Capítulo Quatro

Sirius estava deitado em um dos sofás do salão comunal, jogando uma bolinha contra a parede repetidamente, um trabalho mecânico que o permitia perder-se em pensamentos, sem deixar de executá-lo. Pensava na tarde que tivera com Rosmerta, e então no beijo. Há muito que ele achava a moça extremamente bonita e interessante, e há tempos os dois já trocavam alguns flertes inocentes, que nunca iam além de troca de provocações. Mas então as coisas aconteceram de maneira tão natural, a aproximação, a sua vontade de fazer algo diferente antes de simplesmente puxá-la para um beijo como desejara fazer naquela noite em que acabaram dormindo bêbados no meio do bar.

Ele se sentia até mesmo orgulhoso de si mesmo pela maneira como a relação entre eles surgira. Mas também estava um pouco temeroso. Quisera aquilo tanto, que agora que conseguira, o que faria? Será que ela iria querer continuar algo com um pirralho como ele? Será que só aceitara o beijo por que fora pega de surpresa? Sirius estava meio perdido. Ele precisava admitir: não era uma das pessoas mais espertas quando o assunto eram sentimentos, tanto próprios, quanto alheios. Não era uma pessoa exatamente sensível, e a maioria das vezes agia e fazia um monte de bobagens antes de perceber que poderia magoar alguém.

Era bobagem pensar nisso tão cedo, mas não queria magoar Rosmerta agindo com sua habitual estupidez. Ela tinha um sorriso tão cálido, fácil, estava sempre bem-humorada, rindo de suas provocações e alegações arrogantes – tão diferente da maioria das garotas que geralmente empinavam o nariz e se sentiam afrontadas com aquele tipo de comportamento. Sirius gostava de pessoas bem-humoradas e sem tantas complicações como a garota. Era aquele ar livre e despreocupado em Rosmerta, de que gosta da vida como ela é, que o atraía. Além, claro, da beleza estonteante dela; entretanto, de belezas estonteantes o mundo estava cheio, e nem por isso ele se deslumbrava com todas elas tão facilmente.

"Você irá a Hogsmeade hoje de novo?" Perguntou James, aparecendo também no salão comunal e jogando-se em uma das poltronas perto do sofá onde Sirius estava deitado. O garoto assentiu distraído, sem nem ao menos olhar para o amigo. "Você e Rosmerta estão namorando?"

Sirius deixou a bolinha cair e só então olhou para James.

"Você viu eu e ela nos beijando ontem?" Perguntou. Se tivesse visto, azararia o garoto. Pensara que eles os interromperam daquele jeito espalhafatoso porque não haviam visto o que acontecera.

"Não, teve um beijo?" James se impressionou. Sirius sorriu de leve.

"Teve."

"Então?"

"Ah, não estamos oficialmente namorando, mas é claro que ela está totalmente na minha." Falou o garoto, arrogante. Era simplesmente difícil demais não se gabar para os amigos quando o assunto era garotas. James soltou uma risada incrédula, acomodando-se melhor no sofá.

"Certo. Do que eu já vi entre vocês, acho que o contrário faz bem mais sentido." Ele falou debochado. "Bem que eu suspeitei de algo ao ver a maneira como vocês estavam se olhando ontem. E você sumiu assim que chegamos ao povoado..."

"Passei a tarde com ela." Sirius contou, falando brevemente sobre o episódio na Casa dos Gritos, e sobre o piquenique.

"Parece que nós dois nos 'estabelecemos' esse ano." James comentou alegremente. "Ontem pedi Lily em namoro. E ela aceitou!"

"Está brincando?" Sirius se sentou e jogou uma almofada no amigo. James riu, como quem também não acredita.

"Não! Pedi ontem de noite, na Torre de Astronomia. Estava uma noite linda, cheia de estrelas. Passou até uma estrela cadente." Ele contou, com um sorriso largo. Era evidente o quão feliz estava, e isso também deixou Sirius extremamente contente pelo amigo. James amava Lily de verdade, talvez desde o momento em que pusera os olhos nela pela primeira vez.

"Ah, não entre em detalhes. Essas coisas românticas não me interessam." Sirius voltou a cair de costas no sofá. "Onde estão Remus e Peter?"

"Na biblioteca. Remus está tentando preparar Peter para a prova de Transfiguração amanhã."

"Moleza!" Exclamou Sirius, nem um pouco preocupado com a prova. Às vezes suas boas notas assustavam a si mesmo, dado o pouco caso que dava aos estudos. "Quero dizer, a prova, não ensinar algo a Peter..."

Os dois caíram na gargalhada e, alguns minutos depois, Lily apareceu no salão comunal. Sirius então decidiu ir até as carruagens para ver se já estavam liberadas para irem até o povoado. Caso não estivessem, iria até lá por alguma passagem secreta. Não aguentava mais esperar. Quando chegou à saída principal da escola, porém, escondeu-se atrás da parede ao escutar um homem aflito conversando com professora McGonagall.

"... Ataque a Hogsmeade?" Ela perguntou aflita, e Sirius sentiu o sangue congelar, ainda que seu coração disparasse no peito.

"Comensais. Estão atacando a vila! Já foi mandado um aviso ao Ministério." O homem respondeu, ofegante e nervoso.

"Precisamos avisar o Diretor."

Sirius se encolheu ao ver, naquele exato instante, Dumbledore passando ao seu lado, em direção à saída do castelo, seguido por outros professores. Ele lançou-lhe um olhar pontiagudo e esperto pelo canto dos olhos antes de sair pela porta principal.

"Estou aqui, Minerva. E vamos todos, enquanto os Aurores não chegam. Qualquer ajuda será bem-vinda." Ele falou em seu tom calmo e controlado, ainda que houvesse preocupação por trás das palavras. Sirius ouviu a agitação de professores e, assim que pôde, correu em direção ao Salgueiro Lutador, transformando-se em Sinistro no meio do caminho e então pulando para dentro da passagem sob a árvore. Só conseguia pensar que Rosmerta estava em Hogsmeade, que algo grave poderia acontecer com ela caso não chegasse a tempo. Nunca sentira tanto medo na vida. Não por si, mas por outra pessoa.

O caminho pareceu-lhe interminável, por mais que corresse, a distância parecia aumentar, junto com o pressentimento ruim no peito. Precisava chegar a tempo...

XxX

Rosmerta sentia quase falta de ar, como se algo comprimisse seu peito e torcesse todas suas entranhas. Ela não era a pessoa mais corajosa do mundo. Ela estava com muito medo. E a única coisa que a impedia de cair em lágrimas eram os braços de Paul a segurando enquanto se escondiam no depósito. A vila toda estava minada de Comensais da Morte, e a chegada deles fora simplesmente devastadora. Gritos, sons de vidros quebrando, pessoas correndo, buscando por abrigo. Eles eram rápidos e ousados. Vieram para matar e horrorizar, e fugir assim que as autoridades chegassem. Rosmerta começou a pensar em todas as pessoas que conhecia naquela vida que poderiam estar mortas naquele momento e principiou a tremer. Queria poder ir até lá e ajudar, mas não conseguia nem ao menos se mexer. Há quanto tempo não se metia em um duelo? Seus feitiços se limitavam aos de limpeza e outras coisas simples, e não havia nada que pudesse fazer. A não ser que quisesse morrer heroicamente.

Mas não era uma heroína.

Queria apenas que os gritos cessassem, que a ajuda chegasse e tudo ficasse bem novamente. Como era mais fácil de acreditar. Tão mais fácil sorrir e viver em paz, mesmo sabendo que exatamente o que acontecia agora já deveria ter acontecido em vários outros lugares... Sentiu-se miseravelmente hipócrita. E, ao pensar nisso, acabou derramando algumas lágrimas, enfim rendendo-se ao pavor de morrer tão cedo.

E o estrondo vindo da área principal do Três Vassouras chegou aos seus ouvidos, e ela soube que eles estavam agora no bar, provavelmente torturando quem se escondia ali dentro, e matando, a julgar pelos gritos que se espalharam e a fizeram tremer ainda mais. Assim que a confusão começou, Paul não hesitou em segurá-la e arrastá-la com ele para dentro do depósito. Dali, ela tentou aparatá-los, mas não conseguiu, o que a levou a acreditar que eles lançaram feitiços anti-aparatação por todo o perímetro. As ruas estavam minadas, se saíssem, seriam assassinados. Ali, estavam encurralados. As opções não eram boas, mas não havia outras. Rosmerta olhou para Paul. Ele era extremamente especial e querido, sempre protetor, apesar de não possuir magia para protegê-la. Era puro-sangue, mas nunca apresentara sinais de magia, era um Aborto que a família tradicional rejeitara, expulsando-o de casa quando não recebeu a carta de Hogwarts. Ele foi encontrado por Amarant, pai de Rosmerta, quando este ainda era um adolescente, e levado para trabalhar no Três Vassouras.

Ela quem tinha magia ali, ela quem tinha uma varinha. Eles os encontrariam no depósito e matariam Paul. Ela quem precisava ser corajosa. Por mais que não quisesse. Não era à toa que não fora selecionada para Grifinória.

"Paul. Eu amo você, você sabe, não é?" Falou, beijando o amigo na testa. Antes que ele pudesse dizer alguma coisa, já o desacordara com um feitiço estuporante. Arrastou-o para um canto do depósito onde ele dificilmente seria encontrado e saiu dali de dentro. Logo de cara deparou-se com um Comensal da Morte que estava na cozinha, pronto para entrar no depósito, enquanto outro tomava calmamente alguns goles de Firewhisky perto da pia – cara-de-pau filho da puta, Rosmerta rosnou, apesar do enjôo que sentiu ao ver aquela máscara branca e horrível bem à sua frente, os olhos sombrios por trás dela cravando-se em seu corpo.

Ergueu a varinha para estuporá-lo, mas ele rapidamente segurou seu pulso, apertando-o com tanta força que a varinha caiu no chão com um estalo pesaroso. Rosmerta gemeu, fechando os olhos.

"Ora, ora, justamente quem eu estava procurando." O Comensal falou em um tom malicioso e torpe. "A moça mais bonita do povoado." Ele completou, abaixando o rosto para analisar o corpo da garota. Rosmerta tremeu e sentiu vontade de vomitar ao pensar que essa pessoa – esse Comensal maldito que provavelmente já matara várias pessoas naquele ataque – a conhecia, e provavelmente já fora um cliente do bar a quem atendera com um sorriso no rosto. Ele tirou a máscara e Rosmerta de fato o reconheceu. Um homem de talvez trinta e cinco anos que aparecia no bar vez ou outra. "Lembra-se de mim, doçura?" Ele perguntou sarcástico, antes de prender os pulsos da garota contra a porta e esmagar os lábios contra os dela.

O outro Comensal se apoiou à pia, observando a cena com certa diversão. Rosmerta tentou se soltar, mas sentia-se fraca e tonta, como se sua consciência houvesse se desprendido do mundo para poupá-la de vivenciar aquilo com todos os seus sentidos funcionando. Ele rasgou a parte da frente de seu vestido e esmagou um de seus seios com as mãos, fazendo-a gemer de dor e repulsa, só então percebendo as lágrimas que caíam livremente por seu rosto. Ele iria estuprá-la, enquanto o outro sádico assistiria de camarote.

Soube que estava gritando para que ele a largasse quando ele afastou a boca vil da sua e desceu para seu pescoço, procurando um jeito de afastar o vestido do caminho para que pudesse ir até o fim. Sentiu um nojo e um desespero imenso quando ele conseguiu tocá-la entre as pernas, friccionando os dedos no local, não para causar-lhe prazer, mas repulsa. Era evidente o quanto ele gostava de ver a expressão de horror da garota em meio às tentativas de afastá-lo. O outro Comensal estava rindo, e Rosmerta mal conseguia enxergar com clareza por causa das lágrimas pesadas.

Ele afastou as próprias roupas e ela pediu "não, por favor, não", quando ele se posicionou entre suas pernas, pronto para penetrá-la; suas costas pressionadas contra a porta do depósito, machucando-a. Mas nada a machucaria mais do que a humilhação de ter aquele homem asqueroso dentro de si, impulsionando-se contra seu corpo e buscando por aquele prazer mórbido no sofrimento alheio, gemendo obscenidade em seu ouvido. Fechou os olhos com força, querendo sumir, desejando morrer àquilo, por mais que viver lhe parecesse essencial apenas minutos antes.

Mas então se ouviu um rosnado raivoso, e ela estava livre, caindo de joelhos no chão pela súbita liberdade. Quando abriu os olhos, o Comensal que a atacava estava caído no chão, desacordado e sangrando, e um enorme cachorro preto avançava contra o outro, que ainda tentou jogar um feitiço, mas caiu sobre o peso do animal antes que o jorro verde escapasse de sua varinha. Ela ficou trêmula, incapaz de se levantar, ou raciocinar direito, as mãos apoiadas no chão gelado de pedra. O cachorro disparou pela porta assim que terminou de derrubar os dois homens e, assim que ele sumia pela porta dos fundos, Aurores entravam pela outra.

"Você está bem? Está machucada? Há algum outro Comensal por aqui? Freddie, há dois desmaiados aqui para serem levados!" Um deles falou, agachado perto da moça, amparando-a. Alguém colocou uma capa sobre seus ombros. Fizeram perguntas, mas Rosmerta estava trêmula demais para responder todas elas, então eles a deixaram sentada em um canto do bar, depois que ela conseguiu verbalizar que estava bem e que havia um amigo seu desmaiado no depósito.

Ao que parecia, os Aurores e professores de Hogwarts chegaram, mas os Comensais não ficaram para lutar, fugindo assim que os primeiros feitiços foram lançados contra eles. Aquela era só uma amostra do terror que eles poderiam causar. Apavorar e fomentar o medo da população – duas importantes armas de qualquer guerra. E Rosmerta pensou que eles atingiram o exato objetivo que desejavam, pois se sentia apavorada, o mesmo pavor que via nos rostos dos sobreviventes do ataque.

"Rosmerta!" Ela ouviu a voz de Sirius, e seu olhar perdido e ausente voltou de imediato à realidade, realmente captando as imagens ao redor ao focar suas orbes negras no garoto. Pulou do banco e simplesmente se jogou nos braços dele, nunca sentindo tanta necessidade de um abraço na vida. Os braços protetores dele a envolveram com força, transmitindo calor e segurança.

"Sirius. Sirius..." Murmurou contra o peito dele, seus dedos enterrando-se nas roupas dele. Chorou mais um pouco, cansada, desolada, ainda em choque. Era a primeira vez que passava por situação tão horrível na vida, e poderia muito bem ter passado por aquela terra sem uma experiência dessas, mesmo que assim continuasse ignorante quanto à maldade humana. "Você estava certo. A guerra já começou. Só os idiotas não a querem ver..."

"Shhh, calma, está tudo bem agora." Ele sussurrou, beijando-a no topo da cabeça e, aos poucos, a respiração da garota normalizou, e ela pôde apenas descansar nos braços do garoto. De alguma forma, no seu íntimo, no seu subconsciente, sabia que era ele seu salvador. E, ainda que houvesse inúmeros motivos para não amá-lo, bastava aquele para saber que não queria nunca mais deixá-lo ir.