Capítulo 8
He's just a boy
O que Narcissa estava prestes a fazer contrariava completamente todas as crenças e princípios de várias gerações anteriores a ela e com certeza afetaria as futuras. Sem dúvida, vários de seus ancestrais estavam se contorcendo em seus túmulos agora. E Lucius não podia em hipótese alguma imaginar o que ela tinha em mente.
Sim, aquilo era loucura, mas a única coisa com a qual Narcissa se importava era com a felicidade de Draco. O que ela vira naquela troca de olhares era difícil encontrar e mais ainda de se cultivar, principalmente quando se tinha pessoas tentando atrapalhar. Aquele olhar entre Draco e Harry mostrava uma cumplicidade sem tamanho. Havia tanto sentimento e tanta honestidade que Narcissa soube que poderia confiar a amizade de seu filho ao garoto sem medos.
Ela estava tão confiante com aquilo tudo que era temeroso a principio. Opor-se a Lucius não era um bom caminho a ser trilhado, mas a felicidade que ela viu no rosto de Draco quando o garoto chegou em casa era simplesmente impagável e instalou nela mesma basicamente o mesmo sentimento.
Narcissa sabia o quão importante era que Draco pudesse partilhar de uma amizade verdadeira na vida, principalmente porque isso era algo que ela não podia dar-lhe. Harry Potter lhe parecia ser a pessoa certa desde que o viu pela primeira vez em sua casa.
A cópia fiel do pai – menos os olhos, verdes como esmeraldas lapidadas, como os da mãe –, Harry era certamente impressionante. Sua capacidade de portar-se à sua presença foi a segunda coisa que a chamou atenção. O garoto soube ser gentil sem faltar com respeito, muito pelo contrário, ele foi respeitoso até demais. Depois, seus conhecimentos sobre coisas consideradas ordinárias por pessoas da idade do garoto, mas que eram cruciais. O único real pecado de Harry era não saber se vestir, mas no dia anterior, gentilmente e com discrição ela deu algumas dicas de peças chaves e como ele poderia favorecer seus atributos físicos, como os músculos firmes das coxas, do peito, dos braços e a barriga lisa.
De todos aquelas pessoas que tentavam separar os dois, aparentemente, apenas Narcissa lembrava exatamente o quanto aquilo podia doer. Talvez houvesse sido mais difícil pra ela superar. Oh, pensando melhor, certamente foi mais difícil pra ela, já que Narcissa foi a única que acabou com o coração quebrado. Agora, se era necessário fazer com que todos os outros lembrassem exatamente de como se sentiram, ela o faria sem pena. Por mais que doesse nela também.
A porta fora atendida por uma mulher de pouca idade, baixinha e com a mesma farda branca que suas empregadas usavam na mansão. Quando a mulher perguntou a Narcissa quem desejava falar com a "sua senhora", ela apenas a lançou um olhar de cima para baixo que se podia ler facilmente como "recolha-se a sua insignificância" e a mulher se encolheu, murmurando que Narcissa entrasse e sumiu no corredor.
Ela permaneceu olhando tudo ao seu redor, se impressionando com o bom gosto da decoração. Não se passaram mais de três minutos e a pessoa por quem Narcissa esperava apareceu. A ruiva estacou no meio da sala, sua boca aberta em um perfeito "o" e os olhos foram se arregalando ao analisar a loira com a pose inabalada à sua frente.
- Narcissa. – Havia surpresa na voz dela, mas o nome da loira fora pronunciado em forma de cumprimento.
- Lily. – Narcissa assentiu graciosamente. – Há quanto tempo...
- Muito tempo. – Lily endureceu as expressões e cruzou os braços defensivamente. – Mas você não mudou nada.
- Vou entender isso como um elogio. – Ela deu um sorrisinho de canto e analisou a mulher à sua frente cautelosamente. Lily também não havia mudado.
- O que você está fazendo aqui? – E lá estava a falta de tato dos Potter. O sorriso de Narcissa cresceu, um flash de lembranças a atingindo. Fazia realmente muito tempo desde a última vez que se lembrava de ter visto aquelas expressões.
- Eu tive o prazer de conhecer seu filho. – Ela começou como se contasse uma pequena fofoca. – Acredito que você saiba que ele e meu filho são amigos.
- Estou ciente, mas não apoio.
- Imaginei. Antes de qualquer coisa devo parabenizá-la pela educação do garoto. Realmente fiquei impressionada.
- Obrigada. – Narcissa viu orgulho faiscar nos olhos da ruiva. – Mas acredito que você não veio aqui para falar sobre a educação que dou ao meu filho.
- Não exatamente. Mas o motivo é a amizade entre Draco e Harry. E por isso peço que você deixe de lado essa concorrência entre nossos maridos por um momento e tente se lembrar exatamente de como você se sentiu quando você acreditou que não poderia ficar com James.
- O que isso tem a ver com...
- Nós duas sabemos que Lucius e James não querem Draco e Harry juntos. – Narcissa a interrompeu sem cerimônia. – Eles se sentem como você se sentiu. E não é bom, é Lily? Eu não sei você, mas não quero que meu filho se sinta assim.
- Foi um sentimento horrível e é claro que eu não quero que Harry experimente-o, mas o que você espera que eu faça?
- Bem, isso você resolve. Você é quem tem que saber exatamente o que dizer para que Harry saiba que você o irá apoiar não importa quem seja seu melhor amigo. Ele é um ótimo garoto, Lily, eu não gostaria de saber que ele está vivendo com a mesma dor que eu vivi por um tempo.
- Cissy, minha prima querida, que imensurável prazer revê-la! – A voz de Sirius soou irônica atrás de Narcissa e ela virou-se a tempo de vê-lo fazendo uma reverência extremamente exagerada. Sempre elegante e com um apenas um sorriso igualmente irônico brincando em seus lábios, Narcissa o analisou sem perder a pose ou parecer rude.
- Ora, ora. É um prazer enorme reencontrá-lo, também.
- O que te traz aqui? Veio sugar a felicidade alheia? – Sirius disse com tom de descaso, enfiando as mãos nos bolsos e caminhando em direção à Lily, parando ao lado da ruiva.
- Oh, Sirius, já vai baixar o nível? – Narcissa desafiou, sem soar grosseira, mas sim com tom brincalhão.
- Narcissa está aqui com um propósito completamente altruísta.
- Por mais incrível que pareça. – Ela adicionou, sarcástica. – Eu acredito que você se lembre da grande confusão que foi, primo querido, mesmo não tendo idéia de como qualquer um de nós nos sentimos.
- Do que se trata? – Sirius perguntou intrigado, juntado as sobrancelhas escuras.
- O que eu estava pedindo a Lily era que ela recordasse de alguns momentos do nosso passado. Principalmente como ela se sentiu quando James pareceu fora de seu alcance.
- É, graças a seu marido.
- Não são os erros de Lucius que importam nesse momento, isso já passou. O importante agora é a felicidade de Draco, porque eu tenho certeza que a amizade dele com seu filho, Lily, o afetará pro resto da vida.
- Como você pode estar tão certa de algo assim? – Perguntou a ruiva.
- Você não viu eles se olharem do jeito que eu vi, viu? – Narcissa tinha um quê de negação em sua voz.
- Então vamos ver se entendi direito... – Sirius começou a gesticular freneticamente. – Você, uma Malfoy, está pedindo ajuda a uma Potter.
- Eu, uma mãe que não quer que seu filho sofra, estou pedindo que outra mãe compartilhe do mesmo pensamento que eu e entenda o sofrimento o qual podemos evitar.
Narcissa soube que seu argumento havia sido válido quando viu que Sirius estava protelando e um silêncio caiu sobre os três. Lily lançou um olhar significativo para Sirius, que havia travado uma batalha interna. Ele queria ajudar o afilhado, queria que ele voltasse a confiar-lhe seus segredos, mas ir contra os princípios de seu melhor amigo não parecia agradável.
Mas James estava errado, não estava? Os problemas entre ele e Lucius não tinham nada a ver com os dois garotos. E para Narcissa engolir todo seu orgulho e pedir ajuda a eles era porque o assunto era sério.
- Tudo bem. – Sirius disse por fim e viu Lily voltar a respirar. – Vou fazer isso pelo Harry. Aceito a amizade dele com aquele filhote de co... Com seu filho. Se Harry faz tanta questão, eu aceito.
- Obrigada. – Narcissa disse deixando um sorriso vitorioso surgir em seus lábios.
- Narcissa, permita-me perguntar-lhe uma coisa... – Pediu Lily e continuou quando Narcissa assentiu. – Você diz ter sofrido... Mas e agora? Você está casada com Lucius, de qualquer forma.
- Eu amo meu marido. Foi necessário um bom tempo para que eu aceitasse que teria que me casar com uma pessoa que eu nem conhecia direito. E mais tempo ainda para que eu superasse a dor de perder a que eu amava de verdade, mas já se passou muito tempo. Eu amo Lucius.
- Então se você está bem agora, priminha, isso significa que Harry também poderia viver sem amizade do Malfoy miniatura.
- O tempo que eu passei com aquela dor foi o suficiente para não querer que mais ninguém a sinta. E ao contrário de mim, Draco não desistirá.
Sem mais, Narcissa se levantou. Os olhos de Sirius a seguiram, um tanto arregalados. No entanto, Lily parecia mais calma quando deixou o amigo sozinho para acompanhá-la à porta. Narcissa acenou breve e discretamente para o primo que fez questão de fingir cegueira. Balançou a cabeça graciosamente como se faz quando uma criança fala alguma bobagem e aguardou Lily tomar sua frente.
Durante o caminho pelo curto corredor, observou as paredes repletas de fotografias tipicamente familiares. Uma em particular continha James lhe sorrindo brilhantemente. Seu coração acelerou, mas Narcissa não se permitiu esboçar nenhum tipo de reação, apenas desviou o olhar e continuou andando.
- Obrigada por... Bem... – A falta de palavras da ruiva quase a fez sorrir.
- Está tudo bem. – Fez uma reverência discreta.
- Desculpe por Sirius. É mais criança que Harry às vezes. – Continuou, contorcendo as mãos umas nas outras.
- Conhecendo seu filho, sou obrigada a concordar. – Sorriu-lhe gentilmente. – Bem, devo ir agora.
Narcissa esperou a ruiva abrir a porta e saiu. Um sentimento forte de vitória tomava-lhe o peito lentamente enquanto entrava no carro e se inclinava para frente para dar instruções ao motorista sobre o próximo destino. Encostou-se ao banco, lembrando-se do rosto alegre de James na foto pregada à parede. Admirou-se de sua sorte, tinha certeza de que se ele estivesse em casa, se o visse, todo seu plano iria por água abaixo e, pela primeira vez em anos, não saberia como reagir.
O vidro da janela fez um barulho e Narcissa foi obrigada a deixar suas divagações de lado, percebeu, confusa, que o carro não estava se movendo. Inclinou-se para frente novamente para perguntar ao motorista o que acontecera.
- É sua irmã, senhora. – Murmurou o homem em tom de riso, mas logo reassumiu a postura séria ao ver o olhar que a mulher lhe lançava.
Baixou o vidro lentamente, apertando um botãozinho na porta do veículo e ensaiou rapidamente um sorriso ao ver o rosto bonito da irmã aparecer. No entanto, logo desistiu, suspirando, impaciente.
Bellatrix Lestrange era dona de um rosto angular e marcante, normalmente contorcido numa expressão de profundo desprezo. Vestia-se de preto e verde, em todas as ocasiões na qual foi vista, nunca dispensando seus corpetes bem trabalhados por mais desconfortáveis e incômodos que fossem. A cabeleira espessa, negra e encaracolada presa pela metade por um elástico no topo da cabeça, alguns cachos rebeldes caiam sobre seu rosto e o resto descia por suas costas em cascata.
- Olá, Bella. – Cumprimentou a irmã, abrindo a porta do carro e afastando-se para o lado, enquanto Bellatrix se acomodava. – Como descobriu que vim aqui? – Indagou sem rodeios, mesmo já sabendo a resposta.
- Vamos apenas dizer que seus criados conversam. – Falou em voz alta, gesticulando não muito discreta para o banco da frente ao mesmo tempo que rolava os olhos.
- É claro. – Concordou Narcissa, suspirando. – E então? – Mirou os olhos negros da irmã mais velha, esperando.
- Você enlouqueceu, Cissy? Vir para a casa do Potter assim? Sem mais nem menos? Se seu marido sonha com isso... – Deixou a frase no ar, arqueando as sobrancelhas finas.
- Primeiramente, não enlouqueci, nem vim aqui sem motivo. Fiz isso por meu filho e faria quantas vezes fosse necessário se isso significasse a felicidade de Draco. – Respondeu, ignorando deliberadamente o olhar de escárnio da irmã. – Você não tem filhos ainda, Bella, quando tiver, saberá do que estou falando. – Os olhos azuis brilharam e desviaram-se para a janela, não demorando muito a voltar a mirar os negros. – Quanto a Lucius, ele não saberá se você não contar.
- Se eu descobri sozinha, o que o impede de fazer o mesmo? – Inquiriu com um sorriso vitorioso nos lábios.
- Cuidarei disso pessoalmente mais tarde. – Falou, lançando um olhar furtivo para o motorista (que se mexeu desconfortável). – Acho que gostará de saber que encontrei com Sirius.
- Mesmo? E por que acha isso? – Analisou as unhas compridas com desinteresse. Fez uma careta desgostosa.
- Bella... – Narcissa estava sorrindo. Bellatrix fora a que mais saíra prejudicada quando Sirius abandonara os Black. Narcissa perdera um primo, mas Bella perdera um amigo.
- Não quero saber, Narcissa. – Cortou a loira antes que ela começasse toda a ladainha insuportável sobre Sirius. – Onde estamos indo? Isso não é o caminho para a sua casa. – Mudou de assunto, olhando pela janela.
- Achei que tinha dito que faria o que for preciso pela felicidade de Draco.
- Sim, você disse, mas isso não responde minha pergunta.
- Nós vamos ver Severus.
Todo o caminho até a modesta casa numa ruela de um bairro classe média, Bellatrix não parara de falar como isso era desnecessário e ela não deveria fazê-lo. Mais de uma vez, Narcissa repetira seu discurso sobre fazer de tudo pelo bem do filho, mas não era como se a irmã estivesse ouvindo.
Narcissa saiu do veiculo escuro, os cabelos loiros e a barra do vestido esvoaçando com o vento forte. Atravessou a passos rápidos, seus passos ecoando nas pedras em forma de paralelepípedo do calçamento. Ela bateu na porta três vezes antes que Bella a alcançasse. Aguardaram juntas respirando o mau cheiro do rio sujo ali perto. Passados poucos segundos, um homem alto, inteiramente vestido de preto apareceu na soleira, analisando-as como se não as reconhecesse.
- Narcissa! – Exclamou Severus, genuinamente surpreso. O homem afastou-se alguns passos para dar espaço para as duas mulheres passarem. – Por favor, entre. – Convidou.
- Severus. – Cumprimentou educadamente, entrando com Bellatrix em seu encalço. – Precisamos conversar.
- É claro. – Encarou Bellatrix por alguns segundos.
- Snape. – Disse secamente, fazendo uma reverência exagerada e irônica.
- Bellatrix. – Respondeu ele, os lábios finos se esticando num sorriso sarcástico.
Snape guiou-as até a sala de estar escura com estantes que iam até o teto repletas de livros. Sentou-se numa poltrona velha, indicando o sofá com um gesto displicente. Narcissa sentou-se enquanto Bellatrix preferiu permanecer em pé escrutinando a saleta com seus olhos de ônix.
- Em que posso ajudá-la, Narcissa?
- Severus, eu... – Respirou fundo, olhando para Bellatrix que continuava alheia, provavelmente procurando algum defeito para comentar. – Você é padrinho de Draco, por isso, preciso lhe pedir um favor. – Ela falava baixo, escolhendo as palavras com cuidado.
Severus poderia ser padrinho de Draco, mas sua amizade com Lucius ainda poderia ser mais forte. E ele tinha seus próprios motivos para não gostar dos Potter. Ouviu-se o barulho de algo quebrando e o homem rapidamente virou a cabeça. Nenhum dos dois percebera Bellatrix mexendo em alguns livros, ela havia quebrado um vaso ao tentar alcançar uma prateleira particularmente alta.
- Nunca lhe disseram que não devemos mexer no que não é nosso, Bellatrix? – A voz de Snape era cuidadosamente controlada e ele falava mal mexendo os lábios. A mulher apenas riu e fez um gesto de quem não se importa com a mão.
Narcissa rolou os olhos. Bellatrix era mais velha, mas tinha a capacidade de agir como uma criança muitas vezes. Era bastante parecida com Sirius nesse sentido.
- Severus. – Chamou, os olhos negros como carvão a encararam. – Sobre Draco... Creio que está ciente da amizade entre meu filho e Harry Potter.
- Sim, estou ciente.
- Sei que é um velho amigo de Lucius, mas preciso lhe pedir que pare de narrar cada passo dos dois para meu marido.
- Desculpe, Narcissa, não sei se entendi corretamente. – Snape se desencostou da poltrona, sem desviar dos olhos azuis. – Está me pedindo para deixar que Draco seja amigo de Potter?
- Estou. – Respondeu.
- Posso saber o porquê?
- Porque ter você agindo como uma beata velha fofoqueira é realmente insuportável. – Falou Bellatrix, gargalhando. Narcissa a repreendeu com o olhar, mas Snape apenas arqueou uma sobrancelha.
- Por favor, Narcissa, prossiga. – Ignorou Bellatrix deliberadamente.
- Draco tem o direito de ter suas próprias amizades e tenho certeza que já reparou como os dois são quando estão juntos, Severus. Sei que já viu como Draco parece mais feliz.
- Sim, eu percebi. – Severus voltou a recostar-se na poltrona, entrelaçando os dedos das mãos ossudas. – Por esse motivo é que acho que isso deve acabar o mais cedo possível. Narcissa, entendo que quer a felicidade de Draco, mas Lucius fará da vida dele um inferno por causa dessa amizade. Ele acabará sofrendo ainda mais.
- Lucius não precisaria saber! Por isso peço sua ajuda. Você é a única pessoa que o informa, talvez se disser que os dois estão se afastando...
- Quando ele descobrir será ainda pior. E ele não demoraria a descobrir, Lucius não é idiota, Narcissa.
- Ou talvez seja. – Comentou Bellatrix de seu canto.
- Bella, por favor. – Repreendeu Narcissa, antes de virar-se novamente para Snape. – Nunca lhe pedi nada, Severus. É evidente que essa amizade é por demais importante para Draco e eu... Não quero que ele sofra o mesmo que nós. – Apelar para o passado era golpe baixo. Ela sabia, mas não havia outra saída.
- Onde está querendo chegar? – Indagou, franzindo o cenho.
- Você se lembra de como é querer estar perto de uma pessoa e não poder. Você sabe como dói, não é? – A expressão de Severus se iluminou em entendimento e ele desviou o olhar. – Apenas não quero que Draco sofra o mesmo.
- Eu... Entendo. – Resmungou, encarando as próprias mãos.
- Posso contar com sua ajuda?
- Sim, você pode. – Suspirou, derrotado.
- Prometa. – Exigiu Bellatrix, aproximando-se dos dois a passos vagarosos.
- O que? – Severus ergueu o olhar ao mesmo tempo em que Narcissa virava-se para encarar a irmã, o rosto bonito contorcendo-se em surpresa.
- Não é necessário, Bella. – Assegurou a loira.
- Vai mesmo confiar apenas na palavra dele, Cissy? – Perguntou, cruzando os braços.
- Não preciso de mais nada. Ou preciso, Severus? – Narcissa voltou seu olhar gelado para Snape.
- Não. Mas se isso tranqüilizaria sua irmã... Eu dou minha palavra.
- Ótimo então! – Bellatrix bateu palmas, infantilmente. – Podemos sair desse lugar.
Narcissa entrou em casa com Bellatrix em seu encalço, tagarelando sobre como Lucius iria ter uma síncope se descobrisse o que a irmã estava fazendo. Sem dizer nada, Narcissa apenas lançou um olhar reprovador para a mais velha e despiu as luvas. O inverno chegaria com força logo, logo.
Com Bellatrix pulando como uma criança ao seu redor, Narcissa entregou suas luvas e seu sobretudo para uma das empregadas, ordenando que ela lavasse ambas as peças. Rapidamente a loira olhou para a irmã quando essa soltou uma risadinha maldosa. O que Narcissa viu a teria feito sorrir se ela não estivesse acompanhada. Draco estava sentado sobre o tapete da sala de estar, com ninguém menos que Harry Potter ao seu lado, a lareira crepitando atrás dos dois, enquanto seu filho se inclinava sobre seu livro, apontado o do garoto ao seu lado.
O que fez Narcissa segurar um sorriso foi o fato de que Harry não olhava para onde seu filho apontava e sim para o rosto dele. As íris verdes corriam dos olhos para os lábios do loiro e o moreno umedeceu os próprios lábios, mordendo-o em seguida. Ambos pularam de susto quando Bellatrix se pronunciou.
- Ora, ora. O que temos aqui? – Ela começou, sarcástica.
- Tia Bella. – Draco disse assustado, lembrando-se de baixar a cabeça rapidamente em sinal de respeito em seguida.
- Já não basta tudo o que ouvi hoje, Cissy, ainda tenho que chegar em casa e presenciar uma cena dessas. – O sarcasmo na voz da morena era tanto que Harry se sentia incomodado. – Mostre um pouco de educação, Sr. Potter, me cumprimente!
- Talvez eu o faça quando souber quem a senhora é. – Harry respondeu tentando manter a voz impassível, mordendo a língua quando a mão de Draco apertou sua coxa.
- Não seja tão insolente! Não me surpreende que meu querido sobrinho nunca tenha falado sobre mim, não é mesmo, Draco, querido? – Bellatrix contorceu o rosto num sorriso falso.
- Desculpe. – Draco pediu, baixinho. – Harry, essa é minha tia, Bellatrix Lestrange.
- Sra. Lestrange. – Harry deu um breve aceno com a cabeça, mais por medo do que poderia acontecer a Draco caso ele não o fizesse. – Posso perguntar como a senhora sabe quem sou, mas eu não faço a mínima idéia de quem a senhora seria?
- Não teria mesmo como saber, não é? – Bellatrix bufou, impaciente. – Como eu não reconheceria esses óculos ridículos? Tão típico dos Potter.
- Bella. – Narcissa chamou. – Aceita uma xícara de chá?
- Não entendo como você consegue ficar tão indiferente com a presença de um Potter debaixo do seu teto, Cissy! Lucius o tiraria daqui em segundos!
- Lucius não está em casa, está? – A loira observou a expressão de desgosto da irmã. – Queira me fazer companhia, Bella.
Narcissa deu as costas após acenar com a cabeça para os garotos. Bellatrix apenas os olhou com uma careta e seguiu a irmã. Harry estava um tanto quanto incrédulo. Aquela mulher certamente não tinha nada em comum com a irmã. Desde o modo de agir e de falar, até sua postura. Sacudindo a cabeça, o moreno voltou a atenção ao loiro nervoso ao seu lado.
- Está tudo bem?
- Sim, sim. – Draco sorriu de canto, ainda nervoso. – Eu só não esperava que minha tia aparecesse logo hoje. Mas vamos continuar, temos muita química pela frente.
Eles já estavam ali há quase três horas e a cabeça de Harry parecia que ia explodir a qualquer momento. O moreno deitou a cabeça na mesa enquanto Draco tentava, pela terceira vez, explicar a mesma coisa e também não ajudava em nada o fato da paciência do loiro já ter se acabado.
- Harry, por favor, preste atenção. – Draco começou a massagear uma têmpora.
- Eu estou prestando.
- De olhos fechados?
- É pra eu me concentrar apenas no que você está dizendo. – Harry deu um sorrisinho.
- Vamos, abra os olhos, levante a cabeça. – O loiro deu um tapinha no ombro dele. – Saiba que eu não vou me sentir nem um pouco culpado se você tirar nota baixa.
- Eu nunca pensei que fosse. – Ele disse esfregando os olhos. – Não podemos parar um pouco?
- Não, ainda não, vamos terminar...
De repente, Draco parou, arregalando os olhos. O loiro esticou o pescoço e começou a olhar ao redor, como se procurasse algo. Harry viu o desespero se instalar no rosto do loiro quando o ranger do portão da casa se fechando chegou aos seus ouvidos. O nervosismo e a tensão que se acometeu no rosto do loiro a sua frente eram tão grandes que começou a contagiá-lo e Harry se viu preocupado sem nem ao menos saber o que estava acontecendo.
- Meu pai chegou. – Draco disse com um fio de voz, imóvel, apenas olhando para um ponto fixo na porta de entrada.
- Seu pai? – Harry, desesperadamente, começou a enfiar suas coisas de volta dentro da mochila, só parando quando mais nada que lhe pertencesse estava sobre a mesa. – O que vamos fazer? Eu tenho que ir embora.
- Não dá pra sair sem que ele lhe veja. – A falta de reação vinda de seu amigo começou a irritá-lo e o deixou ainda mais nervoso. – Suba. Vá para o meu quarto e fique lá. Tente não fazer barulho.
Correndo e sem esperar qualquer movimento de Draco, Harry subiu as escadas, indo direto para o quarto do loiro. Ofegante, Harry fechou a porta atrás de si e encostou-se nela. Alguns minutos se passaram onde o moreno apenas se preocupou em controlar os ruídos de sua respiração descontrolada. Com o coração pulando e as pernas tremendo, Harry arrastou os pés em direção a cama e sentou-se na ponta do colchão macio, prestando atenção para não bater em nada.
Muito tempo se passou – o relógio na cabeceira do loiro dizia que quase meia hora – e Harry permanecia no mesmo lugar, tentando imaginar o que estava acontecendo lá em baixo. A porta abriu-se e fechou-se rapidamente, apenas o suficiente para Draco entrar. O loiro não se virou, não fez barulho, nem disse nada, apenas ficou ali, com a mão na maçaneta, de costas para Harry.
Mesmo sem ver o rosto de Draco, Harry soube que algo estava errado. A sempre inabalada pose Malfoy do garoto não estava ali. O loiro parecia tentar se encolher o máximo que podia, os ombros caídos e a cabeça baixa. Só então Harry percebeu que o loiro estava tremendo.
Levantando-se, Harry deu um passo à frente, inclinando-se, tentando entrar num ângulo no qual ele pudesse ver o rosto do outro. Antes que pudesse conseguir, Draco virou-se ainda de cabeça baixa, os olhos fechados e a testa vincada como se algo estivesse doendo muito. Pelo que Harry constatou, o loiro tentava não chorar. Por vergonha, provavelmente. Mas Harry queria que ele soubesse que Draco não precisava tentar ser o que não era quando estava com ele. Por isso, o moreno foi até ele e ajoelhou-se a sua frente, levantando o rosto do outro com a mão, dando um sorriso cheio de compaixão que apertava seu peito. Ao ver o sofrimento no fundo dos olhos azul-acinzentados, Harry se viu contagiado pelo sofrimento do outro e acariciou seu maxilar com carinho.
- Draco... – Ele murmurou. – Eu estou aqui.
Em entendimento, Draco o abraçou com toda força que tinha, se permitindo chorar. Em poucos minutos ele já estava soluçando, o que fez Harry abraçá-lo como se quisesse lhe passar forças, afagando suas costas com afeição. Os soluços cessaram quando passos e vozes foram ouvidos no corredor do outro lado da porta e os músculos de Draco ficaram tensos ao redor do moreno.
- Eu passo alguns dias fora de casa e você me trai desse jeito, Narcissa? – Harry deduziu que aquela voz grave fosse do pai de Draco. – Trazer o filho deles à minha casa?
Oh, merda. Como ele descobriu?
- Lucius, como você pode dizer que eu o traí? Isso não tem o menor cabimento. – Ele quase não reconheceu a voz de Narcissa. Ela soava indignada e faltava a suavidade que sempre estava presente quando ela falava com ele. – Por favor, apenas escute o que eu tenho a lhe dizer.
A voz sempre tão encantadora de Narcissa foi sumindo conforme eles se afastavam e os soluços e tremores de Draco estavam de volta em seus braços. Devagar, Harry levantou-se, trazendo o corpo do outro consigo. Caminharam juntos em direção a cama e cuidadosamente o moreno deitou-se ali, puxando Draco também. O loiro agarrou-se em sua camisa, afundando o rosto em seu peito, pouco se importando em molhá-la com as lágrimas – Harry também não se importava. Murmurando que tudo ficaria bem, o mais alto passou a afagar os cabelos loiros que sempre lhe pareceram tão convidativos. Macios debaixo de seus dedos, Harry deslizava os dedos entre os fios, até que os soluços cessaram.
Quando o aperto em sua camisa afrouxou, Harry percebeu que Draco havia pegado no sono. Suspirando, o moreno apertou mais o corpo junto ao seu, ainda sentindo a dor de ver o loiro tão abalado e pedindo silenciosamente que nunca mais voltasse a vê-lo daquele jeito, por que era deveras agonizante.
Com preces quietas, o moreno continuou com o carinho nos cabelos platinados até pegar no sono também. Com o calor do corpo de Draco contra o seu. Com o cheiro de seu perfume impregnando-se em suas roupas. Com o sentimento de que não havia mais nenhum tijolo restante naquela parede que separava Harry do mundo de Draco.
Mais um capítulo pra vocês! Será que depois dessa ajuda da Narcissa eles vão chegar a algum lugar? HAHA
Muito obrigada por todos os comentários e por aqueles que leem, mas preferem não se manifestar.
Obrigada PattJoger, Ines Granger Black, Yann Riddle Black, Drielle e todos aqueles que colocaram a história nos favoritos e no alerta! Espero que gostem desse capítulo. Beijos.
