Capítulo 2 – Adivinhe Quem Veio Para o Almoço
Os dois primeiros dias foram bem tranquilos e parados. No geral, o fim-de-semana não tinha sido lá essas coisas… Chuva todo tempo, discussões da Rose com o tio Ron sobre o acampamento com Albus e Scorpius e nem a televisão estava querendo pegar. Enfim, na segunda-feira já estava começando a desacreditar que aquelas seriam as férias da minha vida.
Minha motivação era tal que já devia passar das onze e eu ainda estava estirada na cama com a cabeça embaixo do travesseiro e…
OPA! Alguma coisa havia pulado na minha cama! Ah, devia ser só o Bichento III… Agora ele estava me segurando pelos calcanhares. Mas espera aí, gatos normais não tem como fazer isso. Sendo assim como ele poderia…?
- Ahhh! Me larga seu gato mutante! – iniciei os berros, quando ele começou a me puxar. – Felino com polegares opositores, sai de mim!
E ele ainda estava rindo da minha cara, aquele felpudo maldito! E a risada dele era igualzinha a do… Lembrei, gato não ri. Eu me surpreendia cada dia mais com a minha idiotice.
Arremessei o travesseiro e pelo barulho, acertei o alvo. Adquiri coragem para abrir os olhos. Idiota.
- Você consegue ser bem irritante. Eu já odeio segunda-feira e você me vem com essa? – revirei os olhos, ficando de pé.
- Sabe, você dormiu cinco semanas seguidas e seus pais já estão aí pra te buscar.
- Ah é mesmo?
- Bem que poderia. Cara, como você hiberna! – Hugo jogou o travesseiro de volta na cabeceira.
- Você não pode ir entrando assim no meu quarto.
O moreno riu.
- Seu mesmo?
- Ok, meu quarto temporário, melhorou? – ele acenou positivamente com a cabeça. – Eu poderia estar me trocando se fosse em qualquer outro momento.
- Que nada! Eu sabia que não estava, os seus roncos eram ouvidos lá da sala.
- Mas eu não ronco…
- Ah, é claro que não… - ele usou aquele tom irônico de dar nos nervos.
E estava rindo de novo. Eu devia ter cara de palhaça né?
- Minha mãe e meu pai já saíram. – comentou.
- E foram onde?
- Pro trabalho, aonde mais? Só os seus tão de férias, na boa…
- E a Rose?
Hugo bufou, parecendo lembrar-se de algo incômodo.
- Está me enchendo o saco pra deixá-la ver o Malfoy. Mas não dá, eu prometi pro meu pai e…
Aff, Hugo deixa de ser chato. Ela quer ver o namorado dela… Ia gostar se te proibissem de ver a sua se fosse o caso?
- Eu não tenho namorada. – corou um pouco.
- Eu sei disso, mas se tivesse não gostaria que Rose ficasse feito um cão de guarda no seu cangote observando cada movimento e te mantendo longe de qualquer um que parecesse suspeito.
- É, talvez você esteja certa… Tá, ele pode vir! Mas eu ainda ficarei de olho neles.
Minha prima estava me devendo uma e nem sabia disso.
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Algum tempinho passou e logo já eram duas da tarde. Acreditem ou não, quem cozinhava o almoço era o Hugo!
- Hum, desde quando você é um chef cinco estrelas? – brinquei, adentrando na cozinha. Ele estava uma gracinha usando um avental com algumas manchas de molho. Quer dizer, era uma cena que não se via todo dia...
- Não exagere, Lily. – o moreno riu. Ele estava tão concentrado em sua tarefa que até me impressionei.
- E qual é o menu? – perguntei, fracassando ao tentar fazer um sotaque francês.
Hugo jogou um molho sobre o conteúdo de uma vasilha e foi para a pia lavar as mãos. Parecia delicioso.
- Salmão.
- Wow, já pode casar hein...
- Parece até minha mãe falando. – revirou os olhos.
- Bom, hoje em dia é difícil achar um garoto que saiba cozinhar, qualquer uma seria muito sortuda. – dei de ombros.
Ele sorriu, mas depois olhou por cima do ombro na direção da sala de estar com desconfiança.
- Tem certeza de que eles estão comportados? – questionou, mostrando seu lado de irmão protetor.
- Veja por si mesmo. – o puxei para o aposento ao lado.
Rose e Scorpius estavam apenas conversando para o alívio de Hugo, mesmo que bastante próximos um do outro. Albus estava na poltrona à direita deles, entediado, enquanto zapeava pelos canais da televisão.
- E aí, quando sai o rango? Tô pra morrer aqui! – resmungou a educação em pessoa, ou seja, meu irmão.
- Além de comer de favor, ainda reclama? Bom, se tratando de você, era de se esperar. – falei.
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- Hum, como isso estava bom! Afinal o que tem no molho? Algum tipo de azeite ou é outra coisa? Tanto faz, o que importa é que estava uma maravilha. Falando nisso, devíamos aproveitar que já é verão e sair um pouco de casa, o que acham? Não é todo dia que faz sol por aqui, ainda mais depois desse fim de semana chuvoso...
- Er, o que azeite tem a ver com verão, Rose? – Scorpius olhou confuso para namorada, quase rindo. Ele já devia estar acostumado com o falatório sem nexo que às vezes minha prima faz.
- E eu vou saber? Enfim, a gente podia aparatar perto da vila e tomar um sorvete ou algo assim, que acham? Podia ser tipo a sobremesa. Espero que tenha de baunilha senão eu juro que nunca mais ponho os pés lá! Onde já se viu, é um sabor básico, como é que eles não tinham da última vez?
- Merlin, me dê paciência. Quando é que ela para? – Albus massageava as têmporas, impaciente, comentando quase que num sussurro. Ele estava de TPM por acaso? Que cara mais azedo.
- Mas eu fiz sobremesa. Esperem, vou lá buscar... – Hugo levantou-se, apontando a varinha para a mesa. Os pratos usados por nós começaram a levitar e o seguiram para a cozinha.
Quando notou que a ruiva ia começar a falar de novo, Albus berrou do nada.
- Scorpius, dá pra você usar a sua técnica infalível de fazê-la calar a boca?
- Do que você está falando? – Rose ergueu uma sobrancelha. – Ah não, se você estiver querendo dizer me agarrar, tenho que faz uma obje...
Tarde demais. O loiro sentado ao seu lado já a tinha envolvido nos braços e feito o silêncio voltar reinar na casa. Ok, até eu tinha de admitir que havia ficado aliviada.
Oh, droga. Se o Hugo voltasse vendo essa cena, capaz dele atirar a sobremesa para o lado e pular no pescoço do pobre Scorpius... Sei lá, ele era um Weasley e um Weasley ciumento era decididamente a pior coisa possível depois de um Avada Kedavra.
- Caramba, parem com isso! Ele já vai voltar. – nem sinal de resposta da parte do casal. – Al, seu besta, fica dando ideia! Vou enrolar o Hugo, melhor terem parado quando voltarmos pra cá. – eu disse, deixando a sala de jantar em seguida.
De repente, senti um cheiro ótimo.
Limão. Era cheiro de limão.
Analisando melhor a cozinha, notei uma bela torta que parecia ter sido tirada de alguma revista culinária sobre o balcão.
- Não, não, não! – Hugo se atirou na minha frente, impedindo que eu visse o seu feito. – Merda, não era para você ter visto.
Sorri de lado, desviando meu olhar para os meus pés. Sempre que fico envergonhada encaro os pés, detalhe.
- Você... – iniciei. – Fez a minha sobremesa predileta? – criei coragem de fita-lo só para ver sua reação.
O moreno corou um pouco, coçando a nuca. O deixei sem graça.
- Você é a convidada especial, afinal. – deu de ombros, não querendo fazer daquilo grande coisa. – E todo mundo gosta de torta de limão, então...
- Obrigada. – exibi outro sorriso.
- Não foi nada. – sorriu de volta.
Eu nem havia me tocado de que estava o olhando e ele a mim, só retomei a consciência quando Albus berrou da sala que estava faminto pelo doce.
Hugo riu, meio constrangido.
- Melhor a gente ir. – sugeriu.
Podia ser só uma coisa legal que ele quis fazer para mim, mas de alguma forma aquilo significou mais. Me senti tão lisonjeada... Bom, eu tinha o melhor amigo que uma garota poderia ter.
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Mais tarde minha mãe ligou para o meu celular – sim, eu tinha um desses aparelhos trouxas, mas que servia apenas para esse tipo de ocasião. – falando do quão incrível sua viagem estava sendo, porém, não conseguindo ignorar seu lado maternal.
- Estou com saudades. – ela dizia. – Ligaremos no próximo fim de semana, ok?
- Ok. – respondi.
Eu estava sentada sobre a cama, fazendo as unhas. O celular estava apoiado no meu ombro, quase escorregando já que minhas mãos estavam ocupadas.
- Te amo muito, filha. Até depois.
- Também te amo. Tchau... – ouvi o tut-tut na outra linha, indicando que ela havia desligado.
Relaxei os ombros e o pequeno aparelho caiu na colcha da cama. Fiz um feitiço para que o esmalte secasse e deitei a cabeça no travesseiro. Oh não, eu estava começando a sentir falta dos meus pais e não haviam passado nem três dias! Eu precisava de uma distração...
Desci as escadas e vi que os dois garotos ainda estavam por lá.
- Se o tio Ron pega o Scorpius aqui ele surta. – avisei.
- Eles já estão indo, nos dê só mais uns minutinhos... – Rose brincava com os cabelos do namorado enquanto este acariciava sua mão.
Albus bufou como se aquilo o irritasse profundamente.
- Nossa, maninho... O que você tem hoje? – tive que perguntar. – Está o dia todo com essa cara! Tem pelo menos um motivo decente?
Scorpius desviou um pouco da sua atenção para seu amigo emburrado.
- É, o Al tá passando por um momento difícil. – falou com pesar.
Hugo pôs-se a analisar expressão do meu irmão, tentando descobrir a razão do seu mau-humor.
- Hum... Acho que você levou um fora.
- Bingo. – o loiro disse pouco antes da minha prima beijá-lo. Hugo olhou com raiva para eles, mas sabia que o momento duraria pouco então se esforçou para ignorar.
- Não quero falar sobre isso, tá? – declarou Albus.
- Como quiser. – ergui os braços em rendição, desistindo de conversar com ele.
De repente um som muito audível de chave sendo colocada na fechadura foi ouvido e todos pulamos, assustados.
- Ah, meu Deus! Sumam daqui já!
- Vamos aparatar. Vem, Scorpius! – chamou meu irmão.
- Me manda uma coruja depois? – Rose pediu, fazendo beicinho.
- Claro, amor. – ele deu um selinho nela.
- Te amo. – ela retribuiu o encostar dos lábios.
- Eu também. – a beijou novamente.
O resto de nós revirou os olhos. Albus puxou Scorpius pela camiseta.
- Já deu, Romeu! Esse amor todo me deixa enjoado...
E, finalmente, eles se foram.
Rose estava com aquela cara de apaixonada, completamente fora do ar.
- Vocês definitivamente formam o par mais pegajoso que existe. – o moreno ligou a televisão e se sentou no sofá.
Tia Hermione adentrou na casa, cheia de sacolas.
- Adivinhem o que eu trouxe? Cozido de mandrágora com abóbora!
- Eca. – Hugo até estremeceu de repugnância.
- Você costumava gostar... – ela desanimou um pouco, levando as compras para a cozinha. – Ah! – deu um gritinho de empolgação, retornando com um sorriso para a sala. – Você fez salmão!
Ele apenas fez um sinal positivo com a mão em resposta. Minha tia correu até o sofá e abraçou o filho caçula.
- Tá bom, mãe! É só peixe! Calma! – Hugo tentava se desvencilhar dela e eu só conseguia rir, pois ele ficava com as orelhas vermelhas de vergonha.
- Desculpa, é que eu fico tão feliz que alguém aqui saiba fazer mais do que um ovo frito... Francamente, eu não estava com a mínima vontade de comer aquele cozido. – admitiu, parecendo ter tirado um peso das costas.
- Tudo bem, eu entendi que sou sua salvação, mas você realmente não precisa me sufocar por causa disso. – disse, ficando sem ar.
- Foi mal. – se separou dele. Ela olhou para o lado e viu que Rose estava toda abobada, só faltando babar.
- Er, alguém tacou um balaço na Rose pra ela estar tão desligada? – ficou preocupada, estalando os dedos em frente ao rosto da ruiva, e esta sequer piscava, mas virou-se para a morena.
- Oi, mãe. – fez um aceno com a mão.
Tia Hermione suspirou, exausta.
- Ele esteve aqui, não foi?
Eu e meu primo nos entreolhamos, sentindo a culpa.
- O seu pai deixou bem claro que visitas estavam proibidas, Hugo Arthur. – ops, ela havia o chamado pelos dois nomes. Estávamos ferrados. – Confiamos em você e nos engana dessa forma? Estou pensando seriamente em proibi-lo de ir ao jogo dos Chudley Cannons no próximo sábado...
Vendo que ele levaria toda a bronca, tive que tomar uma atitude.
- Tia Hermione, fui eu quem convidou o Scorpius e o Albus. – falei.
Ela ficou de olhos arregalados para mim. Em seguida, fitou Hugo e Rose.
- Está me parecendo que todos aqui são culpados. Você também, senhorita. – cerrou os olhos em fendas e Rose pareceu despertar dos seus devaneios, notando o olhar da mãe sobre ela.
- Aff, mãe, só porque ele é um Malfoy! Se fosse qualquer outro, vocês me deixariam vê-lo.
A tia ficou ainda mais zangada.
- Praticamente sozinha em casa? Nem pensar!
Rose se levantou furiosa.
- Isso. É. Injusto! – pontuou cada palavra com um passo, e que passos pesados! Depois disso, subiu as escadas para não ser mais vista durante aquela noite.
Hugo me encarou por alguns segundos e depois se voltou para a mãe.
- Ela não teve escolha. – ele disse do nada.
- Como é? – nenhuma de nós havia entendido.
- Você sabe que ela é bem sensata, e também sabe que se ela pudesse ter escolhido outro ela teria feito isso. Eu não gosto de vê-la com ninguém, mas o problema de vocês é com esse cara. Não dá pra se esquecerem do passado por um instante e a deixarem viver a própria vida? – meu primo revirou os olhos, pondo-se de pé. – De qualquer forma, sobrou torta de limão se quiser comer mais tarde, coloquei na geladeira.
Nossa, ele tinha acabado de defender a Rose? Essa era outra coisa não muito comum no dia-a-dia... Tia Hermione ficou pensativa por causa daquelas palavras, parecendo em conflito consigo mesma.
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