Capítulo 9
Find your own voice

Lucius estava inquieto, indo de um lado para o outro, sempre seguro em sua pose, sempre com a voz soando vazia. Narcissa apenas o observava, sentada em uma das poltronas da biblioteca, bebericando seu chá enquanto o marido deixava bem clara toda sua indignação.

- Ora, mas que audácia! Esse garoto também não tem nenhum pingo de orgulho? Onde já se viu! Um Potter na casa de um Malfoy! – Lucius dizia, exasperado.

- Bem, o garoto não tem nenhum motivo para se importar. – A indiferença na voz de Narcissa fez com que Lucius se irritasse ainda mais.

- Não tem nenhum motivo? – Ele cerrou os olhos e falou entre dentes, pontuando bem: – Ele é um Potter.

- Estou ciente deste fato. – Narcissa, cuidadosamente, pousou a xícara que tinha em mãos sobre a mesinha e levantou-se. – Nem Potter nem Draco estão à frente das empresas ainda, então eles não tem nenhuma concorrência ainda. E, aparentemente, os pais dele não o explicaram mais nada. Então, querido, me explique por que Harry e Draco teriam problemas em estarem juntos, se não há nenhuma razão para não estarem?

- A razão é que eu não quero. Eu não quero que meu nome tenha qualquer relação com o nome deles.

- Draco parece não se importar com o que você quer. – Narcissa sorriu fraquinho para o marido. – E não vou fingir que não estou orgulhosa disso.

- O que você está dizendo, Narcissa? – Ele perguntou como se a esposa estivesse ficando louca.

- Entenda, Lucius, nosso filho já não mais um menininho. Draco não é a mais a criança que seguia seus passos sem questionar. Ele agora sabe o que quer, têm suas próprias opiniões, tira suas próprias conclusões e, que eu saiba, foi para isso que nós o criamos.

- Eu não o criei para que ele me questionasse ou me desobedecesse. – Lucius fez uma careta de desagrado.

- E não são essas as conseqüências de ver nosso menininho crescendo? – Narcissa deu uma risadinha. – Ora, vamos, Lucius, admita. Você está tão orgulhoso quanto eu.

- Acho que a palavra certa é desgostoso.

- Tudo bem, então. Mas, diga-me, qual é seu problema com o garoto? Que eu saiba, sua briga é com o pai dele, não? O que o menino lhe fez? – Quando Lucius ficou calado, apenas observando-a, Narcissa soube que tinha ganhado aquela discussão. – Seu silêncio já diz bastante coisa. Talvez você perceba agora que esse ódio que você nutre pelo garoto Potter não tem o menor cabimento, querido. – A loira se aproximou sorrindo. – Eu estou aqui, não estou? Não há mais por que alimentar essa briga. Eu estou com você.

- De qualquer forma, - Lucius disse depois de muito tempo protelando. – Não me agradou nem um pouco você saber que o garoto estava aqui enquanto eu estava ausente e não me dizer nada. E se Bellatrix não tivesse dito?

- Ah, minha irmã me deixou muito pouco satisfeita, deixe-me dizer, mas eu teria essa conversa com você mais cedo ou mais tarde. Bella apenas adiantou as coisas. – Narcissa se aproximou do marido e acariciou-lhe a bochecha com o dorso da mão. – Nosso Draco está crescendo, querido. Não perca mais tempo. Sua briga com os Potter também não tem nada a ver com ele.

Após repetir as carícias algumas vezes, Narcissa parou e sorriu para ele. O silêncio de Lucius naquele momento não podia ser dádiva maior. Satisfeita, ela depositou um beijo cálido nos lábios finos e deu as costas, deixando-o sozinho e sem reação.

Seguindo com um pequeno sorriso pelos corredores, Narcissa parou à frente da porta do quarto de Draco, batendo de leve antes de girar a maçaneta. Aquela cena certamente aumentou seu sorriso.

Draco tinha o rosto escondido na curva do pescoço de Harry e sua mão pálida estava enrolada em sua camisa, como se o garoto se agarrasse em uma âncora para sobreviver. O moreno estava com um braço enlaçado na cintura fina de Draco, como se estivesse mais do que disposto em ser essa âncora. A outra mão estava entre os fios de cabelo, o queixo apoiado no topo da cabeça loira, as pernas dos dois terminavam entrelaçadas. As respirações estavam calmas, os rostos com expressões tranqüilas, sem se preocupar com nada além de estarem um nos braços do outro.

Com passos cuidados, Narcissa se dirigiu as cortinas e as fechou, indo ao armário em seguida e pegou um cobertor, pondo-o sobre ambos. No processo, um longo suspiro foi emitido por Harry e a loira sorriu, contente. Narcissa se assustou quando duas íris verdes-esmeralda as observava intensamente. O moreno a olhou, confuso, levando o olhar para o loiro em seus braços, o olhar se tornando preocupado.

- Vai ficar tudo bem. – Ela sussurrou, ajeitando o cobertor sobre os dois. – Volte a dormir.

Narcissa assentiu e se retirou. Harry ficou observando o caminho que a loira tinha feito. Se ele não tivesse tanta certeza de que ela estivera mesmo ali, poderia ter jurado que aquilo era um sonho. O calor do corpo de Draco era tão aconchegante que ele suspirou novamente. O perfume que se desprendia dos cabelos loiros entre seus dedos era inebriante. E a sensação da cintura fina presa em seu abraço era surreal demais. Como se nada mais no mundo importasse, Harry pegou no sono mais uma vez. E de fato, nada mais importava.


Harry acordou assustado, sentindo algo vibrando em seu bolso. O loiro em seus braços ressonava, soltando sua respiração calma em seu pescoço, fazendo-o se arrepiar. Sem muito estardalhaço, o moreno alcançou o celular, virando um pouco o rosto para longe do ouvido do loiro, aproveitando pra checar a hora no relógio. Merda. Já passava das dez e era Lily ligando pela vigésima vez.

- Alô? – Ele atendeu sussurrando.

- Harry, graças a deus.– Harry ouviu a mãe soltar o ar, aliviada. – Onde você está? O que aconteceu? Pelo amor de deus, Harry, você disse que ia estudar. E não me diga que é isso que você está fazendo, passa das dez e você nem ao menos deu notícia. Quando você chegar em casa, vamos ter uma conversa séria...

-Lily, pergunte com quem ele está.– A voz de Sirius soou ainda mais alta que a de Lily do outro lado da linha.

- Mãe, eu estou bem. Me desculpe, perdi a hora.

- Você estava bebendo?

- Não! É claro que não. Eu não sou um alcoólatra, mãe. Estou bem, não precisa de preocupar.

-Onde ele está? O que ele está fazendo?– Perguntou Sirius. – Mande o moleque vir pra casa agora, vou ter uma conversa com ele e...

-Sirius. – Lily repreendeu. – Harry, se você continuar fazendo isso, eu sinto muito, mas terei que pensar duas vezes antes de deixá-lo sair. é a segunda vez que isso acontece...

- Ora, deixe pra conversar quando ele chegar em casa, pergunte onde ele está! Mande-o vir pra casa!

- Sirius, por favor, deixe que eu...

-Me o telefone, Lily, deixe que eu lido com ele...Alguns barulhos do outro da linha indicaram que Sirius tentava tirar o telefone da mão de Lily, que resistia. Quando ele estiver aqui você pode dar uma bronca e até sugiro que umas boas palmadas também, pra colocar juízo naquela cabeça...

- Pare, Sirius! Pare. Ora, solte. Quem está merecendo uma bronca é você. Harry não é mais criança... Sirius Black, solte o telefone!

-Harry?A voz de Sirius agora estava mais nítida e Lily brigava com ele no fundo. Harry, escute. Eu sei que você não confia mais em mim tanto quanto antes, mas saiba que eu... Lily, com licença, pare... Saiba que eu não estou aqui para julgá-lo. Pode confiar em mim. O que você quiser, Harry, eu vou aceitar, independente do que seja. Ah, graças a Deus, James, por favor, controle sua mulher.

- O que está acontecendo? – Ouviu-se a voz de James.

-Harry, seja honesto comigo. Onde você está?Sirius perguntou, parecendo estar se afastando da voz indignada de Lily e o consolo de James. – Você está com o Malfoy, não está?

Harry suspirou com pesar, o loiro em questão se mexeu em seus braços devagar, tentando se aproximar mais, como se fosse possível. O moreno se deu por vencido. Já estava cansado de não poder abrir o jogo com Sirius.

- Estou.

- Na mansão Malfoy?

- É.

- E Lucius sabe?

- Sabe. – Harry lembrou-se da voz do dito cujo atrás da porta, dos tremores, dos soluços, das lágrimas.

-E você sobreviveu para contar a história? Nossa, isso é algo pra se comemorar!– Disse Sirius com tom brincalhão.

- Ele não sabe que estou aqui agora. Ele apenas sabe que estive aqui.

- É, isso explica as coisas. Mas por que você está sussurrando?

-Draco está dormindo. Eu também estava, até vocês me acordarem.

-Dormindo? – Sirius deu uma gargalhada latida. Eu estava pensando em como perguntar o que vocês estavam fazendo sem lhe constranger, mas vocês estavam dormindo?

- Sirius, por favor. – Harry pediu, corando. – Ele é apenas meu amigo.

- Claro, claro. Vai passar a noite no covil?

-De maneira nenhuma!Harry ouviu Lily exclamar, mais meia dúzia de ruídos se seguiu e Lily agora estava com a pose do telefone. Harry, venha pra casa.

- Tudo bem. Até mais. – E desligou ainda ouvindo uma série de reclamações vindas de seu padrinho.

Ao enfiar o aparelho de volta no bolso e levar o olhar de volta ao loiro, Harry constatou que Draco estava acordado. Os olhos azul-prateados mirando-o com simpatia, um sorrisinho terno e as bochechas levemente coradas.

- Era sua mãe?

- Minha mãe, meu pai e Sirius. – Harry sorriu, ainda com o braço firme ao redor da cintura do loiro, sem planos de sair dali.

- Você precisa ir?

- Preciso. – Ele suspirou.

- Obrigado, Harry.

- Eu estava lhe devendo pela festa da Pansy, lembra? E, como você mesmo disse, amigos são pra isso. – Com a mão livre, Harry acariciou a pele pálida e imaculada do braço de Draco. – Eu só quero que você saiba que... Sempre que seu pai for um completo idiota com você, você pode contar comigo. Pode me ligar sem pensar duas vezes. Eu estarei aqui num piscar de olhos.

- Hm... Saiba que isso pode acontecer com certa freqüência.

- Eu não me importo. – Harry sorriu.

Ah, aquilo certamente era surreal demais para ser verdade. Claro que não era normal dormir abraçado com seu melhor amigo, nem acariciar-lhe o rosto, nem afagar seus cabelos, mas talvez por Harry ser seu primeiro amigo de verdade, Draco não soubesse disso. Pelo menos era isso do que o moreno tentava se convencer sempre que o loiro mostrava qualquer sinal de interesse.

Sem aviso, Draco levantou-se, um frio incômodo envolvendo o corpo de Harry e ele quis apenas poder chamar o loiro de volta. Em passos leves, Draco dirigiu-se a porta e abriu-a, olhando de um lado para o outro do corredor.

- Vamos. – Ele disse por cima do ombro. – Tenho que tirar você daqui sem que te vejam.

- Sua mãe me viu. – Harry lembrou, pulando da cama e seguindo o loiro.

- Sim, minha mãe é uma coisa, meu pai é outra completamente diferente e desagradável. – Draco segurou a mão de Harry, fazendo um sinal para que ele mantivesse silêncio enquanto andava pelos corredores.

Com sucesso e sem cruzar com ninguém, eles chegaram à porta da frente. Abrindo-a com cuidado, Draco deixou Harry passar primeiro, antes de segui-lo. De lá, eles seguiram pelo caminho de pedras em direção da garagem. O moreno soltou um muxoxo, claro, Lucius havia visto seu carro na garagem. Destravando o veiculo rapidamente, Harry escorregou para dentro, baixando a janela para olhar para Draco antes de dar partida.

- Qualquer coisa, pode me ligar.

- Eu pretendo voltar pro quarto sem ser visto, mas sim, eu ligo. – Ele sorriu de canto e Harry abriu o seu próprio sorriso quando viu a pose de Draco de volta. – Obrigado.

- Pare de agradecer. É para isso que os amigos servem.

Quando o carro preto sumiu e os portões principais fecharam, Draco subiu de volta, enfiando-se debaixo das cobertas sem pestanejar, agarrando-se no travesseiro onde Harry estava há pouco, sentindo seu cheiro amadeirado que havia ficado impregnado na fronha e se permitiu sorrir. Com um pouco mais de frio, Draco se viu vencido pelo sono novamente. Um sono tranqüilo e velado pela sensação em seu peito.


Harry estivera distraído e quase batera o carro três vezes no caminho para casa. A sensação de vazio não o deixara esquecer como era ter Draco Malfoy em seus braços. Cada poro de seu corpo reclamava a falta do calor e do conforto proporcionado pelo corpo magro contra o seu, pela respiração calma e ritmada de encontro a seu pescoço.

O som alto e irritante da buzina do carro de trás o tirou de seus prazerosos devaneios. Harry levantou o olhar para encarar o sinal e viu a luz verde brilhando, berrante. Mais sons como o primeiro vieram e o moreno se viu obrigado a tirar Draco de sua mente e acelerar o carro.

Antes de se dar conta, já estava estacionando o carro na garagem de casa e reunindo toda sua coragem para enfrentar os pais e o padrinho. Sua mãe conseguia ser mais assustadora que um exército de Lucius Malfoy quando queria. Respirou fundo e, temeroso, fez seu caminho até a casa. Com passos lentos e silenciosos, adentrou e não pôde deixar de se surpreender com a cena. James e Lily estavam sentados no sofá com uma postura que se parecia assustadoramente com a dos Malfoy. Harry não chegou a ver o rosto de Sirius, mas ele gesticulava com empolgação enquanto falava ao telefone.

Olhou ao redor, desconfiado, antes de continuar seu caminho para dentro da sala de estar. James o encarou apenas, ele não abriu a boca, nem mesmo mudou de posição, mas não era necessário. Seus olhos estavam brilhantemente obscuros e Harry sabia que estava encrencado. Muito encrencado. Sua mãe, no entanto, levantou-se para apertar o filho em seus braços.

- Harry James Potter! – Exclamou segurando o rosto do moreno entre as mãos delicadas. – Nunca mais faça isso comigo!

- Desculpe, mãe. Nós... Meio que apagamos. – Murmurou, sem esconder o alívio.

- Por que você estava lá? – Inquiriu James, ainda sentado no sofá, imóvel. Harry foi puxado pela mão para se sentar na poltrona e apenas o olhou, calado. – Harry, por que você estava na casa dos Malfoy? Nós já conversamos sobre isso.

- James... - Chamou a ruiva, quietamente.

- Não, mãe, tudo bem. – Lançou um olhar de esguelha para Lily, não se demorando muito em voltar a olhar para James. – E pai, nós não conversamos. Você falou, eu escutei. Isso não quer dizer que eu concordo ou que entendo. Não quer dizer que eu vou fazer exatamente o que o senhor quer o tempo todo. Eu tenho o direito de escolher meus próprios amigos. – Ele observou o rosto de James ir de branco para vermelho em questão de segundos.

- Harry, vá para o seu quarto. – Sirius falou de repente, assustando todos na sala. – Vai, moleque.

Imediatamente, Harry se levantou e subiu lentamente as escadas, batendo a porta do quarto com força. Ainda ouviu algumas vozes alteradas no andar de baixo antes de se jogar com tudo na cama, mas não deu atenção. Apanhou o iPod e colocou Hurricane do 30 Seconds To Mars no volume máximo. Fechou os olhos, permitindo sua mente viajar pela cidade para encontrar os olhos cinza brilhantes.

Por mais ridículo que parecesse, Harry se sentia envergonhado ao extremo todas as vezes que se lembrava do que acontecera. Seus hormônios entraram em colapso apenas por ter abraçado Draco. Aquilo não fora apenas um abraço, certo. Mas aquilo não era certo, o loiro precisara de um amigo, um ombro no qual se apoiar e chorar, nenhum dos dois fez aquilo de caso pensado, não houvera nenhum indício de que aquele abraço daria em alguma outra coisa. Mesmo assim, lá estava ele, excitado como um menino de 13 anos ao ganhar sua primeira playboy.

Ridículo! Ridículo! Simplesmente ridículo! Era como se nunca tivesse tido um amigo bonito na vida! Inconformado, jogou uma almofada contra a porta do closet. Mas Draco Malfoy não era apenas atraente, não é? O loiro era bonito demais para o próprio bem – e o de Harry. O moreno podia ver os olhares desejosos lançados por estranhos no meio da rua. Estranhos sem nome ou rosto que fodiam Draco com o olhar. Harry não podia fingir que não se sentia incomodado.

Fechou os olhos com força e balançou a cabeça, batendo-a contra o travesseiro. Ele não podia se sentir assim, não quando era o primeiro e único amigo verdadeiro que Draco já tivera na vida. Ele não poderia deixar seus hormônios idiotas estragarem aquilo para o loiro, simplesmente não podia. Nunca.

Seu fone de ouvido foi puxado com força de sua orelha e Harry pulou com o susto. Abriu e rolou os olhos pelo cômodo para ver o autor da ação criminosa. Encontrou Sirius o encarando com os braços cruzados e as sobrancelhas arqueadas. Harry sentou-se na cama e os dois se olharam por alguns segundos antes do mais velho se mover para sentar-se ao seu lado.

- Prongs quer arrancar seu couro e fazer um casaco pra sua mãe. Você sabe disso, não é? – Um sorriso brincalhão esticava seus lábios, mas os olhos azul-acinzentados estavam preocupados.

- Por que você tinha que contar para ele onde eu estava? – Perguntou, cruzando os braços e encarando o padrinho desafiadoramente.

- Você acha que eu faria isso? – Harry o olhou, sugestivo e Sirius não pôde segurar a risada. – Lily estava ouvindo... James também. Nunca que eu faria isso contigo de propósito, moleque. – Abraçou o afilhado pelos ombros, puxando-o para perto.

- Qual o problema de vocês com os Malfoy? Eu entendo que Lucius não é uma pessoa exatamente adorável, mas...

- Olha, esse negócio com os Malfoy é bem mais complicado e antigo do que você pode imaginar, antes de você nascer, antes da lanchonete. – Soltou Harry para olhá-lo nos olhos. – Mas eu não vim aqui pra falar sobre isso.

- Claro. – Harry o olhou, desconfiado.

- Fui mandado aqui em missão oficial pra te convencer a se afastar de vez do filhote de doninha albina. – Brincou. O garoto mordeu o lábio inferior e se mexeu, desconfortável.

- Sirius! – Repreendeu.

- O que? Você parece o Moony. – Rolou os olhos. – Eu não vou te convencer de nada. Se depender de mim, você pode fazer o que quiser com o garoto... Opa! – Exclamou, rindo ao que Harry corou furiosamente. – O que você quer fazer com o garoto, Harry?

- Nada, Padfoot. – Resmungou, antes de desviar o olhar para as mãos. – Nada.

- Sei. – Disse Sirius com um sorriso irônico. – Enfim, isso não me diz respeito, mas eu agradeceria se você tomasse mais cuidado pra não matar seu pai e sua mãe do coração.

- Vou tentar. – Afirmou, num fio de voz, ainda sentindo o rosto queimar como fogo.

- Não vou fingir que acho isso bonito, viu? Mas agora, tenho que ir lá mentir pro seu pai. – Levantou-se, ajeitando a bermuda frouxa no quadril.

- Padfoot... – Chamou. – Valeu. Mesmo.

- Nah... – Fez um gesto displicente com a mão e deu de ombros. – Se você gosta tanto desse menino. – Bagunçou ainda mais os cabelos negros do garoto antes de sair porta afora.

Harry jogou-se na cama e sorriu, alegre, para o teto.


Harry encontrou Draco encostado em seu armário, concentrado em algo que via em seu caderno, a testa vincada, a ponta da língua molhando os lábios freneticamente, um lápis pendendo entre seus dedos. Devagar e sem fazer muito barulho, Harry se aproximou, lutando para que algumas imagens não se manifestassem em sua mente.

- Bom dia. – Ele desejou, enfiando as mãos no bolso.

- Hey! – Draco levantou os olhos como se tivesse acabado de voltar de outro planeta. – Bom dia. Então, teve que responder muitas perguntas ontem?

- Algumas. – Harry deu um sorrisinho. – Se não fosse por Sirius eu não estaria aqui para contar a história.

- É, você tem a sorte de ter seu padrinho do seu lado. – Disse o loiro com certa amargura na voz.

Algumas meninas passaram correndo por eles, dando risadinhas e gritinhos excitados, juntando-se a outro grupo de meninas que formavam uma multidão em frente ao quadro de avisos ao lado da porta da secretária.

- O que está acontecendo? – Perguntou Harry analisando a confusão.

- Vamos descobrir. Ei, Bulstrode! – Draco chamou uma garota baixinha e gordinha que havia acabado de sair do meio da multidão. A menina se aproximou com as bochechas rosadas. – O que aconteceu?

- É um aviso sobre o baile de inverno. É daqui a 18 dias, uma semana antes das provas começarem. – Ela disse cheia de excitação e seus olhos brilharam. – Já tem com quem ir?

- Ora, suma daqui. – Draco ordenou entre dentes, cerrando os olhos. A garota ganiu baixinho e saiu em passos rápidos.

- Quanta gentileza. – Harry riu fraquinho, revirando os olhos e dando de ombros. – Não vou precisar me preocupar com esse baile. Meu pai não vai me deixar de casa pelos próximos quatro anos.

- Não é nada que seu padrinho não possa resolver. – O loiro disse, fazendo um gesto displicente com a cabeça.

- Não sei... Meu pai realmente perdeu toda calma que tem. Mas eu não me importo muito. Você vai?

- Você acha que eu perderia de ver os perdedores desse colégio passando vergonha? Pisando no pé de seus pares, cometendo gafes no jantar, usando roupas horrendas. – Ele numerou nos dedos, com uma expressão de quem revivia momentos prazerosos do passado.

- Por sorte não estarei lá para ser alvo das suas piadas. Mas você vai poder me contar todos os detalhes. – Harry riu, fazendo um sinal para o caderno que o loiro segurava. – O que tem ai?

- Ah, eu estava tentando fazer os exercícios de matemática, mas não está sendo tão fácil quanto eu pensei.

- Bem... Hermione é ótima em matemática, talvez ela pudesse ajudar...

- Oh, nem comece. – Draco cortou com uma careta de desgosto. – Não vou pedir ajuda a Granger.

- Não estou pedindo pra você pedir ajuda dela... Eu posso falar com ela pra me acompanhar em uma de nossas tardes de estudo e...

- Não. Sem chances. – Draco negou com a cabeça. – Eu peço ajuda até ao Thomas, mas a Granger não. Não quero dar motivos pro Weasel acabar com minha paz.

Abrindo espaço no meio da multidão, a cabeça ruiva de Ron surgiu. Harry sorriria se o rosto do garoto não estivesse tão vermelho quanto seus cabelos. Hermione o seguia bem de perto, parecendo querer controlar a situação, mas falhando.

- Falando no diabo... – Murmurou o loiro a Harry, que o lançou um olhar reprovador antes de voltar sua atenção para o ruivo em chamas.

- Harry, você já viu isso? – Ron quase esfregou uma página de jornal na cara de Harry. – Minha irmã assina um jornal de fofocas e isso estava na primeira página.

Harry desamassou o jornal e arregalou os olhos para a foto que ocupava quase toda a página. Claro, era uma foto dele com Draco na lanchonete. Ao seu lado, o loiro ficou tenso no mesmo instante. Os seus nomes em negrito pularam aos seus olhos, chamando sua atenção para o texto na legenda da imagem. Os herdeiros das duas maiorese melhoreslanchonetes de fast-food do país parecem estar juntando forças. Na foto acima, podemos ver Draco Malfoy e HarryPotter lanchando juntos numa das lojas do Sr.Potter. Seria apenas um golpe da concorrência tentando botar as mãos na receita da família ou seria esse o começo de uma parceria inigualável?

- Mas que merda é essa? – Draco arrancou o jornal das mãos de um estático Harry e analisou a foto mais de perto. Era uma ótima foto, ele tinha que admitir. Eles sorriam um para o outro, olhos nos olhos. – Ah, como eles ousam?

- Pronto, é agora que meu pai arranca meu couro. – Harry passou a mão pelos cabelos nervosamente.

- Sem drama, Harry. – Pediu Draco, soltando um muxoxo e rasgando o jornal.

- Ei, isso era meu! – Protestou Ron.

- Oh, e pra que você queria isso, Weasel? Queria pendurar na sua parede pra ficar admirando? – O loiro cerrou os olhos perigosamente. – Eu achava melhor você desaparecer da minha frente. Meu humor não está dos melhores e olhar pra sua cara não melhora nada.

- Ora, seu nojento ingrato. Você preferia que um dos garotos do quarto ano viesse lhe mostrar? Eu tenho certeza que eles não seriam tão gentis.

- Gentil não é uma palavra que se encaixa bem ao seu perfil, pobretão. – Draco se aproximou com a careta se torcendo cada vez mais.

- Ron, vamos. – Hermione puxou o namorado. – Falamos com você mais tarde, está bem, Harry?

- Tudo bem. Obrigado, Ron. E desculpe por Draco. – Harry disse enquanto os dois se afastavam.

- Não peça desculpas por mim. Se eu estivesse arrependido pediria desculpas eu mesmo. – Draco virou para Harry com a mesma careta que fazia para Ron.

- Ei, a culpa não é minha. – Disse o moreno com a voz tranqüilizadora.

- Eu sei que não. – Ele suspirou pesadamente. – Se meu pai tomar conhecimento disso eu estou ferrado.

- Nós dois estamos. – Harry acompanhou Draco no suspiro. – Hoje de manhã eu nem olhei para meus pais. E quando eles souberem que eu levei você na loja...

- Eu sabia que não deveria ter ido. – Draco soltou um muxoxo. – Mas o pior é que não me arrependo.

- Não? – Harry olhou para ele, curioso.

- Claro que não. Foi uma tarde divertida e a comida é ótima. – O loiro sorriu quando Harry se mostrou mais aliviado.

- Fico feliz, então. Mas quem você acha que tirou a foto?

- Pode ter sido qualquer um... – Draco deu de ombros. – Mas aposto que foi aquela nojenta da Chang.

- Não comece com isso, Draco.

- O quê? Ela deve ter ganhado um bom dinheiro pela foto.

- Cedric disse que a família dela tem dinheiro.

- Oh, e por acaso seu querido Diggory também lhe disse que ela já dormiu com todo time de futebol? E provavelmente o de basquete também. – Draco estava se aproximando cada vez mais de Harry, que teimava em se afastar. Proximidade naquele momento era tudo o que ele não precisava.

- Eu soube de algumas histórias, sim, mas não vejo como isso faz dela o tipo de pessoas que expõe a intimidade dos outros por algumas libras.

- Isso faz dela o tipo de pessoa que faria tudo por atenção. Eu conheço bem o tipinho daquela dali. Não me surpreenderia nem por um segundo se descobrisse que foi ela. – Harry agradeceu baixinho quando Draco parou de se aproximar. – E eu vou descobrir.

- Só não vá fazer nenhuma besteira, por favor.

- Ora, eu sou um Malfoy, Harry. Eu não vou fazer o trabalho sujo. – Ele deu um sorrisinho de lado. – Vou fazer o que um Malfoy faz de melhor. Vou contratar alguém para fazê-lo por mim.

- Então, agora, você está sendo um Malfoy?

- Entenda, eu tenho justificativas para minhas medidas nesse momento e ser um Malfoy é vantagem. – Draco deu de ombros.

- Ser um Malfoy pode lhe dar muitas vantagens...

- Deixe disso, Harry. – O loiro sorriu. – Não vou para o lado negro agora, já fui muito longe. Eu vou apenas lhe provar que foi a Chang que tirou a foto, está bem? Apenas isso.

- Você realmente gosta de esfregar na minha cara quando estou errado, não é?

- Na cara de todo mundo, na verdade, mas na sua principalmente. – Draco riu quando Harry revirou os olhos.

- Adorável, como sempre.

- Hey, Harry! – Instantaneamente a careta de sempre surgiu novamente no rosto bonito de Draco, fazendo Harry dar uma risadinha enquanto acenava para Cedric, que se aproximava sorridente. – Bom dia.

- Bom dia.

- Malfoy. – Cedric acenou para o mais baixo, que apenas torceu mais o rosto. – Então, Harry, a seleção para o time do colégio começa hoje à tarde.

- Verdade? – Harry sorriu entusiasmado. – Eu vou estar aqui durante a tarde, de qualquer forma, então apareço por lá pra dar uma força. – O moreno ignorou a cutucada nas costelas que levou de Draco, que bufava discretamente.

- Ah, isso seria ótimo! – A animação do mais alto chegava a ser patética e incomodava Draco por demasia. – Vejo você na aula, então.

- Até mais tarde. – Harry acenou novamente enquanto Cedric voltou a sumir no corredor.

- O que foi isso? – Perguntou Draco com a raiva transbordando em sua voz. – Eu perdi alguma coisa? Quando você voltou a falar com esse idiota gigante?

- Ele foi à minha casa ontem e nós conversamos. Resolvemos que vamos ser amigos.

- Resolveram, é? – O loiro bufou repetidamente. – Patético.

- Não seja chato, Draco. Ele é legal.

- Ora, cale a boca. Ainda tenho que fazer os exercícios. – Draco voltou sua atenção ao caderno esquecido em sua mão.

- Vamos pra sala, tenho certeza que Hermione já deve estar lá. Vou fingir que sou eu que preciso de ajuda e você presta atenção na explicação dela, está bem? – Harry deu um sorrisinho quando Draco assentiu minimamente. O loiro devia estar mesmo perdido na atividade. – Vamos.

Durante o caminho, cochichos e risadinhas acompanharam Draco e Harry até que eles chegassem ao seu destino – a sala de espanhol. Ambos sabiam que tinha a ver com o que saíra no jornal, mas fingiam não se importar com qualquer comentário. Fingiam um para o outro, para si mesmo e para os outros.

Incomodava, principalmente a Draco, o que ele vira na foto gigante na folha. Se não estivesse tão cego de desejo, poderia jurar que Harry olhava para ele da mesma forma que ele próprio olhava para o moreno. Mas não, não podia ser.

- Ei, Hermione! – Harry chamou assim que eles adentraram a sala. – Eu preciso da sua ajuda.

Eles sentaram da mesa de sempre e a morena puxou uma cadeira para perto de Harry, começando a explicar animadamente. Draco não pode deixar de notar como a garota era inteligente e como sabia passar a matéria de forma fácil. Ela ensinava bem, o loiro tinha que admitir.

Quando Hermione levantou-se sorridente, dizendo a Harry que ele podia contar com ela sempre que tivesse dúvidas, Draco já sabia como resolver todas as questões. O orgulho do loiro não o deixou agradecer ou admitir como ele estava impressionado, então ele apenas pegou a caderno e começou a refazer a questão que tentou resolver mais cedo, terminando-a em menos de dois minutos.

- Consegui. – Ele disse sorrindo.

- Viu? Eu disse que Hermione era boa.

- É, é. Que seja. – Draco deu de ombros.


Draco chegou em casa com um mal humor inacreditável. Já não bastava ter que aturar Cedric Diggory nas aulas, Harry ainda o obrigou a ir assistir a maldita seleção do time que o meio-gigante faria.

Tudo bem, Harry não o obrigou. Pelo contrário, o moreno até sugeriu que ele não fosse, que ficasse esperando por ele no refeitório caso quisesse continuar a estudar mais tarde, mas obviamente Draco não deixaria Harry livre nas mãos daquele pé-grande patético.

Então, com toda paciência que tinha – que não era muita – Draco foi com Harry assistir a seleção, fazendo questão de sentar tão perto que estaria invadindo o espaço pessoal do outro garoto, mas não se importou. Tudo parecia ir muito bem, até que a treinadora disse que Cedric com certeza entraria para o time e o garoto fizera questão de correr para dar um abraço em Harry. Timing certamente é uma palavra que não existe no vocabulário da girafa, já que ele não tem o menor senso.

Draco apenas permaneceu lá, esperando que os dois terminassem com aquele showzinho repugnante, para que ele e Harry pudessem voltar ao estudo. Quando o fizeram, o moreno estava tão excitado que mal ficava sentado na cadeira, o que tirou toda a - mínima - paciência que restara no loiro.

Ao chegar a seu querido lar, tudo o que o loiro queria era arrastar-se para o chuveiro e passar horas debaixo da água quente, tentando livrar-se das imagens de certo moreno de olhos verdes. E fazendo questão de ignorar a interferência de certo projeto de gigante. Draco já havia ido tão longe, não podia perder o controle agora. Talvez, ele pensava, estivesse na hora de agir.


Está nos faltando palavras para agradecer o apoio de vocês.
Cada comentário nos dá um sorriso no rosto. O tipo de sorriso que não aparece sempre ou por qualquer motivo.
E nós só temos que agradecer, agradecer, agradecer e agradecer.
Ines Granger Black, Thomaz Volk, Anne Marie, Marcia Bs, Poke, Deeh Isaacs e você que está acompanhando sem se manifestar pelas reviews. Muito obrigada mesmo. Obrigada a cada um que tem acompanhado desde o começo e àqueles que deram uma oportunidade depois. Mil beijos e até próxima semana!