IX.

Encontrar uma solução. Não ser apanhada de surpresa. Não entrar em pânico. A outra estava observando, era uma certeza. Outras questões se apresentavam, bem graves. Estaria sozinha? Em caso contrário, quem a estaria ajudando? Walternate? Metamorfos ? Outros membros da equipe Fringe infiltrados? Como ela estaria sobrevivendo? O que estava esperando? E a pior das perguntas, em caso de confronto, como Peter reagiria? Para que lado penderia se ela resolvesse levar Gabriel embora?

Lincoln Lee olhava a colega com uma expressão desanimada. Estava abatida. Muito magra, pálida, com olheiras profundas. Parecia doente. Tomava café como se fosse água. Parecia algumas vezes estar fora do ar, talvez por dormir pouco ou pelas evidentes preocupações que a invadiam. As coisas com Bishop também pareciam estranhas. Eles sempre tinham sido discretos em local de trabalho, pelo menos dentro do razoável. Mas antes eles se olhavam de uma forma diferente. Pareciam medir furtivamente a distância que os separava. Estavam sempre próximos, ainda que não se tocassem. Agora não. Volta e meia, Lee surpreendia um deles olhando para o outro disfarçadamente, um olhar onde a preocupação era visível. Olivia agora vivia uma rotina dividida entre trabalho e casa. O agente Lee gostaria de saber se a química entre o casal ainda existia na intimidade. Tinha suas dúvidas, e mesmo sem admitir, ainda não perdera totalmente as esperanças de ter uma chance com Olivia.

Naquela manhã ela chegara com uma um copo de café. Depois ligara o computador e começara a digitar alguns relatórios. Precisava espairecer. O trabalho oferecia a perfeita válvula de escape. O agente Lee estava organizando alguns documentos para serem arquivados. O dia não tinha realmente nada de diferente . Peter, Walter e Astrid estavam no laboratório. Gabriel na creche. A creche sempre incomodava Olivia, era um ponto vulnerável. Mas naquele momento ela afugentou a preocupação.

Ao meio-dia Peter recebeu uma ligação. Era a Sra. Banks. Ela estava um pouco nervosa.

Peter ficou gelado, mas tentou se controlar.

-O que houve, afinal, Senhora Banks?

-A sua mulher, Senhor Bishop, saiu daqui há uns vinte minutos. Disse que Gabriel estava febril, e que passara para dar uma olhada no menino. Nós estranhamos, pois o senhor não nos disse nada.

Ele já estava desesperado. Contudo, manteve o sangue frio e perguntou:

-Vocês deixaram que ela levasse o menino?

-Não, senhor. Ela falou em levá-lo ao médico. Disse que havia conseguido uma consulta na parte da tarde. Mas nós dissemos que só poderíamos liberar o Gabriel com a sua presença. Ela ficou bastante irritada. Minutos depois ela foi embora.

-Senhora Banks, eu estou indo para aí. Mantenha o bebê com a senhora.

-Não se preocupe, ele está bem ao meu lado.

Walter e Astrid tinham ouvido o que Peter dizia e tinham se aproximado. Peter correu ao escritório e entrou com uma expressão preocupada.

-O que houve Bishop?- perguntou o agente Lee.

-Tentaram... ela tentou levar o menino. Vamos , Olivia.

Olivia deu um pulo da cadeira.

-Eu também vou com vocês.

Saíram os três, apressadamente.


Janice Banks era uma mulher morena, de meia-idade , bastante sensata. Levou os pais e o outro homem -apresentado como um amigo da família- para a sua sala particular. A essa altura o pai pegara logo o menino, como que para se convencer que o filho estava mesmo ali.

Gabriel ficara um pouco assustado e a mãe o tomou nos braços. A criança se acalmou. Colocou o dedo na boca e parou de chorar. A mãe estava com outro aspecto, não só as roupas, como a fisionomia abatida, diferiam da mulher que estivera ali há uma hora atrás.

-Senhor Bishop, o que está acontecendo, de verdade?

Os pais se entreolharam.

-Não é nada de mais senhora Banks, uma falta de comunicação entre nós dois. Vamos levar o menino conosco.

-Há alguma coisa errada aqui. A senhora estava irritada há menos de uma hora atrás. Gabriel começou a gritar quando foi para o seu colo. Se está havendo algum problema, temos que avisar ao serviço social.

Peter resolveu improvisar.

-É uma questão de família. Olivia tem duas irmãs. A mais nova, tem uma filha, é uma pessoa maravilhosa. A outra é gêmea, instável, tem problemas emocionais. Foi ela que tentou levar o bebê.

-Ah, agora entendo. Mas é uma coisa muito grave. Vão avisar à polícia?

Lincoln interveio e mentiu descaradamente, dando continuidade à fala de Peter.

-Já está tudo sob controle. Estamos acionando o médico da família, ela vai começar o tratamento assim que for localizada.

Olivia não dizia nada. Parecia um fantasma.


Dentro do carro, Olivia acomodou o bebê na cadeirinha e ficou sentada perto dele. Peter deu uma olhada furtiva na direção de Lincoln, que estava no banco do carona. Finalmente agradeceu:

-Obrigado.

-Não foi nada. Mas o que vamos fazer agora?

-Temos que pensar, Linc. De algum modo é precisamos nos antecipar a ela.- disse Olivia, baixo para não perturbar a criança.

-Acham que ela queria mesmo levá-lo ou apenas dar um susto?

-Eu não sei o que pensar, Lee. Se eu colocar as mãos nela não sei o que vai acontecer...

-Agora não é o momento de perder a cabeça. Temos algo de concreto. Vamos acionar uma equipe e sondar a vizinhança da creche. Alguma coisa havemos de descobrir.- disse Lincoln.


Peter não era tolo, afinal. Deixara uma recomendação. O filho só poderia ir com ele. Nada de muito brilhante , mas eficiente. O bebê estava grande. A cara do pai. Como ele podia colocar o filho no meio de uma mentira, depois do que o maluco do Walter fizera com ele? E a sujeitinha chorona... Andando de um lado para o outro, posando de mãe com um filho que não era dela. O menino notou a diferença. Começara a chorar e se agitar quando ela o segurara contra si. A culpa era da sua alternativa. Fizera o menino se acostumar com ela e ele agora rejeitava a mãe verdadeira. Mas não ia ficar assim. Ia ter volta.