Capítulo Dois

"Tudo certo, Paul?" Perguntou para o cozinheiro, que sempre a ajudava a fechar o Três Vassouras. Ele, um homem negro, alto e taciturno assentiu, já apagando as luzes da cozinha.

"Tudo nos conformes, Madame." Ele disse em seu tom sempre educado, e Rosmerta divertia-se ao ouvi-lo chamá-la de Madame. Desde que seu pai falecera e ela herdara o mais gracioso restaurante, famoso por servir o melhor Hidromel envelhecido em barris de carvalho, os empregados começaram a tratá-la com maior respeito, e ela aprendeu a inspirar alguma autoridade.

Mas ainda estranhava. Às vezes achava que ouviria o pai ralhando por estar dando atenção demais aos clientes do sexo masculino, ou gargalhando daquela forma que era impossível não acompanhar, mesmo quando não se sabia o motivo do riso. Fazia três anos, alguns dias depois de seu aniversário, em fins de novembro.

"Obrigada, querido. Me acompanha até o final da rua?" Perguntou, colocando o casaco e parando perto da porta. A vila já se apagava para a noite, os pequenos estabelecimentos fechando assim como as janelas das simplórias moradias. Rosmerta morava bem perto do Três Vassouras, no segundo andar de um pequeno sobradinho ao final da rua principal do povoado. Mudara-se para lá logo depois da morte do pai e vendera a casa grande que tinham perto da orla da floresta. O dinheiro ajudara-a a reformar o bar e começar a servir pequenos lanches, além das bebidas.

"Claro, Madame. Não é seguro uma moça como você andar sozinha depois que escurece. Não em tempos como esses..." Ele falou, adquirindo um tom sombrio ao final que causou um leve tremor na garota. Desaparecimentos vinham ocorrendo com frequência cada vez maior pelo mundo bruxo, junto com as notícias sobre os ataques furtivos dos Comensais da Morte que o Ministério tentava abafar para não assustar ainda mais a comunidade mágica. Era o início de uma guerra que não prometia chances tão fáceis de vitória.

"Eles não seriam abusados a ponto de atacar Hogsmeade." Rosmerta encolheu-se sob o casaco pesado e espiou furtivamente o céu límpido quando o ar gelado lambeu-lhe as bochechas, deixando-as ainda mais coradas, avermelhando também a ponta do nariz delicado. A proximidade com Hogwarts, cujo diretor era o maior e mais poderoso e famoso bruxo vivo da atualidade, dava aos moradores do lugar certo ar de segurança e paz.

"É sempre bom tomar cuidado, mesmo assim." Paul contra-argumentou, sem dar espaço para contestações – não era pessoa de muitas palavras ou conversas longas. Rosmerta sorriu de leve com a preocupação velada do homem que a conhecia desde muitos anos, quando ainda era uma menininha com menos de um metro de altura, e os dois seguiram em silêncio até a porta da entrada de onde morava. Era verdade que poderia aparatar até em casa, mas gostava de caminhar aqueles passos ao lado do amigo.

"Boa noite, Paul." Desejou, ao que ele apenas assentiu novamente, sisudo, esperando até que ela estivesse segura dentro do sobrado antes de seguir o caminho até sua própria casa. Rosmerta gostava de seu pequeno apartamento, modesto, com cheiro de jasmim e gardênia, seus dois aromas favoritos, sempre impregnados em seus cabelos, pele e também roupas. Era o aroma distante das memórias que tinha da mãe e que sempre lhe davam uma sensação de familiaridade e conforto quando os inspirava profundamente.

Rosmerta não era uma garota de grandes sonhos, aventuras, que desejasse conhecer o mundo inteiro e todas as pessoas infinitas sobre a Terra. Não havia metas mirabolantes e tão inatingíveis quanto as estrelas assombrando seus pensamentos. Sua mente era prática, seus sonhos eram simples, seu desejo era a paz e uma vida regada por pequenas alegrias. Gostava de visitar Londres para fazer compras, ou reencontrar velhas amigas dos tempos de Hogwarts. Gostava de discutir e negociar com os fornecedores do bar. Gostava também de trabalhar e atender os clientes com um sorriso acalorado no rosto corado e jogar conversa fora entre um pedido e outro. Às vezes perguntava-se se estava errada em sonhar tão baixo, desejar tão pouco, ser feliz com o que tinha. Poucos o eram, e parecia-lhe até mesmo egoísta de sua parte ser feliz, enquanto os outros sofriam tanto, sempre insatisfeitos com tudo.

Não entendiam que a travessia é tão mais prazerosa que um início, ou um fim.

"Ei, Jasmine." Chamou Rosmerta, agachando-se para pegar no colo a gatinha branca de olhos pretos que era sua companheira havia alguns anos. "Se comportou hoje? Comeu muitos ratos?" Perguntou, acarinhando Jasmine ao vê-la ronronar como se assentisse. "Mentirosa, aqui em casa não tem rato não... Só se você andou passeando por aí. Mas você é preguiçosa, não é? E ainda com esse frio gelado antes da chegada da neve..."

Colocou a gata no chão ao chegar ao quarto, já se livrando do vestido pesado e seguindo para o banheiro. Era bobagem, mas um banho bem tomado, daqueles com a água quente como se lhe aquecesse a alma, era um de seus grandes prazeres. Um pecado o quanto demorava embaixo do chuveiro, os olhos fechados e a cabeça jogada para trás, perdida em pensamentos que nunca faziam qualquer sentido assim que a água deixava-lhe o corpo seco.

"Não me olhe com essa cara." Falou assim que saiu do banheiro para a gata sentada sobre a cama, mirando-a como se a repreendesse pela demora e pelo desperdício de água. "Não tenho uma língua como a sua para fazer o serviço." Completou, ainda enrolada em uma toalha ao seguir até o roupeiro. Jasmine se espreguiçou demoradamente, provavelmente pensando que a dona não tomava jeito, antes de se aconchegar ao cobertor. E assim que Rosmerta pegou o pijama, que não passava de uma camisola curta e leve com a qual dormia, uma coruja apareceu à janela e bicou o vidro, uma cartinha presa em uma das patas.

Rosmerta franziu as sobrancelhas, apertando a toalha ao redor do corpo e seguindo até a vidraça. Jasmine miou quando o vento gelado entrou no cômodo aquecido, e Rosmerta sentiu todo o corpo se arrepiar.

"Mas quem mandaria uma carta a essa hora?" Perguntou-se ao alcançar o bilhete e abri-lo rapidamente.

Hoje fiquei pensando na maneira como você sorri quando eu falo alguma bobagem. Já comentei o quão linda você é? Eu queria poder vê-la com mais frequência...

Sirius Black.

Ps.: sim, eu sei que é idiota mandar um bilhete só para dizer isso, mas, como você bem sabe, eu estou acostumado a ser um idiota.

Rosmerta deixou um sorriso bobo surgir em seus lábios ao ler as poucas palavras, tão inesperadamente doces. Mas podia apostar que ele não parara para pensar nela por muito tempo; provavelmente só acontecera há pouco, quando aquela mente agitada diminuíra o ritmo com a chegada dos primeiros indícios do sono e do cansaço que nos acalantam com o início e avanço da noite. Não importava. Rosmerta correu até a escrivaninha do quarto e rabiscou rapidamente uma resposta, para então prender um novo bilhete na perninha da coruja.

Fechou a janela, só então percebendo o quanto seu corpo ficara gelado. Vestiu-se rapidamente e jogou-se na cama, por baixo dos cobertores, as duas mãos tapando o rosto que, diferentemente do que esperava, estava quente. Suspirou, estendendo a mão e acariciando a parte de trás das orelhas da gata.

"Ah, Jasmine, aquele pivete é um perigo..." Murmurou, deixando-se embargar pelo sono.

XxX

Rosmerta serviu um pouco de água de Gilly para a velha senhora que sempre aparecia no Três Vassouras àquela hora do dia, perto do horário de almoço. Fora babá de sua mãe há muitos anos, e praticamente a adotara como uma neta depois da morte desta. Senhora Flaubert tinha uma visão bastante retrógrada sobre o mundo, o que até alguns anos atrás irritava Rosmerta.

Hoje em dia, porém, ela não se deixava estressar pelas opiniões da teimosa senhora que não tinha culpa de ter crescido entre valores tão infundados e ultrapassados atualmente. Enraizado estava, enraizado continuaria. Já sabia de tempos, há coisas que aprendemos ou ouvimos na vida que parecem grudar na pele e ressecar sobre ela com o passar dos anos, virando uma casca grossa, impermeável e incapaz de ser arrancada, por mais que os outros tentem.

"... Uma moça com a sua idade, ainda solteira, trabalhando sozinha nesse bar. Trabalhar em bar não é coisa de moça direita, já falei de outras visitas." Ia dizendo a Sra. Flaubert. "Daqui a pouco começam a falar."

"Ora, pois! Deixem que falem!" Exclamou Rosmerta alegremente, ao mesmo tempo em que amarrava os cabelos fartos em um rabo-de-cavalo desajeitado. Sra. Flaubert lançou-lhe um olhar pontudo, mas a moça apenas sorriu, sua jovialidade suavizando então a expressão severa da mulher mais velha.

"Não é de bom tom usar esses decotes e braços de fora. O povoado é pequeno. Daqui a pouco não arranja mais marido que lhe queira." Alertou a bruxa, balançando um dedo na direção da garota.

"Mas aí não hei de querê-los antes. Marido que não gosta de um bom decote é porque é ruim de cama, e tem medo da concorrência." Falou Rosmerta, desbocada, arrancando uma careta de pavor da senhora.

"Rosmerta! Isso é lá coisa que se diga, menina?" Ela exclamou horrorizada, com uma das mãos sobre o peito.

"Me perdoa, avozinha. Mas sei do que gosto, e não mudo por homem nenhum não." Afirmou carinhosa, já dando a volta no balcão para beijar a senhora na bochecha, e então ir atender um grupo de clientes que acabara de chegar.

"Você me preocupa, menina. O que Aristide diria?" Ainda pôde ouvir Sra. Flaubert resmungar, enquanto se dirigia para a saída, arrastando o passo. Rosmerta sorriu de lado, balançando a cabeça. Sua mãe provavelmente lhe diria para viver assim, feliz o tempo inteiro, leve feito brisa de verão. Foram suas últimas palavras antes de morrer, ainda lembrava.

"A gente pode ficar alegre sempre, sempre. Mesmo quando coisas ruins acontecem, aí sim que a gente deve ficar ainda mais alegre, bem por dentro, lá dentro..." Naquele dia Rosmerta chorara até que seus olhos queimassem, secos, as palavras da mãe não fazendo o menor sentido em sua mente jovem. O consolo disfarçado de quem estava morrendo para aqueles que ficavam perdendo-se em meio às lágrimas quentes e grossas. Mas então foram se enraizando, virando casca bem-vinda que a protegia nos momentos piores.

"O que vai ser para vocês, rapazes?" Perguntou para o grupo.

"Rosmerta, minha flor, hoje só umas cervejas amanteigadas para os amigos aqui. Tudo na minha conta!" Disse um dos homens, abrindo os braços, em ares comemorativos.

"Mas que isso, Sr. Grenfell. Comemorando o quê?" Perguntou, colocando a mão no quadril e já então se enredando numa conversa animada com os rapazes, quase se esquecendo de que não estava ali para também festejar.

Gostava daquela vida.

XxX

"Oh, mas não pode estar mesmo falando sério." Rosmerta riu quando um dos garçons contava-lhe sobre a serenata que estava planejando para a namorada, por causa da última briga dos dois. Era um moço novo, não mais do que vinte e cinco anos.

"Ela me colocou para fora de casa, Rô! O que mais posso fazer?" Ele riu também, enquanto tirava o guarda-pó e pegava seu casaco, a noite já alta lá fora. Rosmerta lavou as mãos na pia pequena atrás do balcão e secou-as sem cuidado na barra do vestido rendado.

"Arrê! Mas já decidiu a música que vai cantar, ao menos?" Perguntou, as mãos nos quadris e uma expressão esperta no rosto. O moço corou de leve, coçando a parte de trás da cabeça.

"Uma bem melosa, Rô, bem melosa..." Os dois trocaram mais algumas palavras antes que o rapaz se despedisse e seguisse para rua, deixando o estabelecimento apenas com Rosmerta e Paul, que terminava de ajeitar a cozinha.

"Não se esqueça de dizer que não vive sem ela!" Rosmerta gritou a recomendação para o recém saído, antes de voltar para os fundos do bar. "Está pronto, Paul? Precisa de ajuda?"

"Já estou terminando, Madame." Ele falou em seu tom baixo e monocórdio que possibilitou que Rosmerta ouvisse um barulho vindo da despensa do bar. Ela franziu as sobrancelhas, dirigindo-se até lá para ver do que se tratava. Estava imaginando tratar-se de algum gato, ou pior, algum rato, mas soltou um grito ao ver a silhueta de um homem envolto pelas sombras. Imediatamente tirou a varinha de um bolso disfarçado do vestido, mas não teve tempo de agir antes que o intruso, com extrema agilidade, se aproximasse, segurasse seu pulso e colocasse uma mão sobre sua boca.

"Shhh, Rosmerta, sou eu, Sirius!" Ele sussurrou, e então a garota reconheceu as orbes prateadas e insondáveis de Black brilhando na semi-escuridão, a única luz vinda de uma pequena janelinha alta na parede. Ele então a soltou, exclamando de dor ao receber um tapa estalado no braço.

"Black! O que você está fazendo aqui?" Perguntou num cochicho atarantado, o coração ainda aos pulos.

"Madame, está tudo bem por aí?" Paul perguntou, já entrando no depósito. A moça foi rápida e virou-se, já saindo do lugar com a expressão desanuviada, abanando a mão e oferecendo um sorriso tímido ao amigo.

"Não era nada. Achei ter visto alguma coisa, mas me assustei com minha própria sombra." Comentou, então rindo-se de si mesma, reforçando sua bobice. Paul pareceu pouco convencido, e ainda espiou por cima do ombro da moça, procurando por algo suspeito pela porta entreaberta do depósito.

"Huuum..." Ele soltou, no exato instante que o som de alguém tropeçando em uma caixa e soltando uma exclamação abafada de dor chegou aos ouvidos de ambos. "Tem alguém aí dentro." Ele afirmou com a voz sóbria, mas firme, tirando Rosmerta do caminho e avançando para dentro do depósito. Então foi aquela confusão. Sirius quase foi espancado, antes que Rosmerta conseguisse também entrar e segurar os braços do homem.

"Não, ele é amigo, Paul! O Sirius Black, que aparece aqui no bar de vez em quando, não lembra?" Rosmerta parou o homem, ao que Sirius sorriu culpado, com os braços para cima. Paul estreitou os olhos.

"O que ele está fazendo aqui?" Ele demandou.

"Ei! calma! Eu só vim fazer uma visitinha à Rosmerta." Sirius falou num jeito moleque, abaixando as mãos e sorrindo de lado para Rosmerta, que apenas revirou os olhos. Aquele garoto era mesmo impossível.

"E por que não usou a porta da frente?" Paul quis saber, mas então Rosmerta começou a levá-lo jeitosamente para fora do depósito pouco iluminado, de volta para a cozinha.

"Paul, você pode ir indo. Eu vou ficar aqui mais um pouco e ver o que Black quer. Não precisa se preocupar, o garoto é inofensivo." Rosmerta falou numa voz mansa, já pegando o sobretudo do homem e o ajudando a se vestir, para então guiá-lo até a porta de saída do bar. Paul resmungou algo, mas se deixou levar.

"Qualquer coisa, pode mandar um patrono, você sabe." Ele recomendou, antes de sumir pelas ruas do povoado.

Fechou a porta lentamente, perguntando-se o que faria com um Sirius Black em seu bar àquela hora da noite. Quando se virou, deparou-se com Sirius apoiado meio de lado ao balcão, mirando-a de uma maneira um tanto travessa. Rosmerta suspirou, aproximando-se do garoto.

"Agora pode ir se explicando, Sirius Black!" Parou a poucos centímetros dele, com uma mão no quadril e uma sobrancelha erguida. Sirius piscou algumas vezes, antes de tirar um bilhetinho do bolso e segurá-lo entre os dedos da mão, um sorriso malicioso no rosto jovem.

"Você me manda um bilhetinho desses, e não quer que eu apareça na primeira oportunidade? Eu teria vindo antes, mas algumas coisas me seguraram..." Falou, agradecendo mentalmente pelos dias de lua cheia terem terminado. Ele então abriu o bilhetinho e pôs a lê-lo, como se para recordar a moça de suas próprias palavras. "Por que você não vem me ver com mais frequência e diz essas coisas ao pé do meu ouvido? Pode ter certeza de que vou gostar bem mais de ouvir isso, do que você se gabando sobre a minha vontade incontrolável de por as mãos em você. Ps.: Não achei nem um pouco idiota, mas talvez eu também seja um pouco idiota." Sirius olhou-a como se aquilo explicasse tudo.

"Mas, Black! A ideia era você aparecer com mais frequência durante o dia, não à noite, quando estou fechando o bar! E o que você estava fazendo no depósito, afinal?" Perguntou, erguendo uma das sobrancelhas. E como ele viera de Hogwarts até o povoado àquela hora da noite, sem as carruagens da escola? Ao que parecia, refletiu, o rapaz fazia jus às histórias que ouvia vez ou outra sobre os Marotos. Distraiu-se por alguns segundos pensando no assunto, que só percebeu que Sirius acabara com a distância entre eles quando ele inclinou o rosto, segurando-a pela nuca, a mão dele perdendo-se entre seus cabelos negros.

"Eu já disse o quão bonita você é?" Ele perguntou em um tom baixo e sem-vergonha perto da orelha dela, a respiração quente batendo contra a pele sensível e causando um arrepio que desceu vertiginosamente da nuca até a base da coluna da moça. Ele ficou extremamente satisfeito ao senti-la tremer de leve, e quando endireitou o corpo, abriu um sorriso convencido. Mas Rosmerta não era mulher de deixar um pivete como aquele a provocar sem dar o troco.

Espalmou as mãos no peito dele e empurrou-o contra o balcão. Desprevenido, Sirius arregalou os olhos quando a moça colocou-se na ponta dos pés e também aproximou os lábios de sua orelha, o calor dela parecendo queimar seu corpo no rápido instante em que ela acabava com sua pose presunçosa.

"E eu já lhe disse o quanto você fica sensual sem o uniforme de Hogwarts?" Rosmerta passeou lentamente a ponta do indicador pelo peito de Sirius, antes de se afastar com uma expressão travessa e um sorriso convencido muito parecido com o que Sirius exibira segundos antes. O garoto parecia ter perdido as capacidades cognitivas e apenas quando ela aumentou a distância com uma risada divertida, é que ele conseguiu engolir em seco e pensar com coerência. Ficara terrivelmente quente naquele bar, de repente.

"Se você tivesse me falado isso antes, eu já teria até mesmo queimado meu uniforme." Sirius balançou as sobrancelhas, mas Rosmerta já não parecia tão interessada nas provocações.

"Você não vai me contar mesmo como veio até aqui? Há de ter sido complicado..." Discorreu, pensativa, tentando encontrar a resposta. Sirius deu de ombros. Não fora difícil, pois apenas precisara driblar o zelador até chegar à passagem que ligava Hogwarts ao Três Vassouras, para então se transfigurar em cachorro e correr até ali. Mas se falasse que fora moleza, Rosmerta não ficaria nem um pouco impressionada. Mulheres gostavam quando homens faziam loucuras apenas para vê-las.

"Não vou dizer que foi fácil... Mas por você eu iria até Londres, se fosse preciso." Sirius declarou, apoiando um braço no balcão e sorrindo de lado, galanteador. Rosmerta sentiu vontade de gargalhar. O garoto era cheio de trejeitos. "Só que não posso revelar meus métodos. A não ser que você peça com jeitinho..."

"Eu vou fazer melhor. Vou te embebedar e fazer você contar tudo." Rosmerta foi para trás do balcão e pegou uma garrafa de Hidromel e dois copos. "Preparado para testar sua tolerância ao álcool, Black?"

"Você vai precisar de muito mais que uma garrafa de Hidromel para me fazer falar, Madame." Sirius pegou o copo recém-servido e entornou-o em um único gole, para então batê-lo contra a mesa com uma expressão decidida.

"Isso não é problema. Garrafas de Hidromel é que não faltam no meu bar." A garota replicou alegremente, antes de tomar um gole da bebida diretamente do bico da garrafa. Sirius gostava cada vez mais de Rosmerta.

XxX

Ela não saberia dizer como exatamente os dois acabaram sentados no chão do bar, meio escondidos entre as mesas, bebendo, conversando e rindo. Rosmerta simplesmente não conseguia parar de rir, ainda mais com o aumento gradativo de álcool em seu corpo. Sirius também não ficava longe, contando histórias sobre suas traquinagens em Hogwarts, ou ouvindo as de Rosmerta sobre as situações loucas que podem ocorrer em um bar, sempre soltando risadas altas que pareciam latidos. Os ombros dos dois estavam meio apoiados um contra o outro, e ficavam trocando a garrafa de Hidromel entre um conto e outro.

"... E então a moça apareceu bêbada no aniversário da melhor amiga e comeu o bolo antes do 'parabéns'. Mas o pior não foi isso. O pior foi quando o marido dela apareceu e começou a acusá-la de sair de casa e deixá-lo sozinho feito uma dona de casa, chegou a gritar que era homem macho demais para ficar lá entre os panos de prato, enquanto ela saía para beber na rua. Acho que eu nunca vi situação mais embaraçosa para uma aniversariante." Rosmerta riu, a cena voltando-lhe à mente como se recém a tivesse presenciado.

"Eu quase consigo imaginar o James e a Lily desse jeito. Não que eu ache que ela vai sair para beber toda a noite, mas com certeza ela será o macho da relação, por mais que ele negue." Sirius gargalhou junto com Rosmerta.

"Eles estão juntos? Pensei que ela jamais iria ceder." A moça perguntou ao recuperar o ar dos pulmões. Sirius bebeu um gole generoso de Hidromel antes de responder.

"James amadureceu esse ano. Já não fazemos mais tantas brincadeiras na escola e coisas assim." Ele explicou, dando de ombros. "Mas foi um alívio, se quer saber. Eu não aguentava mais ouvi-lo falar sobre Lily, ou então vê-lo receber um fora atrás do outro. Já estava ferindo o meu orgulho masculino."

"O quê? Você não acha que um homem tem que lutar e não desistir de quem ama?" Rosmerta perguntou, empurrando Sirius com o ombro, o que quase causou uma queda constrangedora nos dois, dado o estado emborrachado em que estavam.

"É claro que acho!" Sirius exclamou ao conseguir se aprumar, aproveitando para se virar meio de lado e mirar melhor a garota, no momento mais corada do que nunca, os lábios vermelhos e carnudos tentadoramente úmidos enquanto ela saboreava mais um gole de Hidromel. "Mas que tenha alguma dignidade!"

"Tipo você, não é, Black? Uma pessoa cheia de dignidade." Rosmerta debochou, caindo na gargalhada em seguida. Ela acabou escorregando para o chão e deitando-se de costas, as mãos sobre a barriga enquanto ria. Já estava dolorida no abdômen por causa das incontroláveis risadas. Sirius sorriu um pouco com a cena – ela se parecia com uma garotinha travessa rindo daquela maneira fácil, exibindo os dentes brancos e bonitos, com um dos caninos um pouco mais saltado do que o outro, mas que não estragava o sorriso encantador.

"Você claramente não me conhece tão bem quanto imagina." Sirius apoiou a mão sobre o chão de forma a ficar com o corpo levemente inclinado acima do da moça, os olhos de ambos se encontrando e prendendo-os em uma troca de olhares cheia de segundas intenções.

"Acho que você vai ter que me visitar mais vezes para que eu possa conhecê-lo melhor, verdade?" Ela meio afirmou, meio perguntou, com o típico sorrisinho dúbio no canto dos lábios. Sirius apenas balançou sugestivamente as sobrancelhas, um trejeito que também lhe era tão característico, e os dois caíram na gargalhada, já que até mesmo uma mosca seria algo hilário depois de tantos goles do melhor Hidromel da Inglaterra.

"Complexo como sou, terei que vir muitas vezes." Ele falou com inchada arrogância – Rosmerta já estava acostumada com esses rompantes de presunção do garoto. Era incrível que ele ainda quisesse ser levado a sério.

De qualquer forma, Rosmerta não se lembrava de ter tido uma noite tão divertida há um bom tempo.

xXx

Acordou com uma luminosidade teimosa sobre suas pálpebras e, assim que despertou, percebeu duas coisas: sua cabeça estava na iminência de uma explosão meteórica, e seu corpo parecia ter sido moído e triturado até que todos os músculos, articulações ou o que fosse reclamasse de dor com os mais singelos movimentos. Depois, percebeu algo quente abraçando-a. Abriu os olhos e tentou erguer um pouco o corpo, deparando-se, então, com um Sirius Black adormecido, ressonando tranquilamente com o rosto entre o vão de seus seios. Tomou um susto, ainda meio embargada pelo sono e pela ressaca, mas a noite passada voltou-lhe à mente e respirou mais tranquila ao lembrar-se que apenas adormeceram entre conversas e risadas tolas.

Soltou um gemido de dor ao tentar se erguer mais um pouco, e balançou o ombro de Sirius, tentando arrancá-lo no sétimo sono no qual parecia estar mergulhado. Ele resmungou alguma coisa e a abraçou com mais força, esfregando o rosto em seu busto.

"Black!" Rosmerta repreendeu, soltando uma meia risada, apesar de estar quase sufocando com o abraço forte. Sirius provavelmente estava imaginando-se abraçado a um travesseiro. "Acorda, você tem que voltar para Hogwarts. Vai perder suas aulas."

"Ah, mas está tão bom aqui." Ele murmurou, afundando mais o rosto no decote de Rosmerta. "Ai, não, dor de cabeça... Não posso me mexer."

Rosmerta ignorou-o solenemente e empurrou-o com todas as forças para o lado, fazendo o garoto rolar no chão e soltar um longo gemido de dor, antes de se encolher, assemelhando-se muito a um cachorro vadio e imprestável. A moça lutou para se colocar de pé, sentindo-se pior do que um trapo sujo. Felizmente, ela sempre tinha algumas poções anti-ressaca no bar, as quais ela geralmente vendia para os clientes mais beberrões.

Deixou Black no chão e foi buscar as poções em um dos armários da cozinha.

"Oh, Merlin, nunca desejei tanto uma poção dessas..." Murmurou, antes de virar o conteúdo de um dos vidrinhos. A sensação gostosa da cabeça lentamente perdendo o peso e dissipando a dor fez com que quase se sentisse como nova, se não fosse pelas dores musculares. Nunca mais dormiria sobre um chão duro de pedra, resmungou consigo mesma.

Quando voltou para a parte central do bar, Black ainda estava encolhido na mesma posição que o deixara. Soltou uma risadinha divertida. Realmente passara a noite bebendo e conversando com Black até que os dois caíssem no sono em algum momento que mal conseguia determinar?

"Sirius, aqui, bebe." Puxou o garoto, um tanto manhoso, e ajudou-o a beber a poção.

"Oh, deuses, tiraram uma pedreira de cima da minha cabeça." Ele falou, enfim conseguindo sentar-se, os cabelos amassados e o rosto um pouco amarrotado, os olhos injetados. Ele estava horrível, mas ainda assim o desgraçado conseguia ser atraente, Rosmerta xingou-o mentalmente.

"Você tem que ir. Já são sete da manhã." Ela checou um relógio grande e antigo dependurado na parede por trás do bar. Sirius se levantou, parecendo sofrer das mesmas dores musculares que ela, e assentiu, meio ausente.

"Desculpe, pela manhã sou meio burro." Ele admitiu, tentando ajeitar os cabelos.

"O problema não é quem é burro pela manhã, mas quem é burro o dia inteiro." Rosmerta começou a empurrá-lo para rua. Não queria que ele perdesse aulas, ou ganhasse uma detenção. Além disso, ela teria um dia cheio, pois era dia em que os fornecedores apareciam, cedo pela manhã. Por Merlin, precisava urgentemente de um banho.

Sirius preferia voltar pela passagem secreta a partir do depósito, mas era melhor que Rosmerta não soubesse da passagem, ou provavelmente mandaria fechá-la. De qualquer maneira, poderia se transfigurar no Sinistro e voltar correndo para a escola. Conhecia os caminhos mais rápidos.

"Espera." Ele falou antes de passar pela porta de saída. Virou-se para a moça e puxou-a pela cintura, pegando-a de surpresa. Antes que ela pudesse sequer racionar, inclinou-se e roubou um beijo rápido dos lábios dela. Rosmerta arregalou os olhos, aturdida, mas em um piscar de olhos Sirius já se afastava, sorrindo torto. "Nos vemos em breve." Ele piscou, saindo então pela porta.

Rosmerta apoiou-se à batente da porta com os braços cruzados sobre o colo, um sorriso fraco e incrédulo no rosto corado ao observá-lo se afastar, olhando por cima do ombro entre um passo e outro. Balançou a cabeça, voltando para dentro do bar para arrumar a bagunça que haviam feito horas antes.