Obrigada a todos que acompanham a fic. Aqui vai o quarto capitulo. Este capítulo está um pouquinho mais longo que os anteriores. Espero que gostem. Um grande abraço a todos.

XXX

Ino estava parada do lado de fora do gabinete do Kazekage, apreensiva. Tinha imaginado que enfrentaria dificuldades, mas não pensara que Gaara não sabia sobre a sua presença. Aliás, ele nem sabia que ela viria. Isso realmente era preocupante. Endireitando os ombros, ela bate na porta e aguarda. Uma voz forte e profunda autoriza sua entrada.

- Com licença. – ela para na porta e olha para dentro. Sentada perto de uma grande mesa está Temari. Bastou um olhar para perceber a angustia da amiga. Depois ela procura Gaara e o encontra de pé olhando pela janela, de costas para a porta. Ele se vira e Ino se assusta com a aparência do rapaz. Mais magro e com olheiras escuras, Gaara era a imagem do cansaço.

- Por favor, queira sentar-se. – convida Gaara, educadamente, apontando para uma cadeira ao lado de Temari. Depois que ela se acomoda ele se aproxima e se senta também.

- Sinto muito que tenha vindo até Suna sem necessidade. É claro que será recompensada por seu tempo perdido.

- Não estou entendendo.

- Deverá retornar a Konoha ainda hoje, seus serviços não serão necessários.

- Será que poderiam me explicar, por favor. Estão me mandando de volta sem que tenha sequer iniciado minha missão. Poderiam me dizer o porquê?

- Ino, me desculpe, mas Gaara não está de acordo com sua presença. Foi irresponsabilidade minha escrever a Konoha sem o conhecimento dele. – responde Temari, nervosa. - Gaara não quer e nem precisa de seus cuidados. Foi um erro de minha parte. Eu exagerei

Ino olha para Gaara. Reparou que suas mãos tremiam. Podia ver pelo seu estado que ele precisava e muito de sua ajuda.

- Kazekage-sama, me desculpe se sou inoportuna, mas li o relatório médico que Temari enviou junto com a carta, e não me pareceu que ela estivesse exagerando. Você precisa de ajuda, sim.

Gaara olha com raiva para a irmã. Ela não tinha lhe dito que havia enviado os relatórios médicos. Aquilo era confidencial. Depois que se livrasse de Ino, teria uma conversa séria com sua irmã.

- Como minha irmã lhe disse seus serviços não são necessários. Por favor, retorne a Konoha e peça desculpa a Naru...

- Do que tem medo? – Ino interrompe o Kage. Ele a olha, surpreso com o atrevimento. – Sabe que precisa de minha ajuda. Sei que seus problemas são causados por pesadelos. Por que não me deixa ajudá-lo? Vim até aqui para isso. Sei que posso aliviá-lo de seu sofrimento.

- E como faria isso? Utilizando um jutsu que pode afetar minha memória e minha personalidade? Tem idéia do mal que pode causar a esta vila? Não posso arriscar a segurança de Suna. – Gaara estava fazendo um grande esforço para se controlar.

- Sei de sua importância para a Vila de Suna, Kazekage-sama. Não arriscaria sua sanidade mental. Como expliquei para Temari, esse jutsu só é usado em casos extremos, quando há risco de vida para o paciente. Há outras opções de tratamento.

Temari olha de um para outro. Estava preocupada com aquela discussão. Gaara não estava em seu estado normal e ela temia que ele perdesse o controle. A situação já estava bastante tensa, eles não precisavam de um incidente diplomático com a representante de uma vila aliada para piorar as coisas.

- Por favor, Ino. Como eu disse o erro foi meu. Perdoe-me. Esqueça e volte para Konoha.

- Não, de forma alguma. Vocês estão se esquecendo da reunião bienal do Kages? Do Acordo de Paz e União Entre as Vilas Ocultas? Você e Naruto lutaram muito para que ele fosse assinado. Vai jogar tudo para o alto agora? Uma das cláusulas do acordo prevê intervenção nas vilas caso os outros Kages julguem necessário. O que vocês acham que acontecerá se Gaara se apresentar neste estado? Olheiras, mãos trêmulas, cansaço extremo, irritabilidade. Pensem. Sou a melhor opção neste momento. Naruto sempre diz que você é ponderado e equilibrado, então pense no que aconteceria a Suna se fosse afastado do cargo.

Gaara refletiu sobre as palavras de Ino. Ela estava certa. Seus conselheiros não perderiam a oportunidade de substituí-lo. Muitos não aprovavam a aliança entre Suna e Konoha e se aproveitariam da ocasião para acabar com ela.

- Você está certa. Mas como saberei que pode me ajudar sem prejudicar minha mente?

- Dou-lhe minha palavra que não usarei jutsus mentais.

- Acha mesmo que pode me ajudar? – Gaara parecia cético.

- Tenho certeza. – Na verdade, Ino não tinha tanta certeza assim, mas precisava tentar. Agora não era apenas a saúde de Gaara que estava em jogo, mas todo um processo de Paz entre as vilas ocultas e o mundo ninja.

- Muito bem, então pode ficar. Aceitarei seus serviços. Temari, por favor, acompanhe Ino de volta a nossa casa e a auxilie no que for necessário. Nos vemos após o jantar.

Dizendo isso, Gaara voltou sua atenção para os papéis sobre sua mesa, como se não houvesse mais ninguém ali. Temari fez sinal para Ino para que saíssem.

Logo após a saída de ambas, Gaara volta a olhar pela janela. Esperava que aquilo desse certo. Parecia loucura que seu destino político estivesse nas mãos delicadas da kunoichi loira. Seus pensamentos se voltaram para Ino durante um tempo. Ele não ficara indiferente aos atributos físicos da moça. Ela era linda, inteligente e corajosa. Arriscara-se a desafiá-lo, coisa que pouquíssimas pessoas faziam. Seria interessante tê-la por perto. Com um suspiro, apagou a imagem de Ino da cabeça e decidiu escrever a Konoha. Ino tinha razão sobre a reunião dos Kages e ele queria alertar Naruto para a possibilidade de ser afastado do cargo de Kazekage. Sabia que podia contar com o apoio do amigo.

XXX

Ino e Temari chegam a casa. Não conversaram durante todo o trajeto. Ino está preocupada com a amiga. Percebera que Gaara não sabia que Temari havia enviado cópia dos relatórios médicos a Konoha, e pelo jeito, não gostara nada de descobrir isso.

- Temari, me desculpe se causei algum atrito entre você e seu irmão, mas foi necessário.

- A culpa não é sua, não tem do que se desculpar. O erro foi meu, mas não me arrependo. Você conseguiu convencer Gaara a receber tratamento. Isso fez tudo valer à pena. Como aprendeu tanto sobre política?

- Tenho ficado muito tempo na floricultura e quando o movimento esta calmo aproveito para ler o jornal. Foi assim que soube sobre o acordo e a reunião. Em sua carta você demonstrou preocupação com o futuro político de Suna. Sei o quanto Gaara preza seu cargo.

- Ino, não pense que meu irmão ama o poder, não é isso. Mas ele fez muito por Suna. Trabalhou para o nosso desenvolvimento, trouxe progresso e prosperidade. Criou novas frentes de trabalho, ampliou a academia de formação de ninjas. Implantou escolas, museu, biblioteca investindo na educação e capacitação dos jovens da vila. Se ele for afastado do cargo, será um retrocesso a Suna. Devemos muito a ele. Então, por favor, se pode realmente curá-lo, peço-lhe que o faça da melhor forma possível. Conte com minha ajuda no que for preciso.

- Certo, então para começar, preciso de um espaço para trabalhar. Pode me mostrar a casa para que eu encontre um local adequado para as sessões de terapia?

- Com prazer. Siga-me.

Ino andou por todos os cômodos da casa, que era enorme. Encontrou um quarto no andar de cima que lhe pareceu apropriado, porém precisaria remover a mobília. Temari mandou dois ninjas para ajudá-la. Ino explicou aos rapazes o que queria que fosse feito, e saiu com Temari. Precisava de outros itens que não tinha encontrado na casa de Gaara. As duas saíram para fazer compras. Com facilidade encontraram tudo o que precisavam no comércio local. Temari usou de sua influência para que tudo fosse entregue ainda naquela manhã. Depois ambas almoçaram ali na cidade mesmo. Ino aproveitou para comprar mais roupas confortáveis e apropriadas para seu trabalho.

-Vamos voltar. Quero terminar de arrumar o quarto, antes que seu irmão chegue.

Ino olhou ao seu redor com aprovação. O aposento ficara perfeito. Nas janelas que davam para o pátio interno da casa, ela havia colocado cortinas escuras para manter o ambiente com pouca luminosidade. Um grande tapete cobria quase todo o chão, sobre ele apenas alguns futons e uma mesa baixa, onde ela colocara uma aparelhagem de som simples, CDs e alguns frascos contendo óleo para massagem e essências para aromatizar. Nos cantos dois abajures para proporcionar uma luz difusa ao aposento. Providenciara, também, um colchonete de espuma para colocar no chão. Um belo rechaud de bronze completava a decoração do ambiente. Dando-se por satisfeita, Ino fechou a sala e se dirigiu para seu quarto. Iria se preparar para o jantar.

XXX

Gaara chegou a casa e se dirigiu aos seus aposentos para tomar banho e jantar. Iriam começar a terapia naquela noite. Estava preocupado com o sucesso daquela empreitada. Havia muita coisa em jogo.

Ao se aproximar da sala onde Ino o aguardava, sentia seu coração se acelerar. Não entendia porque se sentia assim em relação à jovem, creditou sua reação ao estado emocional em que se encontrava. Ino o aguardava sentada em uma poltrona, levantou-se assim que ele chegou e fez uma reverência.

- Podemos ir?

-Aonde vamos?

- Eu preparei um ambiente adequado para trabalharmos. Venha comigo.

Ino o guiou até a sala onde realizariam a terapia.

Ele entrou e acomodou-se em um futon em frente à Ino e ficou aguardando.

- Gaara me conte como foi o seu dia.

Ele olhou-a, curioso. O que ela pretendia?

- Por que quer saber como foi o meu dia?

- Por que para ajudá-lo preciso conhecê-lo melhor.

- Perda de tempo.

Ino não se irritou. Sabia que ele seria cético em relação ao tratamento e que colocaria barreiras no relacionamento dos dois, por isso se armou de todo paciência possível

- Vamos deixar uma coisa bem clara. Aceitou que eu o ajudasse da melhor forma que pudesse. Então terá que fazer o que lhe peço. Estou perguntando sobre seu dia, o que fez, com quem falou, quando se alimentou.

Gaara a olhou sério. Tinha dúvidas se aquilo daria certo, mas decidiu colaborar.

- Hoje fiz o que faço todos os dias. Me levantei muito cedo, pois perdi o sono após mais uma noite mal dormida. Me banhei e tomei meu café em meu quarto. Sai e fui direto ao meu gabinete. Despachei alguns documentos, conversei com você e Temari, trabalhei mais um pouco. Recebi a vista de dois agricultores que estão tendo problemas com ladrões em suas terras. Designei um ninja para ajudá-los. Parei para almoçar em meu gabinete mesmo. A tarde foi uma repetição da manhã, documentos, atribuição de missões, visitas. Voltei para casa, tomei banho e jantei em meu quarto e agora estou aqui fazendo este relatório.

- Por que faz suas refeições sozinho?

A pergunta o pegara desprevenido.

- Há algum tempo faço minhas refeições sozinho, pois Temari tem me importunado com suas perguntas sobre meus pesadelos. Sei que ela está preocupada, mas é difícil falar sobre isso.

A resposta sincera a surpreendeu. Com certeza ele queria colaborar.

- E o que tem feito em seus momentos de descanso e lazer?

- Eu sou o Kazekage. Não tenho tempo para descanso e lazer.

- Você é humano, Gaara. Tem que reservar um tempo para se distrair. Tsunade sempre tinha um tempo para tomar um saquê e comer um churrasco com os amigos. E Naruto montou uma sala de vídeo em sua casa. Toda semana ele chama o pessoal para assistir um filme, e uma vez por mês vai até a capital do País do Fogo para se distrair no cinema ou em alguma festa. Nos reunimos sempre para um almoço ou jantar na casa dele. E todos os dias ele almoça no Ichiraku, onde sempre tem um conhecido para lhe fazer companhia. Você deveria fazer o mesmo, descansar e se divertir um pouco.

- No que isso me ajudaria? Acha que me divertindo acabaria com meus pesadelos?

- Você sabe o que são pesadelos, Gaara? – Diante do silêncio dele, Ino começa a explicar. - O sonho é a realização de desejos, de um ou de mais desejos, é sua única função, seu único fim. Mas quando não se atinge essa finalidade, dá-se então o pesadelo. É que, nem sempre os sonhos podem ser límpidos, simples ou compreensíveis. Porque quando a realização de desejos não pode ser elaborada de maneira clara, até mesmo para a pessoa que sonha, os sonhos se utilizam de outro recurso para alcançar o mesmo fim. Assim, mesmo os sonhos tidos como "pesadelos" pela angústia que causam, são satisfações de desejos inconscientes.

- Então, segundo sua opinião, o meu problema são desejos insatisfeitos? Isso é coisa de criança, Ino.

- Pesadelos quase sempre envolvem sentimentos de impotência, que na maioria dos casos vem da infância. É difícil pessoas adultas terem pesadelos constantes. Alguns médicos consideram que uma súbita incidência de pesadelos pode ser sinal de doença mental iminente. Constatou-se que pesadelos são freqüentes em casos de esquizofrenia e que também podem preceder ou acompanhar a depressão ou outras doenças sérias.

Gaara olhou para o chão. De repente o medo o assaltou. Tudo o que Ino lhe dizia fazia sentido, porém o assustava. Levantou e começou a andar pelo quarto, como um animal aprisionado. Parou próximo a mesa e de costas para Ino.

- Acha que estou ficando louco?

-Gaara, no mundo shinobi somos ensinados a refrear nossas emoções e sentimentos, que somos apenas uma ferramenta de batalha e devemos suportar todo o peso que colocam sobre nós. Somos ensinados de que um shinobi só é humano depois de ser shinobi, porém nada disso é verdade. É impossível permanecer passivo diante da brutalidade e da violência do mundo shinobi, então nossas mentes precisam de uma válvula de escape. Um descanso.

- O que devo fazer, então? Tirar férias? Isto está fora de cogitação.

- Já meditou alguma vez? – diante da negativa dele, ela continua. – Então vamos começar a meditar. Primeiro você aprenderá a relaxar. Sente-se aqui de forma confortável e feche seus olhos.

Gaara obedeceu. Com as pernas cruzadas e de olhos fechados, aguardou as instruções de Ino. Ouviu a jovem andando pela sala, logo em seguida sons da natureza invadiam o ambiente, pássaros cantando, água correndo, vento batendo nas folhas de uma árvore. Em seguida, Gaara sentiu um aroma de sândalo pairando no ar. Ao longe ouvia a voz de Ino, apenas um leve sussurrar.

-Desligue sua mente, deixe seus pensamentos fluírem sem repressão. Solte os braços. Inspire. Expire. Continue assim.

Parecia que a voz de Ino vinha de muito longe. Gaara se sentia leve, como se todo o peso do mundo tivesse sido tirado de suas costas. Algumas imagens se formaram em sua mente. Imagens agradáveis de jardins com flores, montanhas, riachos. Tudo se misturava de forma tranqüila. Não tinha idéia de quanto tempo tinha se passado. Aos poucos foi retornando a realidade. Ouvia uma voz meiga a lhe chamar e quando abriu os olhos deparou com o rosto de Ino a poucos centímetros do seu. Ela lhe sorria.

- Como se sente?

Ino ficou aguardando a resposta. Gaara a olhava fixamente. Seus rostos estavam próximos e Ino podia sentir o perfume masculino que o rapaz exalava. Um perfume suave e amadeirado. Ela se afasta um pouco e aguarda a resposta do rapaz.

Gaara sentia todo seu corpo reagir à proximidade de Ino. Precisava se controlar.

- Estou ótimo. Acho que já é o suficiente por hoje. Que tal continuarmos amanhã?

Ela concorda com a cabeça. Ela olhava hipnotizada para olhos incrivelmente claros dele. Eles se levantam e se despedem. Gaara sai em direção ao seu quarto e Ino fica arrumando a sala. Após deixar tudo em ordem, ela também vai para seu quarto. Sentia que algo estava diferente, não sabia dizer o quê, mas há tempos não se sentia tão bem e tão viva como naquele momento. Sentia-se em paz consigo mesma. Após um banho, ela apagou a luz e deitou-se, em poucos minutos estava dormindo. Em outro quarto daquela casa imensa, Gaara também se encontrava pronto para dormir. Fechou os olhos e viu um rosto meigo e lindo se formar em sua mente. Com os pensamentos em Ino, ele adormece.