Capítulo Três
Rosmerta sempre achou que ser feliz sem motivos é a forma mais autêntica de felicidade.
E ela realmente não tinha motivos para estar sorrindo tanto naqueles últimos três dias. Ou talvez tivesse, mas tudo era tão melhor quando não se pensava demais em causas, razões, e apenas se deixava aquela sensação gostosa de leveza tomar conta, fazendo-nos flutuar por entre nuvens.
Era bom suspirar por coisas bobas. Não era mulher de achar medo nos sentimentos.
Verdade que se decepcionava e magoava com maior frequência do que as pessoas que se resguardavam e tentavam manter o coração racional; mas sabia também que aproveitava muito mais do que muitos, enquanto durasse o dia. Adorava a inconstância das relações, dos sorrisos, dos calores. E por isso não se importava que seus pensamentos em vários momentos estivessem convergindo para Sirius Black e as cartinhas que vinham trocando desde aquela noite de bebedeira. Não se importava por pensar que era final de semana dos alunos em Hogsmeade e então ele provavelmente apareceria. Será que apareceria? Era bom demais pensar que sim.
"Só isso hoje, minha linda?" Perguntou o dono da mercearia e bazar onde sempre comprava alguns utensílios para o Três Vassouras e para a própria casa.
"Só isso, Bill. Como vai o pequeno Thomas?" Perguntou, ao alcançar a sacola e entregar o dinheiro.
"Ah, cada dia mais levado, Rosmerta. Eu já disse para a mãe do garoto que ela o mima demais, demais, mas ela não me dá ouvidos. Outro dia comprou umas roupas novas todas exageradas, em Londres, junto com uma vassoura nova. Desse jeito ele acha que pode ter de tudo." O homem reclamou, mas em um tom ameno, de quem não está brabo de verdade, de quem gosta de ver o sorriso do filho ao brincar com a vassoura nova, arrumadinho com as roupas bonitas.
"Ela está fazendo o papel de toda mãe, Bill. Só cuida para fazer o seu como pai e colocar uns limites no menino." Riu Rosmerta, divertida, pois sabia que provavelmente ele mimava mais o garoto do que a mãe que também conhecia e era moça rígida, apesar de muito carinhosa.
Acenou em despedida e saiu da mercearia. Deu apenas alguns passos pelo povoado até alcançar a rua principal, já bem viva com os animados alunos de Hogwarts.
"Rô!"
Rosmerta mal pôde ver o que acontecia antes de sentir os braços de ninguém menos do que Sirius envolvendo sua cintura e erguendo-a do chão, para então girá-la no ar, arrancando da moça uma exclamação de surpresa. Quando a colocou no chão, ele aspirou profundamente o perfume do pescoço dela.
"Adoro o seu cheiro. Algo com Jasmim e... Tem mais alguma coisa..." Ele murmurou, então pegando uma mexa dos cabelos negros e aspirando também, buscando pela resposta.
"Gardênia. São meus aromas favoritos." Rosmerta sorriu, ainda sentindo aquele friozinho brincar em suas entranhas pela proximidade. Era mulher de sangue quente, e facilmente se sentia afetada, acalorada, quando um homem brincava daquele jeito com seus sentidos.
"Vem, vamos passear um pouco." Ele largou o cabelo da moça e segurou-a pela mão, puxando-a com ele rua abaixo, obrigando-a a apressar o passo para não tropeçar nos próprios pés.
"Black! Eu tenho que voltar para o bar." Ela avisou, apesar de não oferecer nenhuma resistência. Porque não queria oferecer resistência. O pessoal do Três Vassouras que se virasse sozinho. Pagava-os para que, afinal de contas?
"Não precisa, não." Sirius afirmou alegremente. "E nós dois sabemos disso."
Rosmerta riu, perguntando-se se o garoto era Legilimente. Encolheu as compras que fizera e colocou no bolso das vestes, antes que as acabasse perdendo.
"O que você quer fazer?" Ele perguntou, ao parar em frente a uma pequena lojinha de flores e retirando um Jasmim da estante onde havia algumas amostras, colocando-a na orelha da moça, com um sorriso bonito no rosto. Não arrogante, e presunçoso, apenas um sorriso. Rosmerta sorriu também, de leve, fácil, enquanto Sirius jogava um Sickle para o dono da floricultura.
"Você está com fome?" Ele perguntou então, voltando a adquirir aquele ar infantil de uma criança ansiosa por uma resposta afirmativa. Era perto das duas da tarde, e ela não tivera tempo de almoçar. Sua rotina em relação à comida era sempre bastante confusa, na verdade. Raramente comia nos horários certos.
"Um pouco, na verdade."
"Ótimo!" Ele exclamou entusiasmado, voltando a segurá-la pela mão e a guiando pelo caminho que, Rosmerta sabia, levá-los-ia até a Casa dos Gritos. A moça não entendeu o que a Casa dos Gritos teria haver com ela estar ou não com fome, mas resolveu não contestar. Afinal, Sirius sempre tinha ideias estranhas.
Rosmerta sentiu um arrepio percorrê-la ao ver o lugar mais mal-assombrado da Grã-Bretanha. Morria de medo, e não fazia questão nenhuma de esconder esse fato. Os uivos que assolavam todo o povoado nos dias de lua cheia eram assustadores demais para fingir indiferença. Sirius mirou-a travesso ao vê-la se encolher atrás de si e espiar por sobre seu ombro quando parara perto do lugar.
"Não pensei que você fosse do tipo medrosa. Você faz bem o papel de durona." Ele debochou, sorrindo torto. Rosmerta cruzou os braços sobre o peito, a expressão tentativamente séria, apesar de ser difícil manter uma pose realmente irritada.
"Eu sou bastante durona, Black, e o aconselho a nunca se esquecer disso." Falou, empinando um pouco o nariz, antes de fazer um biquinho e espiar novamente a tenebrosa casa de madeiras cinzentas e aspecto sombrio. "Só não gosto de lugares mal-assombrados."
"Vamos entrar!" Sirius exclamou de repente, animado. Voltou a segurar o pulso da moça e tentar arrastá-la com ele, mas Rosmerta afundou os pés no chão, inclinando-se para trás e tentando impedir de ser levada para dentro daquele lugar horrível.
"Arrê! Está louco? Não entro aí nem que me paguem!" Afirmou, estremecendo, mas Sirius não desistiu. Parecia determinado a levá-la lá para dentro.
"Não tem nada lá dentro." Ele garantiu, cheio de segurança, arrancando um olhar suspeito de Rosmerta.
"E como você pode saber? Não me diga que já entrou lá dentro!" Ela arregalou os olhos.
"Não se preocupe. Se tiver algo, eu te protejo." Ele piscou, aproveitando o momento de incredulidade da moça para abraçá-la e aparatar na lateral da casa, onde havia uma entrada meio escondida. Abaixou o corpo, abrindo caminho, e puxou Rosmerta com ele.
Ela não queria admitir, mas, apesar do medo, estava curiosa para ver como seria o interior do lugar. Era tão excitante quanto fazer algo proibido. Será que era proibido entrar ali? E se encontrasse algum fantasma sanguinário, ou lobisomem raivoso? Mas não... Lobisomens eram apenas em noites de lua-cheia, e o sol brilhava pálido lá fora, sufocado pela chegada do inverno.
Apertando com mais força a mão de Sirius e aproximando-se dele, de forma a quase deixar seus corpos colados, ela espiou hesitantemente o lugar, olhando ao redor. Era uma casa velha, fria, com as paredes arranhadas, os móveis empoeirados e sujos, alguns quebrados, como se alguém os tivesse atacado. Havia sangue em alguns pontos e, ao vê-los, Rosmerta sentiu uma tontura. Era fraca com sangue. Desgostada imenso do cheiro férrico e da cor quando envelhecia, tornando-se vermelho opaco, quase cobre. Sirius, obviamente, estava adorando a forma vulnerável como a moça o mantinha próximo.
"Eu te mato se algum bicho aparecer para nos matar, Black!" Sussurrou Rosmerta, assustando-se quando um rato apareceu perto de seus pés. "Merlin!" Respirou fundo, levando a mão ao peito, ao que Sirius aproveitou para se afastar. "Black!"
Xingou-o mentalmente quando ele sumiu pela semi-escuridão do lugar, apenas alguns feixes tímidos de luz atravessando as frestas nas paredes e janelas. Ouviu os passos de alguém subindo para o segundo andar da casa e, hesitante, seguiu para as escadas, lutando contra a vontade de voltar pelo caminho pelo qual entrara.
O ranger agourento das escadas foi um suplício. Parecia que elas iriam desabar a qualquer momento. Rosmerta prometeu a si mesma que nunca mais deixaria sua curiosidade falar mais alto.
"Black? Sirius...?" Andou alguns passos pelo segundo andar e foi então que viu Sirius apoiado contra uma parede, bem em frente a uma porta aberta. Rosmerta sentiu o sangue bombear nos ouvidos ao ver a expressão de puro pavor e medo no rosto de Sirius, como se ele estivesse vendo algo realmente terrível dentro do cômodo.
"Rô, é melhor você não vir aqui..." Ele murmurou. "Ele vai... Ele... Está cheio de sangue!"
"Black, para com isso." Murmurou Rosmerta, aterrorizada, as mãos tremendo. Ele estava brincando com ela, a parte racional lhe dizia. Mas quem disse que nós ouvimos a parte racional em uma situação dessas? Era muito mais fácil morrer de medo.
"AH, MEU MERLIN, ELE ESTÁ VINDO, RÔ! CORRE!" Sirius gritou, disparando na direção dela. Rosmerta soltou um grito e começou a correr com ele a puxando a toda velocidade. Nem chegou a olhar por cima do ombro, e nunca suas pernas correram tão rápido. Assim que os dois saltaram para fora da casa, ambos caindo meio enroscados no chão, Sirius gargalhava.
"Seu estúpido!" Rosmerta gritou, dando alguns tapas nele. "Isso não é brincadeira que se faça!" Desferiu mais alguns tapas, acabando por render-se à risada, já que Sirius não conseguia parar com seus latidos exagerados.
"Você estava tão apavorada." Ele falou, tentando sufocar os soluços. "Merlin, nunca vi alguém correr tão rápido."
"Idiota." Rosmerta resmungou, girando e caindo de costas sobre a grama gelada e mal-cortada que cercava a casa.
"Mas ficou uma gracinha assustada." Ele apoiou-se com um braço, observando-a com um sorriso sacana. Rosmerta teve vontade de azará-lo, mas achou melhor esperar até que estivessem mais longe da Casa dos Gritos. Qualquer coisa poderia oferecê-lo de almoço caso alguma criatura realmente saísse dali de dentro.
"Perdi a flor que você me deu." Rosmerta comentou um pouco triste, ao tocar os cabelos e notar que a flor provavelmente caíra em meio à correria. Sirius segurou a mão com a qual ela tocava os cabelos e puxou para perto do peito dele.
"Eu compro outra. Quantas você quiser." Ele disse, antes de, com um movimento rápido, levantar-se e puxar Rosmerta com ele. A moça de novo soltou um gritinho de surpresa e quase caiu nos braços do rapaz antes de conseguir firmar-se sobre os pés.
"Você tem que parar de me arrastar e puxar por aí como se eu fosse uma boneca de pano, sabe?" Comentou, ajeitando as vestes amassadas. Sirius pareceu ponderar sobre o assunto por um momento.
"Tudo bem!" Ele exclamou, antes de se abaixar, pegá-la pela cintura e colocar a moça sobre seu ombro direito. Rosmerta soltou outro grito – começou a entender que isso seria recorrente em uma convivência mais frequente com Sirius. Ela começou a rir quando ele começou a caminhar, assobiando tranquilamente.
"Agora me faz de saco de batatas!" Acusou, esticando um braço e dando um tapa estalado na bunda dele.
"O que é isso? Está tentando atentar contra o meu pudor?" Ele perguntou, comicamente indignado.
"Que pudor, Black?" Rosmerta praticamente gritou, debochada, pondo-se a rir mais e soltando mais uma exclamação quando ele a tirou do ombro com outro movimento rápido e inesperado. Ele a segurou por uma mão e a girou no lugar, virando-a para um espaço delicado na borda da floresta onde havia uma toalha de piquenique estendida com uma cestinha.
"Eu sei que não é lá muito criativo, mas..." Ele começou a falar, mas Rosmerta o interrompeu, dando alguns passos à frente.
"Não... Não, eu... Ninguém nunca fez um piquenique surpresa para mim..." Ela falou, sentindo um calorzinho espalhar-se do peito para o resto do corpo. Sorriu daqueles sorrisos doces, bobos e inevitáveis, forçosos de subir mesmo sem consentimento.
Sirius segurou a mão da moça, entrelaçando seus dedos, e guiou-a até o cantinho que prepara para eles. Rosmerta sentiu a fome aumentar ao ver as uvas, queijos e pãezinhos, bolinhos, as bombas de caramelo, suco de abóbora que eles começaram a tirar da cesta e espalhar pela toalha.
"Não sabia o que você gosta de comer, então trouxe um pouco de tudo..." Disse Sirius, um tantinho inseguro, por mais que se esforçasse para não demonstrar. Mesmo assim, Rosmerta percebeu e sorriu novamente.
"Está perfeito." Falou com simplicidade, alcançando uma uva e levando-a à boca. Os olhos do garoto brilharam por um momento, antes que ele se empertigasse, estufando o peito.
"Bem, é claro que eu já sabia disso, afinal, fui eu quem preparou tudo."
"Oh, Merlin! Será que você nunca pode ser um pouquinho menos arrogante não?" Rosmerta perguntou, exasperada, rolando os olhos, enquanto mordia a uva graúda. Sirius pigarreou, após devorar a visão dos lábios vermelhos provando o sumo da fruta, em um movimento extremamente sensual.
"Faz parte da minha essência." Explicou com grande naturalidade.
"É mesmo? Como não percebi?" Brincou Rosmerta. "E o que mais faz parte de sua essência, Sr. Black?"
"Bem..." Sirius pensou por um momento, procurando pelos melhores adjetivos da face da Terra, mas uma exclamação de contentamento da moça arrancou-o de sua divagação.
"Ah, eu adoro essas tortinhas." Ela falou com carinho, alcançando uma delas. "São parecidas com as que minha mãe fazia para mim quando eu era mais nova..." Ela abriu um sorriso distante, como quem recorda boas lembranças.
"Você não tem mais nenhuma família aqui no povoado?" Sirius perguntou, deitando-se de lado e olhando diretamente para o rosto da garota, apreciando cada forma dele, delicado, feminino. Rosmerta negou com a cabeça.
"Tenho uma prima e uma tia em Londres, mas as duas são terríveis. Raramente as visito." Falou, pensando em como a irmã de sua mãe nem ao menos se importara com Aristide nos meses em que ela sofrera com a doença que a levara desse mundo, limitando-se a visitá-la uma ou duas vezes em St. Mungus. "Dinheiro demais estraga as pessoas." Completou com desgosto. Sua mãe contara-lhe que ela e Rebecca eram muito próximas, até esta casar-se com um puro-sangue rico e esnobe e praticamente excluir a irmã mais velha de sua vida, envergonhada de suas origens humildes.
"Bem, nem todas. Tome James, por exemplo. Ele é bem rico, e uma das melhores pessoas que conheço." Sirius falou, com um ar distraído. Rosmerta olhou-o por um momento, reparando que ele pareceu subitamente imerso em pensamentos. Aproximou-se um pouquinho mais dele, procurando seu olhar prateado.
"Fiquei sabendo que você fugiu de casa antes do início desse ano letivo e foi morar com James." Falou com cuidado. Ele voltou a mirá-la com diversão, achando graça da preocupação dela ao tocar nesse assunto, apesar de ser realmente um tópico que lhe era dolorido em alguns pontos. Entretanto, não sentia receio de conversar o que fosse com Rosmerta. Ela tinha aquela aura rara no mundo que transmitia confiança e segurança.
"Não aguentava mais eles tentando me transformar em um partidário de suas ideias estúpidas sobre pureza de sangue e a inferioridade de mestiços e nascidos-trouxas. Minha mãe conseguia ser particularmente estridente quando o assunto era esse." Sirius brincou na última frase, mas com uma seriedade por trás das palavras. "Nunca me senti realmente um Black."
"É porque você não é um Black. Você é Sirius Black. E isso faz toda a diferença." Rosmerta piscou um olho, conseguindo dissipar o súbito peso que se instalara nos ombros do garoto. " Você acha que vai acontecer mesmo uma guerra?"
"Acho que já está acontecendo..." Respondeu Sirius. "Só que eles não divulgam muito para não assustar a população."
"Mas isso é errado! Eles deveriam nos deixar a par do que está acontecendo!" Rosmerta suspirou. "Você... Pensa em lutar depois que se formar?"
"Sim." Sirius assentiu de imediato, e isso despertou uma sensaçãozinha ruim na moça; de repente, não queria que ele jamais saísse do lado dela, que ficassem naquele lugarzinho escondido dos olhos de todos até que todos os problemas sumissem. Mas eles não somem, não adianta se esconder. Adianta apenas curtir o agora. "Eu e James. Remus também, provavelmente. Já Peter eu não sei o que fará da vida." Ele deu de ombros, catando um mini-sanduíche e colocando-o inteiro na boca.
Rosmerta sorriu, comendo também a tortinha intocada em suas mãos, com gosto de infância.
"Você vai continuar me visitando depois que se formar?" Ela perguntou, com um sorriso tímido que lhe era raro nas feições graciosas, sempre desinibidas. Sirius piscou, levemente surpreso, engolindo de uma única vez a comida.
"Você quer?" Ele perguntou, meio malicioso, meio nervoso. Rosmerta revirou os olhos, exasperada com essa mania dos garotos de precisarem de uma confirmação antes de falar qualquer coisa que pudesse 'comprometer' seus ares auto-suficientes. Eles precisavam se sentir no controle da situação, por mais que raramente passassem de garotinhos ansiosos, inseguros.
"Vou querer sempre saber se você está bem." Falou calmamente, mordiscando a tortinha. "Afinal, todos sabem que você é um perigo para si próprio."
Sirius soltou uma risada canina e deitou-se de costas, as mãos atrás da cabeça, olhando para o céu como se visse algo muito bonito lá em cima. Foi a vez de Rosmerta observá-lo com mais atenção, e percebeu que ele parecia mais maduro do que da última vez em que o vira. E quando foi isso? Era tão difícil definir o momento em que começamos a ver alguém com outros olhos.
"Então eu venho." Ele disse, desviando o olhar para a moça. "Até porque, como perder contato com alguém tão boa como você?" Rosmerta ergueu as sobrancelhas. "Ah, não nesse sentido, sabe, físico. Bem... Na verdade, nesse sentido também..." Ele sorriu de lado, meio desgarrado.
Rosmerta jogou a cabeça para trás e riu, sem conseguir se controlar, suas bochechas ficando quentes, apesar de não estar exatamente envergonhada. Não era como se não recebesse elogios ousados todos os dias trabalhando em um dos principais bares do povoado, e sempre tão frequentado por viajantes errantes.
"Então, o chato do Slughorn continua colecionando alunos importantes?" Ela mudou drasticamente de assunto. Esperta, sabia que os homens ficavam louquinhos quando uma mulher fugia de seus elogios, com jeito, puxando outro assunto como se eles pouco lhe interessassem de fato. E ela queria provocar Sirius mais um pouquinho, ver até onde aquilo os levaria.
"Ah." Sirius soltou, revirando os olhos. "Só mesmo Lily para aguentar aquele puxa-saco babão. Uns anos atrás ele convidou eu e James para participarmos do grupinho seleto dele, mas nós muito educadamente recusamos e demos de presente uma caixa de abacaxis cristalizados. Enfeitiçados para se transformarem em sapos assim que ele tentasse comê-los, claro." Sirius sorriu enviesado.
"Oh, nojento!" Rosmerta replicou com uma careta, voltando a rir ao imaginar a cena do guloso professor surpreendendo-se ao quase levar sapos à boca. Achou melhor ficar quieta sobre ter participado do seleto grupo do Slug nos seus anos de escola.
xXx
Os dois jovens ficaram até o final da tarde naquele ponto mais alto do povoado, de onde podiam avistar a estação de trem de Hogsmeade e as casinhas do lugar. Saíram dali apenas com a lenta descida do sol, pondo-se no oeste.
"Então você é difícil de ficar braba, mas quando fica, é melhor sair da frente?" Sirius perguntou, depois de uma conversa sobre o que os irritava mais do que qualquer coisa. O garoto contou que lhe aborreciam os roncos de Peter, as crises de responsabilidade de Remus, a cara sebosa de Snape – "Não, melhor, a existência de Snape!" –, e os choramingos de James sobre Lily, dos quais enfim estava livre. Também não gostava quando alguém o comparava com os pais, ou colocavam sua coragem em dúvida. Rosmerta descobriu que Sirius era uma pessoa facilmente irritável, apesar do ar sempre bem-humorado.
"Exatamente. Como acha que aguentei sua pessoa até agora?" Ela brincou, erguendo uma sobrancelha e mirando-o pelo canto do olho, enquanto terminavam de descer a estradinha que levava de volta ao povoado. Sirius torceu o nariz, mas ignorou o comentário. Era evidente que ela o aturava porque ele era uma companhia estupenda.
"Queria estar por perto na próxima vez que você tivesse uma crise de raiva." Ele comentou, com um jeito meio aéreo. Rosmerta olhou-o sem entender.
"Mas por quê?"
"Para tentar te acalmar. Contar uma piada, te fazer rir." Ele abriu um sorriso largo, virando o rosto para olhá-la, com a certeza de que conseguiria acabar com o acesso de fúria da garota, independentemente do motivo que houvesse causado. Rosmerta soltou uma risada cética.
"Provavelmente ganharia uma azaração no meio das fuças!" Exclamou, debochada, sorrindo de lado, mas Sirius resmungou algo sobre ter certeza de que ela não faria algo assim. Os dois pararam ao chegar em frente ao Três Vassouras. As carruagens já estavam partindo de volta a Hogwarts, e Sirius pensou que talvez a garota já estivesse cansada de sua companhia, e precisasse voltar ao trabalho.
"Bem, então, nos vemos amanhã?" Ele perguntou, parando bem perto dela, os centímetros a mais fazendo Rosmerta sentir-se extremamente pequena perto dele.
"Claro, é só você aparecer." Falou, erguendo a cabeça para mirá-lo nos olhos. Estavam extremamente perto e, quando ele deu mais um passo, invadindo seu espaço pessoal, Rosmerta sentiu o estômago revirar de ansiedade, seu coração imediatamente começar a acelerar e um calor subir-lhe pelo pescoço até o rosto. Aquele nervoso gostoso antes de um beijo.
Ele a encurralou contra a parede externa do bar, prensando-a de leve contra a madeira, e a moça fechou os olhos, entreabrindo os lábios quando a respiração quente dele bateu contra seu rosto, segundos antes que seus lábios se encontrassem. A mão dele perdeu-se entre seus cabelos quando ele a segurou pela nuca e forçou seus lábios, aprofundando o beijo, enquanto também a segurava pela cintura. Puxou-o também pela nuca, ficando na ponta dos pés para corresponder melhor ao beijo, a língua dele deslizando pela sua, provando o gosto de sua boca com a sede de quem já quisera fazer aquilo há tempos.
Afastaram-se levemente ofegantes e, no momento em que seus olhares se encontraram novamente, ambos sorriram amplamente, meio bobos, encantados com o que recém acontecera. Rosmerta se sentiu de volta à adolescência, beijando um garoto na porta de um bar, em uma despedida apaixonadinha, o coração batendo forte no peito. Sirius se afastou quando os amigos dele apareceram, chamando-o.
"Sirius, aí está você! Vamos perder as carruagens." Disse James, passando um braço pelos ombros dele ao se encontrarem. "Oi, Rô!" Ele cumprimentou alegremente, ao que os outros o imitaram.
"Olá, rapazes." Disse Rosmerta, as bochechas mais quentes e coradas do que o normal. Ela trocou um olhar significativo com Sirius, sorrindo de leve, e sendo prontamente correspondida. "Faz tempo que não vejo Lily, James. Por onde ela anda?" Perguntou apenas por educação, pois não simpatizava muito com Lily Evans. Era uma boa garota, mas muito certinha e mandona, pelo que vira da interação dela com os Marotos no Três Vassouras.
"Ah, ficou hoje no castelo estudando. Imagina, em pleno sábado..." James falou, com um ar entediado.
Eles trocaram mais algumas palavras antes de se despedirem e seguirem para as carruagens. Rosmerta entrou no bar logo depois, sentindo-se pisando em nuvens. Foi para a cozinha, onde deu um beijo estalado em Paul, largou as compras e se preparou para o trabalho.
"Posso saber o motivo de tanta felicidade?" Paul perguntou, espiando-a pelo canto dos olhos escuros. Rosmerta sorriu largamente, pegando uma bandeja e colocando os pedidos sobre ela, para então equilibrá-la em uma das mãos.
"Coisa passageira, Paul. É, provavelmente passageira..." Respondeu, um tanto aérea, antes de sair da cozinha, sorridente.
