N/A: Todos os personagens pertencem a Stephenie Meyer e a história pertence a Elisabeth Winfrey , a mim só pertence a adaptação.


Capitulo 4 - Heroína de conto de fadas

— Por que você não deixa seus cabelos soltos, Bella? — perguntou Carmen no começo da semana seguinte, da cadeira da primeira fileira da platéia em que estava sentada.
Levantei os olhos do script, confusa.

Carmen riu.

— É, se livre dessa trança. Você sempre usa os cabelos puxados para trás ou para cima, num rabo-de-cavalo. Vamos lá, experimente. Só para ver como fica.

Eu me senti encabulada, mas obedeci, apesar de já saber muito bem como meu cabelo ficava quando solto: uma bagunça.
Desfiz a trança, me curvei e deixei meus cabelos caírem como uma cortina na frente de meus olhos. Então me endireitei, sacudi a cabeça para trás, e vi Edward me espreitando.

— Lindos! — exclamou ele num sussurro que atravessou o palco, apontando para os meus cabelos.
Eu ri, toquei em meus cabelos e senti meu rosto ficar quente.

— Bem melhor — disse Carmen . — Agora você parece uma garota prestes a se apaixonar. — Ela pulou para cima do palco e me lançou um olhar crítico: — De agora em diante vista uma saia comprida nos ensaios, para se acostumar a andar pelo palco dessa maneira. Nos contos de fadas as garotas não usam jeans. Um figurino adequado vai ajudá-la a entrar na personagem.

Então Carmen pediu a Andréa que esvaziasse o palco, para que se pudesse ensaiar a cena programada para aquele dia, o prólogo. Era uma cena entre Eric, que fazia o papel do pai da Bela, e Edward. Passava-se na manhã seguinte ao dia em que a Fera tinha protegido o pai da Bela da tempestade.

Peguei a minha suéter e o meu script e me sentei atrás de Carmen . Eu precisava trabalhar nas minhas falas, mas ao mesmo tempo queria ver o que Edward iria fazer. Eric e eu tínhamos que dar uma repassada numa outra cena mais tarde, e por essa razão eu tinha uma desculpa perfeita para ficar por lá.

Claro que Edward ainda não estava maquiado de monstro. Não estava nem mesmo usando a máscara que no dia anterior Carmen havia-lhe dito que comprasse, para ir praticando. Vestia apenas uma calça de malha preta bem largona e um suéter com capuz, também preta. E um par de tênis velhos e macios.
Eu me questionara se trocar os jeans e as botas de motoqueiro pelo que ele estava vestindo agora era sua estratégia para entrar na pele da personagem. Resolvi perguntar mais tarde.

Edward entrou no palco. Puxou para cima o capuz do suéter e ficou de costas para todo mundo por um momento. Seu corpo se tensionou com a concentração. Parecia uma pantera pronta para dar o bote. Então colocou o capuz para baixo e se virou de frente. Todos na platéia ofegaram.

Quase não consegui reconhecê-lo. Seu rosto parecia empelotado e escamoso, como o de um réptil. Um rosto com o qual você não gostaria de topar sozinha numa rua escura. Havia nele uma expressão de fúria e sofrimento.

Da décima fileira da platéia podia-se sentir a dor e o medo emanavam daquela face contorcida.
Ao longo de toda a cena a voz de Edward foi ameaçadora, encurvou os ombros sobre si mesmo e ficou parecendo um felino ferido e raivoso. Fui apanhada em cheio pela teia de fantasia que Edward estava tecendo bem ali, na minha frente.

Quando a cena terminou, houve uma fração de segundo durante a qual Edward ainda era a Fera. Então a personagem pareceu escorrer dele como água, e o rapaz em pé no palco era de novo um colegial de 17 anos olhando esperançoso para sua professora a espera de algum comentário. Não, não apenas um comentário, Cada átomo de Edward parecia ansiar por um elogio.

O teatro ficou em silêncio por um instante, até que Carmen realmente aplaudiu. E o mesmo fizeram todos os outros.

— Isso foi incrível, Cullen — disse Eric.

Edward enterrou os punhos no bolso da frente de sua suéter e corou de prazer.
Carmen subiu novamente no palco e deu algumas instruções aos rapazes. Eu me estiquei para a frente em minha cadeira, para tentar escutar o que ela dizia. A performance de Edward tinha me inspirado. Estava determinada a saber tudo o que havia para saber no mundo sobre a arte de representar, sobre teatro, sobre construir uma personagem.

Um pouco mais tarde, durante uma pausa, Edward se ofereceu para me mostrar todos os cantos do teatro.

— Não posso acreditar que você nunca tenha explorado este lugar — disse ele.

Seus olhos escuros brilhavam enquanto me guiava para a porta que ficava bem em frente à saída lateral do palco. Eu havia estado nos bastidores uma vez, na semana anterior, para que Charlotte tomasse minhas medidas para o figurino e para trabalhar um pouco com Carmen . Havia até brincado com Charlotte a respeito do fato de haver no teatro um único e grande camarim do qual as garotas do elenco tinham se apossado. Os rapazes tiveram de se conformar com o banheiro para se trocarem.

Dirigimo-nos para a sala em que figurinos, cenários e materiais de cena em geral ficavam guardados. Ainda podíamos escutar Carmen dando as instruções de iluminação. Também ouvíamos marteladas e vozes vindo da oficina do teatro, onde estavam sendo construídos os novos cenários.

Segui Edward até a sala de materiais. Cabides cheios de velhos figurinos se alinhavam em uma parede. Painéis poeirentos de cenários antigos se apoiavam nas outras paredes. Espadas, chapéus de todas as formas e cores, cestas repletas de rolos de tecidos desbotados. Uma única e fraca lâmpada amarelada dependurada no teto, lançando sombras assustadoras sobre todos os objetos. Parecia um pouco com o trem fantasma de nosso parque de diversões local.

Andei em direção a uma penteadeira de pés compridos e finos com um grande espelho oval, tão sujo que nem de muito perto conseguia me ver. Com o dedo escrevi na poeira "BELLA = BELA", e a data. Então, num impulso, acrescentei "EDWARD = FERA".

Ei, olha só isso aqui! — exclamou Edward.

Rapidamente esfreguei a mão numa área grande do espelho paguei nossos nomes. O reflexo de Edward apareceu na minha frente. Ele tinha encontrado um grande chapéu com plumas.
Colocou-o na cabeça, fez uma pose e arqueou o corpo num gesto profundo e galante. Então agarrou uma espada e começou a esgriar com um inimigo de faz-de-conta.

Apanhou uma poeirenta capa de veludo vermelho e a jogou para mim. Coloquei-a sobre os ombros, espiei no espelho e fiquei surpresa ao ver que meus cabelos continuavam soltos. Joguei-os cima do colarinho ereto e rígido da capa.

Subitamente me senti uma boboca, como se tivesse seis anos. Mas, pelo fato de estar ali sozinha com Edward, me senti também "mais velha". Virei-me para ele.

— Você sabe o que este lugar me lembra?

— Um sótão.

— Numa casa velha! Brincando de disfarce e faz-de-conta.

— Então é por isso que nós dois temos tanto em comum — disse Edward.

— Isso o quê?

— Sótãos, faz-de-conta. Você é uma atriz inata, Bella. Não diga que não adora isso tudo... E não é que a Carmen está com a razão? Só de deixar os cabelos soltos e vestir um figurino, já se tornou uma pessoa totalmente diferente.

— Nunca tinha pensado nisso antes, que representar fosse como brincar de faz-de-conta num velho sótão. Mas é isso mesmo.

Então contei a ele que ser uma estrela dos palcos e das telas tinha sido sempre um dos meus segredos mais preciosos.

— Não vai ser segredo por muito tempo... Aposto como a Bela vai ser apenas o primeiro papel que você vai pegar aqui. Está só no segundo ano, Bella. E é talentosa. Claro que tem muito o que aprender, mas você possui o dom.

Então me falou daquele livro de um russo que diz tudo sobre como construir uma personagem. Disse que eu deveria lê-lo. Enquanto conversávamos, ele estava remexendo em algumas coisas num cesto.

— Olha só para isso aqui!

Edward me passou um espelhinho de mão todo enfeitado e uma escova de cabelos com um longo cabo que fazia jogo com o primeiro. Eram do tipo dos que eu tinha visto nos filmes antigos.

Testei a escova, passando-a por meus cabelos. Edward sentou-se numa das quinas da penteadeira e ficou me olhando e falando com uma voz suave:

— Também tenho meus sonhos, Bella. Não quero só representar. Algum dia quero também dirigir. — Ele se levantou e esticou os braços para o alto, sacudindo impacientemente a cabeça. — O problema é que eu quero tudo!

Parei de escovar os cabelos e ponderei sobre o que Edward dizia. Ele parecia reprimido, excitado, ansioso... e algo mais. Assustado? Eu me dei conta então de que no fundo não era tão seguro de si quanto parecia.

— Olha, Edward, ainda não entendo muito de teatro. Mas se tivesse um milhão de dólares para apostar, apostaria que você vai ter "tudo", sim.

Ele encontrou meu olhar no espelho:

— Você acha mesmo?

— Acho — confirmei, e era verdade. — E acho até que a Universidade de Yale concederia uma bolsa de estudos a você. Ouvi falar que eles têm um Departamento de Artes Dramáticas. Você é bom o suficiente.

— Yale? — ele fixou o olhar em mim como se houvesse crescido um nariz extra em minha cara, ou algo parecido. — Esqueça. Quem disse que quero ir para Yale?

— Você não quer?

Edward veio em minha direção aos trancos, por cima das tralhas espalhadas pela sala, e se agachou perto de um baú, pousando as mãos no tampo curvo de madeira.

— Yale? Universidade? Não é nesses lugares que está a arte de representar. De jeito nenhum. Quero a coisa de verdade. Não posso deixar minha vida de lado por quatro anos só para conseguir um estúpido diploma de ator. Quero viver teatro, respirar teatro. Assim que terminar o colegial, caio fora daqui. Vou pra Nova York.

— Broadway?

— Com certeza. Ele se levantou e começou a andar para lá e para cá por trás de mim. Seus olhos brilhavam enquanto falava:

— Ou no circuito off - Broadway, mesmo que seja num teatrinho qualquer. O que me importa é fazer arte de verdade. Faculdade é legal para algumas áreas, para se tornar um cientista, um professor. Mas para representar, realmente representar, você tem de viver de verdade, cair no mundão.

— Mas como você vai se virar num lugar como Nova York?

— Sei lá — disse ele despreocupadamente. — Dou um jeito. Sempre me virei. Sou bastante habilidoso e posso trabalhar duro em quase qualquer tipo de serviço. Desde que haja uma chance de fazer teatro de verdade, não ligo muito para o que tiver de fazer para viver, nem para quanto dinheiro vou ganhar.

Engoli em seco. Tudo o que ele dizia era um pouco demais pra eu digerir de uma vez só. Nunca tinha pensado na vida naqueles termos. Nunca me ocorrera que alguém poderia querer fazer algo grande e importante na vida sem ter necessariamente de ir à escola. Sempre encarara a escola como um lugar extremamente excitante. Mas Edward a fazia parecer, sei lá, algo entediante e desinteressante. Ou, no mínimo, não tão interessante quanto a vida que planejava para si mesmo.

Recomecei a esticar meus cabelos com a escova. Como sempre, estavam embaraçados e escová-los com força repuxava meu couro cabeludo. Aquilo doía.

— Não faça isso! — disse Edward, com um tom de voz engraçado.

Então, antes que eu pudesse perceber o que estava acontecendo, ele já havia tirado a escova de minha mão.

Ri, mas meu coração começou a bater mais rápido. Ele tocou em meus cabelos suavemente e começou a escová-los. Fiquei surpresa ao ver que não doía.

Ele encontrou de novo meu olhar no espelho, e havia uma expressão em seus olhos que fez minha espinha amolecer de cima a baixo. Se não estivesse sentada, acho que teria desmaiado ali mesmo. Ele se inclinou um pouco, ajeitou a capa vermelha sobre meus ombros e arranjou meus cabelos em leque por sobre ela. Então, avançando com sua cabeça por cima da minha, foi se curvando mais para baixo, mais para baixo...

— Fim do descanso! — A voz de Eric soou de repente num estrondo.

Ele estava em algum lugar do lado de fora da sala de materiais, mas muito perto.

Edward deu um salto para trás.
Também dei um salto e quase bati o ombro no queixo dele. Sua mão agarrou a minha, para me acalmar. Por um momento nossos dedos se entrelaçaram. Por um segundo quis ficar daquele jeito para sempre. E no segundo seguinte tentei perceber no que exatamente eu estava pensando. Retirei minha mão da dele e comecei a dobrar a capa.

— Swan, Cullen, onde vocês estão?

— Aqui! — a voz de Edward soou surpreendentemente casual, como se quase nada tivesse acontecido entre nós dois.

— Para o palco, está na hora! — disse Eric , entrando na sala de materiais e olhando para nós.
Edward, que tinha deslizado de mansinho até a cesta das espadas, olhou para Eric com um amplo e amigável sorriso.

Eu estava em pé, no meio das sombras. Sentia-me tão vermelha quanto a capa, mas Eric não pareceu notar. Ele encurralou Edward e começou a conversar.

— Então, o que você acha deste lugar?

— Demais! Eu estava justamente comentando com a Bella como este teatro é legal. Aliás, estava matutando... — continuou Edward com um tom de voz despreocupado — vocês têm livros sobre teatro por aqui? Como aquele do Stanislavski, por exemplo...

— Quem?

— Stanislavski. O título é A construção da personagem. Vocês têm? Acho que seria muito bom para a Bella ler esse livro. Eric balançou a cabeça.

— Tente na biblioteca — disse ele, enquanto já atravessava o arco da porta com seus largos ombros, de volta para o palco.

Edward começou a segui-lo, mas depois de um ou dois passos parou e se voltou para mim:

— Ei, Bella, tenho esse livro em casa. Por que você não vai comigo até lá depois do ensaio e o apanha?

— Hoje? — foi a primeira palavra que me saiu.

Minha voz geralmente grave se esganiçou, e senti meu rosto ir de vermelho para pálido e para vermelho de novo. Era uma espécie de código. O que Edward estava na verdade dizendo era: "Sim, de fato algo quase aconteceu. E eu não quero que esse momento se acabe". Fiquei atônica por um instante e não consegui encará-lo. Tinha quase beijado aquele garoto bem ali, na sala de materiais, e agora precisava agir, tínhamos de agir, como se nada em absoluto tivesse acontecido. — Não posso. Tenho de fazer um baby-sitting assim que sair daqui.

— Fica para outra hora, então. Eric se intrometeu:

— Eu gostaria de dar uma olhada nesse livro também... talvez depois que a Bella o tiver lido.

Estávamos na coxia agora. Eric parou e me encarou:

— Puxa, Bella! Você... você está linda! — disse ele, com um sorriso encabulado.

— Ela tem de ser. — Edward deu um tapinha nas costas de Eric e piscou para mim. — Afinal de contas, ela é a Bela!

Ele saiu andando com Eric . Segui atrás deles, agradecendo por ter um minuto para me recompor. Eu estava um pouco confusa. O que afinal tinha quase acontecido lá na sala de materiais? Primeiro, Edward havia quase me beijado. Depois, num piscar de olhos, lá estava ele jogando conversa fora com Eric . É, com certeza ele conseguia mudar de marcha bastante rápido. Num segundo ele discorria ardentemente sobre seu futuro como ator, no segundo seguinte era ardente comigo e poucos segundos depois conseguia agir como se nada em absoluto houvesse ocorrido entre nós. Era o suficiente para me fazer perguntar a mim mesma se o que tinha acabado de acontecer era real ou só um faz-de-conta, como na peça. Edward conseguia mudar de estado de espírito tão rápido — de motoqueiro para ator, para mecânico, para namorado — que, enquanto eu tentava recuperar o fôlego, me perguntava quem ou o que era o verdadeiro Edward.

Graças a Deus que Sharon Jane Smithson é um bebê doce e dorminhoco. Geralmente faço minha lição de casa durante o baby-sitting. Mas da mesma maneira que minha vida tinha mudado desde que eu pegara o papel em A Bela e a Fera, a minha rotina de baby-sitter também. Na semana anterior havia aproveitado aquele tempo para memorizar meu texto na peça enquanto Sharon dormia. Mas nesta semana eu o usava para escrever em meu diário sobre quão incrível tinha sido soltar os meus cabelos. Quem tinha tempo para lição de casa a essa altura do campeonato?

A campainha tocou e me fez dar um salto. Então me levantei rapidamente, fechei o diário de supetão e coloquei uma apostila de biologia por cima dele. E corri para a porta antes que a campainha tocasse de novo e acordasse Sharon Jane.

— Alice!

— Não fique tão surpresa — disse ela sorrindo e me empurrando para dentro, seguida de Jasper e Mike. — Nós sabíamos que você ia estar aqui hoje à noite, como de costume. E, já que a fase dos trabalhos e provas bimestrais se acabou para todos nós, a gente achou que era uma boa idéia passar por aqui.

— Para comemorar! — acrescentou Mike.

Jasper, que tinha uma irmãzinha de 1 ano, colocou os dedos nos lábios:

— Em silêncio, claro.

Tive vontade de abraçar Jasper por aquilo. Levei todo mundo para a sala de visitas, bem longe da mesa. Longe do meu diário.

Uma das melhores coisas dos Smithson é que acham que os adolescentes que trabalham como baby-sitters têm de ser tratados com dignidade e respeito. E o mais importante: devem ser alimentados. Os Smithson costumam abastecer bem a geladeira com sanduíches e sempre deixam uma caixa de pipocas para microondas na bancada da cozinha. E também deixam bem claro que não há nada de mau que eu receba alguns amigos enquanto Sharon Jane dorme. Desde que nós mantenhamos os decibéis num nível baixo, lavemos a louça depois de usar e não transformemos a reunião numa festinha.

Alice e eu mandamos os garotos para a cozinha. Ela é uma firme defensora da idéia de que os rapazes devem tomar conta da culinária. E devem aprender também a lavar pratos, lavar roupa e trocar fraldas. No entanto, para sorte de Jasper e Mike, fazer pipocas no microondas é o máximo de que eles podem se encarregar na casa dos Smithson.

Uma vez sozinhas na sala, Alice reparou na escova que eu tivera nas mãos o tempo todo. Tão logo Sharon Jane havia adormecido, tinha dedicado vinte minutos inteirinhos a escovar os cabelos. Só para recordar como me sentira quando Edward os escovara.
Depois começara a escrever em meu diário.

— Você está usando os cabelos soltos! — comentou Alice, olhando para a escova. — Isso é novidade.

Ela pegou a escova de minha mão e a passou por seus longos e sedosos cabelos. Alice sempre os usava soltos.

Por um momento, uma parte de mim quis contar tudo a ela: como me sentira ao ver Edward representar; como era vivo e vibrante; como sabia tudo sobre teatro; como eu nunca tinha conhecido alguém igual a ele; como eram delicadas suas mãos ao escovar meus cabelos...

As maçãs de meu rosto ferveram com aquele pensamento. Não, não podia contar nada a Alice. Ela não ia com a cara de Edward. Ela achava que eu devia amar Mike.

— Faz séculos que não vejo os seus cabelos soltos — disse ela, dando um passo para trás.

Alice jogou a escova no sofá, enganchou os dedos nas passadeiras do cinto de seu jeans e me olhou, balançando a cabeça afirmativamente:

— Eu gosto. Fica diferente. Mas... como veio a mudança?

Por dentro estava me retorcendo. Senti-me como se houvesse um letreiro de néon na minha testa piscando: "EDWARD = MUDANÇA".
Engoli em seco e pensei rápido.

— É o papel na peça... Carmen sugeriu que eu experimentasse — expliquei, cheia de convicção. — As heroínas dos contos de fadas sempre usam os cabelos soltos.

Alice riu com energia.

— Certo. — Ela se deixou cair na cadeira mais próxima e sacudiu a cabeça. — Lembra de quando tínhamos 7 anos e você resolveu que ia deixar os cabelos crescer até chegar nos pés, assim poderia se tornar uma princesa?

— Eu disse isso?

— É, e que você nunca mais os cortaria. E a verdade é que quase não os cortou mais desde então. — Ela tirou os tênis, jogando-os com um chute para um canto, e apoiou os pés na mesa do centro. — E provavelmente não vai mais... — completou.

— Não vai mais o quê? — perguntou Mike, que chegava na sala.

— Cortar os cabelos — explicou Alice.

— Nem deve. Fica com um aspecto romântico assim — disse Mike, enfiando um punhado de pipocas na boca.

Ele colocou a travessa na mesa, empurrando os pés de Alice para o lado.

— Se eu quiser cortar, corto! — disse eu, surpreendendo até a mim mesma com o tom áspero de minha voz.

Mike me olhou espantado.

Alice tomou a palavra:
— Não se preocupe, Mike. Bella não vai cortar nada. Ela odeia mudanças.

— Fico feliz em saber — disse Mike sorrindo.

Ele me puxou para a poltrona, para o lado dele. Carinhosamente retirou os cabelos que cobriam meu rosto e beliscou minha bochecha. Com a outra mão ele cavoucou na travessa de pipocas.

— Posso surpreender vocês qualquer dia desses — afirmei, me desvencilhando com nervosismo de Mike e me levantando da poltrona. — Eu já estava cheia de todos acharem que eu era tão previsível. — Talvez eu rape ele todo! — ameacei, enquanto começava a fazer uma trança.

Alice vaiou.

Jasper simulou um colapso nervoso.

Mike pegou o controle remoto da TV.

— Bah, que nada. Não é o seu estilo — disse Mike, parecendo muito seguro de si.

Meu estômago estava revirado. Escarafunchei em meu bolso à procura de minha fivela. Depois de Edward, não queria que mais ninguém tocasse em meus cabelos.

Sentei-me no tapete e comecei a guardar os blocos de Sharon Jane na caixa de brinquedos. Pensei em que pessoa horrível eu devia ser. Conhecia aqueles três desde sempre. E, naquele momento, os via como se fossem completamente estranhos para mim. Eles achavam que realmente me conheciam, mas não tinham a mínima ideia do que estava se passando em minha vida, ou em meu coração.

Olhando para Mike, senti de repente uma forte pontada de culpa. Eu sabia que não o amava. Ele não era uma pessoa muito romântica, mas nós nos gostávamos. Estávamos mais ou menos "levando juntos". Perguntei-me o que "levar juntos" significaria para ele. Perguntei-me o que significava para mim. Perguntei-me o que Edward estaria fazendo naquele exato momento...

E me perguntei por que qualquer pensamento que atravessava minha mente acabava tendo algo a ver com Edward.

O que havia de errado comigo, afinal? Era de se esperar que estivesse naquela poltrona, abraçada com Mike. Em vez disso, estava "a salvo", no outro lado da sala, abraçando meus sonhos com Edward.

— Bella... — disse Mike. — Dei um pulo. — Você parece mesmo diferente esta noite. Você parece... — fez uma pausa para procurar a palavra. "Culpada", pensei.
— ...feliz!

— Feliz? — repeti, olhando fixo para ele.

— E o que tem de diferente nisso? — perguntou Jasper, abrindo o zíper de sua malha.

Alice apertou os olhos para me estudar.

— Acho que a Bella está se apaixonando pelo teatro — disse ela.

Fechei a caixa de brinquedos de Sharon Jane.

— Como de costume — disse eu, tentando manter o tom de minha voz normal —, Alice está certa.

Os garotos se concentraram num show na TV. Alice se concentrou em mim:

— E então... Hoje você ainda não mencionou Edward — disse ela, se esparramando ao meu lado no tapete.

Alice começou a fuçar num dos livrinhos de Sharon, e tive a nítida sensação de que estava querendo pescar algo.

— E o que há para mencionar? — retruquei. — Hoje nós ensaiamos as mesmas velhas cenas da peça, a maioria delas com Eric Martin. O pai da Bela.

— Ah... Pensei que hoje fosse o grande dia.

Eu não tinha a mínima ideia do que ela estava falando.

Alice se inclinou para a frente e puxou minha trança:
— Você se esqueceu do Dia-B? O Dia do Beijo?

— Até parece que você ia me deixar esquecer! — exclamei. Enterrei os pés nos grossos pêlos do tapete.

Esquecer? Por toda a semana tinha temido o momento em que teria de beijar Edward na peça. E, agora que quase o havia beijado de verdade, temia mais ainda. Não sabia como iria conseguir fingir beijar a Fera quando, na vida real, estava morrendo de vontade e medo de que Edward me beijasse.

— É um beijo pelo qual eu não te invejo — disse ela.

— Ele não é má-pinta, Alice.

— Má-pinta? Não, é até bonito... desde que você goste do tipo. Eu pessoalmente acho até que ele não deixa nada a desejar com relação a Mike no departamento "beleza". Mas, não sei, algo me diz que é falso, malandro... desonesto. Sei lá. Talvez todos os atores sejam assim.

— Assim como? — disse eu, me endireitando. Não estava certa de que queria saber quais eram as teorias de Alice sobre os atores.

— Como nunca saber com quem você realmente está falando — esclareceu ela.

E não tinha eu ficado a tarde inteira pensando na mesma coisa? Havia Edward verdadeiramente quase me beijado, ou eu imaginara tudo? Tinha ele realmente sido capaz de desligar seus sentimentos tão rápido? (Eu, com certeza, não.) E, no fim das contas, tinha ele algum sentimento para ser desligado?

— Você sabe o que quero dizer... Edward é assim, não é? Num minuto, um motoqueiro. No minuto seguinte...

— Alice, alguém já lhe disse que você fala demais? — perguntei, me pondo em pé rapidamente. — Edward é o que é, e ponto. De qualquer maneira, não é ele quem vou beijar. Vou beijar a Fera. Lembra? É um faz-de-conta. Uma peça de teatro. Estou curtindo demais ensaiar para esse espetáculo. E já estou me enchendo de você ficar o tempo todo tentando desmoralizar o meu parceiro.

— Não precisa ficar tão na defensiva! — ela rebateu.

— Não estou na defensiva — contestei bruscamente. — Só estou começando a me cansar de você agir o tempo todo como se soubesse de tudo.

— Eu sei de você, Bella.

— Talvez não saiba — resmunguei, enquanto ela saiu agitadamente na direção de Jasper e se largou no colo dele.


N/A:Olá flores

Desculpa a demora, mas no feriado eu não tive folga, porque recebi parentes e só quem já passou por isso sabe

Enfim...

O que vcs acharam do capítulo?

Quase infartei quando eles quaaase se beijaram *suspira*

Mas eles estão quase lá ^^

Sem tempo para responder reviews agora, mas no próximo capitulo eu respondo!

Estou esperando ansiosa as reviews ok?

Bjcas,

Days3.