Cap. XIV
A floresta de Katyn escondia diversos segredos; Era um lugar isolado e extremamente frio, o que lhe tornava um ambiente hostil e pouco propício à sobrevivência de qualquer espécie, exceto as mais determinadas. No entanto, era justamente no frio e na adversidade natural, que Katyn revelava sua grande virtude de fortaleza natural.
O local foi cuidadosamente escolhido por Snape, devido ao difícil acesso para quem quer que fosse. Nem mesmo os nativos da região atreviam-se a desafiar certas partes da floresta e por isso, assim como as criaturas que secretamente habitavam o local, estariam seguros. Porém, o que o antigo professor de poções nunca imaginou é que o passado poderia encontrá-lo naquele esconderijo e atormentá-lo de maneira cruel.
O homem esguio caminhava entre a vegetação congelada, desconsiderando o vento frio e qualquer perigo, simplesmente tentava raciocinar, mas não conseguia; Estava verdadeiramente transtornado pelo que havia lhe acontecido há minutos atrás:
"- Onde conseguiu essa pedra? – perguntou o professor, tomando o pingente de Hermione nas mãos quase como se quisesse arrancá-lo. – Responda! Onde conseguiu a pedra? – insistiu perdendo a paciência.
- F-foi um presente. – respondeu a garota em um fio de voz.
- Isso não é possível! Está mentindo! Me dê isso imediatamente! – dizia o homem transtornado arrancando o colar da garota, deixando-a arrasada.
- Ela não está mentindo! Eu dei esse colar para ela, por tanto faça o favor de devolver! – disse Draco extremamente sério se aproximando de Snape.
- Você também está mentindo! Essa pedra é única e pertence à outra pessoa! – falou Snape alterado tendo em suas mãos o coração de cristal que anos atrás ele deu para a mulher que amava como um símbolo do que sempre sentiria por ela.
- Esse colar pertencia à minha mãe e ela mesma me deu, para que eu o entregasse a garota por quem estava apaixonado!"
A cena se repetia em sua mente, uma, duas, mil vezes... Narcisa havia realmente guardado aquele coração por tantos anos? Lembrava-se claramente de sua recusa no momento que lhe entregou a jóia; Dizia não poder aceitar porque iria se casar com outro, mas ele insistiu que aquele coração deveria pertencer a ela e a mais ninguém. Jamais a tinha visto usá-lo e agora ele estava ali novamente, obrigando-o a reviver os tantos sentimentos que ele arduamente havia sufocado.
E se ainda houvesse tempo? E se tivesse outra chance?... Lutava para afastar pensamentos de esperança; Precisava recuperar a tranqüilidade para seguir com seu plano e precisava fazê-lo imediatamente, ou tudo estaria perdido.
È curioso como quando se tem afeto, a mente abranda. Severo procurou ao máximo fugir da tarefa de guardião, mas não conseguiu. A pressão de Voldemort aumentava, assim como aumentava o medo... Não havia mais tempo a perder; Precisavam se preparar e agora caberia a ele fazer com que seus alunos fortalecessem a mente e principalmente o espírito para o que estava por vir.
Não conseguia se lembrar quanto tempo passou oscilando entre Dumbledore e o Lord das Trevas; Mas se lembrava perfeitamente de quão cruel a magia pode se tornar quando utilizada por um tirando insano e seus seguidores. Seria ainda mais odiado, mas não recuaria; Estava decidido a ensinar aos jovens a lição mais importante que ele já aprendera, iria ensiná-los a sobreviver.
Mãos feridas, em carne-viva. Cada músculo do corpo sentia os efeitos do esforço; Ao final do dia, o cansaço físico era tamanho que Harry e Rony mal tinham forças para conversar ou sorrir. As meninas também não eram poupadas, além das tarefas domésticas, dedicavam-se em grande parte do tempo a recolher na floresta itens estranhos, utilizados para aumentar o estoque do laboratório, sendo expostas ao frio intenso e as armadilhas naturais da floresta.
A vida sob o comando de Snape parecia algo como escravidão. Trabalhavam até a exaustão de seus corpos, sempre sozinhos, sempre em silêncio; Um não tinha conhecimento sobre as atividades do outro e nada do que faziam parecia ter uma finalidade lógica. Além disso, o desconforto da casa e a escassez de comida pioravam tudo.
Um dia se passou desde o episódio do coração e Hermione ficou confusa. Já não chorava, mas também não conseguia sorrir; Por alguns momentos teve esperanças de que tudo ficaria bem entre ela e Draco, mas ele ainda parecia não querer se aproximar dela. Quanto à Snape, este, havia voltado a sua indiferença habitual, e parecia ter desistido de mantê-la perto de Draco.
Ninguém ousou fazer nenhum comentário sobre o repentino descontrole do professor. Draco tinha suspeitas sobre motivos de seu mentor, mas preferiu manter-se em silêncio. Na verdade, concentrava todas as suas atenções na garota de cabelos castanhos, que agora lhe parecia um sonho bom, mas distante.
Não soube amá-la. Como alguém como ele poderia saber? Sempre foi ensinado a desprezar os sentimentos, principalmente sentimentos como o amor, que segundo seu pai, só serviam para enfraquecer um homem. Ele conhecia bem o ciúme, a raiva, o desejo, mas não conhecia o amor, pelo menos não antes dela.
Naquela manhã, Snape ordenou que todos se reunissem na sala para que ele pudesse repassar algumas informações antes de partir com destino à Londres. A missão era relativamente simples: as garotas deviam embalar com todo o cuidado o estoque de poções que já possuíam, enquanto os rapazes tentariam recolher na floresta cinco itens de uma lista elaborada pelo professor, que variavam de plantas até crina de unicórneo. Dadas as devidas explicações e instruções, Snape aparatou, deixando os alunos entregues aos seus afazeres.
Hermione, Luna e Gina, seguiram para o laboratório no porão e prontamente iniciaram seu trabalho, separando e embalando os pequenos frascos de poção com o maior zelo possível, aproveitando a rara possibilidade de trabalharem juntas para conversarem um pouco.
- E então, Mi, como você está? – perguntou Luna carinhosamente.
- Pra ser sincera, Luna, eu já não sei... – respondeu Hermione um pouco triste.
- Não deixe a tristeza tomar conta de você! Logo tudo isso vai passar e você poderá esquecê-lo. – disse Gina tentando animar a amiga.
- O problema é que eu acho que não quero esquecê-lo. – respondeu a menina baixando os olhos.
- Então você ainda gosta dele? – perguntou Luna, embora a resposta já estivesse clara.
- Sim. – confessou a garota, deixando escapar uma lágrima.
Enquanto isso Snape chegava a Londres, aparatando na nova sede da Ordem de Fênix. Tratava-se de uma bela casa de campo, decorada com luxo e requinte, que se encontrava relativamente afastada da cidade; E cuja propriedade pertencia a Narcisa Malfoy. Novamente a bela senhora de olhos azuis, abdicava de seus bens pessoais em favor da Ordem de Fênix.
Snape era esperado com ansiedade pela mãe que sofria com a distância de seu filho único e que agora, era também sua única família e tudo o que lhe restara. Percebendo a chegada do velho amigo, Narcisa apressou-se em descer as escadas e ir ao seu encontro antes do início da reunião, com intenção de perguntar por Draco.
- Severo! Estão realmente em segurança? Como está meu filho? – perguntava a mulher um tanto aflita segurando as mãos frias de Snape.
- Draco está muito bem, eu lhe garanto. Tem me ajudado bastante no laboratório que eu montei para continuar produzindo poções. – respondeu tranqüilizando Narcisa.
- Ele está realmente bem? E a garota? – perguntou curiosa, referindo-se a Hermione.
- Que garota? – perguntou Snape voltando sua atenção para a chegada de Minerva.
- A garota por quem Draco se apaixonou... Gostaria de saber se ela o aceitou. – disse Narcisa ternamente.
- Escute, Narcisa, eu gostaria de falar com você a sós, depois desta reunião. È um assunto muito importante! – falou o homem sério, enquanto percebia a aproximação dos demais membros da Ordem.
- S-sim, é claro! – respondeu Narcisa tornando a ficar tensa, enquanto dirigiam-se a sala para o início da reunião.
Longe dali, na floresta de Katin, três decidiam se dividir, numa tentativa de encontrar o mais rapidamente possível, os ingredientes definidos por Snape. Harry saiu em direção a um pequeno riacho congelado, com uma adaga em punho, procurando por um unicórneo.
Seguia uma trilha de pegadas da criatura, quando foi surpreendido por vozes. Aproximou-se lentamente tentando não fazer barulho e percebeu alguns vultos humanos vestidos em capas negras e sentiu seu sangue congelar com o pensamento que lhe veio à mente: "Comensais!".
Aos poucos, aproximou-se mais buscando observar melhor o grupo e escutar o que diziam. Infelizmente seu medo se concretizou, e o jovem de olhos verdes pôde identificar Mcnair, Fenir Greybact, e Igor Karkaroff, debatendo sobre como obter sangue de unicórneo. Sozinho e desarmado, Harry não tinha outra opção além de tentar sair dali o mais rápido possível sem ser visto. O rapaz levantou-se de lentamente começou a andar para trás, quando foi surpreendido por um outro comensal que provavelmente vinha se juntar ao grupo.
- Ora, ora... Vejam quem está aqui! Ninguém menos o jovem Potter! – dizia Antônio Dolohov apontando sua varinha para o pescoço de Harry. – Creio que o mestre ficará extremamente satisfeito!
Harry sabia que não tinha como se defender e dentre todas as idéias que lhe passaram pela cabeça, tentar correr ainda parecia a mais eficaz. Num impulso, empurrou o comensal e tentou correr, mas não conseguiu dar mais do que dois passos.
- Rictusempra! – gritou o comensal fazendo com que o garoto fosse atingindo pelas costas e imediatamente caísse no chão sentindo a dor de um forte soco. – Sei que meu mestre sentiria um imenso prazer em matá-lo pessoalmente, mas dadas as circunstâncias, não vou correr o risco de que consiga escapar novamente; Eu mesmo vou terminar com isso! – dizia Dolohov se aproximando novamente de Harry.
- Avada Ked... – o comensal não conseguiu proferir o feitiço e caiu inconsciente diante do garoto que o observava atônito após sofrer um forte golpe na cabeça, revelando a presença de Draco Malfoy.
- Malfoy? Como você chegou aqui? – perguntou Harry confuso e aliviado ao mesmo tempo.
- Eu procurava as raízes de Naftali, quando vi um raio de luz verde que parecia um feitiço e como nenhum de nós tem varinha, achei que devia averiguar! – justificou-se o sonserino.
- Vamos! Temos que sair daqui! Essa floresta está infestada de comensais! – disse Harry começando a andar.
- Como assim? – questionou o loiro.
- Além desse aí, eu vi Mcnair, Greybact, e Karkaroff – falou Harry alarmando Draco.
- Droga! Como isso foi acontecer? Não podemos deixá-lo aqui ou logo que acordar irá alertar os outros! – dizia Draco tentando manter a cabeça fria.
- Você tem razão! Temos que levar ele daqui e o amarrar em algum lugar! – começou Harry enquanto segurava um dos braços do comensal desacordado.
Draco e Harry arrastaram Dolohov até uma pequena caverna escondida entre a vegetação e utilizando sua própria varinha, cojuraram cordas e uma venda, deixando o comensal sem nenhuma possibilidade de fuga. Em seguida, caminhavam o mais rápido possível em direção a cabana, quando Harry parou subitamente.
- Malfoy! – disse o moreno fazendo com que o sonserino parasse. – Eu quero agradecer pelo que fez; Se não fosse por você, eu não estaria vivo!
- Eu fiz o que devia fazer. – respondeu o loiro sério.
- Mas mesmo assim eu te devo uma e não gosto disso, quero retribuir! – falou Harry voltando a andar.
- Apenas cuide de Hermione! – falou sincero.
- Eu não entendo! Se gostava dela por que você a maltratou daquela maneira? – questionou Harry, mas não obteve resposta. Logo Rony se juntava a eles e os três entravam em casa apressados.
Em Londres, a Ordem da Fênix mais uma vez se via diante de sérias complicações. Bellatrix Lestrange mais uma vez conseguira escapar da investida de Lupin e sua equipe; Fontes secretas revelaram uma ligação entre vampiros e lobisomens com as forças das Trevas e os ataques a trouxas não cessavam.
Voldemort precisava ser neutralizado e para isso Harry era essencial. Tonks havia conseguido preparar um esquema para transformar o grupo de jovens em aurores de primeiro escalão em tempo recorde, mas ainda assim precisavam ganhar tempo. O esforço de Minerva também gerou resultados: finalmente tinham a localização de todas as horcruxes.
- Severo, em que pé estão as coisas? – quis saber Arthur.
- Mantive o que combinamos. Eles têm cumprido as tarefas, embora demonstrem descontentamento! – respondeu Snape.
- Não entendo porque temos que submetê-los a este sofrimento! São crianças! Deixem ao menos que se alimentem direito e tenham o mínimo de conforto!- reclamava Molly indignada.
- Entendemos seus sentimentos Molly, mas todos concordaram que isso era necessário! Lembre-se que por mais jovens que sejam, deles o futuro de todo o mundo mágico! – justificou Moody.
- Quero comunicar que receberemos reforço em breve! Novos voluntários deverão chegar dentro de alguns dias. – disse Lupin com a expectativa de animar seus companheiros.
- Essa é uma ótima notícia! – se animou Tonks, informando em seguida todas as etapas de seu planejamento para receber e treinar os garotos, deixando todos extremamente satisfeitos.
- Já que tudo está praticamente pronto, creio que dentro de dois dias Severo poderá retornar com os garotos definitivamente! – comunicou Arthur fazendo com que Molly e Narcisa vibrassem de alegria com a perspectiva de rever seus filhos.
Simultaneamente, em outro ponto do globo, outra reunião de extrema importância também acontecia. Seis jovens sentados em colchões espalhados pelo chão de um quarto rústico debatiam á respeito das providências que deveriam tomar diante da ameaça da presença de comensais.
Hermione ainda não conseguia acreditar na história narrada por Harry. Sentiu o ar lhe faltar quando o ouviu contar que quase morreu nas mãos de um comensal da morte e que estava ali diante deles graças à intervenção de Draco. Instintivamente voltou sua visão para o sonserino, perdendo-se novamente em seus olhos acinzentados, que depois de muito tempo conseguiam lhe transmitir algum calor. Novamente alimentou esperanças.
Draco sentiu sua pele queimar e seu coração acelerar absurdamente com o simples olhar da garota. Fitou os belos olhos castanhos e se sentiu aliviado por já não encontrar neles a mágoa de antes; Desejou poder se explicar e fazer com que ela voltasse a ser sua, mas não sabia como e agora tudo o lhe restava era lutar para mantê-la em segurança.
A situação era realmente crítica; Estavam em perigo e não podiam permanecer ali nem por mais um segundo. Decidiram organizar tudo como se fossem partir imediatamente, mas sabiam que obrigatoriamente tinham que esperar por Snape, que parecia não chegar nunca.
Gina havia ficado realmente nervosa com o ataque sofrido pelo namorado e Harry decidiu conversar a sós com a garota para tentar acalmá-la, levando-a em direção a sala. Rony quis permanecer onde estava, mas Luna não permitiu. Algo lhe dizia que era chegada à hora de Hermione tomar uma importante decisão e por isso, a loirinha convocou o namorado para ajudá-la a recolher o resto dos pertences do grupo que se encontravam espalhados pela casa.
Todos se retiraram em silêncio, deixando Draco e Hermione para trás. Os dois ainda se encaravam, mas as palavras pareciam simplesmente não vir. Era tão difícil, mas ele sabia que precisava deixá-la. Não era uma nova pessoa como havia prometido a ela, no fundo sabia que sempre seria como Lúcio; Havia falhado.
"Le ciel bleu sur nous peut s'effondrer -O céu azul sobre nós pode desabar
Et la terre peut bien s'écrouler - E a terra bem pode desmoronar"
"Uma palavra. Por favor, me diga uma palavra!" – implorava a garota mentalmente, com um profundo desejo de entendê-lo e perdoá-lo simplesmente porque o amava. Segundos se passaram como se fosse horas e ele mantinha o silêncio. Levantou-se e num grande esforço virou-se para sair do quarto, tentando deixá-la para trás, mas não conseguiu. Após dois passos, virou-se novamente para a menina que continuava parada o observando e correu até ela, tomando-lhe em seus braços e a beijando intensamente com todo o amor que sentia.
"Peu m'importe si tu m'aimes -Pouco me importa, se tu me amas
Je me fous du monde entier -Pouco se me dá o mundo inteiro"
Ele a abraçava com força como se quisesse prendê-la ali para sempre; Suas mãos percorriam cada centímetro do corpo da garota desesperadamente. Estava tomado pela saudade e pelo desejo de senti-la mais uma vez e para sua surpresa era completamente correspondido.
"Tant qu'l'amour inond'ra mes matins -Desde que o amor inunde minhas manhãs
Tant que mon corps frémira sous tes mains - Desde que meu corpo esteja fremindo sob tuas mãos
Peu m'importe les problèmes -Pouco me importam os problemas
Mon amour puisque tu m'aimes - Meu amor, já que tu me amas."
Após algum tempo separavam-se sem ar. Hermione tinha os lábios vermelhos e os cabelos desalinhados. "Merlim, o que foi isso?" – perguntava a si mesma, enquanto Draco xingava a si mesmo mentalmente por não ter conseguido se manter distante.
- Draco, por que fez isso? – perguntou a menina tentando controlar a respiração, mas não obteve resposta. – Por que isso agora se não sou digna se quer de que me dirija à palavra? Responda! – questionou a menina novamente magoada fazendo com que o rapaz se sentisse ainda pior.
- Porque não consegui ficar longe... – respondeu sincero.
- Entendo... Sou uma qualquer, uma sangue-ruim vagabunda, como você disse, mas ainda assim se sente atraído... – disse a menina ferindo a si mesma e a Draco com aquelas palavras.
- Não! Não é verdade! Nunca mais repita isso! - disse o rapaz alterado passando a mão pelos cabelos e caminhando de um lado para o outro.
"J'irais jusqu'au bout du monde -Eu irei até o fim do mundo
Si tu me le demandais -Se tu me pedires"
- E porque você teria me dito isso, se não é verdade? Ajude-me a entender! – disse a menina sem conseguir manter a calma diante da situação. Ela tentava provocá-lo para conseguir que ele dissesse o que realmente estava pensado e havia conseguido.
- Eu te vi abraçada com o Potter e perdi a razão. Fiquei louco de ciúmes! Ele estava te tocando e eu fui tomado pela raiva não consegui me controlar! – explodiu alterando a voz.
- Então não acha realmente que eu estava ficando com Harry e que sou uma qualquer? – questionou igualando o tom de voz.
-Não! – respondeu imediatamente.
- E não falou de propósito? – insistiu a menina.
- Não! – respondeu novamente.
- Você se arrependeu do que fez? – perguntou a garota com a voz trêmula e lágrimas nos olhos se aproximando do loiro mais do que devia.
- Todos os dias! – respondeu o rapaz tentado se afastar sem encará-la.
"Iirais décrocher la lune - Irei despendurar a lua
J'irais voler la fortune - Irei roubar a fortuna
Si tu me le demandais - Se tu me pedires"
- Por que Draco? Por que preferiu se afastar de mim a pedir desculpas? – perguntou Hermione forçando Draco a encará-la. – Te dói tanto assumir que cometeu um erro? Prefere destruir de maneira tão cruel o que eu sentia por você? Sabe, você podia apenas ter me dito que percebeu que havia se enganado e que não me queria mais como namorada, eu entenderia e me afastaria, mantendo boas lembranças...
- Não é nada disso! Você não pode entender! – falou o rapaz ainda mais nervoso.
- Eu poderia entender se pelo menos uma vez você tentasse me explicar! – disse a menina praticamente gritando e sentindo o ar lhe faltar.
Aquilo era demais para a garota, que não resistiu à pressão e acabou desfalecendo, sendo amparada por Draco, que a amparou e carinhosamente a colocou deitada em um colchão, deitando-se ao seu lado. Ele sabia que há dias ela não se alimentava direito e que estava fraca; Esperou alguns minutos e a viu abrir os olhos e recuperar a consciência. Estavam tão próximos, que ela podia sentir sua respiração.
A menina permanecia em silêncio encarando o loiro, enquanto lágrimas teimosas insistiam em correr por sua face. Draco entendeu que era hora de falar, ou nenhum dos dois conseguiria seguir em frente. Tinha que ser justo, isso era o mínimo que podia fazer por ela depois de tudo. Tomou-lhe uma das mãos colocando sobre seu próprio coração para que ela tivesse certeza de que não mentia.
- Hermione... Você foi a melhor coisa que já me aconteceu; Me fez sentir coisas que eu nunca imaginei que existissem e eu não tenho nenhuma dúvida de que te amo e de que você é a mulher da minha vida, mas eu sou o que sou e não posso te submeter a isso! Fui um idiota com você e me arrependi imediatamente de todas as besteiras sem sentido que te disse, mas não procurei me redimir porque entendi que será melhor para você ficar longe de mim... – disse o rapaz sendo sincero como jamais fora em toda sua vida.
"Je renierais ma patrie - Eu renegarei minha pátria
Je renierais mes amis - Renegarei meus amigos
Si tu me le demandais - Se tu me pedires"
- E com que direito você toma decisões em meu nome? – perguntou a menina num fio de voz.
- Sei que será melhor pra você! – afirmou o rapaz sentindo seu coração apertar.
- Como ficar longe de você pode ser bom para mim? Sinto-me profundamente decepcionada porque novamente sou obrigada a concluir que não confia em mim! – disse a menina triste.
- Não é isso! Só quero te proteger! – justificou-se o sonserino.
- Proteger de quê? Eu acho que sou perfeitamente capaz de tomar minhas próprias decisões e esperava que você confiasse no meu julgamento e no meu amor... – falava decepcionada.
- Hermione, eu sempre serei um Malfoy, nunca poderei ser completamente bom e seus amigos estão certos quando dizem que você merece mais. – admitiu Draco, engolindo seu orgulho.
- Você sempre será um Malfoy e nunca será um perfeito anjo, mas é bom para mim e isso é o que me importa. Nunca exigi que fosse algo que não é, pelo contrário apenas quis te mostrar as coisas boas que eu via em você. Mas você não confiou em mim e agora também já não posso confiar em você! – disse a menina séria. - Desta vez, preciso de mais do que palavras para acreditar em tudo que está me dizendo... Se realmente me ama, preciso que me prove!– decretou a garota, deixando Draco intrigado.
- Eu amo você e nunca fui tão sincero como quando digo isso! – começou o rapaz, apertando ainda mais a mão da menina contra seu peito.
- Prove! Enfrente o medo, enfrente o mundo inteiro se for preciso, mas fique comigo! Faça-me confiar em você e confie em mim de verdade! – falou Hermione olhando fixamente nos olhos de Draco.
Entre mil possibilidades de respostas que voavam por sua mente naquele instante, Draco não conseguiu nenhuma que pudesse expressar o que sentia... Ela estava ali, diante dele, tão linda e tão decidida; Definitivamente o corpo pequeno e aparentemente delicado de Hermione, abrigava o coração mais forte e corajoso que ele já havia visto. Ela não conhecia o medo, e estava sempre pronta para lutar em nome daqueles a quem amava e agora mostrava claramente que o amava e que não estava disposta a simplesmente deixar que saísse de sua vida e esquecê-lo.
Definitivamente não existiam palavras para aquele momento. "A vida me dá uma nova chance! Ela me dá uma nova chance e dessa vez eu não vou desperdiçá-la!" – dizia Draco para si mesmo enquanto se aproximava da menina, beijando-lhe os lábios delicadamente.
"Tant qu'l'amour inond'ra mes matins -Desde que o amor inunde minhas manhãs
Tant que mon corps frémira sous tes mains - Desde que meu corpo esteja fremindo sob tuas mãos
Peu m'importe les problèmes -Pouco me importam os problemas
Mon amour puisque tu m'aimes - Meu amor, já que tu me amas."
Para Hermione, não poderia haver uma resposta mais perfeita; Sentiu seu coração encher de alegria ao perceber que aquele beijo calmo e delicado confirmava que ele também estava disposto a lutar por ela, ainda que isso significasse enfrentar a si próprio e ao resto do mundo. Novamente, lágrimas escorreram por sua face, mas desta vez não eram lágrimas de desespero ou de tristeza, eram lágrimas de felicidade e de alívio por poder sentir que o tinha novamente a seu lado. Parecia que finalmente podia respirar.
Após alguns segundos, o rapaz quebrou o beijo propositalmente para poder olhar para o rosto da garota; Tinha que ter certeza de que tudo aquilo era real e não apenas um sonho, dúvida que foi completamente sanada quando a jovem o encarou com um olhar descontente, como se estivesse chateada pelo gesto do sonserino de afastar-se e com a mesma decisão que havia demonstrado há minutos atrás, o puxou para si para dando-lhe um beijo avassalador.
Paralelamente, em Londres, outro casal também tinha contas a acertar. Logo que a reunião da Ordem de Fênix foi encerrada, Snape se aproximou de Narcisa, como se quisesse lembrá-la de que precisavam conversar. Mas para tal parecia completamente desnecessário para a Senhora Malfoy que não se esqueceu nem por um segundo das palavras de Snape, guiando-o prontamente para um pequeno terraço reservado.
- Creio que aqui poderemos conversar com tranqüilidade. – disse a mulher fazendo um gesto para que Snape se acomodasse na cadeira a sua frente.
- Não tenho muito tempo, Narcisa, então serei o mais direto possível... Há muitos anos atrás, pedi que fosse minha mulher e te entreguei uma jóia, mas você recusou o pedido e jamais usou o colar. – começou Snape.
- Eu já estava noiva de Lúcio e não podia usá-lo; Seria visto como uma afronta. – defendeu-se.
- Mas mesmo assim você o guardou por quase vinte anos; Só que agora ele pertence a uma das namoradinhas de seu filho! – falou Severo com raiva pela primeira vez demonstrando uma emoção verdadeira.
- Durante anos eu guardei aquele coração porque era uma recordação da única pessoa que havia nutrido um sentimento verdadeiro por mim... Lúcio me dava jóias simplesmente para que pudesse ostentar seu dinheiro perante as outras pessoas! Nenhuma delas jamais veio acompanhada de qualquer sentimento; Por isso, quando percebi que meu filho estava verdadeiramente apaixonado, decidi entregar aquela jóia que realmente era especial e poderia ajudá-lo a lidar com seus sentimentos como eu não soube fazer. – rebateu a mulher sem se alterar.
Severo Snape a observava sem acreditar no que havia acabado de ouvir. Abriu a boca várias vezes, mas não conseguiu falar nada e perdeu qualquer chance quando Molly Weasley percebeu sua presença e praticamente o obrigou a acompanhá-los em um chá.
Narcisa mantinha seu habitual porte de dama inglesa e parecia não estar abalada por voltar a falar em acontecimentos do passado que eram de certa forma dolorosos. Na verdade, seguindo Molly, que fazia mil perguntas sobre os filhos, Narcisa também voltou a perguntar sobre Draco, até que Snape se despediu friamente alegando já ter permanecido ali por mais tempo do que deveria e aparatou.
De volta a Katyn, o antigo professor de poções que ainda estava se recompondo aos poucos da conversa com Narcisa, foi surpreendido pela crise que se abatera sobre a cabana rústica. Harry iniciou as explicações, enquanto Rony se dirigia ao dormitório para chamar Draco e Hermione, mas antes não tivesse ido.
Ao empurrar a porta do quarto o ruivo não pôde conter o espanto com a cena que presenciava. Draco permanecia deitado com as costas apoiadas no colchão, tendo Hermione completamente deitada em cima de seu corpo; Uma de suas mãos permanecia enterrada nos cabelos castanhos da garota, enquanto a outra corria pelas costas, mantendo a menina junto a si. Beijavam-se num ritmo alucinante, quando foram interrompidos pela presença de Rony que empurrou a porta e não consegui disfarçar a surpresa.
- Ouw! Caramba! – disse o ruivo ficando completamente vermelho, fazendo com que o casal se separasse se fôlego.
- Rony? – foi tudo que Hermione conseguiu dizer.
- Depois conversamos Hermione! O Snape acabou de chegar e está nos esperando na sala! – disse Rony contrariado fechando a porta.
Em alguns segundos Draco e Hermione se juntavam ao grupo que permanecia reunido na sala da cabana. O tempo era escasso e precisavam decidir rápido. Harry insistia que podiam capturar o bando de comensais, enquanto Gina argumentava sobre os riscos de tal operação. Hermione, de longe a mais racional, sugeriu comunicar a situação á Ordem e pedir reforço, mas sua idéia foi imediatamente confrontada com o risco do uso da magia despertar os comensais para a presença do grupo.
Na verdade, só existiam duas opções: lutar ou fugir. E naquela altura dos acontecimentos, Harry Potter já não suportava a idéia de fugir e decidiu que iria retornar a Londres sim, mas levando consigo os comensais de Voldemort completamente neutralizados. A determinação do rapaz era tamanha que convenceu aos amigos e fez com que Snape não tivesse outra escolha, senão unir-se aos alunos para elaborar um plano.
- Notas da Autora -
Nem acredito que esse é o penúltimo capítulo! Será que consegui me redimir depois daquela briga tão feia?
