Cap. XIII – Amargo Inverno

"Põe-me como um selo sobre o teu coração, como um selo sobre o teu braço, porque o amor que te dedico é forte como a morte e duro como a sepultura, o ciúme;

As suas brasas são brasas de fogo, são veementes labaredas. As muitas águas não poderiam apagar o amor, nem os rios afogá-lo; Ainda que alguém desse todos os bens de sua casa por este amor, seria de todo desprezado."

Embora já fosse esperado, o momento de partir sempre era difícil, principalmente quando se caminhava de volta para uma realidade que definitivamente já não era a melhor escolha. As pequenas vitórias estavam completamente encobertas pelo fracasso da tentativa de neutralizar Bellatrix e a noite nunca pareceu tão escura.

A festa havia acabado de uma forma tão abrupta que, se a decoração não permanecesse intacta, nada mais denunciaria sua existência; Os risos cessaram e todo o colorido se esvaiu com as notícias duras, que embora já fossem de certa forma esperadas, se mostraram mais cruéis do que o previsto, especialmente para Harry Potter.

Era chegada à hora de crescer e enfrentar seu destino. Iria ao campo de batalha para viver ou morrer em nome de todos a quem havia aprendido a amar e respeitar durante os últimos anos. Lutaria por seus pais, por Gina e por ele próprio... Lutaria para que houvesse paz novamente.

Quando ouviram as palavras de Moody, todos compreenderam que as coisas não haviam saído conforme planejado e que as piores previsões, não apenas haviam se concretizado, como revelaram ter uma extensão ainda maior do que o imaginado; Por isso, se submeteriam ao treinamento e ao que mais fosse necessário sem questionar.

No entanto, com a confirmação do estado crítico em que se encontrava o mundo mágico, a idéia de um novo esconderijo era torturante; E tudo se tornava pior com a notícia de que Snape seria o guardião e que permaneceria no comando do grupo sabe-se lá por mais quantos dias até que o treinamento fosse preparado. Mas não havia escolha.

Aos primeiros raios de sol da manhã, Severo Snape aparatava em Las Nubens, e com a mesma expressão indiferente que tinha ao entrar na sala de aula, cumprimentou Moody, Lupe e o grupo de alunos.

- Espero que estejam prontos, partiremos imediatamente! – falou Snape com a voz arrastada, fazendo com que os garotos se levantassem.

- Um instante Severo! Será que poderia me acompanhar até o escritório. – pediu Moody com uma expressão séria, fazendo com que mesmo contrariado Severo Snape o seguisse, deixando para trás jovens extremamente tensos.

Ao entrarem no escritório Moody fechou as portas, deixando claro que o quer que fosse dito deveria permanecer ali e iniciou o repasse de informações que julgava de extrema importância para o antigo professor de poções.

Snape era um homem estranho e parecia não ser capaz de sentir ou esboçar qualquer emoção. Ouviu atentamente as palavras de Moody e embora estivesse inegavelmente surpreso com a situação que lhe era apresentada, sua expressão de indiferença não se alterou em nenhum milímetro. Saiu do escritório e se dirigiu a sala, onde conjurou sobre uma poltrona pesados casacos e suéteres de lã e se limitou a dizer:

- Molly Weasley fez questão que eu lhes entregasse essa encomenda antes de partirmos e eu sugiro que os senhores comecem a utilizá-las desde já. – disse seco.

De pronto os garotos dirigiram-se a pilha de roupas e se agasalharam da melhor forma possível, visto que estava claro que noites e dias extremamente frios os aguardavam na companhia de Snape.

Aparataram juntos e chegaram a um lugar escuro, onde as paredes feitas de pedras lembravam as masmorras de Hogwarts. Hermione sentia o vento frio lhe cortar o corpo e impulsivamente correu até uma janela aberta e a fechou fazendo com que aquela sensação se extinguisse. Permaneceu parada algum tempo observando a paisagem, tentando adivinhar onde estavam, mas não foi preciso.

- Espero que gostem do inverno de São Petersburgo. – disse Snape sem emoção e em seguida desapareceu em um corredor escuro.

Draco sabia que não podia esperar muito de Snape, obviamente não se tratava de alguém meigo e atencioso como os que o haviam antecedido no cargo, então puxou Hermione pela mão e seguiram pelo mesmo corredor a procura de acomodações.

Era um local realmente estranho, parecia uma cabana de caça, com paredes de pedra decoradas por animais empalhados e peles espalhadas por toda a parte. Snape havia falado em São Petersburgo, mas certamente aquele era um local bem afastado da cidade. Perceberam que a casa só apresentava dois dormitórios, além de um pequeno banheiro; Sendo que um estava mobiliado com uma confortável cama de casal, escrivaninha e armários, além de contar com uma lareira, enquanto o outro não tinha nada além de colchões espalhados pelo chão.

- Eu não acredito nisso! – disse Draco olhando para si mesmo chocado com o que via.

- Vejo que já encontraram o dormitório... Deixem suas coisas e acompanhem-me até o porão. – ordenou o professor, se retirando.

Em busca de resposta, Hermione não hesitou em seguir em direção ao porão, mas não sem antes sinalizar aos amigos para que fizessem o mesmo. Rony descia as escadas um tanto receoso, temendo o lhes aguardava, quando o toque suave da mão de Luna fez com que seu coração se acalmasse.

Harry olhava o local admirado. Era uma réplica perfeita da sala de poções de Hogwarts. Havia prateleiras e mais prateleiras contendo os mais variados ingredientes, caldeirões, vidros de todos os tipos e tamanhos e muitos livros.

- Este é o meu laboratório e local de trabalho. Como sabem existem diversas poções capazes de atenuar ou mesmo anular feitiços e tenho trabalhado arduamente para obtê-las. – começou Snape. – Durante os próximos dias vocês serão encarregados de me ajudar.

- Faremos poções avançadas? – perguntou Rony temeroso, visto que aquela jamais tinha sido sua melhor matéria.

- Não, senhor o Weasley. Eu mesmo as farei... Enquanto vocês colaborarão cumprindo algumas tarefas. Então estejam avisados, não estamos de férias e ninguém aqui vai se divertir. Evitem entrar neste local a menos que eu os chame, estamos entendidos? – perguntou o homem como se cuspisse cada palavra, enquanto via os jovens acenarem com a cabeça em sinal de concordância.

- Agora já podem se retirar. Quero que subam, limpem o local, recolham alguma lenha e não se esqueçam de preparar algo para jantar; Temos suprimentos estocados na cozinha. – ordenou, enquanto Harry e seus amigos contrariados começavam a se retirar.

– Um instante, senhor Malfoy! Creio que precisamos conversar a sós. – declarou Snape, fazendo com que Draco desse meia volta e se colocasse diante do professor, enquanto Hermione deixava o local, fechando a porta atrás de si.

- Então Draco, diga-me... há algo que eu deva saber sobre Potter e seus amigos? – questionou Snape.

- Não creio. – respondeu o rapaz com segurança.

- Está certo disso? Alastor Moody insinuou que eu deveria permanecer extremamente atento aos movimentos na casa... Porque acha que ele diria isso? – insistiu.

- Eu não faço idéia. Moody já está velho e agora com a guerra está me parece mais paranóico do que nunca. – respondeu o loiro com um tom arrogante, na tentativa de desviar a atenção de Snape.

- Está bem!Creio que nos próximos dias você poderá me ajudar com o preparo das poções. – comunicou sério.

- Então não ficarei com os outros? – perguntou Draco nervoso e quase se denunciando.

- A menos que deseje cortar e carregar lenha... – respondeu Snape sarcástico.

- Claro que não. O laboratório me parece ótimo. – falou depressa, deixando o professor satisfeito.

Várias horas haviam se passado e Hermione junto com Luna, tentava deixar o local mais parecido com uma casa de verdade, organizando os poucos móveis e removendo quilos de pó do lugar. Já não usava tantos agasalhos e começava a sentir o cansaço provocado pelo esforço. Arrastava uma pesada cadeira de madeira enquanto perguntava a si mesmo o que estaria acontecendo e porque Draco ainda permanecia no laboratório, quando seus pensamentos foram interrompidos por Gina que vinha da cozinha.

- Gente eu tenho que contar uma coisa pra vocês! – dizia a ruiva com preocupação.

- O que houve? – perguntou Hermione abandonando o que estava fazendo.

- Eu vasculhei a cozinha inteira e descobri que o estoque de suprimentos de Snape não durará mais do que três dias. – respondeu a garota.

- Mas Moody nos disse que ficaríamos menos tempo desta vez, talvez seja isso... – tentou Luna.

- Não, três dias é muito pouco tempo para que se prepare tudo em Londres... - ponderou Hermione.

- E agora o que eu faço? – perguntou Gina aflita.

- Acho que por via das dúvidas devemos racionar a comida; Faça apenas o mínimo. – respondeu Hermione preocupada, enquanto via Harry e Rony entrarem na casa carregando pesados feixes de lenha e completamente descompostos e exaustos.

- Eu não vou me mexer até amanhã de manhã! – dizia Rony se jogando em uma cadeira.

Harry colocava parte da lenha próxima a lareira, quando se deparou com a expressão preocupada de Hermione e decidiu chamar a amiga para conversar.

- Você está bem, Mione? – perguntou o moreno se aproximando da garota e a levando para um canto da sala.

- Eu tô bem sim, Harry. – respondeu a menina sem segurança.

- Eu conheço você e sei que não está... Vamos, me conta o que está te incomodando, além de ter que respirar o mesmo ar do Snape, é claro! – falou tentando brincar, mas Hermione não sorriu, apenas respirou fundo e começou a falar.

- Está tudo muito estranho. Draco continua lá em baixo com Snape... Não sei o que está acontecendo, mas parece que nosso querido professor tem uma espécie de plano... – começou a garota.

- O Malfoy ainda está lá? E como assim ele tem um plano? – disse Harry intrigado se aproximando ainda mais da amiga que falava baixinho.

- Não sei ao certo... Mas olhe em volta! Não temos acomodações de verdade, temos que realizar tarefas pesadas, enquanto Snape prepara poções secretas e agora descobrimos que praticamente também não temos comida, não parece algo com que a Ordem concordaria... – falou Hermione alarmando Harry, que sem saber o que dizer afagava os cabelos da garota tentando tranqüilizá-la; Neste momento, a porta do porão se abriu lentamente e Draco entrou na sala deparando-se com uma cena no mínimo incômoda, para não dizer extremamente suspeita.

Imediatamente sentiu-se arder em ódio por Harry e Hermione. Algo como uma mistura de dor, raiva e desespero tão intensa que o impedia de desenvolver qualquer raciocínio. Ficou parado alguns segundos, mas quando viu que Hermione percebeu sua presença e caminhava em sua direção, não conseguiu evitar o impulso e saiu da casa sem dar nenhuma chance a garota.

Caminhava no frio, sem rumo e acabou entrando na floresta escura. Queria ficar sozinho. Queria parar de pensar. Jamais alguém tinha feito com que se sentisse daquela maneira. Ele a odiava e odiava mais a si mesmo por se ver naquele estado. Porque ela tinha que dominar seus pensamentos o tempo todo? Era apenas uma garota! – Tentava convencer a si mesmo, quando a ouviu chamar seu nome.

- Draco! – chamou a menina, despertando o rapaz.

- O que quer? Resolveu grudar em mim também? Será que não posso ter um minuto de paz? – respondeu ríspido.

- Eu fiquei preocupada com você... Porque saiu daquele jeito? – perguntava trêmula pelo frio.

- Não seja cínica! Ficou preocupada comigo? Pois a mim pareceu que estava muitíssimo preocupada com o Potter! – respondeu sarcástico ferindo a menina.

- Do que está falando? Eu estava apenas conversando com Harry... – começou a explicar Hermione, mas não pôde concluir.

- Não quero saber o que faz ou deixa de fazer com Potter, Weasley ou com quem quer que seja! Não me importa mais! Pensei que você era diferente, mas me enganei! Vá embora!– explodiu o loiro despedaçando o coração da garota.

- Não fale assim comigo! Jamais fiz nada para que você pudesse se sentir no direito de falar assim comigo! – respondeu a menina abalada.

- A quem você acha que engana? Não vou permitir que uma garota como você me faça de palhaço! Você não passa de uma sangue-ruim vaga.. – falou com ódio, sendo interrompido por um tapa. – Suma da minha frente! – gritou furioso olhando nos olhos da menina que ficou parada alguns segundos com lágrimas nos olhos, antes de sair correndo.

As horas passavam e ninguém sabia o que havia acontecido. A noite havia chegado e a temperatura diminuído. Todos estavam tensos e Snape furioso, até que Draco finalmente entrava pela porta com uma cara nada boa.

- Draco! Por Merlim! Você está bem? – perguntava Luna aflita, surpreendendo o sonserino com sua preocupação.

- Estou ótimo! – respondeu seco e já caminhava em direção ao "dormitório", quando ouviu a voz de Harry questioná-lo:

- Espera aí! Onde está a Hermione?

- Você é quem devia saber, não passou o dia se agarrando com ela? – respondeu sarcástico, fingindo não se importar.

- Do que ele está falando? Hermione passou o dia trabalhando comigo e com Luna e mal falou com Harry. – afirmou Gina percebendo que Draco estava descontrolado.

- Bem se vê o quanto é perspicaz, Weasley! – debochou Draco.

- Não diga besteira! Ela saiu atrás de você e ainda na voltou! O que fez com ela? – perguntou Harry já partindo para cima de Draco, quando Snape decidiu intervir.

-Parem com isso! Se o senhor Malfoy disse que não sabe do paradeiro da garota, é porque não sabe! Esperem mais um pouco, ela não agüentará o frio por muito mais tempo e logo estará em casa. – afirmou o professor.

Draco foi para o quarto e se jogou em um dos colchões se sentindo péssimo. Onde ela poderia estar? Ele mesmo tinha entrado por não resistir mais ao frio, como ela poderia não ter voltado para a casa? Será que havia sido injusto... Não! Ele os tinha visto juntos e não podia aceitar isso. Ela pertencia a ele e só a ele; Nunca a dividiria com ninguém.

As horas se passavam sem notícias, aumentando a angústia. Mas Draco disfarçava, embora permanecesse atento a cada barulho que vinha da sala. Começava a cair em si e entender que tinha sido tomado por um ciúme sem sentido que o fez humilhar de forma cruel a garota de quem tanto gostava. Agira igual à Lúcio e isso era imperdoável.

- Vamos sair pra procurar a Mione, você vem? – perguntou Rony sério, mas como não obteve resposta, saiu rapidamente.

Percebendo a casa vazia, Draco não agüentou muito tempo e também saiu. A noite estava cada vez mais gelada e a floresta era perigosa; Precisava encontrá-la, não podia permitir que se machucasse. Refez seu caminho tentando encontrar alguma pista, mas não obteve sucesso. Após quase duas horas, decidiu juntar-se ao grupo e descobrir se tinham alguma pista.

Caminhava em direção à Gina e Luna, quando viu Rony surgir entre as árvores pelo lado oposto com Hermione em seu colo desacordada. Correu até ela, mas Rony fechou a cara e não permitiu que ele se aproximasse. Certamente ele sabia.

Entraram em casa depressa, encontrando Snape na sala. Rony colocou Hermione ainda desmaiada próxima a lareira, numa tentativa de aquecê-la, enquanto Snape os observava.

- Garota estúpida! Se quer se matar, que o faça sem colocar a vida dos outros em risco! – falou entre os dentes, fazendo com que Draco se enchesse de raiva.

- Não ouse falar assim dela! – respondeu o rapaz com os olhos cheios de ódio, surpreendendo Snape.

Gina e Luna decidiram que o melhor era levar Hermione para o dormitório e cuidar da amiga. Trocaram-lhe as roupas e a aqueceram com todos os cobertores disponíveis. Enquanto isso, Rony e Harry saíram em direção ao alpendre para conversar com privacidade.

- Ela chegou a falar alguma coisa? Disse por que fugiu?– perguntou Harry, recebendo um aceno positivo do amigo como resposta.

Rony ainda não havia conseguido assimilar direito o que Hermione tinha lhe dito quando ele a encontrou abraçada aos joelhos e tremendo de frio junto as raízes de uma velha árvore e por isso decidiu repetir a Harry integralmente o que tinha ouvido:

"- Rony... – disse com dificuldade.

- Por Merlim, Hermione, você está quase congelando aqui! Venha vou te levar para casa! – falou o ruivo se aproximando da menina, que reunindo todas as forças que lhe restavam, o repeliu.

- Não! Eu nunca mais vou voltar para aquela casa! Eu nunca mais quero olhar para ele! Deixe-me! – falou tentando se afastar, mas acabou desmaiando em seguida."

- Eu sabia! Foi ele! – disse Harry transtornado.

- O que faremos agora? – perguntou Rony inseguro.

- Vamos fazer o que sempre fizemos... Primeiro vamos cuidar de Hermione e depois vamos acertar as contas com Malfoy. – falou Harry decidido, retornando junto com Rony para o interior da casa.

Passaram por Draco como se ele simplesmente não existisse e foram direto para o quarto, onde Gina e Luna permaneciam com Hermione, que finalmente tinha recuperado a consciência, embora não houvesse pronunciado nenhuma palavra. Lágrimas escorriam pelo seu rosto incessantemente e já não conseguia sentir nada a não ser a sensação de ter seu coração dilacerado. "Como é triste vê-la assim!" – pensava Gina.

Quando Draco entrou no quarto, a menina que estava deitada em um colchão colocado junto a um dos cantos do quarto virou-se completamente em direção a parede e encolheu seu corpo, como se quisesse se esconder. Sentado ao lado da amiga e observando o que se passava, Rony curvou-se beijando a testa de Hermione e falou:

- Não se preocupe, ele nunca mais vai voltar a te machucar, eu prometo! – disse sem se importar em ser ouvido por Draco.

Diante de tudo o que estava acontecendo, Draco não sabia o que fazer; Estava com raiva e quando se lembrava da imagem de Harry tão próximo e tocando sua namorada, odiava Hermione com todas as suas forças, mas ao mesmo tempo sentia necessidade de ficar com ela, de cuidar dela... Mas já não podia.

Naquela noite, pouco dormiram se revezando nos cuidados de Hermione, que ardia em febre durante toda a madrugada. Gina e Harry permaneciam unidos e a esta altura ela também já sabia o que havia acontecido na floresta. E quando o sol nasceu, a jovem ruiva se levantou para preparar alguma coisa para a amiga que precisava se alimentar e encontrou Draco acordado na sala.

- Não conseguiu dormir, Malfoy? – perguntou a ruiva sarcástica.

- Não quero conversa Weasley. – respondeu seco.

- Não se preocupe porque eu não tenho mais porque conversar com você... Sempre tentei ajudar, mas agora me arrependo. Hermione é boa de mais para alguém como você! – disse a garota se retirando e deixando Draco entregue ao mais profundo arrependimento.

Em poucas horas todos estavam de pé, cumprindo suas tarefas e novamente revezando-se nos cuidados com Hermione, que embora aparentasse uma melhora física, continuava sentindo sua alma devastada. Levantou-se no final da tarde e contrariando aos amigos, reassumiu suas tarefas.

Não se sabe se por crueldade do destino ou por crueldade de Snape, naquela noite Hermione foi mandada para o que seria uma ocupação mais leve; O professor havia lhe ordenado que descesse ao porão e organizasse e catalogasse todo o estoque de ingredientes e poções, um trabalho para dois ou três dias... Dois ou três dias trancada no mesmo ambiente que Draco.

Constatando que protestos não efeitos, a menina se resignou e decidiu cumprir sua obrigação sem jamais olhar para Draco. Em silêncio organizava os pequenos vidros em ordem alfabética.

Por diversas vezes, Hermione pode sentir os olhos de Draco lhe queimando as costas. Ele a observava e percebeu que apesar de tudo a menina mantinha o coração de cristal junto ao seu delicado pescoço, fato que lhe encheu de esperanças; O cristal capaz de refletir sentimentos havia se tornado completamente opaco e sem brilho, denunciando a dor e a tristeza que sua dona agora sentia.

Nos dias que se seguiram, Draco viveu algo que alguns definiram como inferno astral. Harry e Rony não perdiam a oportunidade de provocá-lo e fazer com que se sentisse ainda mais miserável. Remoia-se em culpa e arrependimento, mas sabia que aquele caminho não tinha volta. Nada poderia magoar mais Hermione do que ser tratada por ele como qualquer uma e foi o que ele fez pela segunda vez.

Jamais se falaram depois da discussão na floresta. Por algum tempo, ela esperou que ele lhe pedisse desculpas e dissesse que estava fora de si, mas isso nunca aconteceu. A cada dia, ele a observava em cada movimento; Sempre cercada pelos amigos, que agora o viam como um perigo que devia ser afastado.

Ela estava mudando. Quase não se alimentava e estava bem mais magra, talvez porque nada lhe descesse na garganta, talvez para que não faltasse comida para os outros; Seu sorriso já não iluminava o mundo e nunca mais ninguém a ouviu cantar. E todos os dias a menina que há muito tempo não rezava, implorava ao Deus que morava nos céus para tirá-la dali e permitir que ela nunca mais o visse.

Severo Snape não era tolo e há muito já havia percebido a situação de Draco e Hermione, e propositalmente continuava atribuindo a menina tarefas no laboratório, onde também a observava. Usava a inteligência e a eficiência da garota como desculpa para mantê-la próxima e submeter os dois a uma verdadeira tortura diária.

Hermione limpava com algum esforço os recipientes localizados nas prateleiras mais altas da estante, quando percebeu o professor se aproximar. Draco que permanecia sentado junto à mesa, realizando algumas anotações, também foi despertado pela atitude inesperada de Snape.

- Onde conseguiu essa pedra? – perguntou o professor, tomando o pingente de Hermione nas mãos quase como se quisesse arrancá-lo. – Responda! Onde conseguiu a pedra? – insistiu perdendo a paciência.

- F-foi um presente. – respondeu a garota em um fio de voz.

- Isso não é possível! Está mentindo! Me dê isso imediatamente! – dizia o homem transtornado arrancando o colar da garota, deixando-a arrasada.

- Ela não está mentindo! Eu dei esse colar para ela, por tanto faça o favor de devolver! – disse Draco extremamente sério se aproximando de Snape.

- Você também está mentindo! Essa pedra é única e pertence à outra pessoa! – falou Snape alterado tendo em suas mãos o coração de cristal que anos atrás ele deu para a mulher que amava como um símbolo do que sempre sentiria por ela.

- Esse colar pertencia à minha mãe e ela mesma me deu, para que eu o entregasse a garota por quem estava apaixonado. – rebateu Draco tomando o coração das mãos de Snape que se retirava visivelmente nervoso e o estendendo de volta para Hermione, que assistia a tudo atônita.

Draco permanecia parado com a mão estendida em direção a Hermione, implorando através do olhar para que ela pegasse a jóia novamente, mas a menina não se movia.

- Pegue de volta, por favor! – pediu o rapaz.

- Talvez seja melhor assim... Talvez agora você possa fazer a vontade da sua mãe e entregá-lo para uma garota que lhe seja realmente especial. – respondeu a menina magoada.

- Eu já o fiz. Ele é seu e ninguém mais além de você poderá usá-lo, por que esta é mais do que uma simples pedra, este é o meu coração que eu entreguei a você e para isso não há devolução! – falou o rapaz seguro, fazendo com que a menina se emocionasse e lágrimas se formassem em seus olhos.

Draco se aproximou lentamente e devolveu o coração de cristal ao seu verdadeiro e único lugar, recolocando-o no pescoço de Hermione, enquanto uma lágrima percorria a face da menina.

-Notas da Autora-

Esse foi um capítulo difícil... Eu realmente sofri para escrever essa briga, mesmo sabendo que era necessário para do desfecho da história. Embora eu não tenha colocado a referência, o poema que antecede o capítulo é bíblico, foi atribuído à Salomão e está no livro dos Cânticos.

Muito obrigada a todos que continuam acompanhando o final deste exílio!