Capítulo 8 – Eu Não Quero Terminar
Meu pai e minha mãe voltaram para casa. Foram o meu consolo, o único motivo que eu encontrava para sorrir durante aqueles dias. Pedi a James que não comentasse nada sobre o episódio de sexta, mesmo que as chances dos meus tios contarem fossem grandes.
A minha desculpa para ter voltado antes fora a mesma que dera a tia Hermione: saudades. E eles não tiveram problemas em acreditar, é claro. E meu Deus, quantos presentes eles trouxeram da Austrália! – eu me esqueci de mencionar o destino da viagem, certo?
Mas ao fim da quarta-feira daquela semana, eu já havia perdido o brilho novamente.
Encontrei-me cabisbaixa, brincando com as peças dum tabuleiro de xadrez de bruxo. Eu havia jogado com meu primo algumas vezes durante o tempo que passara em sua casa e ele vencia todas as partidas. Droga, eu não o tirava da cabeça.
O único som que eu escutava no momento era de alguma coruja que piava alto do lado de fora, noite adentro.
- Filha... – me sobressaltei ao ver papai entrando na sala.
- Oi, pai. Chegou cedo. – comentei, dando um sorriso fraco.
- Lily... – ele se aproximou, sentando-se na cadeira da frente. – Eu amo seu sorriso, mas esse que você está me dando não é nem um pouco alegre.
Parei de sorrir imediatamente, o encarando atentamente.
- Sinto muito. – disse, sincera. – É que tem certas coisas que andam me incomodando. Eu até te diria, mas é meio íntimo demais...
Ele abanou a cabeça positivamente.
- Compreendo. E não tem nada que o seu velho pai possa fazer? – senti um leve drama na sua voz.
Ri levemente.
- Você não é velho... Porém, ficaria muito bravo se eu dissesse que acho que não? – mordi o lábio inferior, receosa.
-Tsc, tsc... Eu posso derrotar o bruxo mais sombrio do planeta, mas ajudar a minha filha adolescente é impossível?
- Bom, tinha que haver alguma coisa que Harry Potter não pudesse fazer. – dei de ombros.
Ambos acabamos no riso.
- E se eu fizesse aquele chocolate quente que você gosta? Ajudaria? – seus olhos brilhavam, estava esperançoso.
Era incrível como as pessoas me ganhavam pelo estômago. Já ficara com água na boca só de imaginar a fumacinha saindo da caneca. Não ligava se era verão, eu adoraria bebê-lo.
- Ok, isso elevaria meu humor consideravelmente! – admiti, rindo mais um pouco.
- Ótimo! Volto em alguns minutos. – então ele foi para cozinha.
Assim que meu pai voltou, ficamos conversando por longas horas sobre toda e qualquer coisa. Mesmo quando a bebida chegou ao fim, continuamos até que o relógio soasse meia-noite. Me senti como a Cinderela do conto trouxa que ele já havia me contado, quando a décima segunda badalada tocava e toda diversão repentinamente sumia.
- Bem, é melhor eu ir pra cama. Afinal, tenho que ir cedo pro trabalho! – levantou-se.
Apenas fui devolver a caneca na cozinha e o acompanhei até o andar de cima.
- Boa noite, papai. – falei num tom levemente infantil. Essa maldita carência...
- Boa noite. – beijou minha face. Sorri e ele retribuiu com entusiasmo. – Essa é a minha garota!
E aquela tinha sido a primeira vez em quase uma semana em que eu consegui dormir a noite inteira, sem pesadelos inconvenientes para atrapalhar.
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- Ei, Lily. – James me chamou no dia seguinte. Eu estava quieta lendo meu livro na sala até ele me interromper. Nossos pais estavam fora. – Vem treinar o arremesso comigo.
- Arremesso de Goles? Não, obrigada. Dessa vez eu passo. – voltei minha atenção para o conto que lia.
Jay bufou, irritado.
- Ah, levanta daí! Eu sei que você é ruim nisso, mas eu pego leve com você e nem precisamos montar nas vassouras já que você morre de medo de altura.
O encarei por cima do livro. Ele estava fazendo aquela carinha de cão abandonado. Revirei os olhos.
- Tá bom, eu vou! Mas saio fora na primeira que eu levar na cara.
Fomos então para o quintal e ele iniciou o treino. Ficamos trocando passes em silêncio – desajeitados da minha parte – até ele resolver conversar.
- E aí, Lily? O que fez nessas férias na casa dos nossos tios?
- Uma série de coisas. Quer que eu liste?
- Bom, por que não?
Suspirei. Eu teria que tocar no nome dele.
- Mesmo? Se você insiste... Nada demais. Eu saí com o Hugo e a Rose algumas vezes, jogamos alguns jogos em casa, me ensinaram como funciona a televisão à cabo... Ah é, e demos uma festinha e não te convidamos. – eu ri, pois sabia que ele adorava festas.
- Tia Hermione e tio Ron vão adorar saber disso. – ameaçou de brincadeira.
- Como se você fosse tão mau assim...
Quando joguei a Goles de volta para meu irmão, ele ficou segurando por mais tempo que o normal, pensativo e depois arremessou de volta.
- Você e o Hugo começaram a namorar antes ou depois da festa?
Minha primeira reação foi arregalar os olhos.
- MAS O QU-
A Goles foi de encontro com a minha testa e eu cai tontinha no chão. É, tava demorando pra acontecer.
- Como você é desastrada...
Ignorei sua crítica, pois estava muito mais preocupada com o que ele havia dito antes. Notando a minha expressão de choque, voltou a falar.
- Eu sei que vocês tem algo. Já estava desconfiando, daí você voltou chorando daquele jeito...
Ainda estava muda, sem saber se devia confirmar ou negar. Porcaria, porcaria... Eu estava tão ferrada!
- Mas tem uma coisa que eu andei escondendo de você e foi o que me fez sacar o que estava rolando. – James se sentou ao meu lado, encarando a grama. – Eu discuti com o Hugo na sexta...
Reuni coragem e perguntei:
- Você quer dizer que ele esteve aqui?
- É, praticamente suplicando pra te ver! Foi meio patético, na verdade... - ergueu as sobrancelhas. – Eu não sei por que vocês brigaram, mas pelo jeito que você tinha chegado em casa... Fiquei muito irritado com ele e comecei a exigir respostas! Tava na cara que ele tinha a ver com aquilo, daí no meio do nervosismo ele confessou.
Droga, Hugo! Por que era sempre você que deixava o segredo escapar? Eu era indiscreta, mas pelo menos não assumia de primeira.
- Daí eu mandei ele embora. Pera ai, antes disso eu dei um soco na cara dele.
- VOCÊ FEZ O QUÊ?
- Calma aí, trasguinha! Eu tava defendendo sua honra.
- Minha honra? Socar alguém não me ajuda em nada!
James riu de mim.
- Era brincadeira, eu não o soquei. Mas não tenho deixado ele te ver.
- Como assim?
- Bem, ele apareceu todos os dias desde então, mas eu nunca o deixei passar da cerca. Eu achei que estivesse te poupando de mais estresse, mas no fim... Vejo que você não está melhorando nem um pouco.
- JAMES! – fiquei de pé, zangada.
- Será que dá pra parar de gritar? Olha, isso tudo é muito esquisito! Você e o Hugo? Bom, eu não sei o que deu em vocês, mas já devem saber que isso não pode funcionar. A família iria pirar...
Minha cabeça doía, mas devia ser mais por causa da Goles que levei na testa. Mesmo assim, eu estava com o cérebro embaralhado. Tentei organizar as ideias, chegando a uma decisão final.
- Ok, Jay. Por mais nobres que fossem suas intenções, hoje você não vai impedir o Hugo. Eu e ele precisamos nos acertar de uma vez por todas! E agora será que você podia pegar um pouco de gelo? Acho que vai formar um galo. – tudo que faltava era eu parecer um unicórnio.
- Por que eu? – ele reclamou.
- Ora, porque você que me acertou! E também porque eu estou meio brava com você no momento.
- E o que eu fiz de errado?
Revirei os olhos.
- Esqueça, James. Eu vou lá pegar...
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Fiquei pensando pelo resto da tarde. Pensando em coisas que ainda não havia pensado, coisas que me assustaram e com razão. A incerteza e o medo tomaram conta de mim.
A noite enfim chegou e eu estava ansiosa, do lado de fora da casa, esperando por Hugo no portão. A verdade é que eu tinha receio de que ele não aparecesse, pois após ser enxotada umas cinco vezes, até eu estaria de saco cheio.
Nove horas, nove e meia, dez horas... Comecei a me preocupar de verdade. Minha mãe me chamou para dentro e eu inventei uma desculpa qualquer para continuar aguardando.
Para o meu alívio, vi uma figura alta aparatando na esquina. Era ele, tinha que ser! Havia coisas que precisavam ser ditas. Andava em passos velozes na direção da casa, mas meus batimentos eram ainda mais rápidos. Então, a luz do poste iluminou seu rosto. Sorriu ao me ver, quase suspirei.
- Lily? – Hugo ficou surpreso e contente ao mesmo tempo, se aproximando. – Eu já estava perdendo as esperanças, achei que James nunca fosse permitir...
- Mas ele permitiu. – eu não conseguia ser realmente rude, mas evitei usar um tom de voz muito gentil. Eu estava zangada ainda, mas só pelo fato de ele vir todos os dias à minha procura e por eu não vê-lo há praticamente uma semana, tornava-se uma tarefa impossível ser tão grosseira.
- Bom... – o moreno iniciou. Abri o portão para que ele entrasse. – Pra começar, me desculpe. Eu estava agindo feito um idiota. Digo, eu sou um idiota... Depois de todos aqueles caras que já te fizeram chorar, eu havia prometido a mim mesmo que nunca faria isso, o que torna tudo muito pior.
Ergui as sobrancelhas, séria.
- Eu te perdoo.
- Mesmo? – Hugo se espantou provavelmente com a facilidade que adquirira meu perdão.
Assenti de leve.
- E tem mais uma coisa... – virou-se de costas para mim, mexendo dentro do casaco. Voltou-se novamente, agora segurando o ursinho de pelúcia, aquele mesmo que havia me dado na feira trouxa. – Você esqueceu isso lá em casa. – deu o bichinho para mim.
Olhei para o urso e as lágrimas começaram a cair. Eu andava emotiva demais, mas desta vez eu tinha um motivo para estar daquele jeito.
Eu havia tomado uma decisão e coloca-la em prática seria difícil.
- Hugo. – tentei controlar minha voz, esganiçada devido ao nó na minha garganta. – O verão está acabando e... – senti uma dor no peito. – Com ele, deve acabar o nosso romance.
- O quê? Mas por quê? –entrou em desespero. – Eu achei que tivesse me desculpado!
- Eu desculpei sim, mas...
- Eu prometo, nunca mais te farei sofrer e se eu algum dia quebrar essa promessa, eu mesmo...
- Droga! – exclamei, o interrompendo. – O problema não é você, nem eu... Simplesmente nós.
Ele crispou os lábios, olhando para o lado. Continuei mesmo assim.
- Essa briga me deu um tempo pra pensar e acabei chegando à conclusão de que não pode dar certo. Nós somos primos! Isso está errado. Pode parecer hipocrisia minha, pois há algumas semanas eu dizia "Que se dane!" pra isso. Mas nós temos quase o mesmo sangue. Ninguém vai estar à nosso favor, jamais!
- Eu não ligo! – Hugo berrou. – Eu não ligo pros outros, só pra você! Será que não percebe? – segurou meu rosto.
- Não é assim que são as coisas, Hugo! Eu não quero complicar nossas vidas. Ainda dá tempo de voltar atrás, só o James e o Scorpius sabem...
- Que a Inglaterra inteira soubesse!
- Não! Que merda, seja sensato!
- Pra que isso agora? Eu não posso te deixar ir, eu te amo caramba!
"Eu também te amo!" Meu coração gritava com todas as forças.
- As aulas logo vão começar, melhor voltarmos às nossas rotinas de antes. Deixar o que aconteceu nas férias para trás... – solucei. – Não posso continuar mentindo. – minha consciência me obrigou a dizer.
Hugo comprimiu ainda mais a boca. Pela forma como ele dilatou as narinas e por conhecê-lo bem, sabia que ele se empenhava em não chorar na minha frente.
- Eu não quero terminar. – disse, decidido.
- Mas devia. Hugo, você é o meu melhor amigo. Mais do que ninguém, você deveria compreender as minhas razões.
- Não é porque compreendo que tenho que aceita-las.
Aquilo já doía o bastante, por que ele não cooperava?
- Por favor, tudo seria bem mais fácil... Tem que acabar, Hugo.
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N/a: Inicialmente, eu tinha duas possíveis versões pra o fim desse capítulo: a feliz e, bom, essa que vocês leram. Ontem, eu estava na maior felicidade e havia escrito até a metade. Eu ia escolher a versão "legal", mas aconteceu algo hoje que fez com que eu mudasse de ideia. É, eu recebi uma notícia muito ruim que me deixou bem pra baixo, então, eu não conseguia mais pensar em coisas alegres... Que resultou nisso. Me desculpem, sério. MAAAS ainda temos o último capítulo, ou seja, nem tudo está perdido! Se não for pedir muito, deixem seus reviews mesmo que queiram me matar... Eu não estou num bom dia, seria legal ter um pouco de apoio :)
Bjoos!
