Capítulo V

Severus estava sentado na cama, observando a janela aberta. A negritude da madrugada dava lugar ao alaranjado do Sol. Estava amanhecendo e o Comensal da Morte havia ficado acordado a noite inteira.

Harry estava deitado ao lado de Severus, com os olhos fechados, fingindo que dormia. O rapaz reunia coragem para começar a falar dos acontecimentos da madrugada. O irônico é que toda valentia de Potter parecia ruir quando ele estava frente a frente a Snape.

Eu não sou covarde!, pensou o Gryffindor determinado. Ele se remexeu na cama, tentando chamar a atenção do amante.

Snape notou que Harry se movia e virou o rosto na direção do garoto. Depois indagou:

"Quer uma poção para conseguir dormir?"

"Não... Acho que... Temos que conversar", disse, enquanto se sentava na cama.

"Tem toda a minha atenção, Harry."

Potter encarou os olhos negros com determinação.

"Você está arrependido, Severus?"

Snape pareceu ficar muito deprimido enquanto refletia as palavras do rapaz.

"Ao longo de minha vida senti diversas vezes arrependimento. Você precisa ser mais especifico."

"Estou me referindo a nós, sobre nossa relação. Hoje você viu como é perigoso estar comigo."

Severus deu um tímido sorriso enviesado, apesar de não sentir humor nenhum.

"Se eu tivesse que fazer uma lista com as minhas ações que eu não sinto arrependimento nenhum, o único item da lista seria estar com você. Os momentos que fiquei com você foram e são os mais preciosos para mim. Cada segundo com você vale a pena. E eu faria tudo de novo para tê-lo comigo."

Harry ficou emocionado com as palavras do bruxo.

"Mas você foi torturado por minha causa..."

"Teria sido imensuravelmente pior se fosse o contrário. Se você tivesse sido torturado, aí sim eu estaria muito arrependido. Não se preocupe com a tortura, Harry. Fui Comensal da Morte metade da minha vida, e era muito comum eu ser torturado pelo Lorde das Trevas. A Cruciatus dele doía de verdade, diferente da de Rabastan."

"Mas..."

"Da minha parte, eu não sinto arrependimento", falou com firmeza, interrompendo Potter.

"Eu também não sinto! Já disse que fico com você, mesmo que isso me leve a morte."

"Isso não vai te levar a morte. Eu te garanto. Não falharei de novo", prometeu e se levantou da cama.

"Aonde você vai?"

"Fazer café."

Potter olhou para a janela. Os raios solares amarelos se infiltravam pelo quarto. Um novo dia estava nascendo.


Snape estava na cozinha, observando o bule ferver a água no fogão. Naquele momento não desejava usar magia para nada. Não estava com pressa, poderia muito bem esperar a água entrar em ebulição.

Então, ouviu alguém batendo na porta da sala. Involuntariamente, ele apertou o roupão contra o corpo. Ele ouviu, novamente, mais batidas impacientes na porta. O bruxo tirou a varinha do bolso da calça do pijama e foi até a sala.

Ele abriu a porta da sala segurando firmemente a varinha. Ao identificar quem era, se sentiu azedo.

"É meio cedo para visitas, Lucius", disse para o bruxo parado do outro lado do batente.

"Eu sei que você gosta de tomar café da manhã bem cedo. Não me convida para beber café?"

"Como se eu tivesse escolha", resmungou. Depois, Severus abriu totalmente a porta e deu alguns passos em direção a sala.

Malfoy tentou entrar na sala, mas não conseguiu. Parecia que havia uma parede firme e invisível bloqueando a entrada da casa. Lucius riu sem humor.

"Que ironia! Depois de ser atacado, você achou que seria uma boa hora para lançar feitiços protetores na casa, Severus?"

Snape murmurou o contra-feitiço para permitir a entrada do loiro e sem olhá-lo e comentar nada, foi em silêncio para a cozinha. Não precisava indicar o caminho para Lucius, pois ele conhecia o percurso.

Malfoy ainda sorria de zombaria enquanto seguia Severus até o outro cômodo.

Já na cozinha, Lucius se sentou a mesa, enquanto Snape preparava o café. Severus colocou dois pires com xícaras contendo o pó do café solúvel em cima da mesa, depois despejou a água fervendo nas xícaras.

"Açúcar, Severus", pediu.

Snape fez uma cara de desgosto, como se adicionar açúcar ao café fosse um insulto a nobre bebida. Mas ainda assim ele pegou o açucareiro e uma colher e depositou-os na mesa. Em seguida, se sentou a mesa, em frente a Malfoy.

O ex-professor levou a xícara até próxima ao nariz e aspirou o maravilhoso odor que vinha do líquido quente. Depois, soprou a xícara e bebeu um gole.

O loiro adicionava diversas colheres de açúcar a sua xícara. Sabia que o amigo gostava de café extremamente amargo.

"Como você está? Draco me disse que te viu ensanguentado", comentou, mas sua voz não estava irônica ou debochada. Parecia até solidária.

Snape levou a mão até o peito, agora repleto de cicatrizes, como se ainda pudesse sentir a dor provocada por aqueles cortes. Em seguida, depositou a xícara no pires.

"Não tiveram a audácia de usar Sectumsempra em você, tiveram?", indagou Malfoy.

Severus abriu o roupão, depois desabotoou alguns botões do pijama, exibindo um pedaço do peito. Dava para ver cicatrizes em forma de RO e embaixo LE, ambos verticalmente.

"Rodolphus não precisou usar um feitiço para me retalhar. Preferiu fazer isso manualmente, com auxílio de uma adaga."

Lucius parecia um pouco chocado com o que via. Sua pele havia ficado ainda mais pálida. Ele, então, bebeu um gole do café para disfarçar seu horror.

Snape notou que a qualquer momento Malfoy ia olhá-lo com pena, por isso tratou de fechar o pijama, escondendo as marcas.

O loiro colocou a xícara em cima da mesa, depois olhou firmemente para o amigo, como se estivesse reunindo coragem para dizer o que pretendia. Mas Lucius parecia meio intimidado pelo olhar duro de Severus, por isso falou sobre outro assunto.

"Você não tinha inventado um feitiço que revertia cicatrizes?"

"Só funciona para cicatrizes que tenham sido feitas por feitiços. As minhas foram feitas por uma lâmina."

"Potter já viu isso?", indagou. Enfim, começou a falar sobre o assunto que desejava: Harry Potter.

Snape assentiu com a cabeça, depois bebeu um gole de café.

"Você vai continuar com o garoto?"

"Se Harry quiser, fico com ele até o fim dos meus dias."

Lucius não gostou muito da resposta de Severus. Conhecia o outro bruxo. Presenciou o quanto ele havia sofrido por causa da mãe de Potter. Snape não ia aguentar outra decepção que nem aquela. Bebericou o café e depois indagou:

"Está realmente apaixonado pelo garoto, Severus? Ou é só algo passageiro?"

"Eu amo Potter."

"E se ele te deixar?"

"Eu o mato", falou sorrindo enviesado.

Lucius gargalhou.

"Você matou apenas uma pessoa em toda sua vida e sente remorso por isso ainda hoje. Até o Lorde das Trevas não te mandava matar, pois sabia que você não era assassino."

"As pessoas fazem muitas coisas estranhas quando estão passionais."

"Como resolver morar com um garoto que tem idade para ser seu filho?"

Severus sorriu de escárnio.

"Exatamente coisas como essa."

Lucius apertou os olhos. Se preocupava com Snape. Talvez o bruxo estivesse enlouquecendo. Ou talvez só estivesse muito apaixonado. Loucura e paixão são sentimentos muito parecidos, é difícil diferenciá-los.

"Rabastan estava se gabando de como foi fácil entrar em sua casa desprotegida. Eu te precavi e, aparentemente, você não fez nada para impedir o ataque. Em outras épocas, você jamais teria sido pego, Severus. Penso que esse garoto não te faz bem. Potter te distrai, te tira o foco. E ele quase te matou."

Snape bebeu um longo gole de café antes de retrucar.

"Sabe que eu penso justamente o contrário. Se não fosse o garoto, eu provavelmente estaria morto. Potter me salvou."

"Você não está entendendo. Se você não estivesse mantendo uma relação com Potter, eles não teriam te atacado. Eu tenho certeza que você notou que o centro da atenção dos Comensais era o garoto. Eles desejavam Potter. Pouco se importavam se você traiu o Lorde das Trevas, o que importava para eles era o garoto. Estavam loucos de ciúmes por você ter Potter só para você."

Severus havia tido a mesma sensação que Lucius, mas não queria admitir para o amigo, por isso resolveu provocá-lo.

"Assim como você? Também deseja o meu jovem amante?", alfinetou.

"Potter não faz meu estilo. Acho que você combina mais comigo", disse debochado.

Ambos sorriam de escárnio quando Harry entrou na cozinha. O rapaz se assustou com o visitante. Pegou rapidamente a varinha no pijama e apontou para Lucius.

Malfoy ainda sorria de forma debochada quando viu a nítida hostilidade em Potter. Colocou a mão em cima da de Snape e falou:

"Pegos em flagrante, Severus! Acho que agora estamos encrencados..."

O ex-professor puxou a mão e se levantou da cadeira. Foi até Harry e beijou-lhe a cabeça.

"O que ele está fazendo aqui?", perguntou Potter com raiva.

Malfoy notava o ciúmes explícito nas palavras e atitudes do garoto. Por isso, resolveu atiçá-lo mais.

"Acho que não vai querer saber a resposta, Potter. Tem coisas que Severus só faz comigo."

Harry ameaçou avançar em direção ao homem, mas Snape o conteve.

"Ele está zombando você", falou Severus para Potter.

"Por que continua enganando o garoto, Severus? Assuma logo que você prefere a mim", disse sorrindo soberbo.

"Lucius, se continuar a fazer insinuações sem fundamento vou pedir que não retorne a minha casa", falou Snape, ainda segurando Potter.

"E a sua mulher, Malfoy? Ela sabe sobre você e Severus?", perguntou Harry, querendo ver se conseguia perturbar o suposto rival.

Aparentemente não conseguiu, pois o loiro sorriu ainda mais.

"Narcissa? Narcissa também adora Severus. A gente sempre fazia ménages..."

Descontrolado, Potter voltou a apontar a varinha em direção a Lucius e começou a murmurar um feitiço. Mas Snape foi mais rápido e tomou a varinha da mão do amante.

"Harry, você confia em mim ou nele?"

"Você, é óbvio."

"Sente-se, então. Eu vou te contar o que realmente existe entre eu e Lucius."

"Acho que Potter não aguentará a verdade. Melhor não devolver a varinha para ele, ou ele me atacará."

Snape fitou o Comensal com impaciência.

"Peço que só fale quando eu pedir, Lucius."

"Como achar melhor, querido."

Harry olhava feio para o loiro enquanto se sentava o mais distante possível dele.

Snape sentou-se ao lado do amante e em frente a Malfoy. Ele segurou sua xícara e percebeu que o café havia esfriado. E café frio era um verdadeiro veneno.

"Sugiro que comecemos por Hogwarts. Foi onde tudo começou entre nós", disse Lucius com malícia.

"Que tal eu sugerir que você me deixe falar?", questionou Snape visivelmente perdendo a paciência. Depois o bruxo se virou para o amante. "Conheci Lucius em Hogwarts, mas por ele ser mais velho que eu seis anos não convivemos muito. Foi depois do colégio, quando nos tornarmos Comensais da Morte que ficamos mais íntimos."

"Ele foi seu namorado?"

Malfoy e Snape riram com a pergunta.

"Lucius não é homossexual, Harry. Nunca foi ou será. Ele apenas finge."

"E por que fingiria?"

"Para agradar o Lorde das Trevas. Onde você acha que nós, Comensais da Morte, aprendemos que devemos estuprar todas as nossas vítimas?", falou Malfoy.

"Na verdade, eu e Lucius fingíamos ser gays e amantes para nos protegermos mutuamente. Além do próprio Lorde das Trevas, Lucius era o único que sabia que eu amava sua mãe."

"Eu continuo não entendendo. Se proteger do quê?"

"Esse garoto é bem estúpido, não Severus? O que você viu nele? Com certeza não foi a inteligência", disse e em seguida se virou para o rapaz. "Entenda, Potter, como você pôde perceber algumas horas atrás, a maioria dos Comensais da Morte gosta de homens. E a Marca Negra não era a única condição para se tornar Comensal. Precisávamos ser iniciados sexualmente por Comensais mais antigos..."

"Vocês foram violentados quando se tornaram Comensais?", indagou com certo horror.

"Eu não violentei Severus, eu transei com ele."

Os olhos verdes de Harry se tornaram homicidas.

"Seu filho da..."

Malfoy o interrompeu.

"Eu te disse que já havia tocado em Severus. Mas foi uma única vez e nós só fizemos porque o Lorde das Trevas disse que queria assistir. Não tínhamos opção se não transarmos na frente dele."

Imaginar a cena dava náuseas em Potter. Os dois bruxos transando enquanto Voldemort assistia? Harry preferiu mudar de assunto.

"E quem te iniciou?", perguntou a Malfoy.

Lucius amarrou a cara antes de responder.

"Rookwood. Mas, diferente de Severus, eu fui violentado. O cretino disse que eu era arrogante demais e precisava de uma lição", falou e uma nuvem de ódio perpassou o rosto pálido e pontudo do loiro.

"Peraí, você transou duas vezes com homens, como pode não ser homossexual?"

"Nenhuma das vezes fiz por opção. Eu não sinto atração por homens, Potter, portanto, eu não sou gay. E está para nascer criatura mais bela que a minha Narcissa."

O garoto continuava sem entender. Snape percebeu o rosto confuso do amante, por isso explicou:

"Você entendeu o que tinha que acontecer com os novos Comensais? Eles precisavam ser sodomizados por Comensais mais antigos. Mas Lucius não é gay e não época você não existia, por isso, eu também não sentia atração por homens. Era uma situação suspeita. Eu e Lucius éramos os únicos que não faziam questão de iniciar os novatos, o Lorde das Trevas começou a desconfiar. Disse que nós éramos fracos e estava pensando em eliminar os fracos da sua equipe. Lucius então teve a brilhante ideia de fingir que nós tínhamos um caso. Era a desculpa perfeita. Não queríamos transar com outros homens porque nós éramos amantes."

"E Voldemort acreditou nisso?"

"Até você acreditou nisso, Potter", falou Malfoy sorrindo.

"Obviamente o Lorde acreditou. Você já percebeu que Lucius pode ser bem convincente."

Harry olhou para o loiro. Malfoy sorria com malícia para ele. Era verdade, Lucius era mesmo muito convincente. Todos os novos Comensais da Morte precisavam ser iniciados? Potter então pensou um determinado Comensal.

"E Draco?"

"Eu fingi iniciá-lo", respondeu Snape.

"Mas Voldemort não estava presente?"

"Eu pedi para que não estivesse."

"E ele respeitou sua vontade?"

"Sim."

"Depois da segunda ascensão do Lorde, Severus sempre foi o Comensal da Morte favorito dele", falou Lucius. Havia pontadas de inveja e até ciúmes na voz arrastada.

"Só me tornei o favorito após matar Albus. E ainda assim ele tentou me assassinar. Se não fosse Harry, ele teria conseguido."

"Ele disse que você era valioso", lembrou Potter.

"Mas isso não o impediu de me servir de jantar para a cobra."

"Você sobreviveu. É isso que importa", disse o rapaz e esticou o pescoço para beijar os lábios de Snape.

Lucius estudava Potter. O garoto sentia ciúmes, fez de tudo para salvar Severus na madrugada e ainda observava o bruxo com algo além de paixão. Havia amor nos olhos verdes. Malfoy sorriu ao constatar isso. Talvez Snape ficasse bem com Harry.

"Bem, se não tem mais nenhuma pergunta para mim, Potter, então vou deixá-lo sozinhos."

Harry recuou, um pouco ressentido do amante. Ele sentiu que Snape não parecia nada entusiasmado ou disposto a beijá-lo. Potter se virou para o loiro.

"Falei com Shacklebolt. Ele disse que irá devolver sua casa e todo o ouro que você tinha no Gringotts em uma semana. Ele irá entrar em contato com você."

Lucius sorriu extasiado com a notícia.

Harry continuou:

"Mas o ministro não aceitou te dar uma Ordem de Merlin. A imprensa cairia em cima dele por estar premiado Comensais da Morte."

"Compreendo. Apenas Comensais da Morte que namoram garotos famosos ganham a premiação...", alfinetou.

"É mais ou menos isso, Malfoy", disse Harry sorrindo satisfeito.

Aparentemente Snape não gostou muito das insinuações dos outros dois, por isso tentou justificar.

"Eu era da Ordem da Fênix, Lucius, por isso ganhei uma Ordem de Merlin."

"Claro, Severus. Eu tenho certeza que Potter não pediu para você ser premiado."

"Eu pedi mesmo! Severus é tão herói quanto eu."

Snape franziu a testa, quase como se tivesse sido ofendido.

"Eu concordo", falou Lucius e sua voz não estava debochada. O bruxo se levantou. "Severus, meu herói, obrigado pelo café, mas agora eu tenho que ir."

Snape se levantou também.

"Eu te levo até a porta."

"Potter, tome conta do nosso herói", zombou.

Harry não respondeu. Pensou em fazer um gesto obsceno para o loiro, mas o amante provavelmente não ia gostar.

Antes de sair do cômodo, Snape colocou a varinha de Potter em cima da mesa.

Harry olhou da varinha para o ex-professor.

"Eu nunca mais vou te deixar desarmado", disse Severus e se afastou.

Os dois bruxos foram da cozinha até a sala. Já na sala de estar, Snape abriu a porta para o amigo.

"Eu tinha suspeitado que estava com alguém durante esses meses, mas Harry Potter?", indagou Malfoy sorrindo debochado.

"Lucius..."

Malfoy riu.

"Venha me visitar também, Severus. Vou dar uma festa para reinaugurar minha casa. Leve seu garoto. Prometo que Draco se comportará."

"Certo", falou mais por educação do que por desejo de ir visitá-lo.

"O casamento de Draco é daqui há um mês. Você acha que estará preparado psicologicamente para..."

Snape o interrompeu.

"Está dizendo que estou desequilibrado agora?"

"Talvez. Você sofreu um grande trauma, talvez o maior de sua vida. Eu vi que não quis nem beijar Potter."

"Adeus, Lucius", disse fechando a porta na cara do bruxo. Era só o que me faltava! Lucius Malfoy comentando minha vida amorosa!, pensou irritado.

Severus voltou até a cozinha. Harry continuava sentado e pensativo.

"Não vai mesmo para a aula hoje?"

"Não. É melhor eu ficar com você."

"Está me usando para matar aulas, Harry? Aí terá uma desculpa para quando for reprovado em alguma matéria", disse maldoso.

"Eu não serei reprovado."

"Não te vejo estudando muito."

"E eu não te vejo procurando um emprego. Vai passar o resto da vida sem fazer nada?", indagou, devolvendo a acidez dos comentários de Snape.

"Eu não preciso procurar emprego, recebo propostas por coruja."

"E por que não as aceita?"

"Porque não encontrei nada que me interesse."

"McGonagall te chamou para voltar a dar aulas de Defesa Contra as Artes das Trevas."

"Eu não volto para aquele castelo nem morto."

"Tem medo de se apaixonar por outro aluno?", provocou.

"Dificilmente isso aconteceria. Não existiria outro aluno tão arrogante e irritante quanto você."

"Mas você me ama..."

"Até hoje me pergunto como essa fatalidade foi acontecer", retrucou irônico.

Harry sorriu e se levantou da cadeira. Caminhou languidamente até parar em frente ao amante.

"Quer que eu te mostre por que isso aconteceu?", indagou com um sorriso de malícia.

Snape olhou para Potter, tentando parecer indiferente.

"Vou pegar uma poção para você, é melhor você descansar um pouco."

Harry não queria dormir, mas não desejava iniciar uma nova discussão com Severus.

"Então vou voltar para a cama", falou mau humorado.


Severus levou uma poção sonífera para o amante, depois foi para o pequeno laboratório improvisado que tinha feito no antigo quarto dos pais. Abriu o armário onde só guardava livros de poções e procurou um que pudesse conter uma poção que fizesse desaparecer cicatrizes. Escolheu um livro que achou apropriado e olhou rapidamente o índice. Achou a página da poção desejava e abriu nela. Leu os ingredientes e o modo de preparo duas vezes, em seguida seguiu para o armário com os ingredientes. Pegou tudo o que precisava e levou para a bancada de mármore. Acendeu o caldeirão e começou a preparar a poção.

Após algumas horas a poção ficou pronta. Severus colocou o líquido cinza dentro de um vidro e deixou-o em cima da bancada para resfriar. O ex-mestre de Poções tinha quase total certeza que o feitiço de sua autoria seria suficiente para sumir com a cicatriz de Harry. Mas caso o feitiço não conseguisse, ele queria ter outras opções para usar. Por isso fez aquela poção.

Snape abriu a camisa branca que vestia, expondo suas cicatrizes. Ele passou o dedo pelos relevos em sua pele e sentiu o ódio queimar dentro dele. Teria pena de Rodolphus quando eles estivessem cara-a-cara de novo. Severus olhou para a poção cinza. Sabia que ela não iria funcionar, mas resolveu tentar. Bebeu um gole da poção e fechou os olhos. Contou dois minutos silenciosamente e voltou a abrir os olhos. Fitou o próprio peito e viu que nada tinha mudado. As cicatrizes continuavam lá. Ele agarrou mais firmemente o frasco com a poção e depositou-o novamente em cima da bancada.

Ele precisava de um banho. Ver aquelas malditas marcas fazia mal a ele. Severus se sentia asqueroso, indigno de estar com Harry. Ele tirou as roupas enquanto caminhava até o banheiro. Chegou ao cômodo nu. Foi até a banheira e ligou as duas torneiras, quente e frio. Pouco se importava a temperatura da água, tudo que ele queria era se limpar daquilo.

Quando a banheira já estava com água pela metade, ele entrou nela. Pegou a esponja e começou a se esfregou febrilmente.


Harry acordou sentindo o Sol quente em seu rosto. Provavelmente já era hora do almoço. Ele havia descansado bastante dormindo. A poção sonífera de Severus era muito eficiente. Ele esfregou os olhos e se espreguiçou, depois trocou os pijamas por roupas. Saiu do quarto e foi atrás do amante.

No corredor ele encontrou uma trilha de roupas que iam até o banheiro. Potter franziu a testa. Sabia que o amante era asseado, mas dois banhos em um curto espaço de tempo? Severus não estava nada bem, pensou.

Potter abriu a porta do banheiro e viu o amante deitado na banheira se esfregando alucinadamente. A pele pálida de Snape estava agora totalmente avermelhada.

"Pare com isso, Severus", pediu.

Snape ignorou Harry e continuou se esfregando desesperadamente.

"Você vai se machucar", disse e foi até a banheira. "Eu mandei parar com isso!", falou e puxou a esponja das mãos de Snape.

O ex-professor olhou com agressividade para o rapaz.

"Você não manda em mim."

"Ah, mando sim. Seu corpo é meu e não admito que faça essa agressão a ele."

"Não fui eu que me agredi", disse indignado.

"Eu sei, mas nós vamos dar um jeito nisso", afirmou e passou a mão pelo peito de Snape.

Severus afastou a mão do garoto.

"Pegue uma toalha para mim", pediu. Desejava que o rapaz ficasse o mais longe dele possível enquanto ele estivesse sem camisa.

"Certo", disse e saiu do banheiro.


Harry e Severus estavam sentados a mesa da cozinha almoçando. Quer dizer, ao menos Potter comia. Snape se limitava a trocar os alimentos de lugar no prato.

Potter parou de comer e ficou observando o amante mexendo na comida.

"Pare de brincar com a comida e coma", mandou.

"Estou sem apetite."

"Quer que eu te faça um café, então?"

Severus olhou para o rapaz com um sorriso torto.

"Desde quando você sabe fazer café?"

"Já te vi fazer milhares de vezes. Não deve ser difícil. É só adicionar água quente ao pó, não é? Além do mais, o pior que poderia acontecer seria o café sair amargo, e você não se importaria com isso."

"Vamos lá, Harry. Me mostre suas habilidades culinárias", zombou.

Potter fez uma mostrou a língua para ele, mas se levantou. Abriu os armários procurando uma chaleira ou bule.

Enquanto o rapaz adicionava água ao bule, Severus convocou a poção que havia preparado. O frasco contendo o líquido cinza veio voando até sua mão.

Harry colocou uma xícara de porcelana negra em frente ao amante, depois adicionou o pó do café. Impaciente, tocou o bule com a varinha e murmurou um feitiço. Um instante depois a água estava fervendo. Ele colocou água quente na xícara e sorriu satisfeito.

"Pronto."

"Não vai se servir também?", perguntou Snape.

"Não. Detesto essas coisas com cafeína", disse e se sentou. Depois olhou para o frasco perto do amante que não estava lá antes. "O que é isso?"

Severus absorveu o delicioso cheiro do café. Podia não estar sentindo fome alguma, mas ele nunca recusaria uma xícara de café. Por isso bebeu um longo gole antes de responder.

"O café está ótimo, Harry. E isso é uma poção que fiz para você."

"Hum...", fez pensativo. Já ia perguntar para Snape sobre uma poção para ele próprio, quando ele voltou a falar.

"Tire a camisa", pediu.

Potter sorriu de malícia.

"Você já foi mais gentil, Severus. Antes você mesmo me despia..."

"Harry, ao menos por um tempo, deixe de ser um rapaz pervertido. Tire logo a camisa."

O sorriso de Potter minguou, mas ele fez o que Severus pediu.

Snape bebericou o café, depois apontou a varinha para o amante. Em seguida, realizou um feitiço não verbal no peito de Potter.

Harry sentiu um friozinho no lugar onde estava a cicatriz, depois viu Snape sorrir satisfeito. Ele olhou para o próprio peito e viu que não havia mais nenhuma marca. Ele também sorriu para Severus e resolveu provocá-lo.

"Não quer ver se o feitiço realmente funcionou? Ver de perto. Você podia sentir também..."

Potter achou que o ex-professor não fosse vir, mas surpreendentemente Snape se levantou e foi até Harry. Passou a mão gentilmente sob o peito do garoto, onde antes estava a cicatriz.

"Está perfeito de novo", disse sorrindo vitorioso.

Potter viu o mais velho fazer menção de se afastar, por isso, segurou-lhe a mão.

"Por que não me toca mais um pouco?", sugeriu.

"Hoje não."

"Quando então?"

"Quando eu estiver perfeito também."

"Então deixe que eu use esse feitiço em você."

"A azaração só funciona em cicatrizes que tenham sido feitas por outro feitiço. E as minhas não foram..."

Harry estranhou.

"Como foi que Lestrange te fez isso, então?"

"Com uma adaga."

O rosto de Potter ficou lívido. Involuntariamente ele se levantou.

"Eu vou matá-lo."

"Certamente não vai."

"Aquele maldito te fatiou como se fosse um pedaço de carne!"

"Eu vou fazer uma poção que seja efetiva. Todas as cicatrizes vão sumir."

"Por que você ainda não fez a poção? Você já fez a minha. Devia ter feito a sua primeiro!"

"Se você tivesse aprendido algo durante os cinco anos em que eu fui seu professor de Poções, saberia que não existem poções específicas para fazer desaparecer cicatrizes feitas por quaisquer objetos cortantes."

"Isso, então, só prova que essa matéria estúpida não serve para nada!"

Severus lançou um olhar afiado para Harry, como se ele tivesse o ofendido mortalmente. Mas o ex-professor não desejava discutir com Potter sobre a utilidade de Poções. Snape pegou o seu prato com a comida intocada e foi até o lixo. Jogou todo o alimento fora e colocou o prato na máquina de lava-louças. Ele depois voltou até a mesa para pegar sua xícara.

"Vou pesquisar algumas poções no laboratório", informou e saiu da cozinha levando a xícara de café.

Continua... : )


Comentários da autora: Capítulo meio chatinho, mas prometo que o próximo será mais interessante.

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