Capítulo Seis
Ano de 1981
Foram quase quatro anos muito difíceis.
Não os últimos meses de Sirius em Hogwarts, no entanto. Naqueles meses, ele e Rosmerta namoraram o máximo que puderam, e Sirius nunca pensou que amaria tanto conhecer tantas passagens que o levassem rapidamente até Hogsmeade. Eles quase conseguiam se esquecer da guerra, dos problemas, de tudo, quando estavam juntos.
Naquele ano Rosmerta preparou um aniversário surpresa para Sirius no Três Vassouras. A data por sorte caíra em um sábado, e todos os amigos de escola puderam comparecer – James acabou completamente bêbado, para o desgosto de Lily, e até mesmo Remus ficara um tanto 'alto'. Peter mais comeu do que bebeu, é claro.
Depois disso, Rosmerta o levou para seu apartamento e Sirius dormiu fora de Hogwarts naquele sábado. Aí sim o aniversário mostrou-se realmente interessante. Foi naquela noite que ele a pediu em namoro de fato, apesar de ser apenas uma formalidade, pois aos olhos de todos eles já estavam juntos há um bom tempo. James sentia-se muito satisfeito em poder retrucar todas as piadinhas que Sirius lhe lançara quando era ele caindo de amores por Lily.
Sirius comprara um anel delicado, com um pequeno rubi para Rosmerta, que colocou no dedo delgado dela depois do pedido, o que foi seguido por uma noite de amor, repleta de beijos e juras. Desde então ele alternava entre chamá-la de Rô, ou de Rubi – dizia que ela tinha o mesmo brilho da pedra. Mas o cheiro de Jasmim é sua maior característica, ele afirmava em seguida. Adorava aquele aroma.
Depois disso, era a agonia de saber que ele estava lutando na guerra. De temer todas as notícias que poderiam chegar sobre algum acidente – que poderia ser até mesmo fatal – chegasse à sua janela carregada por uma coruja lúgubre logo pela manhã. Preferia quando ele passava a noite em Hogsmeade. Aqui é meu porto seguro, ele murmurava; era seu escape daquele caos.
Felizmente Hogsmeade não sofrera mais nenhum ataque. A segurança no lugar aumentara – Dumbledore certificara-se disso. Mas o clima era tenso. Ninguém mais confiava em ninguém no povoado. Qualquer pessoa desconhecida que aparecia poderia ser um Comensal, um partidário do Lorde.
Rosmerta já não atendia os clientes com um sorriso e uma conversa fácil na ponta da língua. Ninguém mais parecia sorrir. Era exaustivo demais. Era quase errado sentir algo bom em meio ao espetáculo de horrores que assolava a Inglaterra bruxa. Rosmerta agradecia por ter Sirius em sua vida. Apesar de tudo, apesar de ele realmente ter perdido o ar infantil, ganhando olhos mais maduros, sérios; traços mais pesados, um tom mais sombrio de quem vira mais do que pessoas muito mais velhas veriam em toda uma vida, ele ainda podia ser caloroso. Ainda podia sorrir, dizer coisas amáveis, e beijá-la como se tudo estivesse bem.
E Rosmerta sorria de volta, porque ela sempre fora boa em sorrir e acreditar que tudo ficaria bem no final. Que havia um propósito, mesmo para as dores e sofrimentos. Não fora o que seus pais haviam-lhe ensinado? Não diziam que era sempre melhor ter fé? Não em alguma entidade superior que provavelmente pouco se importaria com problemas mundanos. Mas na própria vida. Na essência de tudo. Na humanidade. Sempre existirão algumas gotas sujas no oceano, mas isso não quer dizer que ele está completamente sujo.
É, mesmo com o caos do exterior, Rosmerta não poderia achar aqueles anos completamente ruins. Não, foram bons, na verdade. O amor nos cega, mas era um bom momento para se sentir cega. Como quando ficou minutos e minutos com falta de ar pela risada quando Sirius apareceu com uma moto voadora e um sorriso travesso – aquele sorriso de criança que acaba de ganhar o melhor brinquedo da loja que ele abria em certos momentos. Ou estar cega quando sentiu o vento fresco da noite rivalizando com o calor do corpo dele quando ele a levou para um passeio pelos ares assim que conseguiu parar de rir. Ou estar cega quando ele parou a moto no telhado de seu modesto prédio e passaram o resto da noite apenas observando estrelas.
"Eu te amo." Ele disse pela primeira vez naquela noite, perto de um Halloween, mirando-lhe os olhos enquanto afastava uma mecha escura de seu rosto. Rosmerta não sabia por que ele demorou tanto para dizer. Três anos e alguns meses. Mas então percebeu que também nunca falara em voz alta, mesmo que já soubesse disso desde o primeiro Natal deles juntos.
Ora, porque... Pensou, por um momento, enquanto abria um sorriso que poderia apagar o brilho das estrelas, tal a felicidade que sentiu com aquelas três singelas, mas tão poderosas palavras. Porque há sentimentos que existem, e são tão evidentes, que às vezes os esquecemos de externar, tão óbvio, claro, que nos parece. Ela já sabia que ele a amava. Estava nos olhos cinzentos e belos, nos toques apaixonados e envolventes, nas palavras doces e até mesmo nas brigas afogueadas que aconteciam eventualmente.
"Eu também te amo. Muito." Garantiu. "Moleque." Completou, debochada. Adorava havia muito implicar com a diferença de idade de ambos. Ela agora com vinte e sete, ele com quase vinte e um.
"Minha sorte, já que você adora uma carne mais nova." Ele replicou, ainda mais debochado. "Devo me preocupar com o garoto que começou a trabalhar para você mês passado?" Ele se referia a um garoto órfão de treze anos que aparecera no povoado, e que fora acolhido por Paul.
Depois de um tapa bem dado de Rosmerta, eles acabaram aos beijos, desejando que o amanhecer não chegasse nunca.
Mas chegava, então Sirius retornava para a Ordem de Fênix. Rosmerta não costumava ir à casa dos amigos de Sirius. Na verdade, não sentia muita vontade. O clima era pesado demais, e ninguém parecia ter muita cabeça para encontros sociais. Ela sempre soube que era um pouquinho egoísta, e não sentia a menor vontade de misturar os dois mundos. Preferia ficar em seu povoado, com seu trabalho, as pessoas com quem se importava, os velhos amigos, e estar com Sirius quando ele podia aparecer.
Sirius amava aquela mulher, mas não lhe contara muitas coisas. Pensava que a estava protegendo. Era melhor não contar, ou amenizar o que acontecia. Não contar sobre as mortes que presenciara. As pequenas cidades de trouxas que eram atacadas apenas por diversão pelos Comensais da Morte. Também não contara muito sobre a profecia acerca do filho de seu melhor amigo. Era algo que o atormentava tanto, que apenas a abraçou durante toda uma noite, afirmando que James, Lily e o filho estavam em perigo. Contou sobre ser o fiel do segredo. Nunca achou que veria Rosmerta chorando tanto quanto naquele noite.
"Ele irá atrás de você, Sirius. Vai te matar." Ela colou as mãos sobre o rosto, tentando esconder as lágrimas. "ME LARGA!" E gritou quando ele tentou puxá-la para seus braços, mas cedeu quando ele a abraçou a força. "Não quero que você morra. O que eu vou fazer?"
"Não vou morrer, meu Rubi. Não vou." Garantiu, com as mãos trêmulas acariciando os cabelos sedosos dela.
Mas há muito tempo ela já sabia que ele era um Animago. Contar ao menos um de seus segredos fora bom. Ela chorou, meio que rindo, lembrando-se do cachorro negro que a salvara de ser violentada naquele que fora um dos dias mais aterrorizantes de sua vida. No fundo, ela já sabia. Mas não contou sobre desconfiar de um de seus amigos - Remus. Não revelou suas paranóias que em alguns momentos pareciam tão infundadas, e em outros, tão certas. Não acreditava mais nem em si mesmo, tal a confusão, o medo, a angústia que sentia com o avanço dos poderes e da influência de Voldemort. Acabou não falando nada sobre a decisão de James em trocar o Fiel do segredo – Peter seria o novo guardião. Talvez se a guerra não estivesse pesando tanto, teria refletido melhor e não teria cedido tão facilmente aos apelos de James. Na verdade, a troca pareceu-lhe extremamente não os trairia. Tinha medo demais do outro lado para se aliar a ele. E ninguém desconfiaria que justamente o mais pateta do grupo de amigos de Potter seria o escolhido.
"Você tem mesmo que ir? Justo agora? Já é noite..." Rosmerta perguntou, enquanto servia um chá na cozinha. Não olhava para ele. Ela nunca olhava quando o via partir. Parecia sentir medo de encarar o fato de frente. Era o único momento em que ela demonstrava um pouco da fraqueza que sentia. Que certamente sentia. Que ele próprio sentia. Não queria deixá-la. Por que não podia ficar ali, e deixar que os outros fossem nobres? Que os outros fossem corajosos e fortes?
Não, nem todos podem ser assim. E os que podem não devem fugir.
"Preciso ver se está tudo bem com Peter." Falou, dirigindo-se até a cozinha e abraçando-a por trás. Deu um beijo na nuca dela, aspirando o aroma de Jasmim e Gardênia. Tão dela. Tão ela. Era um cheiro que associou a amor, segurança, paz. Que sentia falta, mesmo que ele não o abandonasse por completo, quando estava longe.
Rosmerta largou o bule e se virou para ele.
"Vou estar aqui, você sabe." Sorriu, beijando-o de leve nos lábios.
"Eu sei." Ele sorriu de volta. E quando ele partiu, ela sentiu aquele aperto no peito que nos diz que algo está errado, que tudo mudaria, e o sonho de fato acabaria. Começou a chorar sem razão de fato, ignorando o olhar confuso de sua velha gata, deitada no parapeito da janela.
Quando percebeu, estava escrevendo uma carta.
Só não sabia que era uma carta de despedida.
XxX
Sirius desceu da moto e sentiu seus joelhos fraquejarem. Quando não encontrara Peter no esconderijo, tivera um mau pressentimento e voara diretamente para Godric's Hollow. Ele apenas queria gritar, mas os sentidos pareciam não responder a mais nenhuma das sensações que esmagavam seu peito, atropelavam seu corpo. Peter os traíra.
Peter os traíra.
Peter os traíra.
James e Lily estavam mortos. Mortos. Seus amigos. Seu melhor amigo. A ruiva maravilhosa com quem ele se casara. Mortos. Porque ele aceitara não ser mais Fiel do segredo. Era sua culpa. Eles estavam mortos.
Mortos.
Queria chorar, mas seus olhos continuavam estranhamente secos. Opacos. Não via mais direito. Não podia suportar aquilo.
Precisava de vingança.
Olhou para o pequeno Harry, ainda vivo, e pensou que ele cresceria sem os pais, sem James e Lily. Mortos. E era sua culpa. Mas Peter também era culpado, e o ódio cresceu de maneira incontrolável em seu corpo. Ofereceu sua motocicleta para que Hagrid levasse o garoto, Harry. Como James e Lily amavam aquele garoto. Mas estavam mortos agora, e Harry nunca experimentaria de novo aquele amor.
Então Sirius foi atrás de Peter, pois iria matá-lo. Precisava matá-lo, aquele verme não merecia viver. Como puderam confiar? Como puderam? Como? Nada mais parecia fazer sentido, enfim. Ainda era tão difícil de acreditar. A realidade poderia realmente ser cruel, errada, ruim. E ele teria dado a vida pelo desgraçado que lhe tirara algumas das pessoas mais importantes que conhecia, e amava.
Quando o encontrou, no meio de uma rua trouxa, não se importou com as testemunhas. A varinha estava terrivelmente firme em sua mão. Não tremia. Não teria hesitado. O olhar de espanto e horror de Peter causou-lhe nojo, ainda mais ódio. Como queria matá-lo. Como ele conseguia continuar vivendo depois do que fizera? Como tinha coragem de sequer olhá-lo, buscando por alguma piedade?
"Sirius, por favor..." Ele disse, naquele choramingo nojento, que usava quando era acusado de algo e sentia-se amuado. Covarde. Sirius sequer pensou antes de erguer a varinha. Iria fazer aquilo. Peter merecia.
Mas então subestimou aquele homem sem nenhum caráter, traiçoeiro novamente. Uma explosão e a fuga. Apenas um dedinho caído no chão e a morte de inúmeros trouxas inocentes. Sirius abaixou a varinha, seus lábios se entreabrindo. Foi quando uma coruja apareceu, e apenas por reflexo pegou a carta que ela lhe jogou.
Reconheceu a letra de imediato.
"Quando fechar seus olhos belos e negros, pense em mim na certeza de que me tem. Apenas interiorize em você minha lembrança. Desenhe-me em seus pensamentos – meu corpo, meus cabelos. Relembre nossos bons momentos... E quando se lembrar do meu olhar, saiba que jamais deixarei de pensar em você. Divague e venha até mim. Apenas divague e sonhe e, de nós, se embriague.
Seu Rubi."
Lágrimas inundaram seus olhos, enquanto caía de joelhos. Gritou uma vez, duas, antes que os Aurores começassem a surgir. E então começou a rir, desesperado, sem qualquer coerência. Ninguém sabia que Peter era o Fiel do segredo. Ele era o culpado.
Nem mesmo Rosmerta sabia.
Seu coração lhe perguntava por que sofria tanto. Por quê? Continuou rindo, feito um doido, enquanto o prendiam.
O sonho acabava, afinal.
