XI.

"Boas notícias, agente Dunham."

Os olhos dela brilharam. Ela encarou o metamorfo e sentiu que desta vez era algo promissor.Há meses ansiava por uma mudança a seu favor. Seu tempo estava se esgotando, junto com a paciência- que nunca fora o seu ponto forte. Jogara uma cartada arriscada que não dera certo. Errara ao subestimar a sua versão alternativa, a Olivia de Peter, como dizia Newton. Desde a primeira vez que a vira – quando ela invadiu seu apartamento atrás da localização dele– ela percebera que a outra o amava. Foi uma missão, mas também foi um desafio: suplantar aquela mulher era uma questão de honra.

Na primeira vez que dormiu com ele sentiu que o controle estava em suas mãos. Ele até podia pensar que amava a outra, mas era com ela que ele estava se envolvendo. Eles pertenciam ao mesmo universo, se encaixavam como se tivessem sido feitos sob medida.

Nunca achara que a outra Olivia fosse mais que uma criatura fraca, o fruto de um mundo decadente. Um mundo emprestado, depois adotado por Petr, mais pelo costume do que qualquer outra coisa. Aquela mulher não lhe parecera um obstáculo. O Secretário não a deixaria sobreviver. Não contara com o fator surpresa: a inesperada ajuda do Coronel Broyles e a obstinação da outra em voltar.

Não entendia até hoje o que fizera Broyles se sacrificar por ela. Reconhecia, a contragosto, que a criatura não era tão fraca como parecia. Ela era boa com as emoções. O que ela despertava nos outros sabia ser duradouro.

Assim que retornou, confirmou a gravidez. Já era algo esperado. Queria muito um filho a prova de o que existira entre eles era algo de concreto.

Conseguira atravessar com a ajuda do Secretário, a pessoa que ela mais temia. O homem era frio o suficiente para experimentar o próprio filho na máquina. Intimamente sentia que o interesse do avô pelo neto não era desprovido de cálculo. O menino era o plano B, demoraria um bom tempo para que ele crescesse e pudesse acionar a máquina e reparar as fraturas do universo doente. O Secretário preferiu então dar um ano para que a sua agente de confiança e o neto pudessem envolver Peter, convencendo-o a retornar em definitivo.

Na verdade, justiça lhe seja feita, ela jamais pensara em voltar. Imaginara algo bem mais simples: ficar com Peter e o bebê. Talvez até pudessem ir para outro lugar. Os problemas de restauração do equilíbrio ficariam à cargo da Divisão Fringe. Não participaria de um plano que colocaria a vida de Peter em risco.

Infelizmente as coisas não obedeceram ao planejado. Peter e a outra tinham iniciado um relacionamento. A sujeitinha parecia não entender o sentido de palavras como orgulho, amor-próprio ou vergonha. Passara por cima de tudo. Aceitara Peter mesmo sabendo que ele havia sido seu em primeiro lugar, aceitara criar um filho que não era seu, aceitara ficar com as sobras e as consequências .

Quando se reecontraram, no Edifício Federal, notou que Peter estava diferente. Parecia ter sofrido uma lavagem cerebral. A sua versão alternativa retomara o controle sobre ele. Estava cego. Só restara a ela fugir e esperar uma oportunidade. Agora o metamorfo trazia uma esperança.

"O que houve?"

"Ela saiu de casa. Acho que brigaram. Parece que ela quis levar o menino e Bishop não deixou."

"É uma louca. Deve estar mesmo convencida que o filho é dela..."

"No dia seguinte apareceu com um sujeito jovem, engravatado. Ele foi ajudá-la com o restante das malas. Bishop estava de cara feia, parece que não o deixou entrar na casa. O boato que corre é que eles estão tendo um caso e Bishop não quer mais vê-la pela frente."

"Faz sentido. Eu notei que ele não me suporta. Deve ser por causa dela. Ela é realmente boa em manipular os homens, tenho que reconhecer. Será que eles já eram amantes naquela época? Peter deve estar muito decepcionado. Gosto disso."