Capítulo 3 – Sempre Tem Um Estraga-Prazer
- Rose, venha aqui! – Tio Ron berrou da sala.
Eu, Rose e Hugo estávamos tomando café-da-manhã tranquilamente até então.
- Lá vem discussão... Ainda bem que não temos vizinhos. – meu primo comentou, abocanhando o seu pedaço de bolo.
A ruiva revirou os olhos, se levantando a contragosto.
- Você acha que ela tá muito ferrada? – perguntei ao garoto, receosa.
- Defina ferrada.
- Com a corda no pescoço, proibida de sair de casa até os trinta.
- Pior. – ergueu suas sobrancelhas, como se estivesse visualizando o destino mais terrível possível para a irmã mais velha.
- AHHH! – minha prima voltou eufórica para a sala de jantar.
- Ué, já voltou? – me surpreendi.
- Te adoro, pai! – a garota gritou para ele.
- Ela não devia estar dizendo o contrário? – Hugo também estava confuso.
- Eu vou acampar com o Scorp! Ah é, o Al também vai, mas enfim... O que será que aconteceu para o papai mudar de ideia?
Tia Hermione adentrou bem a tempo de ouvir a pergunta de Rose. A morena olhou sorrindo para o filho, então respondeu:
- Digamos apenas que outro ponto de vista foi apresentado.
Parece que o que Hugo disse na noite anterior surtiu algum efeito.
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Por causa da mudança de planos, Rose gentilmente me concedeu seu ingresso para o jogo do Chudley Cannons contra o Ballycastle Bats.
Eu nunca fora uma grande fã de esportes, mas era preferível ir a ficar em casa sem o que fazer. Os homens da família Weasley naquela casa eram fiéis torcedores dos Cannons, não faltando a um jogo sequer. Pressentia que seria complicado assistir àquela partida, porque bom, não entendia nada sobre Quadribol.
- O quê? Não! – tio Ron se descabelava. – Tudo porque não estamos com nossas camisas da sorte...
Já no estádio, exatamente como havia previsto, eu estava totalmente perdida. Na realidade, eu nem sabia que time era qual! Estava contando que meu tio e meu primo viessem com alguma camisa indicando ao menos as cores do time, mas não.
- Vamos, Lily! Torça! – Hugo segurou meus punhos e os ergueu no ar.
- Êêê... – agitei as mãos, irradiando "empolgação".
Ele riu.
- Eu sei que você não curte muito Quadribol, mas tenta se animar um pouco. – piscou um olho, sorrindo.
Retribui o sorriso, me dando por vencida. Tudo pelo meu melhor amigo.
Comecei a aprestar mais atenção. O time de preto estava se aproximando dos aros dos gols. Me levantei do assento, em expectativa. O cara jogou a boles, digo, Goles e...
- É! ISSO AÍ! UHUL! ARRASOU! – comemorei o gol loucamente.
Olhei para o lado. Hugo e tio Ron me encaravam, ambos incrédulos e indignados. Não eram só eles, todos do nosso lado da arquibancada me fuzilavam com o olhar.
- O que está fazendo? – o moreno perguntou, seu pai parecendo que avançaria em mim. – Os Bats acabaram de fazer dez pontos.
Corei até a alma e acabei rindo de nervoso.
- Desculpem, eu pensei que fosse o seu time.
A expressão dele tornou-se divertida.
- Os Cannons são os de laranja. – deu dois tapinhas de consolo no meu ombro.
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Apesar do meu vexame, o resto do jogo ocorreu normalmente. Mesmo sabendo muito pouco sobre Quadribol, tinha conhecimento de que o Chudley Cannons sempre ficava em último no campeonato e não dava pra esperar nada melhor do resultado.
- Duzentos e quarenta a trinta? Que absurdo! É tudo culpa daquele goleiro incompetente, o Harley... – meu tio estava inconformado.
Aguardávamos nosso pedido numa lanchonete trouxa de Londres, após a derrota arrasadora.
- Que nada, o apanhador deles era realmente bom. – disse Hugo.
Senti que devia fazer algum comentário antes que fosse excluída da conversa.
- Er... Mais sorte na próxima, né?
Meu primo riu meio irônico, pois estava chateado.
- É, esse é quase o lema de todo torcedor dos Cannons.
A garçonete veio com a comida, depositando-a sobre a mesa. Analisou Hugo por inteiro e então brotou um sorriso malicioso e descarado no seu rosto. Argh.
- Algo mais? – perguntou ela, lançando um olhar penetrante a ele.
Me voltei para o moreno, por algum motivo rezando para que ele não tivesse reparado no decote exagerado da moça e muito menos no interesse nítido que ela tinha nele.
Meu primo a olhou de relance, nem dando importância e sacudiu a cabeça negativamente. Desapontada, ela recolheu-se com sua bandeja.
Ah, esse era um dos motivos pelos quais eu o adorava. Tão desligado quando o assunto era romance que nem mesmo se a garota dissesse com todas as letras que gostava dele, sacaria suas intenções. Um maldito sorriso insistia em se formar nos meus lábios depois de ver aquele fora e eu não conseguia reprimi-lo.
- A garçonete estava dando em cima de você. – tio Ron comentou.
Hugo fez uma careta.
- Estava nada.
- Ela estava sim, só faltou sentar no seu colo. – falei, revirando os olhos.
- Ah, tanto faz.
Eu sempre me considerei estranha, mas acho que ele também não era totalmente normal. Quer dizer, que garoto não teria flertado de volta ou ao menos se animado com o fato de ser atraente pra alguém? Talvez um cara muito metido, mas esse não era o caso de Hugo. Com certeza não.
Ele era só... Diferente.
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- Lembra disso? – meu primo achou uma foto no meio de toda a quinquilharia guardada no sótão. Pois é, o que melhor para se fazer num domingo do que uma limpeza geral? Bom, na verdade eu tinha uma lista de coisas melhores, mas nenhuma que eu pudesse de fato.
Aquele sótão estava empoeirado e entulhado de objetos inúteis ou velhos. Tia Hermione disse que nos daria um galeão cada para "ajuda-la" com aquela pequena tarefa... Bom, não dava pra fazer muito com um galeão, mas eu não estava cooperando pelo dinheiro então era mais um bônus do que qualquer coisa.
Peguei a fotografia, a analisando e me sentando sobre um banco comprido e velho.
- Foi no aniversário do James, né? – sorri, recordando. Não devíamos ter mais que cinco anos. – Eu não pareço muito contente...
- Ah, é porque você achava que a festa era pra você e quando te impediram de abrir os presentes do Jay, você se tocou que não era e fez o maior escândalo.
- Por Merlin, eu fiz isso?
- Fez, mas relaxa você era pequena. – ele riu por eu ter ficado envergonhada. – Além do mais, - sentou-se do meu lado. – não está me vendo tentando te animar aqui? – apontou e eu vi que o garotinho fazia caretas para mim, tentando me arrancar uma risada. No fim eu ria e nós nos abraçávamos como se eu nunca tivesse estado emburrada. Isso tudo ocorreu na foto.
Então eu senti seus braços me envolvendo num abraço de verdade. Recostei minha cabeça sobre seu peito e fechei os olhos. Era incrível como eu me sentia bem ali, sempre fora assim, desde que erámos crianças. Não importava que sentimento negativo me perturbasse, sempre melhorava.
- Não estou mais constrangida. Isso é bom, sabia? Seus abraços têm uma espécie de poder curativo. – eu falava como se tivesse chegado a uma conclusão surpreendente.
Hugo beijou minha testa sem que precisasse se separar de mim.
- Ruiva irônica. – pelo jeito era meu novo apelido.
Não havia ironia na minha frase. Eu estava sendo totalmente honesta.
Espreguicei-me, forçando-o a me soltar.
- Ah, será que não tem um feitiço pra ajeitar essa bagunça e assim a gente faz algo mais interessante? – perguntei, cansada de abrir caixa após caixa.
- Bom até tem, mas daí você não estaria ganhando o seu dinheiro de maneira justa. – fingiu me reprovar.
- Sério mesmo?
- Nem pensar, vamos acabar logo com isso! – ele apontou a varinha para cima e proferiu algumas palavras. Depois disso havia objetos voando de um lado para o outro sem parar, fazendo com que eu tivesse até que desviar às vezes.
Não levou mais que trinta segundos para tudo estar perfeitamente organizado e os objetos inúteis separados.
- Por que não pensamos nisso antes? Não teríamos perdido a manhã toda aqui... – eu disse.
- Ah, mas daí não teríamos encontrado aquela foto, sua cara nela tá impagável. – afagou minha cabeça, me descabelando toda. Bufei, irritada. – Essa eu vou ter que guardar. – colocou a fotografia no bolso da calça.
- Legal, meu passado me condena. – revirei os olhos. – E então, o que faremos agora?
Hugo ficou pensativo.
- Tô com fome.
- Quando é que você não está com fome, Hugo? Mas eu não acho que...
- Um piquenique.
- Hã?
- Oras, um piquenique! Assim a gente não fica preso aqui em casa e eu como. – expôs a óbvia solução dos problemas.
- Hum... Ok.
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Nós acabamos por ir a uma pracinha no vilarejo bruxo mais próximo da casa. Embalamos uns sanduíches feitos por ele, pegamos alguns doces e engarrafamos um pouco de suco. Para completar, trouxemos uma toalha qualquer para forrar o chão.
- Sabe, essa ideia não foi nada má... – eu ia dizendo, enquanto escolhíamos um local para nos fixarmos. O moreno apontou para sombra sob uma árvore e lá sentamos.
E realmente estávamos nos divertindo muito! Conversamos sobre coisas idiotas, fizemos uma guerrinha de comida e depois rimos até eu sentir uma dor aguda na barriga. É, eu tinha extrapolado o meu limite. Após o ataque de riso, olhei em volta e pensei comigo mesma... Quem nos via pensava o quê? Que éramos apenas dois amigos se divertindo num domingo a tarde? Eu tentava me convencer disso, mas sabia que não era verdade.
Olhei para Hugo, o vento despenteava seus cabelos e eu me sentia fascinada por aquela imagem. Por quê? Então eu tive que comentar.
- Nós parecemos um casal. – corei ao dizer.
Ele ergueu uma sobrancelha.
- Como assim?
- Brincamos, conversamos e rimos feito dois namorados. Digo, é o que deve aparentar para quem vê... – dei de ombros, desviando do seu olhar.
- E desde quando devemos satisfações a alguma dessas pessoas por aqui? Nós sabemos o que somos, nada que eles pensem vai mudar isso.
- É, mas... Ah esqueça, é só meio desconfortável, sei lá.
Ele riu levemente.
- Realmente não me importo.
De repente, algo voa em direção a Hugo e faz com que ele bata a cabeça no tronco da árvore ao lado. Arregalei os olhos, correndo para socorrê-lo.
- Nossa, Hugo, você tá bem? – seguro seu rosto e o examino, tentando detectar algum ferimento. Havia um pequeno corte na sua testa. – Droga, você tá sangrando!
- QUEM FOI O FILHO DA PUTA? – se levantou tão bruscamente, que eu até cai sentada para trás. Eu nunca havia o visto zangado daquela forma na vida! Ele costumava ser tão calmo que vê-lo nervoso por algum motivo era extremamente raro e com aquela intensidade ainda mais. – SMITH, SEU CRETINO!
Oh não. Tinha que ser o Smith... Bom, eles nunca se deram bem pra começo de conversa. Logan Smith implicava com Hugo desde o primeiro ano. E para melhorar as coisas moravam próximos um do outro. Ainda bem que não dividiam o dormitório em Hogwarts por serem de casas distintas senão a escola já teria sido demolida.
Hugo avançou em direção ao outro moreno, que tinha um sorriso de deboche.
- Calma aí, Weasley! A Goles escapou das minhas mãos, na próxima tomamos mais cuidado... – os amigos atrás dele riam do meu primo.
Revirei os olhos, me aproximando.
- Hugo, vamos embora. – aconselhei. – Não vale a pena brigar com ele.
Smith, após desviar de um soco de Hugo, me viu e tratou de chegar mais perto.
- Potter, você por aqui? – estranhou.
Olhei de um lado para o outro sem saber ao certo como agir. Não queria falar com o garoto por respeito ao meu primo e também por não gostar dele.
- É. – respondi simples e indiferentemente.
Smith riu, coçando a nuca. Percebi que ele estava me analisando da cabeça aos pés e fiquei aborrecida.
- Algum problema?
- Não, nenhum. Na realidade, eu só estava pensando mesmo...
- Cuidado com isso. – alertei, fechando os olhos em fendas.
- Relaxa, não tem com o que você se preocupar. – acariciou minha face e eu dei um passo para trás.
Hugo chegou bem em tempo de empurrá-lo pelo ombro.
- Fica longe. – o avisou.
- Eu já estava indo.
O sonserino não recuou antes de dar um último recado a Hugo, o qual não pude escutar. Meu primo ficou possesso, suas orelhas tornando-se vermelhas feito fogo.
- Desgraçado! – Hugo berrou e eu tive que segurá-lo pelos braços.
- O que ele te disse? Quer saber, não importa, é um idiota. Vamos dar um jeito nesse corte e... – ia aproximar a mão do seu corte, mas ele não permitiu, andando apressado para longe. Ok, ele estava realmente zangado. – Ou podemos ir pra casa mesmo!
E foi o que fizemos. O imbecil do Smith estragou o dia, que ótimo.
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N/a: Espero que estejam gostando da fic... É um campo meio novo pra mim, escrever sobre um shipper inusitado como esse, mesmo eu o adorando e ainda por cima sendo longfic! O próximo capítulo já tá até pronto, mas vou aguardar seus reviews antes de postar, ok? ^^ Desculpem pelos que eu não respondi, mas agora eu com certeza irei *-* E pra quem acompanha minhas outras fics, sinto muito um bloqueio criativo do caramba tá me atrabalhando x.x
Agora um préviazinha do 4...
A notícia se espalharia e isso daria em festa, eu tinha certeza. Percebi que ele agia de forma estranha comigo desde o fim de semana passado e estava fazendo aquilo de novo naquele momento.
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- Mas estou cansada disso.
- Nossos pais voltariam no mesmo segundo se soubessem que você está falando essas coisas.
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- Eu amo você.
- Wow! – uma terceira pessoa exclamou de repente e ambos olhamos assustados para o pé da escada.
Ok, já deu de spoilers ;P
Bjooooos!
