Capítulo 4
It's best to be feared than loved
Deitado em sua cama com os olhos desfocados encarando o teto, Harry comia um pedaço do chocolate com menta que havia comprado no caminho para casa. Estava fazendo o dever de inglês, mas os olhos acinzentados o distraíram. Durante a última semana convenceu-se de que Draco não valia a pena, que ele era tão egoísta e mesquinho quanto todos haviam dito, mas as ações do loiro nas últimas horas foram... Surpreendentes. E Harry não conseguia dizer se isso era bom ou ruim.
As coisas estavam dando certo com Cedric, ele era divertido e era bom estar com ele, apesar de ser um pouco possessivo às vezes. Então, por que não conseguia parar de pensar no rosto angular e nos olhos cinzas? E ele tinha certeza – principalmente depois de descobrir que Draco estava "disposto a experiências" – de que não sairiam de sua mente tão cedo.
Hey Jude dos Beatles ecoou pelo quarto silencioso, assustando-o. Procurou seu celular com os olhos, correndo para atender a tempo. Reconheceu a voz de Draco e sorriu.
- Você não ligou. Achei que tivesse morrido. – A voz de Draco não era tão diferente no telefone, talvez um pouco mais grave.
- Não. – Harry riu. – Já ia te ligar. – Ele ia mesmo, só faltava coragem.
- Sei.– O loiro deu uma risadinha incrédula.
- É sério! – O moreno riu.
- Eu disse que sei! Então, você falou com seus pais ou já vai fazer isso também? – Harry quase podia ver o sorriso irônico brincando no canto dos lábios do loiro.
- Claro que já falei com eles. – Era mentira. Ele não tinha falado com os pais coisa nenhuma. – Vou poder ficar até mais tarde.
- Ótimo. – Harry mordeu o lábio inferior. Bem, e agora? – Era só isso.
- Hm... Okay.
- O que você estava fazendo? – Draco perguntou de repente.
- O que? – O moreno estava rindo. Que pergunta mais repentina!
-O que você estava fazendo?– Repetiu, como se estivesse explicando uma coisa muito simples a alguma criança de 5 anos. – Sabe, antes de atender ao telefone.
- Eu sei o que você quis dizer! Mas por que quer saber?
- Droga, Harry. Apenas responda, qual seu problema? – A voz de Draco estava esganiçada. Era óbvio que o loiro estava fazendo um esforço enorme para não rir. – Não é um plano secreto pra te matar ou roubar as receitas dos hambúrgueres do seu pai, só quero saber o que você estava fazendo.
- Okay, okay! Desculpe. – Harry deitou na cama e encarou o teto, sorrindo. – Estava comendo chocolate e pensando... – em você, era o que queria dizer. Mas claro que não disse. – no Moony. – Emendou rápido.
- No Lupin? – Ouviu a gargalhada de Draco e riu de leve. – Porque diabos você estava pensando no Lupin?
- Estava pensando no dever de inglês, não exatamente no Moony. – Corrigiu-se, rindo.
- Sei, certo. Eu sei que você tem uma queda por aquelas roupas velhas eencardidas. – Caçoou Draco. Harry não pôde segurar a risada.
- Quem não tem, não é? – Os dois passaram alguns segundos rindo. – Estava comendo aquele chocolate com menta que você me deu no almoço.
- Mesmo? – Draco soou impressionado. – Gostou tanto assim?
- É muito bom.
Um latido alto fez-se ouvir, junto com a voz grave de Sirius e Harry pulou da cama, animado.
- Draco, eu preciso ir. Meu padrinho acabou de chegar. – Harry disse bem rápido parecendo uma criança de tão animado.
- Okay! Tchau. – Despediu-se Draco e novamente, Harry quase pôde ver o sorriso nos lábios finos do outros.
- Tchau! – E desligou.
Correndo, Harry desceu as escadas e antes de chegar à sala de visitas a voz de Sirius chegou aos seus ouvidos. Em um segundo o cachorro de pelagem negra estava pulando nele, colocando as patas em seus ombros e lambendo sua bochecha.
- Olá, Snuffles. – Harry deu uma risada feliz e brincou rapidamente com as orelhas do animal. – Estava com saudades, não foi? Eu sei que estava.
- Harry! – Sirius chamou com um sorriso. – Garoto, há quanto tempo eu não lhe vejo?
- Sem drama, Sirius, você almoçou com a gente ontem. – Ele tirou Snuffles de cima de si e foi abraçar o padrinho.
- Então por que você parece tão diferente?
- Pareço? – O moreno entortou a boca. – Acho que estou o mesmo, Padfoot. Talvez seja você quem está ficando velho e sua memória está um pouco avariada.
- Me respeite, seu moleque. – Sirius deu um tapa fraco na nuca de Harry rindo.
- Como foi a noite de filmes ontem? – Harry alisou a nuca dramaticamente.
- Foi ótima! Você devia ter se juntado a nós. Snuffles até chorou, não foi Snuffles? – Ele olhou para o cachorro por cima do ombro de Harry e ganhou um ganido alto em resposta.
- Desculpe, mas eu tinha muito dever pra fazer. Moony não está aliviando nada. Assim que terminarmos de jantar, vou ter que correr pra terminar.
- Não vai, não. – Sirius negou com a cabeça como uma criança. – Moony está vindo ai pra jantar conosco e eu vou ter uma conversa séria com ele. Vou pedir pra ele aliviar pra você. Afinal, qual é a graça de ter um melhor amigo professor se ele não coopera, não é?
- Qual é a graça de ter um melhor amigo desocupado se ele só serve pra falar bobagens sobre meu trabalho pelas minhas costas? – Lupin havia acabado de chegar e tinha uma sobrancelha levantada, mas um sorriso brincava em seus lábios.
- Moony! Oh, meu amigo. – Sirius correu a distancia entre eles e puxou o outro para um abraço apertado. – Eu e Snuffles sentimos sua falta ontem na noite de filme que fizemos.
- Claro que sentiu. – Remus deu um tapinha nas costas do amigo e piscou pra Harry, que riu. – Mas ao contrário de algumas pessoas, eu tenho um trabalho a cumprir, então tive que corrigi alguns trabalhos.
- É sobre isso que quero falar com você. – Sirius se afastou de Lupin e sua expressão se tornou séria, mas tanto Remus quanto Harry podiam ver o divertimento no fundo das íris acinzentadas. – Você tem que parar de passar esses trabalhos pros seus alunos, Moony. Se você não passar trabalhos, Harry não tem que fazê-los e você não tem que corrigi-los.
- Muito simples, mas eu não quero perder meu emprego, obrigado.
- Você arranja outro rapidinho!
- Não, Padfoot, nem adianta.
- Admita que você gosta é de passar o tempo com aquele seboso do Snape. – O divertimento sumiu dos olhos de Sirius e ele cruzou os braços.
- Oh, não, de novo não. – Lupin fez um sinal negativo para Sirius, alisando a ponte do nariz em seguida.
Sirius iria começar a fazer uma lista de defeitos para o narigudo esclerosado – esse estava na lista, com certeza – e de por que Remus deveria ficar longe dele, mas o som das pedras da entrada da casa estalando debaixo de pneus e a luz que entrou pela janela no cômodo anunciaram que alguém havia acabado de chegar. Snuffles começou a latir e arranhar a porta de entrada e Harry riu com a dança estranha que o padrinho fazia.
- Prongs chegou! – Sirius fechou os punhos e começou a girá-los na altura do peito, balançando a cabeça também. – Prongs está em casa.
- Pare com isso, Sirius, pare, por favor. – Pediu Lupin segurando o riso.
- A felicidade de Harry está me contagiando. – Ele lançou um olhar suspeito para o afilhado. – O que aconteceu com você, moleque? Você está transbordando alegria.
- O que? – Harry o olhou confuso. Quando foi que o padrinho percebera? Era aquilo que estava diferente nele, afinal de contas? Ele estava feliz? – Oh, Padfoot, não venha me usar como desculpa para suas loucuras.
- Nem comece. Eu posso ter o juízo alterado, mas eu sei que há alguma coisa a mais em você hoje e pode ir me contando.
Harry costumava contar tudo ao padrinho. Ele era, sem dúvidas, seu melhor amigo. Mas ele não podia simplesmente dar de ombros e dizer que o motivo de sua animação era Draco Malfoy, por que aquilo resultaria em seu homicídio. Harry estava se odiando por não poder falar nada, mas era culpa dele ser tão intolerante em relação ao loiro.
- Podemos falar sobre isso em outro momento? – Harry encolheu os ombros.
- Quando você estiver pronto, Harry, eu tenho certeza que Sirius também estará pronto para ouvi-lo. – Disse Lupin, tocando em seu ombro carinhosamente.
- Olá, família! – James entrou em casa jogando sua pasta e as chaves do carro sobre a mesinha de entrada e Lily apareceu logo atrás dele, alisando Snuffles.
- Prongs! – A voz de Sirius soou quase melodiosa e com uma risada meio latida ele abraçou o amigo, dando um beijo estalado na bochecha de Lily em seguida.
- Ei, campeão. – Assim que conseguiu se soltar de Sirius, James seguiu para Harry, dando um soco no ombro do menino, o puxando para um abraço depois. – Como foi o colégio hoje?
- Ah, tudo normal. Aulas chatas, Snape sendo insuportável, Moony passando muito dever de casa... – Harry enumerou tudo nos dedos e sorriu ao falar de Remus, lançando um olhar para ele.
- Precisamos conversar sobre isso, Moony. – Disse James, tentando fazer uma pose séria, mas falhando.
- Nem adianta, Prongs, eu acabei de falar com ele. Ele não me escuta. – A voz de Sirius soou ultrajada.
- Você vai perder essa, Moony. – Harry sussurrou.
- Harry. – Lily abraçou o filho com cuidado, como se esperasse que ele quebrasse com um aperto muito forte. – Como você está, querido? Queria estar em casa quando você chegou do colégio.
- Eu estou bem, mãe, não se preocupe. Está tudo bem. – O moreno tentou ao máximo passar alguma confiança para a mãe, mas quando Lily se afastou um pouco e observou o rosto do filho, sorrindo um pouco logo em seguida, Harry soube que ela percebeu seu estado de animação. – Quer me ajudar a arrumar a mesa, querido?
- Claro. – Harry sorriu abertamente, seguindo a mãe até a cozinha.
- Eu vou levar essa maleta para o escritório. Volto em dois segundos. – James pegou a maleta e subiu as escadas sem pressa. Remus e Sirius ficaram sozinhos na sala.
- Moony. – Sirius chamou, sussurrando e olhando ao redor para ter certeza que estavam sozinhos. – Você está de olho no Harry no colégio, não é?
- Eu disse que não faria isso, Padfoot.
- Mas você teve aula com ele hoje, não foi? O que você viu?
- Sirius, você não confia nem um pouco no seu afilhado? – Remus lançou um olhar acusador ao amigo, cruzando os braços.
- Claro que confio. Eu não confio é nas companhias dele. Você o viu com o filhote de Malfoy hoje?
- Sim. Eles têm a minha aula em comum. Sentaram juntos. – Ele disse sem importância na voz, dando de ombros.
- O que? – Sirius soou desesperado. – Mas que palhaçada! Harry disse que era apenas até sexta. Argh, eu sabia que era tempo demais. Eles parecem muito próximos?
- Eles parecem estar se divertindo juntos, sim.
- Mas que merda, Moony! E você fica só olhando?
- O que você espera que eu faça? Não cabe a mim dizer ao Harry com quem ele deve ou não conversar. Sem falar que isso é um problema do James e da Lily com o Lucius e a Narcissa e não do Harry e do Draco.
- Não fale o nome desses imprestáveis! – Sirius começou a bater em sua roupa como se Remus tivesse jogado pulgas sobre ele. – Me dá coceira.
- Você está sendo imensamente infantil e eu nem sei por que esse comportamento me surpreende. O garoto parece ser muito diferente de Lucius... Mas parece bem igual ao mesmo tempo. – Remus parou um segundo com a expressão pensativa.
- Você não espera que eu aprove isso, não é?
- Pare um segundo de pensar em suas brigas infantis com os Malfoys e pense no seu afilhado. Pense em como o Harry se sente estando no meio dessa guerra que ele nem entende. – Ele suspirou. – Procure entender, Padfoot, por que o Harry precisa de você.
- Eu vou tentar. Mas não tem a ver apenas com James e Lily, nem com Lucius ou Narcissa, tem a ver também a incapacidade de um Malfoy de dar algo a alguém sem querer algo em troca. Normalmente algo que pode custar muito, muito caro. E eu tenho medo, Moony. Tenho medo do que eles podem estar querendo do Harry.
- Talvez eles não queiram nada. Já cogitou essa possibilidade? Talvez eles estejam odiando essa história tanto quanto nós.
- Eu preciso pensar.
- Oh, então vamos preciso de um bom tempo. – Remus deu um sorriso de lado. – Muito, muito tempo.
- Engraçadinho. – Sirius fez uma careta de desdém e deu um soco com pouca força no ombro de Remus.
Durante o jantar, Harry conseguiu se distrair um pouco, rindo das idiotices de seu padrinho, mas ao voltar ao seu quarto e ver a embalagem do chocolate que ele havia comido mais cedo, algo acendeu em sua mente. Harry sabia que não devia criar expectativas para a tarde de estudos que teria com Draco, mas ele simplesmente não conseguia evitar.
Draco havia se desconcentrado de seu dever de casa há algum tempo. Toda vez que começava a ler, sua mente se perdia e ele não assimilava nada do que estava escrito ali, até que por fim ele desistiu. O loiro recostou-se na cadeira, colocou os pés sobre a escrivaninha e distraidamente começou a morder a tampa da caneta. Draco quase caiu pra trás quando a porta de seu quarto abriu de supetão e seu pai entrou com uma cara nada satisfeita.
- Draco, eu acabei de falar com Severus. – O garoto sentiu seu corpo todo ficar quente de nervosismo quando seu pai fez sua cara inexpressiva. Ele sabia que coisa boa não era. Snape certamente não ligou para Lucius para falar sobre a facilidade que Draco tinha em compreender sua matéria. – Me explique por que você continua socializando com aquele garoto Potter.
- Nós apenas sentamos juntos na aula de química, pai, não é como se ele fosse meu melhor amigo. – Draco tentou manter suas feições igualmente inexpressivas, mas ele sabia que não era tão bom quanto seu pai quando o assunto era não demonstrar sentimentos.
- Já conversamos sobre isso dezenas de vezes. Eu quero você longe desse garoto, entendeu? E, Draco, se eu sonhar que vocês dois andam de conversinha eu juro que farei você se arrepender pro resto da sua vida. – A intensidade na voz de Lucius era quase palpável.
- Eu não entendo. Qual é o problema, afinal?
- Isso não diz respeito a você, garoto. Apenas faça o que eu estou mandando.
- Mas é claro que diz respeito a mim! Sou eu quem está sendo privado de fazer amigos. – Draco levantou-se e assumiu a famosa careta de desgosto dos Malfoy. – Por quê?
- Não me enfrente, Draco, você vai pode não gostar das conseqüências. – Lucius encarou o filho, levantou um pouco o queixo e a voz aumentou uma quadra.
- Talvez por que você não vai ganhar nada com a minha amizade com o Harry, não é? Ele não tem tanto a oferecer quanto os Parkinson, os Goyle ou os Crabbe. – Draco deixou o desprezo ir crescendo em sua voz.
- Você me respeite, seu moleque. Com quem você acha que está falando? Com seu amiguinho Potter? – Ele se inclinou em direção ao filho e cuspiu o sobrenome com nojo.
- O que está acontecendo? – Narcissa passou pela porta num movimento rápido e elegante, o vestido fino e longo ondulando atrás de seus passos nervosos.
- Venha ver, Narcissa. Venha ver a decepção que seu filho se tornou. – Lucius olhou para a mulher por cima do ombro e voltou ao rosto de Draco rapidamente. – Fazendo amizade com os Potter por que quer.
- Quantas vezes eu vou ter que repetir que não estou fazendo amizade com ninguém? As pessoas temem o sobrenome Malfoy, sabia? Elas não se aproximam de mim por que sabem do que somos capazes. – Draco lançou um olhar triste para a mãe, que o sustentou. – E eu cansei disso. Eu ainda sou um adolescente e quero me divertir...
- Você quer se divertir? Mesmo? O quanto você acha que vai poder se divertir sem um tostão no bolso?
- Lucius! – Com o tom de voz desesperado, Narcissa pôs-se entre o filho e o marido com uma súplica no olhar. – Lucius, não diga um absurdo desses!
- Então você apóia a vergonha que Draco está se tornando para o nome que carrega?
- É apenas um nome, pelo amor de Deus! – O desespero foi vagarosamente se misturando a raiva. – Nós somos uma família, Lucius, temos que nos amar acima de tudo e não permito que você sequer pense absurdos.
- Se eu não pensar, nosso nome irá parar na lama, Narcissa.
- Oh, e quão horrível seria isso? – Narcissa ironizou e se o momento não estivesse tão tenso, Draco teria rido. – Você não está sendo racional. Se nosso nome for parar na lama, nós ainda teremos um ao outro, Lucius. Mas se você destruir o que nós temos... Você não terá nada. É realmente isso que você quer?
Draco assistiu seu pai ir baixando a guarda, seu peito inflando e murchando freneticamente e sua cabeça parecendo que ia explodir. Narcissa permaneceu com os olhos sobre o marido, como se tentasse transmitir alguma segurança ou um pingo de juízo que fosse. Por fim, Lucius levantou ainda mais o queixo e tirou os olhos da esposa, dirigindo-o ao filho e a decepção que ele sentia atingiu Draco na barriga como um soco.
- Eu estou dizendo pra você se afastar desse garoto, Draco. Vai ser melhor pra todos. – Lucius passou os olhos para Narcissa de relance. – Qualquer dia desses eu posso realmente não estar pensando racionalmente e posso acabar fazendo algo muito desagradável para todos nós.
- Lucius, pare. – Não havia súplica ou delicadeza na voz de Narcissa. Aquilo era claramente uma ordem.
- Por favor, Narcissa, queira me encontrar no meu escritório.
Martirizando o filho com os olhos, Lucius saiu do quarto sem dizer mais nada. Narcissa soltou um suspiro cansado, sua postura vacilando por um segundo. Se recompondo rapidamente, ela caminhou calmamente até Draco e depositou um beijo carinhoso em sua testa, dando-lhe um sorriso doce logo em seguida.
Quando sua mãe saiu do quarto fechando a porta, Draco caiu na cadeira na qual estava sentado antes de toda aquela confusão. Só então ele percebeu que suas mãos e suas pernas tremiam. Segurando a cabeça entre as mãos, Draco lutou contra a vontade de gritar. A verdade era que aquilo estava muito além de Harry e da suposta amizade que eles tinham. Tinha a ver com a necessidade de seu pai de ser sempre tão moralista, de sua falta de sentimentos – ou na dificuldade de mostrá-los –, com os constantes desentendimentos entre Lucius e Narcissa em relação ao comportamento de Draco.
A verdade era que Draco tinha muito medo de fazer algo que tivesse como conseqüência a separação de seus pais. Ele simplesmente não suportaria olhar para Narcissa se fosse o motivo de uma discussão dessa proporção. E no fundo Draco sabia que não teria coragem de ver o pai novamente se aquilo acabasse acontecendo. Draco tinha muito medo de acabar sozinho.
- Lucius, pense no seu filho! Esqueça sua empresa, esqueça seu sobrenome. Pense como um pai. – Draco ouviu o tom desesperado voltar à voz de sua mãe vinda do outro lado do corredor.
- Quem não está pensando racionalmente agora é você. Eu penso nele o tempo todo! Tudo o que faço é pensando nele.
- Certo, então, mas eu não irei criar meu filho na base de ameaças! Isso vai acabar com ele.
- Ele precisa ser mais forte, Narcissa! O mundo ai fora não terá pena dele.
- Eu não quero perder meu filho, Lucius. Por favor.
O sofrimento de Narcissa chegou à Draco como um tapa e o garoto levantou em um pulo. Ele precisava sair dali. Ouvir as súplicas de sua mãe o estava matando lentamente. Qual era seu problema afinal? Por que ele não podia acertar nenhuma vez? Por que ele não podia se controlar e ouvir as reclamações de deu pai calado? A resposta da última pergunta Draco tinha na ponta da língua. Ele era um Malfoy e foi educado a não aceitar as coisas calado. Era culpa de seu pai tê-lo criado assim e só então Draco percebeu quão confuso aquilo era.
Lucius não queria ouvir as indagações de Draco, não queria ouvir suas repostas, mas o havia educado para indagar e responder. Com a cabeça explodindo com tantas perguntas, teorias e a voz chorosa de sua mãe, Draco pegou as chaves do carro e saiu.
Tão alto que poderia tocar o céu. Draco estava deitado no chão no terraço de um prédio qualquer que ele nunca se preocupara em memorizar o nome. Era o único lugar no qual ele poderia ter um pouco de paz, o único em toda a Londres de onde se podiam ver as estrelas. E elas pareciam tão perto que Draco tinha a impressão de que se erguesse o braço poderia pegar uma.
Seu corpo todo estava arrepiado pela brisa gelada que soprava cortante ali em cima, seu coração apertava-se em apreensão. Com os olhos cinzas brilhando em lágrimas não derramadas, ele pedia em silêncio para, por favor, alguém – Deus ou qualquer coisa – fazer aquilo parar. Não suportava mais ser o motivo das brigas constantes entre seus pais, não aguentava mais chegar todo dia em casa para escutar seu pai falar sobre a empresa que assumiria ao terminar o ensino médio.
Fechou os olhos, pressionando as pálpebras com força, e abraçou o próprio corpo. Lembrou-se do olhar no rosto de sua mãe, da voz suplicante que implorava a Lucius. Ele quase podia ver toda a pose de sua mãe desmoronando naquele exato momento em casa, perguntando-se onde ele estava. Quando chegasse em casa, ele iria ter de ouvir todas aquelas coisas horríveis de sempre do seu próprio pai. Sua mãe intercederia por ele de novo e os dois estariam brigando antes que percebessem.
Ele estava cansado de ser Draco Malfoy, aquele que todos devem temer e nunca amar. Carregar o nome Malfoy nas costas era muito mais difícil do que parecia, do que deveria. Algumas lágrimas caíram sem sua permissão e logo lá estava ele, o poderoso, nariz empinado, mal humorado e maldoso Draco Malfoy chorando como um bebê no topo de um prédio qualquer e morrendo de frio. Se seu pai visse uma cena assim, mandaria cortarem-lhe a cabeça, como a Rainha de Copas em Alice nos País das Maravilhas.
Seu pai poderia facilmente ter representado a Rainha de Copas no filme. É melhor ser temido do que amado. Era a filosofia de vida do personagem e certamente de Lucius Malfoy também. Não importava o quanto seus amigos reclamavam dos pais, eles nunca saberiam o que é viver intimidado desde os 7 anos de idade. Os pais deles nunca os ameaçaram do jeito que Lucius fizera, nunca disseram coisas que podiam doer mais que um corte de uma faca ou uma bala perdida. Nem nunca diriam. Ele adoraria ter o pai de Pansy o qual a única coisa que exige da filha são boas notas ou o pai de Blaise, que nem boas notas quer, apenas que ele não se meta em encrencas o suficiente para pegar uma detenção.
Ninguém nunca saberia como era viver com medo em sua própria casa e ser agredido com palavras quase todos os dias.
Olhou o relógio. Quase dez da noite, estava na hora de voltar para casa e enfrentar tudo de novo. Respirou fundo e levantou-se, secou as lágrimas com a manga do agasalho fino que usava e saiu, não sem antes dar uma última olhada na vista privilegiada que tinha de Londres dali de cima.
Mais uma vez, agradecemos todos os comentários que recebemos. Cada um deles é especial e muito importante, fiquem sabendo! Se alguém não checou ou não percebeu, os comentários que são feitos por leitores de contas logadas são repondidos por private messaging. Então, se não sabia, corre pra ver! HAHA
Em relação ao Cedric e o Harry... Bem, eu acho o Cedric um amor! Sinceramente. Nos livros principalmente. Mas, vamos ter em mente que essa fic é Draco/Harry, então, vamos ver o que o loiro vai fazer pra tirar a "girafa retardada" do jogo!
Para aqueles que notaram que a Narcissa foi mais compreensiva que a Lily, preciso dizer que esse fato faz parte do enredo da história, então, mais cedo ou mais tarde, vocês entenderão direitinho o motivo de tal modo de agir.
Obrigada Mila Pink, PattJoger, Yann Riddle Black, Thomaz Volk! Mil beijos pra vocês. Espero que tenham gostado deste capítulo.
