XII.
Eu pensava estar preparado, mas não deixei de sentir um calafrio desagradável. Entrei em casa com Gabriel e Walter. Ela estava sentada na poltrona da sala, comodamente instalada como se fosse uma visita. Na cozinha estava um homem desconhecido, que fez questão de nos cumprimentar acenando com a pistola.
-Vamos subir?- ela propôs jovialmente, como se estivesse me convidando para tomar um sorvete.
-E Walter?
-Não se preocupe. Ele pode ficar assistindo televisão. Meu amigo tomará conta dele.
Walter estava branco, mas não deu sinal de medo.
Eu subi na frente, apesar de ter certeza de que ela já andara esquadrinhando a casa antes. Quando entramos no quarto do bebê ela percebeu que eu ia colocá-lo no berço.
-Posso?
Foi tirando o menino dos meus braços. Ela beijou-o. Tocou as faces, as mãos, como se quisesse aprender como ele era realmente. Gabriel se agitou um pouco. Parecia sentir a tensão entre nós.
-Quer colocar o menino no berço, por favor. Não quero que ele se agite.
Ela me olhou enviesado, a contragosto obedeceu. Em seguida se acomodou na cadeira de balanço onde Olivia costumava sentar. Aquilo me incomodou. Eu fiquei de pé, apoiado na parede.
-O que quer conosco, Dunham?
O olhar foi irônico. Parecia estar buscando a resposta certa. Depois de alguns instantes, ela finalmente falou, em tom pausado.
-Eu só quero o que é meu, Peter.
-Veio levar o Gabriel com você?
-Quem escolheu o nome dele? Você ou ela?
-Não desconverse.
-Ele é meu filho. Achou mesmo que eu tinha desistido dele?
Olhei-a atentamente. Ela usara as mesmas palavras de Olivia, meses atrás. Aquilo não acabaria nunca, só quando um de nós morresse. Eu senti um peso no peito. Mas resolvi encarar. Não havia escolha.
-Leve-o. E nunca mais apareça por aqui.
Ela ficou me perscrutando, parecia tentar descobrir se eu estava blefando.
-Está falando mesmo sério?
-Não vou arriscar a vida do menino lutando com você e seus metamorfos. Você não deixa de ter razão. Você quis ter esse filho. Ele é seu. Mas não nos procure mais e não pense que eu vou atrás de você por causa dele. De hoje em diante ele está sob a sua responsabilidade.
Ela levantou a voz, parecia estar muito irritada.
-É sempre por causa dela, não é? Você prefere ficar com ela do que criar o seu próprio filho. Como pode ser assim, Peter?
-Engano seu, Dunham. É como na história de Salomão. Alguém precisa saber desistir para que a criança sobreviva. Pegue o Gabriel e tome conta dele. Seja a responsável pela sua segurança. Não vou fazer da vida dele uma briga. Nós tentamos dar a ele a vida mais normal possível dentro do que as circunstâncias permitem.
Respirando fundo, ela tentava talvez se acalmar. Então deixou a cadeira e veio em minha direção. Ficou bem perto. O tom de voz mudou, virou um apelo, suave, envolvente.
-Não tem que ser assim. Eu sei que vocês estão separados. Ela está com outro homem. Nós poderíamos ir embora, juntos. Recomeçar em outro lugar. Vai me dizer que nunca pensou na ideia?
Eu me sentia desanimado. Ela se obstinava em não entender.
-Dunham, eu não quero recomeçar nada com você. Nem mesmo para ficar perto do meu filho. Vou sentir muito a falta dele, mas não aceito pressão nem chantagem. Você pode repetir tudo ao Secretário, porque eu tenho a certeza de que vocês estão juntos nisso desde o começo.
Ela olhava para mim sem dizer nada. Creio que pesava os prós e os contras. Refletia sobre o próximo passo. Enfim andou em direção ao berço e pegou o menino. Eu fiquei gelado. Ela ia mesmo levá-lo. Era egoísta a tal ponto que iria mesmo expô-lo a todos os perigos.
Tomou Gabriel nos braços e o apertou contra si, longamente. Beijou-lhe as bochechas e as mãos. Depois recolocou-o no berço. Saiu do quarto, eu fui atrás.
Quando chegamos ao térreo, ela foi direto à cozinha. O cúmplice olhou-a, como que aguardando o próximo passo. Ela já estava com a pistola em punho. O fio de mercúrio escorreu do orifício entre os olhos. Eu estremeci. Olhei para ela e perguntei:
-E agora?
-Vou deixar o menino com você.
Eu achei melhor jogar limpo, contar toda a verdade. Estava farto de mentiras.
-Então precisa saber que eu não estou separado da Olivia. Foi uma estratégia, para que você se mostrasse.
Ela abaixou a cabeça. Parecia cansada, mas não surpresa.
-Não entendo o que você vê nessa mulher, Peter. É fraca e problemática... Ela é para você como uma espécie de doença.
-Eu gosto dela. Não é uma escolha. A gente descobre que ama uma pessoa e aceita o fato. Não há como lutar contra.
-Percebe que ela ficou com tudo o que é meu? Ela levou tudo o que eu amo.
-É estranho que você use essas palavras. – disse Olivia. A minha Olivia havia entrado silenciosamente pela porta dos fundos. Dunham ficou surpresa, girou a pistola e a manteve
a mira em Olivia. Eu senti medo. Dava para sentir a hostilidade. Walter estava apavorado. Acho que nós dois temíamos que ela atirasse em Olivia.
-De onde você veio?
-Eu e o agente Lee sabíamos que você estava na casa. Ouvi o tiro e resolvi entrar. Precisamos conversar.
-Está aqui para me prender?
Olivia respondeu calmamente:
-Já disse que vim conversar, pode abaixar a arma .
-Não confio em você. Nunca confiei, desde a primeira vez que a vi, quando você invadiu meu apartamento.
-Eu percebi. Mas isso já não importa mais. Quero lhe dizer uma coisa: Peter e eu queremos criar Gabriel dentro da verdade. Ele vai saber que tem uma mãe biológica e que você não o abandonou, foi forçada a deixá-lo por causa da guerra. Não suportamos mentiras.
Dunham continuava apontando a pistola. Olivia não se intimidou. Continuou a encará-la de frente. Eu estava ficando cada vez mais preocupado.
-Não pense que eu não a entendo, pelo menos em parte. Deve ser horrível viver afastada de seu próprio filho. Mas cada um deve pagar o preço pelas suas escolhas. No momento, o mais sensato é protegê-lo.
A outra sibilou. A seus dedos estavam crispados na arma.
-Você não sabe o que fala. Por que não tem o seu próprio filho e esquece do meu?
Olivia não se abalou com as palavras agressivas.
-Terei filhos na hora que achar que devo. E saiba que eu amo o seu filho como se fosse meu. Nunca se esqueça disso.
Dunham foi recuando. Olhou na minha direção e perguntou.
-O FBI, está aí fora, não é?
Eu disse a estrita verdade.
-Só o agente Lee. Vamos fazer o seguinte, Dunham. Eu vou chamá-lo pelo celular. Ele vai entrar e você terá cinco minutos para fugir.
-Não acredito em você, Peter.
-Pois deveria. Você não daria conta do pessoal do Secretário e do FBI juntos, no seu encalço.
Eu peguei o celular e fiz o que havia dito. Pouco depois Lincoln Lee entrou. Dunham foi recuando, até sair pela porta dos fundos. Só ouvimos os pneus guincharem com a arrancada.
-O menino fica? – Lee quis saber.
-Fica.
Olivia desabou sobre o sofá, ao lado de Walter, que não havia dito uma única palavra.
Naquela noite Peter entrou no quarto e viu Olivia deitada ao lado de Gabriel. Ela estava brincando com o menino. Ele ria com as pernas para o alto. Olívia fazia cócegas nos pezinhos e na barriga. Ele adorava a brincadeira. Quando ele sentou na cama, com uma expressão cansada, Olivia falou:
-No final, ela acabou pensando mais no filho do que em si mesma.
Ele continuou em silêncio. Olivia se aproximou dele.
-O que foi?
Ele balançou a cabeça como se estivesse afugentando um pensamento ruim.
-Agora temos que tomar cuidado com o Secretário. Todos nós, inclusive ela, estamos correndo perigo.
-Eu sei. Você corre mais perigo do que todos de nós, Peter. Mas precisamos continuar lutando. Não temos outra saída.
Peter pegou o menino e levou-o para o berço. Voltou algum tempo depois. Olivia estava com uma expressão divertida.
-O que foi?
-Nada. Estou pensando na festa de um ano do Gabriel. Preciso falar com Rachel. Ela sabe tudo de festas.
Peter pensou consigo mesmo o quanto Olivia era admirável. Estivera sob a mira de uma pistola e terminava o dia planejando a festa do bebê. Ele não tinha do que se queixar, era um homem de sorte.
Fim
