de Olivia era a glória e a maldição. A espera era interminável.
Ela voltou, finalmente. Apagou a luz e se deitou ao lado dele, em silêncio. Peter morria de vontade de dizer alguma coisa, mas temia piorar tudo. Mas aquele mutismo de Olivia o angustiava. Mesmo correndo o risco de ser repelido, ele procurou seu rosto no escuro.
Acariciou sua face com a palma da mão. Ela pegou a mão dele e beijou a palma. O coração de Peter deu uma acelerada boa, algo que misturava alívio e felicidade.
-Preciso que você me desculpe, Olivia. Por favor...
Não obteve resposta, mas ela ficou bem próxima e se encostou em seu ombro. Pegaram no sono abraçados. Estavam exaustos.
Progressivamente a pressão começou a aumentar sobre todos. Naturalmente que Olivia foi a primeira a perceber. Peter relutou um pouco em admitir que alguma coisa estranha estava acontecendo. No início ele achava que era apenas impressão. Uma consequência do permanente estado de vigília em que Olivia mergulhara. Ela se queixou primeiro do telefone.
Quando atendia, a pessoa do outro lado focava calada, depois desligava.
Olivia passou a dormir pouco e mal. Não conseguia relaxar durante o sono. Ela e Peter sempre tinham se revezado para atender as necessidades noturnas do bebê, mas agora ela se acostumara a levantar durante a noite só para verificar se Gabriel estava mesmo no berço. O choro do menino, por fome ou desconforto a tranquilizava, era a certeza de que ele estava ali.
Viviam em estado de atenção permanente. Muitas vezes, preferiam deixar a criança aos cuidados de Astrid no laboratório, mas quando não havia alternativa ele acabava ficando na creche, onde havia a recomendação expressa de que ele só fosse entregue ao pai, ou em caso de impedimento deste, a Phillip Broyles. As duas opções naturais, já que eles não possuíam mais duplos.
As funcionárias estranhavam a determinação, mas não havia como explicar que a pessoa que eles acreditavam ser a mãe possuía uma versão alternativa, que era a mãe verdadeira do bebê e estava foragida.
Peter só começou realmente a se preocupar quando a caixa chegou. Aparentemente uma entrega rotineira, de uma loja conhecida. Walter assinou o recibo. À noite, Peter e Olivia chegaram juntos trazendo o bebê. Ela logo viu a caixa de papelão envolta em celofane, contendo quatro abacates magníficos. Nenhum cartão. Ela se sentiu nauseada: abacate era a fruta predileta da outra.
Peter ficou apreensivo. Mais uma vez a intuição de Olivia funcionara corretamente. Era um aviso. Um lembrete bem claro de que a outra existia e estava à espreita, aguardando o momento certo.
A loja não foi de grande ajuda. A compra foi feita por um homem jovem, de aspecto comum. O pagamento feito em dinheiro, o nome e o endereço de Olivia informados verbalmente. Mais nada.
A outra provocação foi ainda mais invasiva. Duas semanas depois, ao retornarem do laboratório com o bebê, acharam a porta aberta, o som tocando. Walter ficou aflito:
-Parece que deixei o som ligado.
Peter subiu rapidamente. O som vinha de um escritório improvisado, ao lado do quarto do veio logo atrás, com o menino no colo. Percebeu que ele estava paralisado. Quando prestou atenção no cd, entendeu a razão: U2. Não era de ninguém da casa, Peter descartara todos os álbuns do grupo, por causa da outra. Alguém forçara a porta, circulara pela casa e deixara mais um recado. O cerco estava se fechando.
