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A/N: Não vou ficar aqui horas me explicando. Vida real tomou conta, a inspiração foi dar uma volta e quatro meses e um óleo de peroba depois eu estou voltando ao ritmo de escrever. Mil desculpas e obrigada a todos que se importaram, correram atrás e cobraram.
Aqui está mais um capítulo betado pela fofa da cella_es – e confiram as histórias dela, o link está no perfil. Somos beta uma da outra e ela merece ser lida.
Capítulo 7 – A Possibility.
BPOV
Nem lembrava o que eu poderia ter sonhado. Tudo ficava branco em minha mente, e geralmente eu tinha boa memória para sonhos. A única coisa que eu recordava, era de acordar com meus seios doloridos, minha mão entre minhas pernas, me pressionando por cima da calça e uma insatisfação que me fez acordar às nove, em um domingo, dia seguinte ao meu aniversário. Ou assim eu pensava, pois ao olhar o celular com a bateria baixa, já marcavam duas da tarde.
Como?
A mistura de vergonha e desespero me despertou e eu dei um pulo da cama. A casa estava silenciosa.
"Mãe?" Escutei barulhos de talher ao fundo quando ela atendeu no segundo toque.
"Oi, filha, acordou?"
"Onde vocês estão?"
"Ué, filha. Não lembra? Tentei te acordar de todas as maneiras pra gente sair pra almoçar com seus avós, mas você quis ficar com sua tia. Ela disse que ia no mercado com Ethan e já estava chegando."
"Ah..."
Mas algumas clarificações e eu descobri que poderia estar desenvolvendo sonambulismo, porque fui bastante coerente dispensando um almoço de família. Porém, isso me dava pelo menos algum tempo para pensar e organizar os acontecimentos da noite passada.
Quando entrei no chuveiro morno lembrei que logo após o parabéns Edward parecia enfezado discutindo com os pais. Não quis chegar perto por não saber o que falar e para não atrapalhar algo tão íntimo. Isso me preocupou de alguma forma, mas eu não conseguia desvirtuar meus pensamentos por muito tempo sem pensar no beijo – ou quase beijo. Acabamos nem nos despedindo. O que aquilo tudo tinha significado? E por que depois de tanto tempo, só agora fui reparar nele como algo a mais? Ele sempre esteve ali. Será que eram os hormônios da idade mesmo? As teorias eram tão ridículas quanto a minha vontade de ligar para Angie para contar tudo... ou ligar para ele.
Enrolei a toalha na cabeça, já colocando uma muda de roupa mais caseira e ouvi os passos apertados e pequenos de Ethan. Às vezes eu me preocupava com ele, pois tinha crescido sempre com muitas crianças para brincar e ele ficava de ping-pong entre a casa do pai e da mãe. Ao lembrar de minha tia, lembrei de seu novo namorado que me fez pensar em Jasper e logo fiquei irritada.
Nossa, eu estava mesmo em todos os lugares, precisava me focar.
Peguei o celular para ligar para Angie e já tinha uma mensagem de texto dizendo para eu não esquecer da estreia de Camp Rock 2, e que eu ligasse mais tarde para saber das novidades.
O número dele estava a poucos nomes a baixo na minha lista.
Não, eu não devia ligar. Iria falar o quê?
Uma mensagem de texto seria mais informal? Mas o que digitar, exatamente?
Juro que deveriam fazer manuais para esse tipo de situação. Como algumas meninas conseguiam lidar com tantos namorados, eu nunca iria descobrir. Larguei o telefone como se fosse algum bicho, precisava parar de pensar e me distrair. Desci as escadas e cumprimentei minha tia com um aceno, que tentava arrumar Ethan para ir à casa do pai.
"Bellie?" Escutei minha tia me chamar.
"Hmm" Respondi tomando o suco.
"Eu vou levar o Ethan na casa do pai. É o final de semana dele..." Olhei confusa para seu rosto. Eu já sabia disso e ela sabia que eu sabia. "Ele mandou esse cartão pra você."
Não era diferente dos outros anos. Sempre um cartão de qualquer loja e uma nota de cinco ou dez dólares. Dessa vez ele ainda fez um esforço maior e o cartão vinha com uma daquelas musiquinhas ruins que grudam na cabeça durante dias. Torci o nariz e agradeci.
"Sabe, eu vi você e um amigo seu... ontem."
Ela tinha escolhido o momento que virei de costas para falar e eu agradeci mentalmente que não poderia ver como meu rosto tinha ficado quente de repente.
"Ele é um dos Cullen, não é?" Terminei de beber meu suco e coloquei o copo na pia, apenas assentindo minha cabeça como resposta. "Whitlock sempre achou que você e Jasper teriam algo, julgando pelas personalidades fortes." Escutei sua risada e seus pés se aproximando. "Mas o garoto Cullen é bonitinho."
Olhei pela primeira vez para seu rosto, que tinha um sorriso genuíno. Eu podia agradecer por ela ser nova, e seus olhos tinham a promessa de silêncio. Mesmo assim minhas bochechas não deixaram de ficar vermelhas. Ela piscou e saiu da cozinha. Foi inevitável não relembrar do beijo. Eu queria tanto contar a Angie. Mas tentei ligar três vezes e ela não me atendeu. Mandei uma mensagem de texto, mas ainda não havia tido resposta. Eu precisava me ocupar com alguma coisa para passar o tempo – qualquer coisa.
EPOV.
7:18 a.m
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9:27 a.m
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10:04 a.m
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11:22 a.m
Uma buzina longe me fez grunhir e desistir de pegar mais alguns minutos de sono. Não lembrava a hora que já tinha deitado na cama depois da merda de discussão que estava acontecendo ontem.
Assim que voltei para a mesa, tentando observar Isabella de longe rodeada por familiares cantando o bendito parabéns, ouvi meus pais discutindo. Um sentimento estranho esquentou a boca do meu estômago e eu já estava cansado demais para aquela merda toda. Eu não queria saber o motivo, nem estragar a festa de aniversário dela. Pedi para que fossemos embora alegando não me sentir bem. Acreditando ou não em minhas palavras, eles decidiram que era realmente o melhor a se fazer.
"E aí, tá de ressaca?" Emmett. Babaca.
"Não. Acabei de acordar." Meu humor não estava dos melhores.
"Como não? Ninguém batizou nada por lá?"
"Batizar como, Emmett? Não. Não tinha álcool e nem eu fui atrás." A casa estava vazia, eu percebi quando desci as escadas. Ou pelo menos ninguém estava a vista. Me joguei no sofá esperando a resposta do meu primo, ele viu que eu não estava para brincadeiras.
"Que foi, cara? Deu merda aí em casa de novo?"
"Sempre dá Emmett. Mas não é isso. Sei lá..."
"Ué, se não é isso, o que é?"
"Eu tô cansado dessa porra toda. Nem na festa da Isabella eles conseguiram segurar a pose que tentam manter. Tivemos que sair na hora do parabéns, nem nos despedimos dela... me passei por um idiota."
"Ei, ei, ei... Tá se martirizando por que? Por que se passou por idiota?"
Merda. Eu não tinha falado dela para ninguém.
"Eu meio... que..." respirei fundo "Eu fiquei com ela, tá legal?"
"Whoa! Tá ótimo, Ed! Não pensei que você gostasse de meninas de cidade pequena. Mas a Bellinha é gostosinha, não é?"
"Você não tem intimidade pra chamar ela de Bellinha, Emmett." Senti meu rosto esquentar. Não por ciúmes, mas por entregar demais qualquer coisa que poderia estar sentindo.
"Calma aí, companheiro. Relaxa que eu não sou pedófilo não. A menina é bonitinha, mas só tem dezesseis anos. Meu negócio é outro."
"Argh. Enfim, eu fiquei com ela e nem me despedi. Não sei se ela ficou com raiva, se não gostou. E isso por culpa dos meus pais."
"Só tem um jeito de descobrir..."
"Não."
"Sim."
"Não."
"Liga pra ela."
"Não, Emmett."
"Vai na casa dela..."
"Não!"
"Anda com ela pra algum lugar, explica que teve que sair cedo."
"E depois o que?" Perguntei impaciente.
"Quer que eu te ensine a nadar e te dar bóias, Edward? Não é por aí. Você gostou de ficar com ela?"
"Emmett..."
"Gostou ou não gostou?"
"Gostei, claro."
"Então não tem papo. É ir atrás dela e ficar de novo. Acho até legal você arrumar uma namorada, sabia?"
"Pra que? Já em dois anos a gente se forma..."
"Edward, em dois anos o mundo pode acontecer. No momento as coisas estão uma merda em casa. Tem uma menina que você tá afim e ela parece estar afim de você. Aproveita a vida, cara. Ficar se prendendo em casa em estudo e ficando puto quando tem briga, pra descontar no boxe não vai te levar a nada." Ele explicou. "Você falou errado, não é já... Ainda tem dois anos pra aproveitar com ela. E se for legal, e vocês estiverem afim, os planos podem ir pra frente."
"E..."
"E se não der certo, foi bom enquanto durou. E você vai amar a faculdade."
"Babaca." Eu ri. Emmett não tinha jeito.
"Sério, cara. Sai de casa, se não você pira. Vai conhecer a menina direito, fica com ela... Quanto tempo você não fica com ninguém?"
"Tchau, Emmett. Obrigado pelo conselho."
"Logo se esquiva das perguntas não é?" Ele gargalhou e eu desliguei com o humor menos pior. Peguei um casaco com capuz e vesti antes de pensar duas vezes e desistir. Me recusei a pegar a chave do carro e calcei o tênis antes de sair pelas ruas.
Os carros na rua de Isabella me mostravam que seus parentes ainda estavam na casa dela. Quase dei meia volta para casa. Quase. Se não fosse sua tia e seu primo saindo e dando de cara comigo.
"Oh, olá Edward!" Ela cumprimentou e Ethan ficou nos observando.
"Umm... Boa tarde..." Eu não iria lembrar o nome dela por nada.
"Heide." Ela sorriu. Seus olhos passaram algo que eu não pude perceber. Será que ela havia me reconhecido? "Veio ver Bella, certo?"
"Isabella, isso." Minhas respostas estavam mecânicas, mas essa mulher estava me intimidando com seu sorriso sei-de-tudo.
"A porta está aberta, pode entrar. Eu estou atrasada, tenho que levá-lo na casa do pai." Heide estalou a língua repreendendo Ethan, que colocou a mão na boca como se tivesse aprontado alguma. Eu sorri para ele e assenti com a cabeça para sua mãe. "Ela está lá em cima no quarto. Pode ir."
"Mas..."
"Não tem ninguém em casa, ainda." Ela piscou. Merda, ela sabia de alguma coisa.
"Hmmm, obrigado?"
"De nada. E mantenha a porta aberta."
Era ridículo, mas meu rosto enrubesceu. Não era como se eu fosse atacar a porra da garota. Só queria passar um tempo com ela, conversar. Mas também não queria dar esse tipo de detalhe à sua tia. Antes que pudesse me explicar, ela já estava prendendo Ethan no banco de trás com o cinto de segurança e eu tinha que fazer a escolha rápido.
Sacudi a cabeça, tentando dispersar o drama em minha mente e abri a porta, engolindo audivelmente. Era ridículo esse nervosismo todo. Isabella não era um bicho de sete cabeças. E o máximo que ela poderia fazer era dizer não. Ou estar chateada comigo. Mas que merda! E se ela estivesse realmente chateada? Só tinha uma maneira de descobrir... Coloquei a voz de Emmett como um mantra em minha cabeça e varri o lugar com os olhos.
Quarto. Lembrei. Ela estava no quarto.
Subi os degraus de dois em dois, sentindo meu sangue circular em minhas orelhas antes de escutar sua voz murmurar alguma coisa, da segunda porta no corredor. Eu jamais esperaria uma imagem daquelas, mas de novo, não apostaria nada contra as reações inusitadas dessa garota.
He Could Be The One – Miley Cyrus.
Isabella estava sentada de costas para mim, em uma cadeira com rodinhas, e a perna esticada na cama. Suas ações consistiam em alcançar os dedos dos pés para pintá-los com um esmalte verde. E ela não murmurava nada. Seus fones de ouvido estavam altos até para quem não estava ouvindo a música, e ela cantava junto – não muito bem, digamos de passagem. Mas era uma bela imagem, e engraçada. Como ela.
He's got something special
He's got something special
And when he's looking at me, I wanna get all sentimental
Ela balançava a ponta dos dedos, dificultando a própria tarefa. Fiquei admirado a assistindo enquanto voltava no potinho de vidro e direto para o dedo. Quando se esticava, uma parte de sua blusa levantava e sua pele branquinha aparecia por baixo. Suas covinhas ficavam pronunciadas e eu precisava chamar sua atenção de alguma forma antes de ganhar uma ereção.
He's got something special
He's got something special
I can hardly breathe, something's been telling me, telling me maybe he could be the one
Escolhi o momento que ela se esticou novamente, para pintar a última unha para puxar sua cadeira fazendo sua perna despencar da cama e desequilibrá-la.
"He could be the one, he could be the oneeeeee... Ow ow!" A rodei de frente para mim e segurei nos braços da cadeira para pará-la. "Pooooorr... Oi."
Ri de seu quase palavrão e do jeito que guardou a língua. Mas logo me ajeitei, voltando a ficar em pé e ela sorriu parecendo aliviada.
"Sua tia estava saindo, me deixou entrar." Expliquei em uma porra de velocidade ridiculamente rápida. Baixa a bola, cara.
"Ah, sim. Ela foi levar Ethan na..."
"Casa do pai." Concordei com a cabeça, vendo-a de cima. Suas pernas estavam descobertas, e um short que não fazia parte desse grupo de roupas decentes cobria sua calcinha. Engoli seco desviando o olhar. "Eu vim... hmmm pra te chamar pra fazer alguma coisa. Se você quiser, e não estiver ocupada. Eu sei que seus parentes ainda devem estar aí, por causa dos carros lá fora."
"Claro!" Ela piscou fechando o esmalte. "Só tenho que ligar pra avisar a minha mãe, que aparentemente falou com meu eu sonâmbulo e me esqueceu em casa antes de sair pra almoçar com a minha família."
"Certo."
Era uma das poucas vezes que tínhamos um momento estranho. Sempre tínhamos algumas brincadeiras e implicâncias e agora parecia apenas estranho.
Quando ela levantou, eu tive que olhar para todos os lugares menos para a bunda... tão redonda, empinadinha, minhas mãos formigavam. Ela não era cheia de curvas, como um mulherão que aparecia fazendo garganta profunda em outro cara. Mas seus contornos eram bem feitos. Ela percebeu meus olhos em seu corpo e virou o rosto constrangida.
"Eu vou me trocar e ligar para a minha mãe. Você pode esperar aqui no meu quarto mesmo, ou na sala, ou a vontade se quiser pegar algo na cozinha, ou mexer no computador..."
"Eu entendi." Respondi, quando seu fôlego se perdeu entre as palavras.
"Certo. Já volto."
Sentei na cadeira que a pouco ela estava e não resisti ao pegar seu iPod. Aquela merda era pequena, como ela conseguia não perder? Ou de repente minha mão que era grande demais. A lista tinha diversas cantoras countries, outras pops, alguns grupos, bem diferente do que eu ouvia. Até um pouco infantil, mas se parecia com ela. A lista era intitulada BANHO, e eu guardei o assunto em minha cabeça para não esquecer de perguntar.
Meu estômago roncou, me lembrando que não tinha comido nada antes de sair. Parece que quando eu estava com a cabeça no lugar, meu corpo reagia novamente. E minha cabeça tinha que estar logo aonde. Isabella entrou com o cabelo preso e o celular na mão.
"Hmmm, se importa se eu só tirar o borrado dos dedos?" Seu rosto estava vermelho e me fez sorrir. "É que não dá pra colocar sapato fechado ainda..."
"Tá bom assim. Nem dá pra ver." Franzi a testa olhando para seus pés.
"Dá sim." Ela teimou olhando para os dedos de novo. Sim, dava pra ver. Mas não era como se todos fossem ficar reparando em seus pés.
"A gente só vai pegar algo pra comer, e ir pra outro lugar sem pessoas, não precisa." Levantei entregando o iPod a dona. "Vamos."
"Calma aí!" Ela passou por baixo do meu braço, que tentava bloquear sua passagem. "Nós vamos onde?"
"Não sei." O clima estava ficando mais informal. "Você quer comer em algum lugar específico?"
"A gente podia pegar algum lanche no 'Eclipse'... se você quiser."
"Pode ser sim."
"Você está de carro?"
"Não, eu vim a pé." Ela sorriu de canto e se virou, pegando uma chave de carro. "Não é tão longe, Isabella. Dá pra ir a pé."
"Mas eu tenho um carro, agora. E essa é a perfeita situação pra eu usá-lo."
"Dá pra se caminhar essa cidade toda em um dia, a pé." Revirei os olhos exasperados.
"Edward, por favor." Sua expressão murchou. Que porra de expressão era aquela? Por que os olhos pidões? "Eu já não vou poder sair de Forks de carro. Esperei tanto pra andar nele, e você nem trouxe o seu. Por favor."
"Por que essa preguiça de andar?" Impliquei cedendo, e vendo-a colocar a chave no bolso de trás da calça jeans.
"Eu guardo minha energia pras aulas de vôlei no colégio."
Dessa até eu tive que rir. Mas em troca, recebi um beliscão no braço e alguns argumentos de como ela se divertia independente de ser ruim no esporte. Era estranho vê-la dirigindo, era concentrada e focada em cada movimento que deveria ser feito, e eu não conseguia tirar os olhos dela.
"Hmmm, ontem eu não me despedi de você." Eu teria que começar essa conversa cedo ou tarde. Era mais fácil fazer como um band-aid.
"É, percebi que vocês foram embora cedo." Ela não parecia chateada. "Seus pais estão bem? Quer dizer, eles pareciam aborrecidos." Isabella me olhou de relance, mas voltou a olhar para frente quando me viu a encarando.
Grunhi me remexendo no banco e exalei pesado. "É complicado." Não queria passar nosso tempo falando da falta de educação dos meus pais. Aliás deles, era a última coisa sobre qual eu queria falar.
"Tudo bem. Não precisa explicar se não quiser. Só perguntei pois minha mãe comentou quando entregou algumas lembrancinhas..." Ela revirou os olhos.
"Que lembrancinhas?" Perguntei com um sorriso implicante. Ela sacudiu a cabeça e vi seu rosto ficando vermelho. "Fala, Isabella."
"Ah, foi um CD com algumas músicas que ela escolheu do meu iPod." Respondeu parecendo ainda zangada. Esperei que continuasse. "A capa era uma foto minha. Foi tão patético." Ela estacionou o carro.
"Ela pegou da sua lista de BANHO?"
Isabella arregalou os olhos e me encarou ainda mais sem graça, mas me acompanhou na gargalhada. Antes que ela fizesse mais alguma coisa, pulei fora do carro. Na hora de pagar os lanches foi outra merda de carnaval. Apesar do clima estar mais leve, ela podia ser teimosa. Mas eu dava meu jeito.
"Quem vai pagar afinal?" A atendente perguntou já cansada da nossa discussão.
"Você já tá dirigindo, deixa que eu pago."
"Eu quis pegar o carro. Você andou até a minha casa."
"Andei porque não sou aleijado. Eu quem te chamei pra sair."
"Meio a meio." Ela pediu por cima do meu ombro enquanto eu tentava bloquear sua passagem com o corpo.
"Não."
"Edward!"
"Falar meu nome não vai fazer eu mudar de idéia."
"Por favor, por favor, por favor" Passei um braço em volta de sua cabeça e tampei sua boca com a minha mão antes de deixar a nota em cima do caixa e carregá-la para fora do estabelecimento.
"Mash que chhhhatu Edulwaaa" Ela foi falando contra a minha mão até chegarmos no carro.
Como eu disse. Eu dei meu jeito.
Não foi para muito longe que eu instrui nosso próximo lugar. Era como um condomínio de casas aberto que dava para uma vista legal de Forks. Não que fosse uma cidade muito bonita e iluminada a noite. Mas um lugar legal que eu gostava de correr quando não treinava boxe. Nós descemos e ficamos encostados na frente do carro comendo o lanche já quase frio.
"Então, vai me explicar a lista de músicas?"
"É só uma lista que eu uso pra quando coloco o iPod no banheiro." Ela deu os ombros. "Você não tem uma?"
"Não. Eu coloco as músicas que gosto no iPod e programo o shuffle. Eu gosto de todas."
"Sim, mas as vezes nós temos aquela vontade de ouvir especificamente um tipo de música. Como as minhas, animadas e tal."
"Não. Nunca nem pensei nisso."
Cada um se ocupou com seu lanche, até que ela quebrou o silêncio dessa vez.
"Eu adoro música. Digo, música no geral. De todos os tipos." Ela falou e eu fiz uma cara. Isabella sorriu. "É verdade! Acho que se um dia eu fico sem escutar música, é capaz de ficar mal humorada."
"Me lembra de andar com o iPod no bolso então."
Eu vi de relance que ela tinha congelado no lugar, mas que um sorriso pintou nos lábios que estavam tão vermelhos. Isabella parecia mais relaxada, e eu também. Eu gostava da sua companhia. E porra, quanto tempo eu não me sentia leve, tranquilo? Que pudesse só passar o tempo e falar de tudo, ou nada.
"Sabe, minha tia viu a gente ontem."
Terminei de engolir e bebi meu refrigerante, ignorando meu sangue acelerando e batendo forte no peito.
"Ela falou alguma coisa?" Perguntei baixinho.
"Não." Eu pude escutar o sorriso em sua voz.
Virei meu rosto, encontrando Isabella encarando o que sobrou dos papéis em suas mãos e parei em frente a ela. E se eu nunca tinha ficado nervoso na vida, hoje tinha sido a vez. Apoiei com o pulso o refrigerante no capô do carro e encostei meu rosto em sua testa.
"Você quer de novo?" Passei minha boca no topo de sua cabeça.
"Muito."
Quando nossas bocas se encontraram, eu quis me dar um chute por ter esperado tanto. Era diferente do que tínhamos experimentado no dia anterior; tinha mais vontade e até mais velocidade. Finalmente provei seu gosto e nossas línguas se encontravam em um sincronismo incrível. Ficamos literalmente sem nos mexer, apenas nos concentrando em nos conhecermos com bocas e línguas. Como se tivéssemos sede um pelo outro.
"Agora sim..." Eu sorri, convencido, e ainda sem desgrudar de sua boca e nem conseguir abrir os olhos.
"Hmmm..." Ela pressionou nossos lábios novamente, e sorriu. "Adoro essa música."
"Que música?" Perguntei não tendo reparado em nada. Uma voz longe cantava com acompanhamento de violão.
Fui dar mais um passo para a frente, mas algo bateu no meu pé e eu vi que ela tinha derrubado seu saco com batatas no chão.
"Porra, jogou no chão?" Abaixei para pegar imediatamente.
"Caiu." Ela sussurrou. "Você me distraiu." Olhei para cima, franzindo o cenho por causa da claridade e fiz uma cara. Isabella riu. Eu podia conviver com isso.
"Vou jogar no lixo."
Me afastei e percebi a música ficando um pouco mais clara. A voz era, no entanto, feminina e eu sabia que o cantor era um cara.
You gave my life direction
A game show love connection
We can't deny
I'm so obsessed
My heart is bound to beat
Right out my untrimmed chest
Em uma varandinha, eu pude ver que era a menina nova – Alice. Tinha um violão no colo e o laptop no chão. Era a primeira vez que eu a via sorrir, enquanto cantava. Talvez ela estivesse com saudades de casa. Porque era uma merda ficar em um lugar e não se sentir a vontade.
"Que horas são agora?"
"Quatro e vinte cinco." Respondi quando cheguei mais perto.
"Hmm, minha mãe ligou perguntando onde eu estava."
"Já quer voltar?"
"Acho que dá pra ficar até começar a escurecer. Ela só se preocupa de eu voltar a noite." Ela explicou e eu concordei com a cabeça. Também não queria que ela voltasse sozinha a noite. "Aí eu te levo em casa."
Antes que eu pudesse protestar, Isabella me atacou com os braços em volta do pescoço e cobriu minha boca com a sua. Não era eu quem iria parar.
APOV.
"Rog!" Caí na gargalhada quando o vi no fundo fazendo algumas caretas.
Fazia tanto tempo que eu não falava com todos eles juntos, que qualquer pequena coisa me fazia sentir explodir em risadas. Resolvemos fazer uma conferência no skype essa semana para conversar de como estavam nossas vidas. Meus dois melhores amigos tocando e cantando do outro lado da tela fazia meu coração disparar de saudades.
Crescemos juntos e tocávamos sempre juntos. Eu sabia que tinha que aceitar a minha realidade do momento, mas não conseguia deixar de sentir aquela dorzinha que continuava a martelar dentro de mim. Uma música se transformava em outra e no final estávamos só risos. Apesar de ser pelo computador, foi um dos melhores dias da minha semana. Quem diria que um domingo poderia ter se tornado divertido?
"Ah, cara. Eu espero que você consiga vir pra casa da sua avó nas férias. Não se passou nem uma semana de aula, e eu já tô sentindo sua falta."
"Também sinto a falta de vocês, David." Sorri triste já sentindo meus olhos cheios de lágrimas.
"Não chora, Brandon."
David era super protetor com todos seus amigos. Era raro ele confiar em alguém, mas os que ele confiava sempre estavam por perto e ele defendia com unhas e dentes. Era totalmente um contraste de mim; alto demais, até um pouco magro demais, o cabelo vivia desgrenhado e olhos castanhos. Já Rog era o palhaço de nós três. Tinha a língua afiada, soltava veneno para todos os cantos, mas fiel. E gay.
"Rog, como está o boyzinho?"
"Tá. Em casa. Um fresco que não quis vir." Rog rolou os olhos exasperado.
Era difícil eu conseguir fazer amizade com meninas. Não gostava dos gênios e maldades que falavam. Eram sempre todas iguais, fazendo e falando coisas das quais eu não me sentia a vontade. Estar com os garotos era mais tranquilo, eles não se importavam com marcas de roupas, tamanhos, que cabelo usar, o que comer, onde ir, com quem andar. Não tinham julgamentos.
Rog, no entanto, podia se passar pela amiga menina que eu nunca tive. Ele gostava de maquiagem, e me fazia de sua boneca quando estávamos juntos. Eu até gostava, pois em vez de apontar os defeitos que eu podia melhorar, ele apenas melhorava o que eu já tinha.
Sempre fui a mais nova entre eles, ou em qualquer lugar, na verdade. Mas isso nunca nos impediu de passarmos tempo juntos. Quando estávamos nos apresentando em uma mostra na escola, descobrimos nosso passatempo preferido em comum: música. Rog tinha uma voz ridiculamente bonita e David sabia tocar praticamente todos os instrumentos. Eles gostaram da minha voz na apresentação e assim fomos passando mais e mais tempo juntos.
Assim que terminei 'Hey Soul Sister' – que eles insistiram que eu aprendesse - eles começaram a cantar 'Billionaire', e estava lindo. Foi quando eu vi a bateria do laptop terminando que enxerguei de longe Bella e Edward encostados em um carro. Eu não podia negar, eram bonitinhos juntos. E pareciam pessoas legais. Eu estava cansada de ouvir minha mãe dizendo o quanto era importante para mim, que eu conhecesse pessoas, para não ficar trancafiada no quarto o dia todo. Mas não era tão simples assim.
Fiquei ainda algum tempo observando-os rindo, e conversando tão a vontade um com o outro e não pude deixar de sentir aquela cosquinha gelada de ciúmes na boca do estômago. Eu não conseguia me ver com alguém desse jeito. Não do jeito romântico de me abraçar por completo e me levantar para colocar em cima de um capô do carro. Não, não desse jeito.
Achei que decidiram ir quando Bella desceu e começou a entrar no carro, Edward ainda olhou para trás, e eu podia jurar que ele olhou para mim. Sacudi a cabeça e entrei de volta no quarto que não tinha nada a ver comigo.
"Meninos, a bateria tá acabando. Vou colocar pra carregar e outro dia a gente se fala, tá legal?"
"Boooooo!" Rog gritou, e eu sorri balançando a cabeça.
"Só não vou reclamar porque já são dez da noite aqui." David anunciou firme. "Mas não fica mais esse tempo todo sem falar comigo não, ok?"
"Pode deixar. Vou tentar mandar emails ou entrar no Facebook, não sei."
"Isso." Telefone de Rog tocou e ele saiu falando com o boyzinho novo dele.
"Psiu." David sussurrou, vendo que eu estava perdida em pensamentos. "Se anima, conhece gente. Apesar de que eu queria você aqui pra gente bagunçar juntos, não podemos fazer nada quanto a isso. Então é enfrentar o que tem que enfrentar, entendeu?"
"Eu sei. Eu sei."
"Vou desligar agora. Se cuida."
Fui dormir cheia de saudades de casa, dos meus amigos, mas com a promessa de que tentaria mudar alguma coisa. Por mim, e pelas pessoas a minha volta. Sonhei que ria com pessoas desconhecidas e me sentia a vontade com todas elas, e acordei no dia seguinte com a esperança que coisas boas poderiam acontecer. Era uma possibilidade.
N/A: E aí, o que acharam? Para não pensar que vai demorar mais meio século pro próximo capítulo, aqui está um spoiler:
"Então a gente se vê na hora da saída." Beijei o lugar atrás da sua orelha, imprensando seu corpo nos armários de metal.
Ela tinha outras ideias, com pressa buscando a minha boca e segurando meu ombro. A minha sorte era o corredor vazio, ou assim eu pensava estar.
"Então é ele, Bellinha?" Uma voz grossa nos separou. Um cara mais ou menos da minha altura, com carinha de playboy e uma marra que precisava ser desmanchada nos olhava sarcástico.
"Ai, Jasper. Vai pra aula, vai." Isabella parecia irritada.
"Quem é?" Sussurrei no seu ouvido e passei a mão por sua cintura. Senti sua mão apertar na minha camisa. Ela não estava para brincadeiras.
"Idiota de um meio-primo." Ela esclareceu, mas eu continuei esperando. "Minha tia e o pai dele estão juntos, ele agora tá morando aqui perto e estudando aqui. Ele é um saco!"
Ela falou as últimas palavras mais altas para ele escutar, mas só o fez rir e virar as costas para ir para a aula.
"Bem, se ele é um idiota não precisa se aborrecer."
"Mas ele implica!"
"Vem, vamos pra aula." Puxei sua mão na direção oposta e tomamos nosso rumo.
