Capítulo 14
Safe and sound

Ron, Fred e George recompuseram-se no instante em que perceberam James na porta. Draco manteve o olhar perigoso sobre os ruivos. Ron parecia ligeiramente envergonhado, os olhos baixos e a coluna curvada, Fred e George pareciam indiferentes a presença do mais velho e Ginny ainda sustentava um sorrisinho o qual Draco queria muito tirar de seu rosto. Sobre a cama, Harry ainda gemia de dor e isso fez o loiro esquecer os outros no momento em que o moreno torceu mais a careta.

- Harry. – Ele murmurou aproximando-se, tocando a mão do garoto que torcia os lençóis nos dedos com força.

- Garotos. – James chamou com sua voz calma. – Por favor, eu peço que se retirem. Entendam que Harry não está se sentindo bem no momento. Podem voltar depois. Mande lembranças e agradecimentos aos seus pais, Ron.

Draco virou-se para ouvir o pai de Harry, mas este se dirigia apenas aos Weasley, fazendo com que Draco se sentisse confortável e triunfante instantaneamente. Se sentindo repentinamente encorajado, com um sentimento de que James talvez estivesse lhe dando carta branca, o loiro segurou a mão que antes apenas tocava. O moreno agarrou-se a mão pálida com força, ofegante.

James saiu rapidamente para chamar uma enfermeira que o medicou com analgésicos e antiinflamatórios, dizendo que ele deveria ficar estático até que os remédios fizessem efeito e que iria proibir a entrada de mais um amigo por vez se aquilo voltasse acontecer. E enquanto esse tempo passava, seu pai sentou-se na cadeira onde antes estivera Draco, este ainda segurando firme a mão de Harry, que o olhava em silêncio, como se o contemplasse.

- Pare de me olhar assim, Harry. – Draco pediu no sussurro mais baixo que pôde e Harry sorriu no que o loiro corou.

- Sr. Malfoy. – James chamou após um longo tempo. – O que estava acontecendo quando eu entrei?

- Por favor, me chame de Draco, Sr. Potter. – O loiro quase sorriu com o desgosto de seu pai se ele o visse permitir tal intimidade a um Potter, mas ele já não se importava mais. – E, bem, eu e os Weasley tivemos um desentendimento.

- Um grande desentendimento, eu pude ver. – Não havia repreensão na voz de James e sim curiosidade.

- Sabe como é, um diz coisas desagradáveis ao outro e acabamos no soco. Quero dizer, se o senhor não tivesse chegado, teríamos acabado no soco.

- Oh, sim, claro. Eu sei bem como é. – Podia se ver um ar melancólico no olhar do mais velho. – Mas acredito que se não tivesse chegado naquele exato momento, seria a primeira vez que veria um Malfoy sair no punho com alguém.

- A culpa não foi dele. – Harry disse, limpando a garganta com força.

- Eu sei que não, mas eu me lembro bem, ah, se me lembro... – E James voltou a ficar sonhador. – Eu sempre tive uma vontade descomunal de quebrar a cara de seu pai, mas ele sempre foi tão controlado. Eu nunca entendi como ele se segurava. Admito que não fomos muito gentis um com o outro. – Ele deu uma risadinha. – Não, de maneira nenhuma, Sr. Malfoy.

- Draco. – Ele apressou-se em dizer.

- Oh, claro, Draco. – James sorriu. – Devo dizer que era uma das coisas que mais me irritava nele, era esse controle. Eu queria socá-lo, mas ele ia embora com o nariz empinado. Ah, como eu tinha raiva.

- Peço desculpas pelo comportamento do meu pai, Sr. Potter, se adianta de alguma coisa.

- Eu agradeço, mas tenho que admitir que foram bons tempos, aqueles. – O tom de quem voa longe voltou e Draco sorriu. Harry fazia a mesma cara que o pai estava fazendo quando pensava. – Claro que não queria que isso interferisse tanto agora, mesmo não estando de acordo até semana passada, mas as coisas mudam, pessoas crescem. – James parou um pouquinho. – Com exceção de Sirius, é claro.

Harry e Draco riram, fazendo Harry perceber que os comprimidos já haviam feito efeito e seus músculos estavam ficando levemente dormentes.

- Eu vou tomar um café no refeitório. Quer alguma coisa, Sr. Malfoy?

- Apenas que o senhor me chame de Draco. – O loiro disse com tom de brincadeira.

- Ora, entenda que nunca tive uma conversa civilizada como essa com um Malfoy e muito menos tive um deles exigindo ser chamado pelo primeiro nome, então tenha paciência comigo, senhor... Draco. – Ele corrigiu rapidamente.

- Certo, Sr. Potter, eu entendo. Não quero nada, obrigado.

- Vou deixar que conversem, então.

- Até mais. – Disseram Draco e Harry juntos.

- Você é a cara do seu pai. – Draco disse alguns momentos depois com um sorriso nos lábios.

- Todo mundo diz isso. – Harry rolou os olhos.

- Estou falando sério, você é igual a ele. – Insistiu. – O jeito como você fala e até sua cara quando você está lembrando de alguma coisa. – Dizia enquanto acariciava a mão de Harry com o dedão. – Acho que sei porque, supostamente, todas as mulheres na faculdade eram apaixonadas por ele. – Deu uma risadinha.

- É? – Perguntou Harry com as sobrancelhas erguidas. Draco apenas assentiu em resposta. – Devo ficar preocupado? – Brincou.

- Talvez.

Harry soltou a mão do loiro para pousá-la no rosto angular do próprio, o dedão acariciou lentamente a bochecha levemente corada. Draco permitiu-se fechar os olhos para aproveitar o toque carinhoso do moreno, deixando um pequeno sorriso tomar conta de seus lábios. Harry ergueu o tronco para ficar frente a frente com o garoto.

- Eu acho que não. – Sussurrou, movendo a mão para a nuca de Draco e puxando-o mais para perto, os lábios quase se tocando.

Draco achava impressionante a habilidade de Harry de ser tão bipolar. O moreno podia ser a pessoa mais esperta e a mais lenta do mundo, a mais inocente e a mais maliciosa. Tudo ao mesmo tempo. E agora ele percebia o quão magnífico isso era, a bipolaridade de Harry o fazia completamente imprevisível. O som de alguém se engasgando atrás de si fez Draco virar, assustado. James Potter estava parado à porta com os olhos extremamente arregalados, um copo de café em uma mão e um celular na outra. E Draco tentou não reparar como era a mesma expressão que Harry fazia quando tomava um susto.

James sentiu o rosto queimar e piscou algumas vezes, desviando os olhos dos garotos. Limpou a garganta, desconcertado, antes de falar:

- Harry... – Sua voz estava uma oitava mais alta do que o normal. – Sua mãe. – Aproximou-se devagar, estendendo o telefone para o filho.

Ele já estava fazendo seu caminho para fora do quarto quando Draco levantou-se. James observou o garoto chegar perto, extremamente constrangido, assim como ele próprio se sentia. Draco lançou um olhar para Harry que gaguejava alguma coisa para a mãe no telefone e respirou fundo.

- Sr. Potter, eu sinto muito que tenha presenciado... Bem, aquilo. – Murmurou, evitando encarar o homem.

- Eu também. – Respondeu James em tom de brincadeira. – Mas não é como se eu já não desconfiasse.

- Sinto muito. – Desculpou-se Draco, sem saber exatamente o porquê.

- Não tem problema. Estou falando sério. – Assegurou. – Diga a Harry para não ficar se martirizando. – Dito isso, ele seguiu seu caminho para fora do quarto.

Harry ainda disse algumas meias palavras a Lily ao telefone, garantindo que estava tudo bem e que sua gagueira repentina não era motivo para se preocupar. Draco apenas observou-o despedir-se e largar o celular na mesinha. Passou a mão no rosto em seguida, suspirando.

- Está tudo bem, Harry. – Draco o confortou. – Ele só se assustou.

- Só se assustou? Você viu a cara que ele fez?

- A mesma que você faz. – Ele murmurou.

- O que ele disse? Por que ele foi embora? Ele está com vergonha de mim, não é?

- Oh, pelo amor de Deus, Harry, depois você diz que eu sou dramático. – O loiro revirou os olhos. – Por que ele teria vergonha de você? Não seja idiota. Ele disse "Não é como se eu já não desconfiasse" e "Não tem problema". Isso responde sua pergunta?

- Eu... – Harry engoliu em seco e inspirou aliviado. – Eu nunca falei sobre essas coisas com ele. Achei que ele não aceitaria. E por que ele foi embora então? Por que não quis falar comigo?

- Provavelmente porque, além do momento ter sido constrangedor o suficiente para as próximas duas décadas, eu estou aqui. Você deve conversar com ele, de qualquer forma. – Draco virou-se para pegar sua mochila e pendurou-a em um dos ombros. – Acho que o dia foi agitado hoje, não?

- Você já vai? Não precisa, eu posso falar com ele depois. – Disse Harry com um quê de desespero em sua voz.

- Eu tenho que ir. – O outro suspirou, cansado. – Ao contrário do seu pai, o meu não é tão compreensivo. Ele já está desconfiando de que eu ainda estou falando com você. E eu acho que... – O loiro olhou nervoso para Harry. – Eu acho que não virei amanhã. Talvez na segunda, se você não tiver recebido alta até lá.

- O que? – Sua voz subiu duas quadras. – Como? Não, não, por que isso? Draco, você acabou de dizer que meu pai não se importa e...

- Eu não estou fazendo isso por que quero, Harry. – Draco interrompeu, se aproximando. – É necessário. Eu preciso de um tempo para que meu pai não resolva mandar alguém me seguir e acabe descobrindo que eu não me afastei de você como ele tanto quer. Vou chamar Blaise e Pansy para irem lá em casa, pedirei que comentem sobre o que, supostamente, andamos fazendo durante a semana, talvez vá a alguma festa, tudo para que meu pai relaxe.

- Oh, e que sacrifício enorme vai ser, não é? – O moreno soltou uma risadinha sem humor. – Festa, bebida e garotas para todos os lados. E Pansy vai estar lá. O bom mesmo é que ela não parece mais tão interessada no Zabini quanto antes. Oh, aproveite e convide Daphne Greengrass também. O Sr. Malfoy vai ficar tão orgulhoso.

- Harry. – O loiro chamou com um sorrisinho, fitando Harry com uma desconfiança divertida. – Você está com ciúmes?

- Com ciúmes? – Harry bufou. – Não fui eu quem quase assassinou a irmã de Ron com um olhar.

- Aquela garota não presta, Harry, fique sabendo. – Draco disse seriamente. – Mas sim, você está com ciúmes. Pansy e Blaise estão quase namorando e você sabe disso. E eu já cansei de dizer que não tenho interesse nenhum em Daphne. Deixe de ser imbecil. Você acha que eu vou ficar feliz em estar em casa quando sei que você está aqui sozinho e que, se não fosse pelo meu pai, eu poderia te fazer companhia o dia todo? Ah, será o melhor fim de semana da minha vida.

Harry o encarou e em suas íris verdes estavam refletidas toda sua confusão e seus receios. Draco largou a bolsa no chão, cortando a distância entre eles, segurando o rosto de Harry entre as mãos e beijando-o com voracidade.

Eles só vieram a se separar quando faltou ar e a temperatura do ambiente já havia aumentado o suficiente para abraçar seus corpos de maneira sedutora. Draco fixou seu olhar nas íris verdes e sorriu. Se o perguntassem há três meses e dissessem como eles estariam agora, o loiro os clamaria loucos e diria que não aconteceria nem em um milhão de anos.

- Eu mandarei SMS, não vai dar pra morrer de saudades. – Ele disse contra o ouvido do moreno. – Cuide-se.

E Harry viu o rosto adoravelmente corado de Draco sumir quando este fechou a porta. O moreno suspirou. Não o veria até segunda-feira. Argh, Lucius Malfoy tinha um poder incrível de estragar tudo mesmo a distância.


Não demorou muito para que James aparecesse, com o mesmo copo de café na mão. Harry evitou o olhar do pai, deixando-o cair sobre os lençóis brancos da cama. O mais velho pegou seu aparelho celular e guardou no bolso, puxando a cadeira onde Draco estivera sentado para mais perto, sentando-se ali em silêncio.

- Falou com sua mãe? – James perguntou após um gole de café.

- Falei. Quem é o parente de Sirius que está aqui? – Harry não havia de fato prestado atenção no que sua mãe estava dizendo, mas algumas palavras ele poderia recordar.

- A filha da prima preferida dele, Nymphadora Tonks. Nunca vi Padfoot tão animado. – Ele disse rindo e Harry olhou-o pela primeira vez desde que James entrara no quarto. – Desde que a buscou no aeroporto não fala em outra coisa se não no momento em que ela irá conhecer você. Padfoot e Moony a levaram para casa dos Black para instalar-se e virão para cá com Lily depois.

- Você já a conhece?

- A conheci hoje cedo, logo quando chegou. Ótima garota, muito divertida.

- Ela também é da família do Draco, não é? – Harry perguntou de repente. – Nós vimos a árvore genealógica.

- Ah. – James remexeu-se na cadeira. – Padfoot não me disse que você já sabia. Sim, a mãe dela, Andrômeda, é irmã de Narcissa. Isso a faz prima legítima de Draco.

Harry agora se perguntava se Nymphadora viria a ter algo em comum com Narcissa.

- Pai, você sabia que a Sra. Malfoy era apaixonada por você?

- Hm... – O mais velho pigarreou e olhou ao redor como se procurasse algo que fosse salvá-lo da pergunta do filho. Não encontrando tal coisa, ele voltou-se ao rosto do garoto. – No começo, não, mas Sirius, como sendo da família, descobriu e me contou. Mesmo que ele e Bellatrix, a quem Padfoot gosta de chamar de "prima demente", não tivessem mais a mesma amizade de quando eram mais novos, ambos gostavam muito de brincar com Narcissa em relação a isso.

- Não se deve brincar com os sentimentos dos outros. – Harry disse duro.

- Sim, eu sei. Mas o que eu podia fazer? Sirius e Bellatrix eram da família, eles tinham que se entender entre si, não é? Padfoot nunca fez nenhum comentário maldoso na frente dela, se é isso que você está pensando, a intenção dele nunca foi magoá-la, ele não tinha nada contra a prima. – James suspirou. – Eu também nunca tive nada contra Narcissa, ela sempre foi uma mulher muito bonita, e não me olhe como se eu estivesse cometendo algum crime. – O mais velho apressou-se em dizer.

- Eu não disse nada. – Ele deu de ombros.

- Mas estava pensando. Ouça, Harry, eu logo soube de como ela se sentia, mas eu já amava sua mãe. A única coisa que eu podia fazer era não iludi-la e eu não o fiz. De qualquer forma, a mão dela foi prometida a Lucius, não foi?

- Eu não gosto dele. – Harry murmurou, baixando a cabeça. – Ele faz mal a Draco e a mãe dele com certas atitudes.

- Eu também não sou um grande fã de Lucius Malfoy, que fique claro, mas ele não faz por mal, filho. É a maneira dele de proteger a família, de demonstrar que se importa. Você viu como ele ficou quando eu falei com Narcissa. Ele acha que eu ainda posso fazê-la desistir dele. Mas eu não poderia mesmo se tentasse. – James inclinou o corpo mais pra frente, olhando o filho nos olhos. – Eu sei que você não concorda com muitas das coisas que ele faz, mas Lucius não é por dentro o que ele aparenta ser por fora.

- E como você pode saber?

- Ora, não é óbvio? – Ele deu uma risada. – Ele espalhou no colégio todo que eu era gay, quer prova de insegurança maior que essa? Quem olha para ele com aquele nariz empinado pode jurar que ele tem o controle de tudo nas mãos, mas se engana completamente. Lucius Malfoy tem suas inseguranças como todos nós temos. Como você está tendo em relação ao que eu fui obrigado a testemunhar hoje.

Todo rosto de Harry ficou vermelho e o garoto começou a ofegar como se tivesse corrido uma maratona. James o observava com curiosidade no olhar.

- Não precisa ficar tão apreensivo, filho. Você achou que eu não desconfiava? – James sorriu. – Bem, se você queria manter segredo deveria ter tomado mais cuidado.

- Queria que eu tivesse trancado a porta? Ou talvez você poderia ter batido antes de entrar. Pouparia um bocado de constrangimento. – Harry disse de brincadeira, mas dava pra perceber o pânico que se dissipara rapidamente.

- Não, não é disso que estou falando. – Ele riu. – Mas, sim, eu devia ter batido. O que quero dizer é que está nos seus olhos, filho. Nos dos dois, na verdade. Era por isso que eu desconfiava.

- Mesmo assim, da próxima vez, bata na porta. – Pediu Harry cerrando os olhos com diversão em direção ao pai.

- Oh, certo, certo. – James riu novamente. – Me desculpe.

A porta escancarou-se com o empurrão que Sirius a deu e ali apareceu o padrinho de Harry com um sorriso de orelha a orelha, sendo seguido por Remus, uma moça que o garoto nunca vira antes, mas que parecia igualmente animada, e Lily. Antes, porém, de notar a animação da mulher, Harry teve a atenção chamada para o cabelo rosa da desconhecida.

Se aquela era a sobrinha de Narcissa, elas certamente não tinham nada em comum, Harry tinha certeza que a Sra. Malfoy teria uma síncope ao ver a garota. Mas mesmo com a cor incomum de cabelo, não deixava de ser bonita. O rosto delicado da desconhecida esticou-se inteiro em um largo e alegre sorriso enquanto ela observava Harry com atenção.

- E aí, Harry? – Cumprimentou Sirius que também apresentava um enorme sorriso. – Essa é Nymphadora. – Harry viu o sorriso da moça desfalecer como num passe de mágica ao que Nymphadora estreitava os olhos para Padfoot.

- Não me chame de Nymphadora... – Exigiu ao que seu rosto adquiria uma expressão ameaçadora. – Six. – E logo mudou novamente para um sorrisinho vitorioso despontando no canto dos lábios enquanto completava a sentença e Sirius fechou a cara de imediato.

Harry, James e Lily não conseguiram segurar a risada. Sirius e Tonks pareciam duas crianças. Ela o olhava com o mesmo sorriso de canto e os braços estavam cruzados, numa postura vitoriosa. Já Padfoot tinha os ombros caídos e uma expressão mal humorada no rosto bonito. Remus, que permanecera perto à porta, tinha os lábios minimamente esticados e os olhos presos na figura de Sirius.

- Six, Padfoot? – Provocou Harry, sem conseguir se conter.

- Cala a boca, moleque! – Exclamou para o afilhado antes de se voltar para a prima. – E você, "Six" – Fez aspas com os dedos – era meramente aceitável quando você era criança, agora, é apenas ridículo.

- Ridículo pra você. – Rolou os olhos.

- Exatamente!

- É melhor que "Padfoot". – Retrucou, fazendo careta.

Remus deu uma risadinha discreta de seu canto e andou quase que preguiçosamente até Sirius, parando logo às suas costas. Pousou as duas mãos nos ombros do amigo e apertou de leve, de modo tranqüilizador. Sirius olhou-o pelo canto do olho, desconfiado.

- Vamos esquecer isso. Estamos aqui para visitar Harry, não é mesmo? – Sua voz preencheu o ambiente e Sirius relaxou consideravelmente.

- Está bem. – Resmungou, sem se afastar do toque de Remus.

- Bem, okay então. – Tonks deu de ombros. – Olá Harry! – Cumprimentou, se aproximando da cama. – Meu nome é Tonks.

- É um prazer conhecê-la, Tonks. – Respondeu Harry com um sorriso amigável no rosto.

- É bom finalmente te ver, Sirius não calava a boca sobre você. – Disse animada. Sirius resmungou algo que fez Remus rir mais atrás. – Ele está ficando chato com a idade. – Murmurou, como se fosse um segredo.

- Mas que calúnia! – Sirius exclamou.

- Sirius... – Lily chamou, em tom de aviso, temendo uma briga entre os primos. James, no entanto, estava sorrindo.

- Eu preciso discordar, Tonks, Padfoot não mudou nada. – Disse James. – Continua o mesmo crianção de sempre.

- Estou sendo atacado aqui! Moony, faça alguma coisa!

- Ora, eu concordo com James. – Respondeu Remus, sorrindo.

Todos riram da expressão exageradamente ofendida que tomou conta do rosto de Sirius. Harry passou o resto da tarde rindo das baboseiras que Tonks falava, até que todos tiveram de ir embora e o deixaram sozinho com James novamente. Os dois se distraíram assistindo algum filme na TV, Harry não pôde deixou de notar como o pai parecia desconfortável.

- Harry... – James começou, brincando com os próprios dedos. – Você e Draco parecem bastante... Próximos, não é?

O corpo inteiro de Harry ficou tenso na mesma hora. Ele podia ver o constrangimento evidente queimando nas bochechas e nos olhos do pai e sentiu a si próprio corar. Passara essas horas na vã esperança de que James não mais tocaria no assunto. O mais velho respirou fundo antes de falar de novo.

- Não estou julgando, filho, mas, eu sei que sua mãe pensa da mesma forma... – A fala tão bem ensaiada em sua mente foi interrompida pelo gemido desgostoso de Harry.

- Você falou com a mamãe? – Perguntou, escondendo parcialmente o rosto na mão boa.

- Claro que não, não vejo como eu teria tido essa oportunidade. – Rolou os olhos. – Como eu ia dizendo, sei que sua mãe concordará comigo, nós precisamos conversar. – Respirou fundo e tentou deixar o constrangimento de lado. – Você e Draco já... – Ergueu as sobrancelhas, sugestivo, e viu o filho gemer de novo.

- Pai! – Exclamou.

- Vamos lá, Harry, gosto disso tanto quanto você. Responda. – Harry apenas balançou a cabeça para os lados. – Não o que? Não, você não vai responder ou...

- Não, nada aconteceu! – Interrompeu. Harry nunca achou que fosse ficar tão corado na vida, ele sentia como se seu rosto fosse explodir.

- Okay. – James assentiu, sem deixar de se sentir um pouco aliviado. – E você alguma vez já... Teve alguma experiência desse tipo? - Harry engasgou com a própria saliva e não respondeu. Mas essa era a única resposta que James precisava. - Você sabe que precisa usar proteção quando... Quando vocês decidirem que está... Está na hora de...

- Eu sei, pai! – Harry interrompeu novamente, olhando para o outro lado quarto.

- Harry, você precisa estar ciente de que é muito importante...

- Pai, eu sei, de verdade. – Assegurou o garoto em voz baixa.

Os dois permaneceram em silêncio por minutos que pareceram mais horas, até James levantar-se e sair do cômodo, alegando precisar de café. Harry fechou os olhos com força, não acreditando no que tinha acabado de acontecer. Ele tinha certeza de que teria pesadelos durante a noite. Ele teria pesadelos para sempre, na verdade.


No sábado de manhã, após sessões de raios-x, a troca das bandagens de seu peito e a substituição do gesso em seu pulso por uma tala preta, Harry estava de volta ao seu quarto. Os arranhões nas palmas de suas mãos e em sua têmpora, descendo em direção a sua bochecha, eram quase imperceptíveis agora.

Com término da semana de provas, a visita de Ron e Hermione logo após o almoço parecia mais descontraída, mesmo com o assunto da briga entre o ruivo e Malfoy não ter sido abordado e Hermione parecer não estar ciente do acontecido.

- Oh, Cedric pediu que eu avisasse que o primeiro jogo será daqui a duas semanas. – Disse Hermione.

- Por que ele não veio com vocês? – Quis saber Harry.

- Bem, eu perguntei a mesma coisa. Ele disse que seria um motivo bobo pra vir, sabe? Só pra dizer a data do jogo. – A morena revirou os olhos, como se discordasse.

- Ele me ajudou, não foi? Ele teria vindo para que eu pudesse agradecê-lo pessoalmente. – Ele disse, exasperado.

- Eu acho... – Ron começou baixinho. – Que na verdade ele não queria correr o risco de... – O ruivo pigarreou. – Encontrar com Malfoy.

- Eu discordo. – Disse Hermione empinando o pouco nariz e balançando a cabeça. – Eu acho que Cedric sabe que você está tendo alguma com Malfoy e também sabe que Malfoy morre de ciúmes dele, então não veio para não criar problemas.

- Sim, é muito gentil da parte dele, mas Draco sabe que somos amigos e, não importa o que nós estamos tendo agora, ele não pode escolher não falar comigo por que acha que vai criar problemas. – O moreno sacudiu a cabeça, indignado.

- Foi o que eu disse a ele, mas...

Hermione parecia realmente querer engatar numa conversa sobre as ações de Cedric, mas Ron grunhiu e se afastou quando percebeu que o assunto não viria a morrer logo. Ao notar a atitude do ruivo, Harry e Hermione se calaram e o observaram.

- Algum problema, Ron? – Perguntou a morena, olhando desconfiada o namorado.

- Não, não, podem continuar. – Ron fez um gesto displicente com a mão.

- Não, se você tem alguma coisa pra dizer, diga logo. – Disse Harry com a voz dura.

- Você sabe que eu não confio no Malfoy. – O ruivo disse secamente. – Não me surpreenderia nem um pouco se isso não fosse apenas um plano para afastar você de todos os seus amigos e dar um jeito de acabar com os negócios da sua família.

- Ron, não seja tolo. – Disse Hermione, parecendo nervosa. – Você viu como Malfoy ficou na noite da briga. Nós todos vimos o medo e o desespero nos olhos dele.

- Ora, nós todos também sabemos como um Malfoy pode ser um excelente ator! – Ron cuspiu a sentença. – Um Malfoy é digno de Oscar.

- Obrigado pela sua opinião, Ron. – Harry disse sarcasticamente. – Mas eu realmente não estou dando a mínima pro que você pensa nesse momento. Não depois do que aconteceu quinta-feira.

- O que aconteceu quinta? Do que vocês estão falando? – Ela olhou intrigada para o namorado.

- Ah, claro que ele não lhe contou, não foi? – O moreno bufou. – Por que contaria?

Sob os grunhidos de raiva de Ron, Harry narrou a Hermione tudo o que acontecera na tarde de quinta-feira e a cada provocação que Draco fizera que o moreno contava, Ron bufava.

- Isso é sério, Ron? Você resolveu sair no tapa com Malfoy aqui? – Hermione bradou. – Eu não estou dizendo que ele está certo, mas como você pode ser tão inconsequente, Ronald Weasley? Harry se contorcia em dor e você só se preocupava com as besteiras que Malfoy estava dizendo?

- Você não ouviu as coisas que ele estava dizendo!

- Bem, Harry acabou de me contar, por que você, aparentemente, achou que seria mais conveniente não me dizer. – A voz de Hermione estava uma quadra mais alta que antes. – E o que Ginny tem a ver com Blaise Zabini, afinal de contas?

- Nada! É obvio que isso é mais uma das invenções do Malfoy, Ginny nem conhece Zabini!

- Draco não é mentiroso! – Harry estava praticamente gritando e uma de suas costelas avariadas reclamou.

- Ron, pare! – Pediu Hermione. – Isso vai fazer mal a Harry, ele não pode se esforçar.

Ron soltou o ar com força e sentou-se na poltrona reclinável marrom que tinha no canto perto a porta. O ruivo passou a mão no rosto, balançando a perna freneticamente e após alguns minutos em silêncio, ele se levantou.

- Harry, me desculpe. – Ele murmurou.

- Certo. – Harry assentiu. – Tudo bem.

Hermione tratou de mudar logo de assunto e, antes que percebessem, eles estavam embalados em risadas altas. Quando o médico entrou no quarto, sendo seguido de perto por Lily, James, Sirius e Lupin, Ron e Hermione se despediram, a garota prometendo que ligaria para saber das novidades.

- Pois bem. – Disse o médico tirando os raios-x de um envelope e elevando-o a luz rapidamente, como se pra confirmar seus pensamentos. – A fratura na costela inferior – ele dizia enquanto apontava. – Já está quase sanada, mas já a superior parece estar no meio do processo ainda. Quanto ao pulso, trocamos o gesso por essa tala, mas não o subjugue, sim? O senhor receberá alta segunda-feira logo cedo, Sr. Potter, mas só poderá voltar às atividades normais na semana que vem.

- Semana que vem? – Lily exasperou-se. – Harry perderá mais uma semana de aula?

- Mãe, semana passada só foi revisão para as provas que tivemos...

- Sim, eu sei, mas de qualquer forma...

- Eu sinto muito, Sra. Potter, mas receio que seu filho terá que ficar em repouso mais uma semana, sim. – Ele deu sua última palavra com um sorrisinho amigável. – Amanhã à noite faremos uma última checagem antes que eu possa assinar sua liberação.

- Obrigado. – Harry disse sorrindo.

Quando o doutor saiu, Lily ficou observando a porta fechada como se esperasse que o homem entrasse e dissesse que Harry estava perfeitamente bem e que não perderia os assuntos das próximas provas. Sirius começou a fazer uma lista dos filmes que eles assistiriam enquanto o garoto estivesse preso na cama, mas Harry parecia honestamente excitado. Fazia algum tempo desde a última vez que tivera um tempo com o padrinho.

- Remus, você pode deixar Harry em dia com sua matéria, não é? – Lily parecia colérica.

- Claro que posso, Lily, mas garanto que minha matéria é o menor dos problemas de Harry. – Lupin sorriu para o garoto.

- Mãe, não precisa se preocupar. Eu vou me empenhar pra pegar o assunto. E, além do mais, posso pedir ajuda ao pessoal. Draco pode me ajudar com química, Neville com biologia, Luna com filosofia e Hermione com todo o resto! – Harry sorriu com o pensamento de que a amiga podia muito bem ensinar-lhe todas as matérias, inclusive as que ele já havia citado.

- Tudo bem. – A ruiva tranqüilizou-se. – Fale com eles, então.

- Querida, relaxe. – Disse James, puxando a esposa pela cintura. – É apenas uma semana de aula.

- Você sabe a quantidade de assuntos que se dá em uma semana, James! Harry já saiu prejudicado por perder as revisões e ter tido menos tempo pra estudar essa semana que passou e agora irá perder mais uma semana...

- Lily. – Remus interrompeu. – Estou falando como professor de Harry agora. Harry é excelente aluno e eu tenho certeza de que ele não terá dificuldade para integrar-se do assunto das aulas da semana que perderá.

- Ah, vamos lá, Lily, pense no tempo que poderá passar com Harry! – Animou-se Sirius. – Podemos todos ficar juntos.

- É, assistindo filmes. – Harry deu um enorme sorriso e recebeu uma piscada cúmplice do padrinho. – Poderíamos convidar Tonks também. Tenho certeza que ela iria adorar.

A pronúncia do nome da jovem mulher Lily falhou ao reprimir um sorrisinho de concordância e expectativa e Remus pareceu desconcertado.


No fim da tarde, Luna e Neville vieram visitar Harry e não hesitaram em aceitar o pedido de ajudá-lo com as matérias que perderia. Os dois foram embora um pouco antes da hora do jantar, quando Tonks chegou com uma enorme caixa de chocolate. A jovem empoleirou-se na beirada da cama, cruzando as pernas sob o corpo, e abriu a caixa. Tonks falava sobre as viagens de sua família enquanto saboreavam os doces.

Foi quando Tonks dizia alguma coisa sobre seu pai ser alérgico a milho e contava que ele só descobrira tal fato após uma horrível reação que tivera após comer Quesadillas numa quitanda em uma esquina no centro do México, que Harry escolheu um chocolate aleatoriamente e o frescor da menta expandiu-se em sua boca ao mordê-lo.

O moreno de repente não ouvia mais o que a jovem a sua frente falava. Em sua mente só havia a lembrança de certo loiro. Loiro esse que lhe mandara uma mensagem no decorrer da tarde dizendo que iria vê-lo na segunda-feira, mas que Harry só deveria responder-lhe quando Draco o avisasse que podia, para só então saber se o garoto acidentado estaria em casa ou não.

Harry se acostumara com a presença constante do loiro e agora mais de 48 horas sem vê-lo mostrava-se extremamente torturante. O moreno sentia falta de Draco, é claro, e muitas vezes durante o dia se pegara divagando sobre o que o outro garoto estaria fazendo.

Era verdade que a distância podia servir para mostrar as pessoas que algumas figuras não eram tão importantes quanto nós imaginávamos, mas também servia para apertar-lhe o peito e fazer-lhe implorar pela presença daquela que se tornara vital. E Draco, sem duvida nenhuma, se tornara vital.

- Minha mãe ficou realmente irritada, por que acabamos não aproveitando nada da viagem graças a isso, mas meu pai prometeu nos levar novamente qualquer dia desses. – Tonks deu de ombros. – Tem curiosidade de conhecer o México, Harry? Talvez pudesse convencer sua mãe a deixá-lo ir conosco.

Nem em um milhão de anos ela permitiria, pensou Harry.

- México? – O garoto pareceu considerar a proposta por alguns segundos. – Não sei. Sempre tive certa simpatia pelo Brasil, na verdade.

- Oh, Brasil! – Ela sorriu melancólica. – Estive lá. Ótimo lugar, Harry, escolheu bem.

A grande surpresa foi, já tarde da noite do domingo, receber uma ligação de Pansy que perguntara como ele estava e disse que tinha um recado de Draco pra ele. Harry sentiu uma ansiedade instantânea e sorrir foi inevitável. Ele não diria a garota, mas estava com saudades do loiro.

Depois daquele recado, foi um tanto quanto trabalhoso pegar no sono. Harry olhava o relógio a cada segundo, inconscientemente contando quanto tempo faltava para o dia seguinte. Para o momento em que ele veria Draco novamente depois de três dias.


Agradecimentos especiais a: MarciaBS, Marina Feltcliffe, Yann Riddle Black, Ines G. Black, Sestini, Freya Jones, Fafis, Sonialeme, Maru e Pandora Beaumont.

Ficamos muito felizes em receber a opinião de você! Alguns parecem estar achando que o Draco ta sofrendo. Bem, então, preparem as tochas e tridentes, por que mal começou. Ainda não fizemos jus a categoria "drama" da fic. Não nos odeiem, por favor! D:

E sobre os motivos das brigas entre os Potter e os Malfoy que foram esclarecidos no capítulo passado, eu também achei bem besta quando reli, mas se você se colocar no lugar dos personagens e tentar pensar como eles, dá pra ver que não é tão simples.

Amanhã faz 3 meses que estamos postando a fic. Obrigada a todos que estão acompanhando!

Obrigada por todos os hits e comentários! Feliz natal para todos! Mil beijos.