Capítulo 6 – Minha Prima Não Percebe Que Está Sobrando
Estava combinado: eu iria naquela terça-feira com o Hugo a um cinema trouxa de Londres. Por quê? Bom, tudo começou com a conversa que Hugo iniciou discretamente na segunda de manhã enquanto arrumávamos a mesa para o café.
- Lily...
- O quê?
- Casais normais... Saem em encontros, certo?
- Acho que sim. – estranhei, colocando a última xícara na mesa. – Alguma razão especial pra estar perguntando?
O moreno olhou para os lados furtivamente e dado o sinal verde, se aproximou de mim.
- Pensei de a gente ir ver um filme amanhã, ou algo assim...
- Está querendo ver o que exatamente?
- E isso importa? – deu de ombros. – Tenho certeza de que não veremos o filme, então... – abaixou seu rosto, ficando cada vez mais próximo do meu.
Dei um tapa em seu peito, tentando afastá-lo, mas ele era mais forte.
- Hugo, não aqui! – sussurrei. – E eu só vou ao cinema se for para assistir filme mesmo, ok? Podemos chegar a um acordo, desde que não seja aquelas coisas de zumbis comedores de cérebro ou qualquer negócio do gênero.
- Se te conheço bem, você quer é ver um de romance. – falava no maior tédio.
Irônico eu nunca ter me apaixonado de verdade antes e ao mesmo tempo ser uma romântica incorrigível. Eu poderia ser um pouco mais contraditória?
- Faria isso por mim? – pisquei os olhos repetidas vezes até que...
- Ok, você venceu.
Então, nosso primeiro encontro estava agendado para o dia seguinte.
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Talvez eu tenha exagerado na dose, mas a ideia de ir mal arrumada naquele encontro me tirava do sério. Que garota não quer impressionar o namorado? Ou melhor, quase namorado.
Escolhi um vestido preto sem mangas que chegava aos joelhos. Prendi metade do cabelo, deixando algumas madeixas soltas cobrindo meu colo e parte das costas. Ah, é claro o rímel era indispensável! Para finalizar, adicionei brincos de prata que ganhara da minha mãe no meu aniversário de quinze anos e passei um batom de um tom quase igual ao da boca para dar um destaque.
"Caramba, Lily! Você até que sabe se produzir..." pensei ao me olhar no espelho, satisfeita com o resultado. Era uma novidade e tanto para mim, acreditem! Não costumava ligar muito para essas coisas com outros namorados, porém, com ele era simplesmente diferente.
Desci as escadas cautelosamente, olhando para baixo. Certo, sapatos de salto ainda eram complicados demais para mim! Hugo estava logo ali, me esperando. Seu queixo caiu ao voltar seu olhar para mim. Missão cumprida!
O moreno também estava ótimo, entretanto, com roupas casuais e provavelmente mais apropriadas para aquilo. Eu até que o preferia assim, quer dizer, aquele visual era tão mais "Hugo". Foi quando me dei conta de que talvez ele pensasse o mesmo e estivesse me achando uma completa perua.
- Por Merlin, me diga se eu estou sendo muito ridícula. – foi a primeira coisa que eu disse ao chegar até ele.
Hugo ficou estático por alguns segundos, depois começou a piscar fortemente para ter certeza de que estava enxergando perfeitamente.
- O-o quê? Você está incrível!
Corei um pouco.
- Obrigada.
- Nossa, onde os dois estão indo? Para alguma festa quem sabe? – Rose nos pegou de surpresa, saindo da sala de estar.
Trocamos olhares rápidos de desespero.
- N-não! – eu respondi. – Ao cinema...
Droga! Eu devia ter mentido! Estávamos ferrados, estávamos tão...
- Sério? Eu não me arrumo tanto assim para essas coisas a não ser que... – eu sabia que rumo seus pensamentos estavam tomando e isso não era nada bom.
- Hugo! – dei um forte soco no seu braço.
- OUCH! – ele berrou. – Que é!
- Er... Você não me avisou que o cinema era um lugar simples. Bom, eu não tenho o hábito de ir a locais trouxas, logo, como eu saberia? Acho que vou ter que me trocar...
- Imagine só, Lily! – Rose se aproximou, rindo. – Não há problema algum em ir assim, só que talvez pensem que vocês são um casal. – deu de ombros.
- É... – concordamos juntos.
De repente, uma luz pareceu iluminá-la.
- Espere, já sei! Bom, eu não tenho nada para fazer agora. Eu poderia ir com vocês e então com certeza quebraria completamente a imagem de namorados que vocês possam supostamente transmitir. Que tal?
Eu queria dizer um belo "não", ah se queria. Poxa, será que eu não poderia ter um encontro normal? Sabe, no qual apenas vão duas pessoas?
- Relaxe, Rose. A gente não liga pro que os outros vão pensar. – Hugo tentava convencê-la, suas orelhas ficando levemente vermelhas.
- Hugo, eu sei o que estou fazendo. Além disso, eu não me incomodo em ir, sério! Só um segundinho, vou buscar minha bolsa... Ah, avise a mamãe aonde vamos! – então subiu as escadas correndo.
Olhei para meu primo, com um pouco de receio.
- Hã... Me desculpe? – pedi, mordendo o lábio inferior.
Ele suspirou com um leve ar de decepção.
- Bom, não tem problema. Isso apenas muda um pouco os nossos planos... – se esforçou para me dar um sorriso reconfortante.
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- Nossa, gente... Por que escolheram logo um filme romântico? – Rose fazia uma careta, enquanto comia sua pipoca.
As luzes do cinema estavam já apagadas e o filme devia começar a qualquer momento. A ruiva estava sentada justamente entre mim e Hugo. As coisas poderiam piorar?
- Eu gosto. – eu disse, secamente. Não queria usar aquele tom, mas estava muito irritada.
Certo, tudo sempre pode ficar pior. Quase havia me esquecido do jeito um tanto tagarela de Rose, porém, não demorei a me recordar. Durante todos os noventa e quatro minutos da sessão ela comentava alguma coisa!
- Essa atriz está tão acabada... Já a viu naquele filme medieval?
- Não, Rose.
Ou...
- Meu Deus, quase quebrei um dente agora! Devia processar esses caras por colocarem essas coisas duras aqui...
- Isso é só o caroço da pipoca, Rose.
- Oh.
Também...
- COMO É! Volta pra ele, sua besta! O outro tá te fazendo de besta... Não, nã-... Ahá, não te disse?
- Rose, ela não te escuta.
- Isso é o que veremos. Se ela voltar com o Dick, vai me dever um galeão, maninho.
- Tsc, tsc...
E até mesmo...
- Lily, você não ama cinema? Essa tranquilidade e silêncio... É como se estivesse tudo em paz e... Lily? Lily, tá me escutando?
E finalmente o filme acabou! Eu não aguentava mais ouvir a voz da Rose. Se ela dissesse mais uma palavra eu jurava que explodiria.
- Foi ótimo, não acharam? – ela nos perguntou assim que saímos.
- Francamente, eu não consegui aprestar muita atenção. – Hugo admitiu, alfinetando-a. Ela sequer percebeu.
- Mesmo? Você é tão insensível! Tenho certeza de que a Lily gostou, não é Lily?
- Pois é... – dei o melhor sorriso que consegui e que tarefa difícil.
Rose foi jogar seu pacote de pipoca vazio na lixeira, dando finalmente oportunidade de nós respirarmos um pouco.
- Normalmente, a tagarelice da Rose não me incomoda, é até engraçada, mas desta vez ela se superou! – eu disse com os nervos a flor da pele.
- Eu sei, estou quase cometendo suicídio... Temos que dispensá-la de alguma maneira.
- Sem que fiquem óbvias nossas intenções? Eu duvido que consigamos.
O moreno ficou pensativo, realmente empenhado em encontrar uma solução.
- Bom, eu tive uma ideia. Você vai querer me matar, mas...
- O que é?
- Me espere aqui. Diga pra minha irmã que fui ao banheiro. – ele segurou meu rosto e depositou um beijo na minha testa. – Não saia daqui, ouviu?
Então, ele entrou no banheiro masculino, me deixando feito uma idiota lá. Droga, o que ele planejava? Oh não, Rose estava voltando.
- Ué, pra onde foi o Hugo? – ela perguntou assim como previ que faria.
- Ao banheiro. Volta em um minuto.
Passaram-se cinco minutos e nada dele.
- Ele morreu lá ou coisa assim? Acho que devíamos entrar e procurá-lo.
- Rose, é um banheiro masculino! Não podemos ir entrando... Daqui a pouco ele sai de lá.
- E se ele escorregou, bateu a cabeça na pia e desmaiou?
- Tenho certeza de que alguém teria notado um garoto de quase dois metros estirado no chão.
- Rose? – alguém a chamou e com toda certeza não se tratava de Hugo.
Nos viramos para a entrada do cinema e então vimos quem era.
- Scorpius? – a ruiva perguntou, correndo para o namorado e beijando-o.
- O que está fazendo aqui? –eu perguntei, achando aquilo esquisito demais para ser coincidência.
Rose se separou dele e o encarou seriamente, esperando uma resposta para a minha pergunta.
- Ela está certa, o que faz aqui? Não trouxe ninguém com você, ou será que trouxe? – procurava desconfiada por alguém atrás de Scorpius.
Ele riu.
- Não, ciumenta. Vim te fazer uma surpresa.
- É sério? – os olhos dela brilhavam. – E como soube que eu estaria neste lugar?
- Er, bem... Fui até sua casa e sua mãe me disse.
- Ah, entendi... Que adorável da sua parte. – abraçou-o e o loiro corou levemente.
- Pensei de irmos jantar ou algo assim. – comentou ele.
Minha prima olhou para trás, me encarando indecisa.
- Mas é que eu estava com a Lily e o meu irmão...
Scorpius gesticulava claramente para que deixasse sua namorada livre do compromisso. Quase ri, mas me segurei.
- Rose, que é isso! Pode ir. Eu digo ao Hugo quando ele voltar do banheiro.
- Tem certeza? Ah, mas estávamos nos divertindo tanto...
- Você merece um tempinho com o Scorpius. – pisquei um olho, tentando tranquiliza-la.
- Hum, ok. – ela sorriu para ele. – Então vamos! Tchau, prima. – nos despedimos com beijos na bochecha.
Scorpius se aproximou de mim.
- Até mais, Lily. – ele beijou minha face, porém, antes de se afastar disse: – Seu segredo está a salvo comigo.
O encarei boquiaberta até que os dois sumissem de vista. Ainda assim continuei a encarar fixamente a saída do local, sem conseguir mover um músculo.
Ele sabia. Ele sabia! Mil possibilidades passaram pela minha cabeça e era tanta informação que não conseguia pensar com clareza.
- Hey, Lils! – Hugo veio me abraçando por trás. – Parece que o Scorpius cumpriu o combinado...
- VOCÊ CONTOU! - me virei, gritando. – Aparatou na casa dele não foi?
- Sabia que reagiria assim... Era a única maneira. E afinal, ele já sabia...
- Mas ele não podia ter certeza!
- Ficou bastante óbvio naquele dia! – Hugo argumentou. – Scorpius não vai contar pra ninguém, mesmo porque é o mínimo que ele pode fazer pelo cunhado dele.
Ri ironicamente.
- Excelente justificativa. Valeu contar nosso segredo por um encontro?
- Achei que estivesse realmente querendo sair comigo.
Hugo estava chateado de verdade. Pelo seu olhar, eu via que não havia feito por mal, que só pensara em mim o tempo todo.
- E eu ainda quero. – me acalmava aos poucos. Suspirei e o abracei. – Foi mal, eu estou meio nervosa. Só tenho medo de a notícia se espalhar, entende? Não estamos precisando desse tipo de problema.
Envolveu-me em seus braços.
- Eu que peço desculpas, não farei mais nada assim sem te consultar antes.
- Obrigada. – me afastei.
Ele olhou para mim por alguns instantes e então segurou minhas mãos.
- Onde quer ir? Ainda temos algumas horas. – sorriu.
De repente, uma vontade infantil me atingiu. Não saberia explicar, mas tinha uma urgência insana de...
- Eu quero algodão-doce.
O garoto ergueu uma sobrancelha, descrente.
- Quê?
- Eu estou com vontade de comer algodão-doce, ué! – eu ri da minha súbita infantilidade. – Eu sei, é estranho.
Hugo riu levemente passando um dos braços por volta dos meus ombros.
- Por coincidência, eu sei de um lugar que com certeza tem hoje.
- É sério?
Acenou positivamente com a cabeça e me puxou para fora do cinema. Entramos num beco vazio e escuro, e ele pegou minhas mãos novamente.
- Preparada? – perguntou.
- Mas pra quê? Hugo, eu não tô...
Não consegui terminar a frase, pois ele desaparatou me levando junto de si. Fechei os olhos, rezando para que o rebuliço no meu estômago acabasse logo – isso acontecia de vez em quando, afinal, só havia aparatado algumas vezes, não estava totalmente acostumada.
Então, tudo parou de girar e eu me permiti olhar em volta.
- Onde estamos?
- Numa pequena cidade um pouco mais ao norte de Londres... Tem essa feira regional por aqui nessa época.
Começamos a andar à procura de um carrinho de algodão-doce.
- Como sabe dessa feira?
- Ora, meus avós maternos são trouxas. Eles já me trouxeram pra cá com a Rose algumas vezes. Ei, olha! Ali tem um vendedor! – Hugo foi até o homem e após um minuto retornou com meu algodão-doce.
Entregou-me, com um sorriso de satisfação. Dei um suspiro de contentamento. Eu realmente não esperava que ele me trouxesse tão longe por um bobo capricho!
Entrelacei meus dedos aos dele com a mão livre num delicado gesto.
- Obrigada.
- De nada, mas ainda não acabou. Com certeza arranjaremos o que fazer por aqui! – piscou um olho.
E foi assim que iniciamos nosso passeio. Era uma daquelas típicas feiras que ocorrem durante as férias de verão, repleta de jogos como tiro-ao-alvo, acerte nas garrafas empilhadas e outras coisas do tipo.
- Não foi justo! Você trapaceou! – acusei Hugo que havia ganhado o prêmio máximo no jogo de bater com o martelo. Ele foi o único que conseguiu, fazendo com que a sineta tocasse e confete fosse espalhado para todos os lados.
- Não é trapaça quando o negócio já foi adulterado pra que ninguém ganhasse. Eu só... Quis equilibrar a situação.
- Os caras vivem disso, óbvio que eles modificam algumas coisas para garantir o lucro. É errado, é claro, mas... – dei de ombros.
- Ah, valeu a pena pela cara que o homem da barraca fez. Ele ficou com o queixo no chão!
- Não é pra menos... Agora me diz o que eu vou fazer com esse urso de pelúcia gigante de quase dois metros? – apontei para o enorme bicho.
- Caramba, ele é do meu tamanho. – o moreno encarava o urso. Verificou se não havia muita gente por perto e tirou a varinha do bolso.
- Que é que você vai fazer?
- Reducio! – sussurrou. – Afinal, você é uma bruxa ou não?
Recolhi o bichinho do chão. Agora ele cabia perfeitamente nos meus braços.
- Tinha me esquecido da magia... – corei levemente.
- Acontece! Certo, já são quase nove. Ainda dá tempo de ir naquela roda-gigante.
Levou-me até o local do brinquedo que era a maior atração da feira, porém, fiquei apreensiva antes de entrar.
- Tem certeza de que é seguro? Sabe que eu não sou muito fã de lugares altos...
Mas por que ele tinha que dar aquele sorriso? Sim, sim, mil vezes sim!
Quando dei por mim, já estávamos parados lá no topo e eu o abraçava fortemente, morrendo de medo de olhar para baixo.
- Já descemos? Já descemos? – eu não parava de perguntar.
- Ainda não, Lily. Calma! Você não vai cair.
- Como é que você pode saber? E se de repente, um parafuso solta e o nosso banco despenca e...
Então, eu esqueci donde estava. As minhas preocupações sumiram no mesmo instante em que Hugo me beijou, segurando minha nuca. Demorei a corresponder por ter sido pega de surpresa, mas logo já estava bagunçando seus cabelos castanhos ondulados.
- Hugo, por favor... – dizia num sussurro ofegante. – Me diga se estamos namorando, eu preciso saber.
- Mas é claro! – beijou meus lábios de leve. – Não estamos?
- Acredito que sim, mas queria ter certeza da sua parte. Tenho que confessar que eu não quero ser só um casinho passageiro.
- Nem eu, e esse é o maior dos nossos problemas... O que queremos é proibido. – acariciava o meu rosto, seu toque tão suave e terno...
- Eu não ligo.
E ficaríamos nos beijando ali até que nos expulsassem do brinquedo.
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N/a: Capítulo exagerado na minha opinião, talvez eu ponha informações demais num único capítulo... Em todo caso, queria postar logo já faz praticamente uma semana que não tem capítulo. Eu não vou por prévia dessa vez, porque sinceramente ainda nem comecei o 7. Pra melhorar, vou receber meu boletim até sexta, então... Nunca se sabe quando vai ter post de novo '-' Melhor garantir que agora eu posso entrar e postar um novo pra vocês =D Obrigada por todo o carinho, gente. O apoio de vocês é tudo.
Bjoooooos!
