Capítulo 13
Seek the truth
Ele despertou como se houvesse acabado de sair de um pesadelo, mas não abriu os olhos com medo do que iria encarar ao fazê-lo. Um forte cheiro de produtos de limpeza fez suas vias respiratórias arderem a cada nova puxada de ar e ele fungou numa tentativa de aliviar o incômodo.
- Harry! – Uma voz soou ao longe. – Ele está acordado! Sra. Potter!
Tentou abrir os olhos, mas desistiu assim que viu tudo embaçado ao seu redor. Antes de fechá-los novamente conseguiu distinguir os cabelos volumosos de Hermione e um vulto ruivo passar e tampar sua visão. A luz forte que refletia no teto completamente branco fez seus olhos doerem quando ele os tentou abrir mais uma vez, mas foi o suficiente para que ele visse um vulto de cabelos ruivos se aproximar mais, abraçando-o.
Uma dor aguda em seu peito o fez tremer e seu rosto se torceu em uma careta, Harry soltou o ar com força. Alguns de seus músculos pareciam dormentes, outros latejavam, seu braço estava imóvel e ele ainda podia sentir o gosto metálico de sangue em sua boca.
- Oh, querido! Machuquei você? Sinto muito. – Lily soltou o filho rápido, mas logo voltou a se aproximar para acariciar seus cabelos.
- Cadê meus óculos, mãe? – Perguntou, estranhando sua voz subitamente rouca demais. Sentiu os óculos sendo colocados gentilmente em seu rosto e arriscou abrir os olhos de novo.
Desta vez realmente viu o rosto preocupado – e feliz – de Hermione ao pé da cama, sorrindo-lhe amigavelmente. Franziu o cenho. O que tinha acontecido, afinal? Ele estava no hospital? Definitivamente estava. Aquela cama era demasiado desconfortável e as paredes brancas demais. Forçou um pouco mais a memória e lembrou dos três garotos socando-o no estacionamento e... Draco.
- Mãe... O Draco, ele... – Não conseguiu terminar a frase. Não poderia suportar se algo tivesse acontecido a Draco também. Lily sorriu compreensiva, mas foi Hermione quem falou.
- Sabe, Malfoy quem fez os primeiros socorros e pediu ajuda, mas quando chegamos aqui, ele estava tendo um ataque de pânico ou algo assim. – A menina deu uma risadinha nervosa e sem humor . – Ele estava tão preocupado com você que tiveram que dar um calmante a ele e colocá-lo num quarto. Foi assustador. Achamos que ele fosse começar a chorar. – Harry assentiu, contendo um sorriso, suspirando aliviado.
- Onde estão o papai e Sirius? – O moreno perguntou, sua voz ainda um pouco rouca.
- Estão no colégio com Lupin. Os três estão com Dumbledore, querem saber que providencias serão tomadas. Devem estar chegando a qualquer momento. – Disse Lily.
- Há quanto tempo estou aqui? Que horas são?
- Bem, são quase dez da manhã. Aqueles covardes fraturaram duas costelas e quebraram seu pulso. – Hermione soava tão indignada que se o assunto não fosse tão sério, Harry poderia rir. – Você chegou aqui mais pra lá do que pra cá e te entupiram de analgésicos.
- Vocês deveriam ir comer alguma coisa. Eu estou me sentindo bem, não se preocupem. Eu me sentirei mais confortável sabendo que nenhuma de vocês vai desmaiar a qualquer minuto. Podem ir.
- Voltaremos logo, então. – Disse Lily inclinando-se para dar um beijo na testa do filho.
- Eu mandei Ron ir pra casa dormir, Harry, a presença dele aqui seria inútil e perturbadora, por que ele estava queimando de raiva dos imbecis que fizeram isso, mas ele vai estar de volta logo.
- Tudo bem. – Harry sorriu. – Obrigado.
Harry as observou sair e voltou a olhar para o teto branco, que agora não incomodava mais seus olhos. Sem ter mais no que se concentrar, levantou um pouco a cabeça pra verificar os estragos. Seu braço esquerdo estava engessado e estava repousado ao lado de seu corpo, e na parte não coberta pelo gesso, ele podia ver hematomas subindo até próximo ao ombro. Seu peito nu, coberto pelo lençol impecavelmente branco, tinha bandagens apertadas o enrolando desde o umbigo até a metade do peito.
Passando a mão no rosto, podia sentir arranhões que desciam pela têmpora esquerda em direção à bochecha e por dentro de sua boca, na bochecha direita, ele podia sentir que foram dados pontos num ferimento dolorido.
Ao parar de analisar os prejuízos, Harry percebeu que alguém o observava. Draco estava parado à porta e olhava Harry com os olhos um pouco arregalados. Quando o loiro deu alguns passos em sua direção, a luz de uma lâmpada forte fez brilhar os olhos marejados do garoto. Harry sorriu e levantou o braço direito, estendendo a mão.
Ainda em passos receosos o outro se aproximou, segurando a mão que lhe era oferecida, mas sendo incapaz de enxergar qualquer coisa à sua a frente por causa das várias lágrimas que agora lutavam para escorrer.
Com certo esforço Harry o puxou mais pra perto, ignorando a dor de quando o loiro inclinou-se para abraçá-lo, sem apertar o garoto acidentado, apenas deixando seus braços envolverem seu pescoço. Soluços logo estavam balançando levemente o corpo magro de Draco, fazendo o moreno envolver a cintura do outro com o braço que não estava engessado.
- Shh... Está tudo bem agora. Foi só um susto. – Harry disse acariciando as costas do loiro gentilmente.
Harry não soube dizer quanto tempo ficaram ali, naquela posição, mas os soluços de Draco tornaram-se menos freqüentes até que pararam. A respiração contra seu pescoço estava suave e o moreno poderia pensar que o outro garoto havia adormecido se não fosse pelos dedos fortemente cravados em seu ombro.
Sem que o moreno pudesse sequer protestar, Draco afastou-se e sentou na ponta da cama. Limpando o rosto com o dorso da mão rapidamente, sem olhar para Harry.
- Draco? – Ele chamou, sentindo os pontos na sua bochecha darem uma pontada de dor.
- Você podia ter morrido, sabia? – Harry achou ter visto dor no rosto do loiro quanto este desviou o olhos, fingindo estar concentrado em algo que via por sobre seu ombro. – Duas costelas acima e você... – Draco sentiu as lágrimas o acometerem mais uma vez.
- Ei, ei. – Harry queria poder levantar-se e virar o rosto angular do outro para si, mas prevendo a dor que sentiria, não o fez. – Eu vou ficar bem.
- Eu juro que se pego aqueles filhos da puta, eu os quebro no meio. – O loiro levantou-se rapidamente e agora andava de um lado para o outro. – Quem esses merdinhas pensam que são eu não sei! Ora, falarei com Dumbledore, se essas criaturas inescrupulosas não forem expulsas de Hogwarts, eu terei que pensar em como dar um jeito neles...
- Draco. – O moreno chamou com tom risonho. – Você tem que se acalmar. Hermione disse que você ficou tão estressado que teve um ataque de pânico. Eu estou bem.
- A culpa é minha. – Ele murmurou.
- O que? Mas que absurdo! É claro que não é.
- É sim. Fui quem disse que tudo ficaria bem, que eu não me importava com que os outros iriam se pensar, mas eu sabia que você se importava... É claro que os imbecis daquele colégio não iriam aceitar e eu devia ter previsto isso. Eu também não devia ter deixado você sozinho.
- Isso não é culpa sua! De maneira nenhuma! – Harry ignorava as dores em seu peito quando ele levantou a voz um pouco mais. – Como isso pode ser culpa sua, Draco? Eu tenho certeza que se você soubesse, teria evitado.
- Você poderia ter morrido! – Draco virou para olhá-lo.
- Mas não morri e a culpa de nada disso é sua! Entenda, por favor, foram aqueles idiotas que fizeram isso, não você. Você não é mágico, não podia adivinhar, você fez o que podia fazer, você me ajudou e eu estou bem agora.
- Não, você não está bem! Olhe só pra você! Está todo roxo, Harry!
- Isso é mesmo muito reconfortante. – Ele revirou os olhos, suspirando cansado em seguida. – Ouça, eu não estou em condições de discutir com você agora e colocar nessa sua cabeça dura que a culpa não é sua, então, por favor, apenas pare de ser tão insuportável e venha me dar um beijo.
Draco, que estava até então de braços cruzados, baixou a cabeça e soltou uma risada nasal, balançando-a. Ao levantar os olhos, as íris cinza logo encontraram as verdes, que brilhavam em expectativa. Em passos rápidos, o loiro aproximou-se do moreno e colou suas testas, fechando os olhos.
- Eu fiquei tão preocupado, Harry. Não sei o que eu faria se algo pior tivesse acontecido. Eu não posso perder você, entende? Não posso.
- Ah, você não vai se ver livre de mim nem tão cedo, posso lhe garantir. – Harry disse sorrindo.
- Acho bom.
Levantando uma mão e levando-a a bochecha esquerda do moreno, Draco passou a acariciá-la calmamente com o dedão e Harry suspirou em aprovação. Sem pressa, o loiro baixou o queixo, selando seus lábios num beijo carinhoso e cuidadoso.
O moreno levou a mão livre à nuca do outro, mostrando que não estava satisfeito com aquilo e logo sua língua pedia passagem. Draco deixou Harry vencer a batalha quando sentiu o ferimento em sua bochecha por receio de machucá-lo, mas assim que o outro melhorasse, cobraria pelo ato.
Quando eles se afastaram, olhando um nos olhos do outro, sorriram.
- Perfeito. – Draco murmurou, voltando às caricias no rosto do moreno.
- Nem parece real. – Harry inclinou um pouco a cabeça em direção à mão pálida, pedindo pelo carinho. – Eu levaria quantas surras fossem necessárias por isso. – Draco ficou tenso pelo comentário e Harry riu sem forçar muito quando sentiu a resposta de seus músculos ao movimento.
- Não me faça passar por outra dessas, está me ouvindo? – Ele disse seriamente.
- Oh, claro que não, não sei por quantos ataques de pânico você é capaz de passar sem sofrer nenhum dano permanente. – O moreno brincou, trazendo o outro pela nuca para outro beijo leve.
- O que diabos estamos fazendo, Harry? – Draco perguntou contra os lábios do outro.
- Você quer que eu desenhe? – Harry perguntou ironicamente, com os olhos na boca entreaberta de Draco.
- Não, idiota. – O loiro riu, revirando os olhos. – O que estou querendo dizer é isso. – Draco fez um gesto indicando os dois. – O que é isso? Nós dois sabemos que não deveríamos nem ser amigos e eu agora eu posso ver o porquê, já que alguns animais naquele colégio têm problemas com isso. Algo muito ruim poderia ter acontecido com você, Harry, e nós nem sabemos o que está acontecendo entre nós.
Harry o encarou por um tempo em silêncio, seu rosto enrubescendo lentamente.
- Draco, eu também não sei... Quero dizer, eu nunca fui muito longe num relacionamento, então nunca tive que me preocupar em saber o que estava fazendo... Foi assim enquanto durou com Cedric.
- Você não está me comparando com aquele poste ambulante! – Exclamou o loiro, cerrando os olhos e afastando-se.
- Claro que não, escute... Não vamos por um rótulo por enquanto, está bem?
- Você quase morre por minha causa e eu não devo colocar um rotulo, ah, tudo bem, então. – Draco soava indignado.
- Não comece de novo! Eu já disse que não é culpa sua. Pelo amor de deus, Draco, facilite pra mim um pouquinho.
- Facilitar? – O loiro bufou. – As experiências que tive foram todas com garotas, então acho que você devia facilitar pra mim. Isso tudo é novidade pra mim.
- Eu entendo perfeitamente. – Harry assentiu. – Mas não quero dar um nome a isso pra que algo acabe dando errado. E não olhe pra mim desse jeito – Ele apressou-se em dizer quando Draco o lançou um olhar de incredulidade. – Nós dois sabemos que seu pai pode resolver me caçar a qualquer momento. Eu acho que está ótimo do jeito que está, você não?
O loiro o analisou com o rosto impassível por alguns longos segundos, mas retribui o sorriso que Harry o lançou, voltando a se aproximar.
- Você disse que não ia desistir, Draco. – Harry lembrou, entrelaçando seus dedos. – Eu também não vou.
- Ótimo. – Draco se inclinou para beijar o outro novamente, mas um movimento na porta fez ambos olharem naquela direção.
Narcissa estava parada com sua bela pose e os encarava como se não tivesse visto nada demais, mas havia certa ansiedade em seus olhos.
- Draco, estive procurando por você. – Ela disse rapidamente e se adiantou em direção ao filho. – Nós temos que ir, querido, seu pai também está atrás de você e pode aparecer a qualquer minuto. Não queremos causar mais nenhum transtorno ao Sr. Potter, não é? – Só então Narcissa levou o olhar ao garoto acidentado. – Como se sente, querido?
- Estou bem, obrigado, Sra. Malfoy. – Ele sorriu.
- Ora, mas eu deveria saber! – Lucius apareceu naquele momento, sendo seguido por Snape. – É claro que esse garoto devia estar metido nessa história. – Ele indicou Harry com um gesto displicente. – Draco, vamos embora agora.
- Não, pai, eu quero ficar. – Draco disse com mais firmeza na voz do que imaginara ter. – Vou ficar até ter certeza de que está tudo bem com Harry.
- Não me desafie, garoto. Principalmente na frente dessa gente. – Mais uma vez Lucius indicou o moreno com um gesto. – Já não me basta a desfeita de sexta-feira. Mas vamos discutir tal questão quando chegarmos em casa. Agora, vamos.
- Não. – Draco repetiu. – Vou ficar com Harry.
- Que ousadia! Eu devo ter perdido o controle de tudo mesmo, não é? Onde já se viu me destratar dessa maneira, Draco? Onde você está com a cabeça? – Lucius lançou um olhar feroz ao moreno acidentado. – Escute, se eu sair desse hospital sem você ao meu lado, pode ter certeza de que esse será o maior desgosto da minha vida. A escolha é sua e sinceramente, eu acho que você já me decepcionou demais.
- Lucius. – Narcissa chamou, pondo-se na frente de Draco. – A saúde de seu filho está abalada no momento, não vamos piorar as coisas aborrecendo-o ainda mais, sim?
- Ele que não devia piorar a situação e ficar do lado deste garoto Potter!
Naquele momento, James surgiu à porta de braço dado com Lily e seguido por Sirius e Lupin. Sua expressão tranqüila logo ficou tensa, assim como a de Lupin. Os olhos castanho-esverdeados caíram de Lucius para Draco, do garoto para seu filho, subindo para Narcissa em seguida e ele viu a mulher prender a respiração por um segundo. Atrás de si, Sirius rosnou baixinho.
- Narcissa. Lucius. – James cumprimentou friamente, seu maxilar trincando ao se dirigir a Lucius.
- Potter. – Lucius cuspiu o sobrenome e ia dar um passo à frente, mas Narcissa segurou seu braço.
A temperatura do ambiente parecia ter caído pelo menos 5 graus e expressões tensas e desconfiadas tomaram conta do rosto de cada um. Narcissa manteve os olhos fixos no rosto de James, segurando firme no braço do marido. Lily sentiu uma pontada de compaixão espalhar-se em seu peito quando Snape sustentou seu olhar.
- Pois bem, Draco, acho que você já me fez passar por vergonha suficiente pro resto da minha vida. Recomendo que você me acompanhe agora. – Lucius teria dado um passo à frente se Narcissa não tivesse segurado seu braço no lugar. Finalmente desviando os olhos de James, a loira os levou ao marido, numa súplica silenciosa.
- Lucius. – Ela murmurou. – Está na hora de acabar com isso.
- Narcissa. – Lucius manteve o tom de voz repreensivo, olhando diretamente a esposa.
- Narcissa está certa. – Lily se pronunciou, recebendo de James o mesmo olhar que Lucius direcionava à loira. – Não me olhe assim, James. Já fomos muito longe com essa história. Eles precisam saber.
- Eu acho que tanto Draco quanto Harry já tem discernimento para decidir se nossos motivos são razões suficientes para que eles se separem. – Disse Narcissa, soltando o marido devagar, se afastando um pouco. – Não podemos mais interferir no que eles criaram. Quando eles souberem a verdade saberão o que é certo a fazer.
- Perdemos essa, Prongs. – Sirius disse passando pelo amigo e indo parar ao lado de Snape, mas ainda distante, Lupin logo o seguiu.
- Que seja, então. – James enfiou as mãos nos bolsos, indo sentar-se junto a Harry, ao lado oposto da cama de onde Draco estava. Narcissa acompanhou seus movimentos com os olhos.
- Narcissa, por favor. – Lily pediu. – Pode começar.
A loira assentiu, ignorando o olhar de Lucius e afastou-se um pouco mais, parando mais no centro do quarto. Remus se adiantou rapidamente para fechar a porta, eles não tinham muito tempo antes de uma enfermeira aparecer e expulsar todos dali. Assim que ele voltou ao seu lugar ao lado de Sirius, Narcissa levantou o olhar para o filho.
- Todos nós estudamos juntos na época da faculdade. Eu estava ciente de que meu primo estava estudando ali também, mas depois que ele foi tirado da árvore genealógica da família por fugir e ir morar com os Potter, eu não podia dizer que nós éramos próximos.
- Mas isso não a impediu de ser sempre tão gentil comigo, prima querida. – Disse Sirius com tom brincalhão.
- Sirius! – Ralhou Lily. – Não interrompa.
- Por favor, poupe-me de seus comentários desnecessários, Black. – Pediu Snape numa voz baixa e pausada.
- Alguém me explica o que o Ranhoso está fazendo aqui? – Sirius rosnou para o outro.
- Sirius! – Lily exclamou.
- Não vamos chegar a lugar nenhum desse jeito. – Repreendeu Lupin.
- Obrigada. – Narcissa disse a Remus antes de voltar aos dois garotos à sua frente. – Muito cedo eu fui prometida em casamento ao seu pai, mas na época eu já nutria uma paixão platônica por James.
Naquele momento a temperatura do cômodo caiu um pouco mais. Draco e Harry soltaram uma exclamação, James mexeu-se desconfortável ao lado dos dois, Lily levou seu olhar ao chão e Lucius soltou um muxoxo impaciente.
- Mas você conhece seu pai, não é, querido? – Narcissa sorriu carinhosamente. – Fez de tudo para que eu lhe desse devida atenção. Mandava-me presentes, era gentil, um verdadeiro cavalheiro, mas eu era boba e ingênua. Eu era crente que James podia um dia corresponder. James, Remus e Sirius estavam sempre juntos e Lily não demorou a juntar-se ao grupo. Severus e Lily eram grandes amigos, desde pequenos, mas quando Lily juntou-se aos três mais populares da instituição, Severus foi posto de lado.
Os olhares desviaram-se para Snape, que escutava tudo com uma máscara de indiferença impecável. Lily então levantou o olhar, lutando contra a urgência de abraçar o velho amigo. Severus, por sua vez, mantinha os olhos sobre Narcissa, que assentiu graciosamente para ele, com um sorriso mínimo.
- Severus então se juntou a Lucius e não hesitou ao ajudá-lo em me fazer enxergar que James só tinha olhos para Lily. – Narcissa lançou um olhar ao marido, que parecia extremamente irritado. – Foi então que meu marido criou um plano ardiloso para tirar não só a mim e Lily, mas sim todas as mulheres da faculdade dos pés de James. Lucius espalhou em toda universidade que James era gay.
Dito isso, Sirius soltou uma risada sem disfarçar, sendo repreendido pelos olhares de Narcissa, Lily, Remus e James. Lucius e Severus pareciam alheios a conversa toda. Draco e Harry tinham os olhos vidrados na figura loira que vos falava.
- Obviamente os rumores chegaram aos ouvidos de Lily e achando que James estava fora de seu alcance, ela obrigou-se a se afastar. Severus tinha esperanças de que Lily voltasse se lamentando para ele e Lucius esperava que eu desistisse daquela paixonite e aceitasse logo que iríamos nos casar. – Narcissa suspirou. – Pois bem, acho que está claro que Lucius teve sucesso e Severus não.
- Então é por isso que você sempre apoiou minha amizade com o Harry? – Perguntou Draco com a voz fraca.
- Sim, querido. Eu sei o quanto doeria em você se eu e seu pai o obrigássemos a casar-se com a filha dos Greengrass, por que foi como eu me senti quando vi que meu destino estava traçado. Eu quero dar a você, Draco, o direito de fazer a escolha que eu não pude. Principalmente por que eu sei que você não vai desistir.
- Acredito que está nítido que eu não concordo com tal posicionamento. – Lucius finalmente se pronunciou.
- Eu tinha esquecido a cobra que você é, Malfoy. – Disse James, levantando-se. – Como você acha que pode manipular os sentimentos de uma pessoa dessa forma? E ainda essa pessoa sendo sua noiva, a pessoa com quem você deveria ser completamente honesto.
- Não me venha com seu heroísmo, Potter. – Lucius o lançou um olhar superior.
- Você é mesmo muito desprezível. – James trincou os dentes. – Narcissa não merecia isso.
- Não ouse falar da minha esposa. Acho que você esqueceu que não estamos mais na faculdade, Potter, as mulheres não caem mais aos seus pés como antes. – O desprezo escorria pela língua do loiro a cada palavra pronunciada.
- Lucius, por favor. – Pediu Lily. – Isso já ficou pra trás, não foi?
- É, Lily, pode ter ficado. – Disse Sirius. – Mas eu duvido muito que Lucius tenha se esquecido de como ele se sentiu impotente ao perceber que nem tendo a mão de minha adorável prima ela cairia nas graças dele. Isso ainda o corrói, não é, Malfoy?
- Cale a boca. – Lucius ordenou.
- Oh, atingi um nervo! – Sirius exclamou animado, sorrindo.
- Sirius, pare. – Todos viraram a cabeça para Harry, seu tom de voz estava tão sério que o cômodo parecia estar congelando agora. – Eu não acredito que tudo isso, esse suspense todo, esse segredo todo, era apenas infantilidade de vocês. Eu devo dizer que a Sra. Malfoy foi a única sensata desde o começo disso tudo.
- Obrigada. – Narcissa murmurou com um sorrisinho satisfeito.
- Quantos anos vocês tem? – Harry bufou. – Eu muitas vezes pensava que a coisa era tão séria que eu e Draco não teríamos cabeça pra entender ainda, mas... isso. Não tem mais nenhuma criança aqui, quer dizer, eu achava que não. Sr. Malfoy, é a primeira vez que o vejo e é realmente desconfortável ter que lhe faltar com respeito dessa forma, mas o senhor não tinha mesmo nada menos infantil pra fazer, não? Quero dizer, espalhar o boato que meu pai era gay? Até eu posso pensar em planos melhores.
- Quem você pensa que... – Lucius lançou um olhar perigoso ao garoto acidentado.
- O garoto está certo, Lucius. – Narcissa interrompeu.
- Pai, eu acho extremamente inconveniente o senhor se dirigir a Sra. Malfoy demonstrando certo carinho sabendo que ela já nutriu de um interesse, o qual não foi correspondido.
- Severus. – Chamou Lily. – Eu sinto muito. Eu devia ter dado valor a sua amizade, Severus. Só eu sei o quanto eu me arrependo de não ter dado a você o valor que merecia.
- Todos nos arrependemos. – Disse James olhando ao redor. – Quem diria que nos reuniríamos novamente depois de mais de 20 anos e seriam nossos filhos os causadores dessa conversa? – O moreno deu um sorriso sem humor. – Temos muito que deixar pra trás.
- Não me importo com o sentimentalismo de vocês. – Cuspiu Lucius. – Draco, afaste-se desse garoto. É só o que eu tenho a lhe dizer.
Dito isso, Lucius girou nos calcanhares e saiu do quarto, batendo a porta atrás de si. Os outros caíram em silêncio. Narcissa foi até Draco, dando-lhe um beijo na testa, mas o garoto a abraçou com força, agradecendo num sussurro. Ao afastar-se, a loira sorriu pra ele, acariciando seu rosto maternalmente.
- Narcissa. – Lily chamou. – Obrigada.
Narcissa apenas assentiu, devolvendo o sorriso que a ruiva a ofereceu e igualmente retirou-se do quarto, sendo seguida por Snape, que se forçou a ignorar o olhar de Lily queimando sobre si.
- O que Dumbledore disse? – Perguntou Harry de repente.
- Os três garotos serão expulsos de Hogwarts, é claro. Dumbledore não poderia deixar três marginais em seu colégio. Lupin ajudou ao dizer que se recusava a lecionar a esse tipo de gente. O diretor não tinha outra opção. Faremos um boletim de ocorrência na polícia também, obviamente. – Informou James.
- E quando eu vou poder sair daqui?
- Em breve, querido. – Disse Lily docemente.
Um silêncio caiu sobre a sala onde a ruiva apenas acariciou os cabelos negros do filho. Draco sentiu que estava atrapalhando o momento familiar e levantou-se, dando um leve pigarro.
- Preciso ir, Harry. – Ele disse. – Preciso conversar com minha mãe.
- Eu entendo. Por favor, diga a ela que estou imensamente agradecido por tudo que ela fez. – Harry sorriu.
- Pode deixar. – Draco assentiu quase como se batesse continência.
O loiro lançou um olhar ao garoto de cabelos revoltos na cama. Draco queria poder despedir-se apropriadamente, mas a platéia não era das melhores. Entendendo o dilema do outro, Harry abriu um pouco mais seu sorriso e acenou com a cabeça, piscando para ele em seguida.
Sentindo-se mais seguro, Draco saiu do quarto. Aquilo era loucura, na verdade. O loiro nunca tivera interesse por garotos e agora estava desafiando o pai por um. A adrenalina da provocação e a segurança que aquilo lhe dava eram ótimas, sem contar com os amassos dos dois, que levavam a cabeça do loiro para uma dimensão particular.
Quanto ao que havia ouvido naquele quarto, Draco nunca pensou que pudesse admirar tanto sua mãe. As coisas pareciam mais claras agora que ele tinha uma explicação. Era por isso que Narcissa fora tão compreensiva desde o principio, afinal de contas, ela sabia como era ser proibida de estar com alguém de quem se gosta. E era por isso que Lily e Snape haviam desistido de lutar ao lado de James e Lucius, eles sabiam o que era uma amizade perdida.
Às vezes Draco se perguntava o que estava fazendo. Como sentimentos e desejos que sempre lhe passaram despercebidos de repente eram tudo o que realmente importava. O que eles haviam feito no almoxarifado algumas horas antes parecia parte de um sonho, por que Draco certamente não tinha experiência suficiente para fazer aquilo, ele apenas agiu por extinto. Ele sabia o que queria, sabia o que Harry queria e deixou-se ser guiado, mas se perguntassem a ele agora, ele não saberia dizer como conseguiu ser dominante num assunto o qual era completamente novo.
Deixando de lado essa sensação de que aquelas ações pareciam ter sido extracorpóreas ou qualquer nome que se dê a algo que ele não podia explicar como aconteceu, Draco ficou extasiado. As sensações que lhe foram proporcionadas durante aqueles minutos eram as melhores que já havia sentido em sua vida, impagáveis, ele não trocaria por nada, e depois de ter uma amostra de como era, não podia – nem queria – ficar só naquilo.
Naquele momento, enquanto sentava ao lado de sua mãe no carro de volta à mansão, Draco teve certeza de que, não importasse o que seu pai iria dizer, ele não desistiria do que tinha com Harry, o que quer que fosse que eles tivessem.
Alguns minutos após a grande conversa, a cabeça de Harry doía tanto quanto todos os músculos de seu corpo. A adrenalina do momento fez com que tudo anestesiasse, mas quando o garoto pôde relaxar, as dores vieram com tudo. Após alguns analgésicos e a retirada de Sirius do quarto, Harry pegou no sono facilmente, só vindo a acordar muito mais tarde, quando a chuva batia forte contra a janela.
À sua esquerda murmúrios eram abafados pela pancada das gotas na janela, mas prestando atenção nas vozes, Harry reconheceu que eram Ron e Hermione. O garoto alcançou os óculos na mesinha ao lado sem fazer muito esforço e o casal não pareceu notar que ele acordara. Hermione tinha um caderno no colo e lia alguma coisa para Ron, que estava tão concentrado que fez Harry ficar curioso. Tentando ignorar o barulho da chuva, o moreno percebeu que o que Hermione lia se tratava de alguns tópicos da aula de biologia.
Harry ficou espantado a principio, afinal Ron nunca fora de prestar atenção quando Hermione tentando ensinar algo a ele, mas em seguida ele se lembrou que eles teriam prova no dia seguinte e a pressão deve ter sucumbido o garoto.
- Harry! – Hermione exclamou quando levantou a cabeça rapidamente, notando que o moreno já despertara. – Acordamos você?
- Não, não. Eu só fiquei um pouco assustado quando vi a atenção que Ron estava dando atenção ao que você falava. – Ele deu um sorrisinho irônico pro amigo.
- Muito engraçado. Vejo que as porradas não atingiram seu senso de humor. Que bom, não é? – Ron devolveu com o mesmo tom de ironia, mas ficou sério logo em seguida. – Como está se sentindo, parceiro?
- Eu vou sobreviver, não se preocupe. Vocês estão aqui há muito tempo?
- Na verdade, não. Sua mãe pediu que fizéssemos companhia enquanto ela e seu pai iam em casa tomar um banho e trocar de roupa. – Explicou Hermione.
- Eu estava dormindo, não precisava ter vindo.
- Não tem problema, Harry. Aproveitamos para tirar algumas dúvidas. – A morena sorriu animada. – Perguntei a sua mãe como você faria as provas...
- Claro que perguntou. – Harry revirou os olhos e Ron segurou uma risadinha.
- Ela disse que falou com Dumbledore. – Hermione continuou sem dar importância aos dois garotos. – No fim do nosso horário normal, o professor Lupin vai trazer a prova e você vai fazer aqui mesmo. Já que o acidente não prejudicou seus estudos e você assistiu a todas as aulas, o diretor não viu por que não aplicar as provas. As regras pra você são as mesmas, só que você fará num quarto de hospital e nós na sala de aula.
- Remus vai trazer? E Dumbledore concordou com isso? Ele sabe que Moony é melhor amigo dos meus pais.
- Pelo que eu entendi, o professor Snape fez esse mesmo questionamento, mas Dumbledore disse que confia no professor Lupin e se ele diz que pode aplicar a prova sem que assuntos pessoais interfiram, então, ele pode. – Harry pode perceber na forma displicente como Hermione se forçava a falar que ela não concordava com aquilo, mas deixou de lado.
- Malfoy ligou. – Disse Ron com certa impaciência. – Bem umas cinco vezes. Eu quis atender, mas Hermione não deixou.
- Você falou com ele? – Perguntou Harry a Hermione cheio de expectativa.
- Na terceira vez que seu celular tocou, me vi obrigada a atender. Eu disse que você estava bem e que pediria que ligasse assim que acordasse. Ele ainda ligou mais duas vezes para ter certeza de que eu não tinha esquecido. – A morena disse com diversão na voz.
- Bem a cara dele. – Harry sorriu abobadamente.
- Harry... – Ron começou devagar após poucos segundos em silêncio. – Do que você se lembra de ontem à noite?
- Hm... – O moreno o olhou com expressão pensativa. – Não muito. Eu meio que apaguei, Ron. Só me lembro das coisas que McLaggen disse antes de mandar os capangas dele fazerem o trabalho sujo por ele. Por quê?
- Eu não sei na sua concepção, mas você apanhou por certo período de tempo, sabe? Tivemos a impressão de ouvir algum barulho suspeito, mas como a música na quadra estava muito alta, ignoramos. Depois de algum tempo Malfoy apareceu procurando por você e, bem, soubemos que tinha algo errado.
Passou-se um tempo onde Ron pareceu extremamente envergonhado, olhando algum ponto em suas unhas.
- Cedric e Malfoy começaram a discutir. Cedric acusou Malfoy de ter machucado você, então o grupo de McLaggen passou por nós e... – Ron engoliu com dificuldade. – Malfoy surtou! Eu nunca vi uma pessoa com tanto desespero no olhar na minha vida. Ele ignorou tudo que Cedric estava dizendo e começou a correr na direção de onde eles tinham vindo.
Harry estava vidrado na história que o amigo contava, mas pode ver quando Hermione se arrepiou.
- Ouvimos ele gritar seu nome algum tempo depois. Quando chegamos lá... – O ruivo sacudiu a cabeça levemente, como se expulsasse imagens ruins. – Havia tanto sangue, Harry... Malfoy parecia que ia explodir a qualquer minuto. Ele virou-se para Cedric como se nunca o tivesse visto na vida e disse para ele chamar McGonagall, depois me mandou chamar uma ambulância e pediu a Hermione que ligasse pros seus pais.
- Nós fizemos tudo que ele pediu. – Hermione continuou quando viu que o namorado parecia que ia se engasgar com as palavras. – E ele parecia tão controlado naquele momento, sabe? Enquanto acatávamos as suas ordens ele ajoelhou-se ao seu lado e ficou olhando, mas o olhar dele parecia não estar realmente vendo. Foi assustador.
- Quando chegamos ao hospital, eles entraram com a maca na emergência e... – Ron continuou nervosamente. – Malfoy simplesmente... Eu nem sei... Ele começou a tremer e ficou mais branco do que é, e estava suando muito também. Uma enfermeira viu que ele não estava bem, principalmente quando ele começou a andar de um lado para o outro murmurando coisas sem sentido.
- Deram um calmante forte a ele e vimos que começou a surtir efeito quando ele ficou tão mole que tiveram que colocá-lo num quarto e chamar os pais dele. – Hermione se arrepiou novamente.
- Cedric achou melhor não ficar, ele acreditava que estava ajudando no descontrole de Malfoy, mas ligou várias vezes pra saber como você está. – Ron assentiu devagar.
- Harry... Hm... Você e Malfoy... – Hermione cruzou os braços nervosamente. – Você e Malfoy estão tendo alguma coisa?
Harry analisou o rosto dos amigos. Hermione parecia preocupada, mas estava claro que ela sabia a resposta, só queria uma confirmação, e Ron estava cheio de expectativa e Harry sabia que ele queria que ele dissesse não, mas o moreno não estava querendo mentir.
- Sim. – Ele disse, prestando atenção nas reações dos dois. Ron pareceu murchar e Hermione assentiu rapidamente, como se confirmasse suas suspeitas.
- Foi por isso que McLaggen resolveu arrumar confusão? Por causa de Malfoy?
- Eles discutiram mais cedo. McLaggen parece acreditar que Draco meio que reina em Hogwarts, não que não reine, não é? – Harry deu uma risadinha, mas voltou a ficar sério quando os amigos não encontraram graça na história. – Parece que ele queria algum podre de Draco pra acabar com a boa fama dele no colégio. E bem, eu entreguei um de bandeja pra ele, não foi?
- Não importa, Harry. Você sabe que algo muito ruim podia ter acontecido, não é? – Hermione o repreendeu com um olhar severo.
- Mas não é culpa do Draco, ele...
- Eu não estou dizendo que é. – Ela cortou logo. – Não é culpa de ninguém além daqueles três covardes, entendeu? O que quer que você e Malfoy estejam fazendo... Dois não fazem quando um não quer, não é? Você não o forçou a nada, então a culpa também não é sua.
- Tudo bem, podemos mudar de assunto? – Pediu Ron que estava ganhando uma coloração rósea em todo o rosto.
- Certo. Vamos lá, eu vou citar alguns tópicos do professor Binns pra vocês que eu tenho certeza que vão ajudar na prova...
Harry e Ron se entreolharam com cara de tédio e fizeram uma careta para as costas de Hermione, que virara para apanhar outro caderno em sua bolsa. Porém, vencidos pela pressão da prova no dia seguinte, eles prestaram devida atenção ao que a garota dizia.
Tic tac, tic tac.
O tic do relógio nunca fora tão irritante. Era terça-feira e Draco prometera visitá-lo logo após os exames, mas ele já estava atrasado e a mente de Harry vagava, lotada de possibilidades. Sua imaginação criava cenas em que Lucius prendia Draco em quarto escuro, proibindo-o de sair de casa, por mais que seu lado racional soubesse que era muito pouco provável. Mas, no momento, Harry se convencera de que o loiro esquecera-se dele, de que tinha coisas mais importantes para fazer.
Tic tac,tic tac.
Um suspiro resignado escapou por entre seus lábios entreabertos. Nada havia acontecido. Draco só estava atrasado, pronto. Harry estava apenas confuso por causa daqueles analgésicos. Draco viria. Não. Ele não viria. Era óbvio que não. Todos tinham coisas mais importantes para fazer. Era semana de provas. Nem Ron ou Hermione tiveram tempo de visitá-lo, imagine Draco!
Tic tac,tic tac.
Tentou inutilmente concentrar-se na TV. Um filme idiota sobre um menino bruxo passava. Harry nunca havia gostado desse tipo de filme e não era agora que iria começar. Suspirou novamente, checando o relógio. Havia se passado dois minutos desde a última vez que havia olhado, uma hora atrás – pelo menos, foi o que lhe pareceu. Pensou em algo que poderia fazer para passar o tempo, mas não havia nada. Estudar certamente não era uma opção, esteve fazendo isso o dia todo e não podia nem olhar para um livro sem querer jogá-lo pela janela. Rolou os olhos e encarou o teto, tediosamente.
Toc, toc, toc.
Pensou ter ouvido um estalo ao virar a cabeça para encarar a porta com o coração acelerado. Observou a maçaneta virar e mordeu o lábio inferior em expectativa. Teve certeza de que seu sorriso era maior do que seu rosto podia aguentar quando viu a cabeça loira de Draco adentrar o quarto e seus lábios esticarem-se em um sorriso – um normal, não um sorriso de tubarão como o seu. Draco deu alguns passos para frente, deixando a mochila na poltrona ao lado da cama e sentando-se ali.
- Olá. – Harry tentou fazer com que sua voz soasse casual, mas ela estava uma oitava acima do normal. Draco piscou para ele e virou-se para procurar algo na mochila.
- Olha o que eu consegui contrabandear pra você.
A boca de Harry salivou e seus olhos arregalaram-se ao ver o verde limão da embalagem de chocolate. Endireitou-se na cama e esticou o braço bom em direção à mão de Draco, para pegar o doce. Rasgou a embalagem infantilmente e não segurou o som apreciativo que se seguiu quando o gosto de menta preencheu sua boca.
- Cara, eu te amo. Sério. – Pensou em voz alta, sem olhar para Draco. Mas quando o fez se deparou com os olhos cinza-azulados arregalados. A expressão do loiro seria engraçada se Harry não estivesse tão ocupado tentando entender o que acontecera. – Draco, o que houve?
- O que... – Draco piscou, tentando normalizar as expressões. – O que você acabou de dizer?
Harry parou e pensou um pouco, ele não tinha dito nada. O "olá" certamente não contava... Ele tinha perguntado a Draco o que havia acontecido e... Os olhos verdes se arregalaram quando ele se tocou do que ele tinha dito. Os dois se encararam por alguns segundos.
- Então, como foram suas provas? – Desconversou rapidamente, voltando sua atenção para o chocolate. Viu Draco abrir a boca – com certeza de que tinha algo a ver com a besteira que o moreno tinha dito –, mas Harry o interrompeu. – Obrigado pelo chocolate.
- De nada. – Draco murmurou em resposta e tentou esquecer o acontecido, Harry não tinha falado sério, não é? Então, pronto. – Foram legais. Snape caprichou em química, você vai precisar estudar bastante.
- É? – Harry suspirou, cansado. – Vou é mandar ele pra um lugar bem especial. – Draco gargalhou. – Enfim, acho bom você vir aqui e falar comigo direito. – Disse, colocando a embalagem de chocolate vazia na mesa de cabeceira.
- Eu estou falando com você direito. – O loiro ergueu a sobrancelha.
- Eu não acho. Vem cá. – Ergueu o braço de novo.
Draco abriu um sorriso. Levantou-se, sentando de frente para Harry na cama. Sentiu a mão do moreno na sua nuca, trazendo seu rosto para mais perto. Seus lábios se encontraram e suas línguas se enroscaram num beijo terno e sem a mínima pressa. A mão de Harry segurava seu rosto, firme. Draco enroscou os dedos no tecido da roupa hospitalar do moreno e se apoiou no colchão com a outra.
- Eu queria te falar uma coisa. – Disse Harry quando os dois se separaram. Draco apenas o encarou. – Eu sou péssimo nisso. Mesmo. E eu sei que é cedo e que a gente não se conhece há tanto tempo assim. Mas... – Harry respirou fundo e olhou nos olhos do loiro, que fazia um esforço enorme para manter as expressões neutras. – Eu gosto de você. Tipo, de verdade.
Draco riu baixinho e se inclinou para beijar os lábios do moreno de leve. Entrelaçou seus dedos nos de Harry, sorrindo.
- Eu percebi isso no momento em que você disse que me amava. – Falou em tom de brincadeira.
- É sério, Draco! – Harry sentiu o rosto pegando fogo e teve certeza de que estava mais vermelho que um tomate.
- Eu também gosto de você, Harry. – A mão livre ergueu-se para dar um peteleco na testa do moreno.
- Ouch! Não precisa me espancar de novo. – Exclamou, contendo o impulso de levar a mão até a testa.
- Exagerado e sem graça. – Draco lançou um olhar de esguelha para o relógio esquecido ao lado da cama. – Preciso ir, meu pai não sabe que eu vim.
Harry bufou, impaciente. Draco não havia ficado nem uma hora com ele e já tinha que ir embora. Tudo culpa de Lucius Malfoy.
- Também não estou feliz com isso. – Assegurou. – Preciso ir mesmo. Eu ligo mais tarde, está bem? – Fez menção de levantar-se, mas Harry o puxou de volta.
- Mande lembranças a Sra. Malfoy. – Sussurrou antes de colar os lábios nos de Draco. No segundo seguinte, Harry estava beijando-o como se fosse acabar com a fome no mundo.
Com esforço, Draco conseguiu sair do quarto. Harry tinha virado sua vida de cabeça para baixo. Em poucos meses, ele conseguiu fazer com que desafiasse seu pai mais do que fizera em 17 anos de vida e Draco não conseguia se arrepender disso. Algo o dizia que ele nunca iria.
Durante a semana, Lupin trouxe de duas a três provas por dia e Harry as fez após ser meticulosamente inspecionado. O professor olhava seus braços e sob os lençóis da cama com atenção. A princípio, o garoto se sentira ofendido pela falta de confiança do velho amigo de seus pais, mas Remus parecia estar concentrado no que fazia, e completamente alheio aos resmungos do garoto.
- Não é que eu não confie em você, Harry. – Lupin disse após observar o braço engessado atenciosamente. – Eu não acho que você tentaria colar, de maneira nenhuma, eu só não posso dar motivos para que desconfiem de meu profissionalismo. Isso me custaria muito mais que apenas meu emprego em Hogwarts High.
E claro que Harry entendeu. Então, nos dias que se seguiram, o garoto esperou que o professor procurasse o que quisesse sem protestar.
Após a realização dos exames, Lupin levava-os direto para Hogwarts e Harry ligava para Draco, que chegava em 10 minutos, após dar a seus pais a desculpa de que iria sair com Pansy e Blaise, para que eles pudessem estudar juntos. Narcissa, obviamente, sabia exatamente aonde o filho ia.
Foi na quinta-feira, enquanto o loiro falava alguma coisa da matéria de História que Harry se viu preso numa análise da figura à sua frente. Sentado ali, displicente, balançando a cadeira para trás, o garoto parecia bom demais pra ser verdade.
As feições angulares, o lábio inferior levemente mais carnudo que o superior, o nariz fino, os cabelos platinados e sedosos perfeitamente penteados e os olhos que podiam alternar entre azul e cinza com certa freqüência, dependendo da luz do ambiente, mas naquele momento lançavam a Harry um olhar limpidamente azul-prateado.
A visão aristocrática era perfeita. Draco era, sem dúvida nenhuma, o garoto mais lindo que Harry já vira e era praticamente impossível acreditar que Draco estava ali. Estava ali com ele.
- A burguesia não queria que a igreja interferisse na economia... – Draco dizia quando se ouviu uma batida hesitante à porta.
- Pode entrar. – Disse Harry.
Assim que o portal abriu-se, entraram não um, mas sim quatro ruivos, um atrás do outro, Ron Weasley à frente, uma garota atrás dele e mais dois garotos mais altos, mais velhos e gêmeos os seguiam.
- Harry! – A garota ruiva rapidamente saiu de trás do irmão e adiantou-se em direção ao moreno acidentado, parando antes de tocá-lo, em dúvida de se o machucaria com a ação. – Como você está? Eu queria ter vindo antes, mas mamãe disse que você tinha que descansar.
- Você perdeu a briga que foi entre as duas. – Disse um dos mais velhos com tom de diversão.
- Foi mais divertida que a sua, tenho certeza. – Garantiu o outro levantando à vista uma cesta que tinha em mãos. Sob o papel transparente se viam bolos e biscoitos de diversos sabores. – Mamãe mandou pra você.
- Agradeça a ela por mim. – Harry disse sorrindo.
- Harry... – Chamou a menina, que ainda o observava como se estivesse em um impasse. – Tem problema se eu te der um abraço?
- Claro que não, Ginny! – O moreno exclamou simpaticamente, abrindo os braços para a garota se aproximar. – Só não aperte muito, uh?
Draco estava ali, observando tudo, e a Sra. Potter que o perdoasse, mas naquele momento o loiro estava odiando ruivos.
Quando ele achou que o contato já havia se prolongado o suficiente e os ciúmes parecia um dragão que crescia desenfreado em seu peito, se preparando para atacar, Draco pigarreou.
Os gêmeos o olharam pela primeira vez e Ron cerrou os olhos para ele rapidamente. A garota, Ginny, ficou escarlate com o olhar que recebeu do loiro, afastando-se de Harry com a cabeça baixa, a cortina de longos cabelos ruivos escondendo quase todo seu rosto, mas o loiro pôde ver o olhar petulante que a garota o lançou e pensou ter conseguido disfarçar, sua falha fazendo o dragão no peito de Draco soltar fogo pela boca.
- Fred, George, Ginny, esse é Draco Malfoy. – O moreno apresentou cordialmente. – Draco, esse são os irmãos de Ron.
- Oh, ainda bem. – Ele soltou um suspiro forçado. – Por um momento achei que estava havendo uma epidemia de cabelos vermelhos.
- Você é um Malfoy? – Perguntou Fred com fingido espanto, virando-se para George. – Malfoy tipo aquela lanchonete que fomos ano passado?
- Ah, claro! – George bateu na própria testa. – Aquela que é tão ruim que eu passei mal.
- Mas que pena! – Exclamou Draco cheio de sarcasmo na voz. Sua expressão se transformava naquela que Harry tanto odiava, esnobe e impassível. – De qualquer forma, terei que falar com meu pai. Temos que prestar mais atenção no tipo de gente que anda freqüentando nossos estabelecimentos. – Ele levantou-se e cruzou os braços, observando os irmãos perigosamente.
- Ora, seu... – Ron avançou em direção a Draco, mas Fred segurou o mais novo. – Não abra essa sua boca suja para falar da minha família!
- Ou o que, Weasel? O que você vai fazer? – O loiro deu um risinho debochado. – Saiba que minha única preocupação é que você encoste essas mãos podres em minha roupa e acabe impregnando-a.
Mais uma vez Ron fez menção de se atracar no loiro convencido que o encarava com arzinho de ironia e mostrava que não acreditava que o ruivo fosse mesmo encostar em um fio de seu cabelo, mas o irmão mais velho do garoto parecia estar, também, fazendo um esforço enorme para não ser ele próprio a pular no pescoço imaculado de Draco.
- O que você está fazendo aqui, Malfoy? Não bastava ter quase causado a morte de Harry! – A reação do loiro fez Ron dar um sorrisinho vitorioso.
- Ron! – Harry exclamou, sentindo uma pontada no peito. O efeito dos analgésicos deveria estar passando a essa hora. – Por favor.
- Não fale sobre o que você não sabe, Weasley. – Draco rosnou. – Eu me pergunto o que você está fazendo aqui. Quantos vales-refeição o Harry está dando a você para que você não desgrude dele? Hein?
- Malfoy, eu juro que eu vou quebrar sua cara na primeira oportunidade! – O ruivo exclamou puxando o braço da mão do irmão com mais força e Fred parecia não se importar mais com se ele iria ou não cometer um crime hediondo ali mesmo.
- Ron. Pare. – Pediu Harry.
- Eu realmente não vou dormir após uma ameaça vinda de você, Weasel. – O loiro olhou com desprezo para Ron, segurando as expressões ao se dirigir a Ginny. – Mas é claro, como não me lembrei antes! Ginny Weasley. Eu já ouvi várias histórias sobre você, garota. Blaise Zabini refresca sua memória? Saiba que ele é um grande amigo meu.
- Sua cobra nojenta, como você ousa dirigir a palavra a minha irmã? – E dessa vez Fred deixou Ron se soltar.
- Não! – Harry gritou, gemendo de dor em seguida.
Antes que Ron pudesse pegar força para meter o punho que ele preparava no rosto angular de Draco, a porta se abriu e James olhou a cena com os olhos se arregalando conforme ia registrando o que acontecia.
Draco estava numa pose defensiva, onde ele ia desviar do soco do ruivo e meter-lhe outra no estômago, Fred e George haviam se sobressaltado ao ver o que o loiro havia planejado e estavam a ponto de prestar ajuda ao irmão, Ginny olhava a cena com um pequeno sorrisinho de agrado tremendo no canto de seus lábios e Harry tinha uma mão sobre o peito e uma expressão na qual se misturava dor e súplica.
Aw, as reviews são sempre tão incríveis que faltam palavras pra agradecer! Ines G. Granger, Yann Riddle Black, Marina Feltcliffe, Mila Pink, Maru, Fafis, MarciaBS e a todos os outros que estão lendo sem se manifestar: MUITO OBRIGADA! A quantidade de hits foi impressionante! Não poderíamos estar mais felizes. Muito obrigada mesmo.
Respondendo a resposta da Marina Feltcliffe: Eu e Carol nos conhecemos desde pequenas, estudamos juntas desde sempre e nos tornamos melhores amigas. Eu tive uma ideia pra uma fic Drarry e pedi pra ela escrever, porque eu nunca tinha escrito fanfic de Harry Potter (sim, essa é minha primeira). Depois de ter enchido muito o saco dela, Carol disse que a condição para que ela escrevesse a fic era que eu escrevesse com ela. Minha condição, então, foi que teríamos que postar. Condições aceitas, cá estamos! :D
Bem, queremos saber o que vocês acharam desse capítulo e o que acharam do segredo que foi revelado, uh? Esperamos não termos decepcionado ninguém.
Alguns lembretes: as respostas aos leitores logados estão sendo enviadas através de Private Messaging. No nosso profile vocês podem ver a capa dessa fanfic, assim como nossos usernames do Twitter.
Alguns avisos: Não haverá pausa para Natal e Ano Novo, postaremos normalmente nos sábados. O número da sorte agora é 16!
Muito obrigada por todas as reviews, pelos hits, por colocarem essa fic nos favoritos e no alerta. Obrigada mesmo, significa muito. Mil beijos e até semana que vem!
