Capítulo 18
Something you'll miss

O céu estava escuro, as nuvens se transformaram numa massa cinza única, o inverno aquele ano seria brutal. O fim do outono já trazia consigo uma chuva fraca e ventos fortes que naquele momento embalavam seus cabelos loiros.

Draco estava encostado em seu carro, segurando o casaco com firmeza contra seu corpo, e estava prestes a entrar de volta no veículo e ligar o aquecedor, mas antes, passos chamaram sua atenção.

O loiro esperava por Harry, que desejara ir novamente ao terraço onde Draco o levara algum tempo atrás, mas a mulher que se aproximou merecia alguns segundos de sua atenção. Ela era de estatura pequena, parecia frágil. Tinha longos cabelos castanhos que desciam em cascatas de ondas em suas costas, grandes olhos castanhos e forçavam uma meiguice que se contradizia ao que a mulher vestia.

Seu decote certamente fora a primeira coisa a chamar atenção de Draco, já que havia tão pouco tecido cobrindo aquela área que era impossível não olhar. O vestido preto era apertado e extremamente curto e o salto fino e prateado acrescentava alguns bons centímetros a sua altura, mas não a deixava mais alta que o loiro.

A morena lhe lançou um sorriso sedutor e foi se aproximando com andar felino, quase erótico. Draco olhou ao redor, esperando que alguém aparecesse e lhe explicasse o que estava acontecendo. Quando isso não aconteceu, a mulher colou seu corpo ao de Draco e passou a língua no lóbulo de sua orelha obscenamente.

- Esperando por mim, loirinho? - Ela perguntou numa voz fina e irritante.

- Não toque em mim. - Draco fez uma careta de desgosto quando as mãos pequenas da mulher começaram a descer pelo seu peito.

- Você não deveria negar prazeres a si mesmo, Draco. - O loiro sobressaltou-se ao ouvir a mulher dizer seu nome. De maneira rude ele segurou as mãos que estavam na altura de seu abdômen agora. Com todo o desprezo que pode reunir, Draco falou baixinho no ouvido da mulher:

- Tire essas mãos imundas de cima de mim agora e se afaste ou eu juro que farei você se arrepender.

- Oh. - Ela gemeu em seu ouvido. - Então, faça.

Draco estava pronto para dizer algumas coisas extremamente desagradáveis quando seu coração falhou uma batida. Sobre o ombro da morena colada ao seu corpo, Draco viu íris verdes-esmeralda olhando-o cheias de dor e decepção. Uma agonia terrível atingiu o loiro como um soco e ele quis poder fazer alguma coisa para tirar aquela expressão do rosto bonito de Harry, mas quando ele conseguiu empurrar a mulher para longe, o moreno já tinha dado as costas e caminhava - quase corria - em direção ao seu carro.

- Harry! - Ele chamou. - Harry, espere.

O moreno entrou no carro rapidamente e ligou o motor, Draco só teve tempo de dar uma batida no vidro antes de Harry arrancar com o veículo e sumir na esquina.

- Harry! - Draco chamou mais uma vez, esperando que o moreno voltasse, mas quando isso não aconteceu, o loiro sentiu um tremor na boca de seu estômago. Não podia perder Harry dessa forma.

Draco forçou sua mente a racionalizar e seu primeiro pensamento foi que ele tinha que falar com Harry, tinha que explicar, tinha que deixar tudo bem outra vez. Fazendo um grande esforço para impedir seus pensamentos de revolverem na possibilidade de perdê-lo, o loiro lembrou-se de um fato importante. Draco sabia onde Harry estava indo naquele momento.


Era dia de jogo. As arquibancadas estavam divididas entre os alunos de Hogwarts e os de Durmstrang. Draco passou os olhos atenciosos em cada rosto, prestou atenção em cada movimento, até encontrar Harry. Os jogadores aqueciam na quadra, mas o loiro não se surpreendeu em perceber a ausência de um deles.

Harry estava no canto esquerdo da quadra conversando com Cedric. O moreno estava encostado na parede e parecia falar baixo. O mais alto tinha os braços cruzados e a testa vincada, mas em seus olhos tudo o que se via refletido era compaixão.

O moreno pareceu falar bastante e quando acabou, soltou um suspiro e levantou a cabeça. Draco não soube dizer exatamente o que era, mas algo na expressão dolorosa de Harry o fez muito mal e ele decidiu, por fim, ir até lá.

Draco ouviu Cedric pronunciar algumas palavras de consolação e parecia a ponto de puxar Harry para um abraço quando percebeu que ele se aproximava.

- Harry. – Draco chamou. – Harry, eu preciso falar com você.

- Vá embora, Malfoy. – Pediu Cedric, tentando afastá-lo do moreno.

- Saia da minha frente, Diggory. Isso não diz respeito a você. – O loiro rosnou.

- Você já não foi um filho da puta o suficiente, Malfoy? Você não acha que talvez você tenha feito uma merda muito grande dessa vez? – Era incrível como o mais alto mantinha um tom suave enquanto empurrava Draco. Cedric sabia que arrumar confusão agora não ajudaria em nada.

- Harry, por favor, me escute. – Draco implorou.

- Eu não estou interessado em ouvir suas desculpas, Draco. Por favor, vá embora.

Draco parou imediatamente ao tom de voz do moreno. Era um tom cansado, quase como se estivesse se arrastando, suplicante, pesado.

- Eu não sei quem é aquela mulher, Harry. Eu juro que nunca a vi antes. – Ele tentou se explicar enquanto Cedric tentava calá-lo.

- Ah, e você acha que me dizer que estava com uma vadiazinha qualquer vai mudar alguma coisa? – Harry deu uma risadinha pela qual ficou explicito o seu cansaço. – Poupe-me. Vá embora.

Harry deu as costas e seguiu em direção ao vestiário, com Cedric logo atrás dele. E o loiro o assistiu ir se afastando, um peso enorme parecia esmagar seu peito, uma culpa infundada se instalando em sua mente e o medo de ficar sozinho solapando-o. O som do apito da treinadora chegando a seus ouvidos serviu como um choque de realidade. Draco soube que havia perdido Harry.

Ele havia perdido Harry e era como se o mundo houvesse se partido em dois. De repente, havia um mundo com Harry e outro sem. Sua mente ia de volta para mundo no qual Draco tinha o moreno em seus braços quase instantaneamente e isso doía tanto que ele poderia facilmente chorar.

Chorar por ter sido obrigado a ver tudo escapando entre seus dedos, chorar por aquela ser a primeira vez que se sentia tão miserável, chorar por ter decepcionado uma das poucas pessoas as quais ele mais temia fazê-lo, chorar por ter tantas lembranças boas e não ter Harry para compartilhá-las.


Harry sentou-se num dos bancos do vestiário, sem olhar para Cedric, que sentou ao seu lado. Sem se importar muito o moreno deitou a cabeça no ombro do mais alto e suspirou, olhando fixamente para qualquer ponto a sua frente.

- Dá pra acreditar? – Ele perguntou, sua voz falhando por um momento. – Eu devo ser mesmo tão burro quanto dizem que sou.

- Harry, não diga isso.

- Mas é verdade. Onde eu estava com a cabeça quando acreditei tão fortemente que eu não era apenas uma experiência para ele? – Harry suspirou. – Se você tivesse visto, eu tenho certeza que você pensaria da mesma forma que eu. A forma como ela se esfregava nele, a forma como ele segurava as mãos dela no próprio peito... – O moreno fez uma careta de dor.

- Não fique se martirizando. A culpa não é sua. Malfoy é que é um grande idiota. – Cedric disse assentindo.

- Bem, eu devia ter deixado bem claro pra mim mesmo que eu era uma novidade pra ele, que eu era uma nova aventura, uma nova experiência. Eu deveria saber que assim que ele enjoasse do novo brinquedo, ele largaria na prateleira. – Harry riu sem humor de sua própria estupidez. – Mas era óbvio que terminaria assim. Foi assim que ele foi criado. "Use esse brinquedo até quando não quiser mais, Draco. Quando tiver abusado bastante desse, eu lhe darei outro novinho." – O moreno imitou o tom de voz superior de Lucius Malfoy. – Era tão óbvio.

- Acho que você não pode se culpar por ter confiado nele. Acontece com todo mundo, Harry. Todos nós, em algum momento de nossas vidas, iremos apostar todas as nossas fichas na pessoa errada. – Cedric suspirou. – Eu tenho que confessar que achei que ele mudaria por sua causa. Eu vi como ele ficou quando você foi pro hospital. Eu achei que ele realmente se importava. Foi por isso que eu me afastei. Eu sabia que minha presença incomodava Malfoy e por isso resolvi deixar que vocês ficassem bem. Agora eu me arrependo de não ter comprado mais alguma brigas.

Harry levantou a cabeça e sorriu fraquinho para Cedric. Eles se encararam por alguns segundos e logo o som do segundo apito da treinadora fora ouvido. O time deveria se reunir para combinar as jogadas antes do começo do jogo. Cedric levantou-se e estendeu a mão para Harry. Quando este se levantou, o mais alto o puxou para o abraço que ele planejava dar-lhe na quadra.

- Vá pra casa, Harry. Descanse um pouco. Talvez as coisas estejam melhores amanhã.

- Não. Eu disse que iria torcer por você. – Harry sorriu ao se afastar. – Eu prometi, lembra? E não sou do tipo que quebra promessas.

- Ótimo. – Cedric deixou um lindo sorriso crescer em seus lábios. – Vamos, então.

Draco ainda viu o time entrar na quadra. Assistiu ao primeiro set do jogo quieto num canto. Ele não se importava com quem estava ganhando e quem estava perdendo, ele apenas ficara observando Harry comemorar a cada ponto de Hogwarts, ao lado de Seamus e Dean.

Antes de o segundo set começar Draco deu as costas e foi embora. Ele não negava que poderia muito bem cair em prantos a qualquer momento, mas ele ainda tinha certa dignidade. Naquele momento, era sua palavra contra o que Harry havia visto, e seu realismo o forçava a acreditar que ele perderia aquela batalha rapidamente. Se o moreno não iria acreditar nele, não havia nada que ele pudesse fazer.

Ao chegar à mansão, Draco seguiu direto para o escritório de Lucius – vazio devido a uma viagem de trabalho – e encontrou o que veio desejando todo caminho pra casa. Sobre uma mesinha no canto, atrás da grande mesa onde o loiro já vira seu pai fechar tantos negócios, havia uma garrafa de Vodka pura e dois copos. Draco encheu um deles e tomou metade de um gole só. A bebida desceu queimando, mas, temporariamente, pareceu sobrepor a dor interna.

- Draco? – Ele ouviu a voz calma de sua mãe soar próxima à porta. – Draco, querido, está tudo bem?

Draco não se virou para olhar para mãe e também não respondeu. O loiro apenas terminou o conteúdo do copo e colou-o no lugar delicadamente, mesmo com as mãos tremendo.

- Por que você está bebendo? – Narcissa perguntou cuidadosamente. – O que aconteceu?

O loiro levantou a cabeça e soltou um breve suspiro, virando-se para a mãe, mas sem realmente olhá-la. Draco fez um gesto negativo com a cabeça e saiu do escritório, passando por Narcissa como se não houvesse nem notado sua presença.

A loira observou seu filho fazer seu caminho para seu quarto rapidamente, a pose completamente abalada. Draco poderia até não ter dito nada, mas o que Narcissa viu na expressão do garoto foi o que ela precisou pra entender tudo. Seu filho podia esquecer-se desse fato, mas anos atrás era Narcissa quem tinha a mesma expressão no rosto.


Draco entrou em seu quarto e sentou-se na beirada da cama, olhando ao redor sem realmente ver nada. O loiro colocou a cabeça entre as mãos e trabalhou em apenas respirar. Concentrou-se no som de sua respiração estremecida, em seu peito subindo e descendo e na pressão extra que aquele trabalho parecia estar levando naquele dia em particular. Draco sentiu-se sufocado.

Ele continuava na mesma posição quando a porta abriu-se e ele se controlou muito para não levantar a cabeça e pedir a Narcissa que saísse, mas o perfume que preencheu o quarto certamente não era o de sua mãe.

Pansy sentou-se ao lado de Draco e observou-o enquanto ele inalava o ar pesadamente mais duas ou três vezes, finalmente levantando a cabeça.

- O que aconteceu? – Ela perguntou suavemente.

- O que você está fazendo aqui?

- Sua mãe me ligou. Ela está preocupada, Draco. Me diga o que aconteceu.

- Nada. – Draco levantou-se e seguiu para a escrivaninha, ligando seu notebook sem dar muita importância a presença de Pansy. – Perdeu seu tempo, Parkinson. Eu estou ótimo.

- Eu consigo perceber pelo seu tom de voz que você não está bem. – Pansy disse suspirando enquanto o loiro apenas tamborilava os dedos na mesa, de costas para ela. – Não foi seu pai, eu sei que não. Sua mãe não ligaria pra mim se o problema fosse com ele. Aconteceu alguma coisa com o Harry, Draco?

- Por que você continua me mandando essas músicas, Pansy? – Draco perguntou assim que abriu seu e-mail. Ele deu uma risadinha e ignorou o que a morena havia enviado. – Eu já disse a você que não vou escutar.

- Talvez você devesse. – A voz de Pansy estava mais dura que antes. – Quem sabe assim você aprende o que são essas coisas que você está guardando dentro de você. Eu não sei se você sabe, mas o nome é sentimentos, Draco.

- Parkinson, não me teste. – Draco rosnou. – O que eu ganho tendo sentimentos?

- O que aconteceu? Onde está o Harry?

- Da última vez que eu o vi, ele estava pendurado no pescoço do Diggory. Ainda deve estar lá, eu acredito. – Ele deu de ombros.

- Oh, então o Diggory se meteu entre vocês de novo?

- Na verdade, não. Aparentemente, quem fez a merda dessa vez fui eu. Mas quem se importa, não é? – Mais uma vez, ele deu de ombros. – Potter parece ter superado tudo muito rapidamente.

- Potter? Agora é Potter? – Pansy bufou. – Mas que merda você fez, Draco?

- Eu não quero falar sobre isso. Ele não acreditou em mim, por que você acreditaria? Pode ir embora agora, Parkinson. Não perca mais seu tempo comigo. Eu não preciso de sua ajuda.

O silêncio que caiu no cômodo quase fez Draco acreditar que Pansy havia de fato desistido, então ele ficou esperando ouvir o barulho da porta abrindo e fechando. Mas, ao invés disso, ele teve sua cadeira girada e uma Pansy furiosa o encarava fundo nos olhos, seu rosto ameaçadoramente perto.

- Você é mesmo impressionante! Eu não sei o que você fez, mas tenho que dizer que você é muito imbecil por dar as costas e deixar tudo pra trás. – Pansy falava de um fôlego só. – Harry foi a melhor coisa que aconteceu com você, Draco, e você sabe disso e fica aqui fingindo que nada aconteceu, que não se importa. Seu pai poderia até ficar orgulhoso com essa tentativa de não mostrar sentimentos se não fosse tão falha. Eu consigo ver nos seus olhos, Draco. Algo ai dentro de você está doendo muito. Reaja, Malfoy! Reaja antes que seja tarde demais.

Ao terminar, Pansy ofegava um pouco, mas continuou a encarar o loiro sem deixar sua pose ou sua face dura caírem. Draco apenas a encarou de volta e alguns segundos depois, uma careta de desagrado contorceu-se em seu rosto bonito.

- Retire-se, Parkinson. – Ele disse perigosamente. – Eu achava melhor você ir agora. Eu não estou de bom humor.

A morena ainda o observou mais alguns longos segundos, mas se deu por vencida. Endireitando sua coluna e lançando um olhar de cima para Draco, que apenas bufou, voltando a fingir interesse em qualquer coisa que via na tela do computador. Quando ele ouviu a porta se fechar, deixou sua máscara e sua pose se desfazerem. Arrastando-se, ele voltou a sentar-se na cama.

Sobre sua mesinha de cabeceira estava o porta-retratos com a foto dele com Harry no baile de inverno. Ambos sorriam radiantemente e era muito idiota olhar para aquele retrato agora, por que naquele momento ele não fazia idéia que estaria naquela situação menos de um mês depois.

- Draco. – Narcissa chamou já dentro do quarto e Draco assustou-se. – Chamei Pansy achando que você fosse preferir falar com ela nesse momento, mas acho que me enganei.

Draco apenas olhou para mãe, o queixo trincado para evitar que tremesse, as mãos firmes em seu colo, as costas duras. Oh, como ele estava cansado de ser forte, de usar máscaras, de mostrar sempre indiferença.

- É o Harry, não é, querido?

Narcissa disse aquilo com sua voz mais suave possível, mas para Draco ainda pareceu um tapa na cara e naquele momento ele não pode segurar-se mais. Draco se desfez na frente da única pessoa com quem ele poderia fazê-lo. Lágrimas desceram quentes e ele fechou os olhos com força. Sua mãe sentou ao seu lado e o puxou para seus braços, afagando suas costas e seus cabelos.

Um bolo enorme se formou em sua garganta e Draco soltou um soluço desesperado, achando que iria sufocar se não o fizesse. Narcissa apenas o abraçou mais forte.

- Eu o perdi, mãe. – Ele disse com a voz estrangulada. – E dói tanto.

- Eu sei, querido. – Narcissa disse sentindo seu próprio coração apertar-se. – Eu sei. Mas tudo vai ficar bem.

- Não, não vai. Eu estou sozinho de novo.

- Claro que não está, meu amor. Eu estou aqui, não estou? – Ela o apertou mais forte antes de afrouxar os braços ao redor dele. – Draco, olhe para mim.

O loiro o fez, os olhos vermelhos e as bochechas manchadas de lágrimas. Tudo o que Narcissa viu refletido nas íris cinza-azulados foi dor. Muita, muita dor.

- Eu cometi um erro enorme alguns anos atrás. Claro que eu não arrependo dele, se não como eu teria meu bem mais precioso que é meu lindo filho? – Ela sorria amavelmente. – Mas, por favor, querido, não o cometa também. Não desista, Draco. Prometa pra mim que você não irá desistir.

Draco analisou o rosto suplicante e aristocrático de sua mãe. Obviamente ele sabia a que ela se referia. Em momento nenhum ele havia parado pra pensar o que faria, mas desistir não era uma das idéias.

- Não, não vou. Eu prometi que nunca desistiria. – Draco fungou. – Eu prometi a ele.

- Então honre sua promessa, meu filho. Honre sua palavra e eu aprovarei o que quer que você queira fazer, o que quer que você decida. – Ela tentou enxugar uma lágrima que escorreu com o dedo fino. – Eu tenho muito orgulho de você, meu amor. Agora, descanse um pouco.

Narcissa beijou a testa do filho e levantou-se, mas não sem lançar-lhe um sorriso cheio de carinhos e palavras não ditas. Graciosamente, ela retirou-se do quarto.

Draco se deitou, puxando as cobertas para cobrir-lhe até os ombros. Na foto, Harry ainda sorria pra ele e o loiro descobriu-se pensando que faria e daria tudo para ter o lindo moreno de olhos verdes daquela foto sorrindo especialmente para ele daquela forma novamente. E antes de pegar no sono, mais uma lágrima escorreu pela sua bochecha e molhou seu travesseiro macio. Draco nunca se sentira tão sozinho.


Draco andava pelos corredores de Hogwarts com certo receio. Ele não tinha certeza o que, mas algo o dizia que aquele era o lugar onde ele deveria estar naquela noite. Então, olhando tudo ao seu redor, o loiro foi andando pra qualquer lugar.

- Você quer ser meu amigo, Draco? – A voz de Harry ecoou vinda das paredes, como se estas servissem como uma enorme caixa de som e ecoava. – Eu posso fazer valer a pena.

- Harry? – Ele chamou, mas sua voz saiu tão baixa que ele duvidada que o moreno pudesse ouvi-lo de onde quer que esteja. – Harry?

- Você disse que nunca desistiria, Draco. – A voz soou novamente, dessa vez meio falha, como se a caixa de som estivesse com problemas.

- Harry? Você está me ouvindo? Eu não vou desistir de você, Harry. – Draco tentava gritar, mas sua voz não aumentava nem um pouco. – Eu nunca desistiria de você. Está me ouvindo?

- Eu te quero tanto, tanto, tanto. – Harry disse, sua voz soando mal sintonizada. – Eu gosto muito de você. De verdade.

Draco agora se via correndo, indo em direção ao estacionamento e ao chegar lá sentiu como se seu coração tivesse parado. Harry estava deitado numa poça de sangue, seus olhos fechados e sua expressão muito pálida.

- Harry? – Dessa vez a voz do loiro soou normal e ele se aproximou com cuidado. – Harry, me perdoa. Me desculpa. Não foi minha culpa.

- Você disse que não desistiria. – A boca do Harry deitado a sua frente não se moveu, mas ele podia ouvi-lo perfeitamente. – Você disse que não desistiria.

- Eu estou aqui, Harry. Eu nunca vou te deixar. Por favor, me perdoa. – Draco suplicou, tentando tocar no rosto sem expressão, mas era como se houvesse um campo de força ao redor do corpo do moreno.

- Eu te quero tanto, tanto, tanto. Quer ser meu amigo, Draco? Eu posso fazer valer a pena. – A voz de Harry agora estava confusa e misturada, como se vários dele tentasse falar ao mesmo tempo e um zunido insuportável atingiu os ouvidos do loiro, que os cobriu com as mãos. – Eu gosto muito de você. Você disse que não desistiria. De verdade. Quer ser meu amigo, Draco? Eu te quero tanto, tanto, tanto.

E as palavras continuaram sendo repetidas como um mantra extremamente doloroso e Draco gritou pela dor em sua cabeça, pelo zunido, pelas vozes, pelo corpo inerte de Harry. Ele gritou o mais alto que pôde e no segundo seguinte, acordou.

Não havia mais luz entrando pela janela, então o loiro provavelmente dormira a tarde toda. Ele estava suado e cansado e uma nostalgia enorme o atingiu. A voz de Harry ainda ecoava em sua mente. Cada palavra dita. E como uma avalanche, o sentimento de solidão voltou.

Descendo as escadas ainda um pouco grogue, Draco encontrou sua mãe sentada à frente da lareira na sala. Narcissa sorriu para o filho e colocou o livro que lia de lado, chamando Draco para sentar-se junto a ela no sofá.

- Está se sentindo melhor? – Ela perguntou acariciando o rosto angular do garoto.

- Não muito. – Draco suspirou. – Tive um pesadelo.

- Eu sinto muito, querido. – Narcissa beijou a testa do filho com carinho. – Por que você não toma um banho de banheira? Pode demorar o quanto quiser e assim que você terminar, nós sentamos juntos pra jantar?

- Eu não estou com fome, mãe. Obrigado.

- Como não? Logo hoje que eu ia pedir que colocassem no jardim para comermos olhando as estrelas? – Narcissa sorriu.

- Lá fora? Mas está congelando.

- Pegue um bom agasalho, então.

Draco olhou para o rosto bonito de sua mãe. Ele queria sorrir pra ela, realmente queria, mas não conseguiu. O loiro também queria ir comer no jardim, mas só de pensar em comida seu estômago embrulhava como se estivesse cheio demais.

Era estranho perceber como ele havia se tornado tão dependente de Harry sem nem perceber. Ele jantaria debaixo de uma chuva torrencial se Harry estivesse lá. Mas o moreno não estaria, então nada disso parecia fazer sentido. Mesmo à frente da lareira ele sentia frio, sentia um vazio, se sentia incompleto.

Harry era o único que o entendia de verdade, o único que sabia como ele se sentia, o único que era capaz de fazê-lo se sentir melhor. Mas agora ele não estava mais ali para isso e Draco se sentia horrível.

- Desculpe, mãe. Eu vou tomar um banho e vou pro meu quarto, pode jantar sem mim. – Draco levantou-se se odiando pelo que estava fazendo. Narcissa estava ali pra ele e tudo que ele fazia era recusar todas as suas tentativas de ajudá-lo. – Me desculpe.


Ao fechar os olhos Harry ainda podia ver a imagem de Draco diminuindo até sumir em seu espelho retrovisor como um filme gravado em sua retina. Enquanto subia as escadas em direção a seu quarto, Harry dava risadinhas sem humor. Ele tinha mesmo que ser muito burro pra achar que Draco queria alguma coisa além de usá-lo como uma experiência, como um nome a mais em sua lista, como um brinquedo.

Harry continuava se chamando de estúpido como um mantra. É claro que um garoto como Draco não ia querer nada com um garoto como ele e Harry devia saber disso no momento em que eles se conheceram.

Tudo para Draco devia girar em torno das empresas do pai, pensava Harry. Ele havia deixado isso bem claro desde o primeiro dia e Harry devia estar mais do que consciente do fato de que Draco nunca faria nada para prejudicar os negócios que herdaria em breve e, sem dúvida nenhuma, estar num relacionamento com seu concorrente entrava na lista de prejuízos.

O que piorava a situação era o fato de que mesmo ele admitindo sua imbecilidade, isso não fazia doer menos. Nem um pouco.

Lily, James, Sirius e Remus tentaram falar com ele, mas ninguém conseguiu nada. No domingo Hermione apareceu e disse que estava passando e resolveu vir conversar com ele, mas Harry sabia que sua mãe havia falado com a amiga, o que também não adiantou por que ele simplesmente não queria falar com ninguém. Ele não queria ouvir "eu te avisei", nem queria que as pessoas confirmassem suas suspeitas em relação à burrice dele.

Apenas Cedric, no domingo à noite, foi quem conseguiu arrancar qualquer coisa do garoto, que deitou a cabeça no colo do mais alto e chorou. Chorou de cansaço, de desapontamento. Chorou pela perda, pelas saudades. Chorou por se odiar, por se tão burro. Chorou por que era a única coisa a qual parecia fazer sentido naquele momento.

As palavras ditas e as não ditas, os momentos e as confidências compartilhadas, os beijos e os toques, os sentimentos e os pensamentos, os planos e as expectativas. Nada mais fazia sentido. Nem para Draco nem para Harry.


A segunda-feira chegou fria e monótona. Ambos tomaram café em silêncio, vestiram-se em silêncio, saíram de casa em silêncio, chegaram ao colégio em silêncio e seus olhares se encontraram em silêncio. Nenhuma palavra fora pronunciada por que não fazia sentido fazê-lo. Não havia um por que. Não havia um pra quê.

Se Draco não tivesse certeza de que Harry fingia não vê-lo, ele até poderia dizer que o outro o estava provocando. O garoto apareceu no colégio naquela manhã com uma camisa preta de manga curta e gola V que fazia o dedo indicador de Draco exigir sentir a maciez da pele exposta ali.

Na terça-feira Harry optou por uma camisa de algodão branca e mangas compridas que pareciam aderir aos músculos dos braços e do peito do moreno, fazendo Draco traçar cada um deles com os olhos desejosamente. Já na quarta-feira foi a vez de uma camisa verde que combinava perfeitamente com os olhos de Harry e sem mencionar os jeans que estavam cada dia mais justos em suas coxas e realçavam os volumes atrás e na frente.

O grande problema mesmo talvez tenha sido na quarta-feira, ao término da aula de educação física, quando o moreno tirou a camisa e a pendurou no ombro enquanto bebia água da garrafa de Cedric. Harry se distraiu quando o garoto mais alto falou alguma coisa e a água escapou pelo canto de sua boca, escorrendo para seu queixo e pingando em seu peito nu.

Draco seguiu todo o caminho que as gotas fizeram pelo peito imaculado de Harry e não viu que fazia o caminho em direção a ele quando na verdade deveria ir para o vestiário. E o loiro também estava alheio ao fato de que uma bola de basquete vinha acelerada em sua direção e acertaria em cheio sua cabeça.

- Malfoy, olha a bola! – Alguém gritou longe.

Mais rápido do que Draco poderia acompanhar naquele momento, Harry deu um passo à frente e esticou o braço por sobre o ombro do loiro, puxando-o pela cintura e batendo a mão com força na bola, fazendo-a desviar seu curso e bater em uma parede. A mão do loiro estava espalmada no abdômen nu de Harry, que se afastou assim que percebeu, como se o toque desse choque.

- Preste mais atenção, Malfoy.

Aquilo foi tudo o que Harry disse antes de dar as costas. Por dentro ele se xingava por não ter pensado antes de fazer o que fez. Harry ainda podia sentir o lugar onde a mão de Draco estava há pouco formigando e seguiu para o vestiário, deixando pra trás um loiro que precisava urgentemente de um banho frio.

Draco pensou que não poderia ficar pior, mas a quinta-feira veio para mostrar-lhe que ficaria. Sua boca secou no momento imediato em que Harry entrou em seu campo de visão naquela manhã. O moreno não estava com os cabelos tão revoltos como normalmente estavam, parecia que naquele dia Harry havia passado mais tempo penteando-os e tentando colocá-los no lugar. Mas o que realmente fez Draco sentir um formigamento descendo pelo seu estômago até chegar a um ponto mais ao sul foi a jaqueta de couro preto que Harry estava usando.

As imagens mais indecentes possíveis envolvendo Draco, Harry e aquela jaqueta se instalaram na cabeça do loiro e ele xingou alto. Harry Potter era um filho da mãe muito sexy.

- Potter! – Draco se viu chamando antes que pudesse impedir. – Ei, Potter!

Por sorte Harry estava sozinho naquele momento e não cercado por Diggory, Longbottom, Lovegood, Weasley, Granger e algumas vezes Thomas e Finnigan também. O moreno olhou para ele confuso.

- O quê?

- Escute aqui, seu bastardo filho da mãe... – O loiro rosnou para ele entre dentes. – Que você não queria olhar na minha cara nunca mais, tudo bem, mas pare de me provocar!

- Te provocar? – Harry levantou uma sobrancelha. – Olha, Malfoy, eu realmente não sei qual é o seu problema, acho que talvez seu ego esteja maior do que o normal hoje, mas eu não faço a mínima idéia do que você quer dizer com "provocar".

- Mas é muito cínico mesmo! Você sabe muito bem do que eu estou falando! Eu não sei o que mais eu preciso dizer para você acreditar em mim, então, por favor, pare. – Agora a voz de Draco soou mais suplicante e o garoto suspirou, ainda olhando perigosamente para o moreno.

- Eu realmente não...

- Pare! – Ele repetiu. – Você sabe, Potter. É claro que você sabe.

- Malfoy, eu...

- Eu sinto sua falta, Harry. – Draco disse como um suspiro doloroso e olhou para Harry com mais súplica do que a que havia em seu tom de voz. – Eu realmente sinto, então, por favor, pare. Você ficar fazendo isso não facilita nada pra mim. Talvez eu não tenha o direito de te pedir nada, mas eu sei que você é uma pessoa bondosa. Obrigado.

De cabeça baixa Draco fez seu caminho para longe de Harry e o moreno de repente se sentiu muito mal por não conseguir acreditar no loiro. E ele havia tentado de verdade, mas todas as vezes que ele ponderava, a mulher estava lá, com as mãos no peito de Draco, esfregando-se nele, sussurrando em seu ouvido e Harry se sentia usado de novo.

Draco estava morrendo de raiva de Harry e bateu a porta da sala com força quando passou e acabou atingindo o rosto de Blaise, que vinha logo atrás dele. Marchando, o loiro seguiu para o fundo da sala e jogou sua mochila sobre a mesa com um urro. Blaise, com a mão sobre o nariz e gemendo baixinho se dirigiu a cadeira ao lado.

- Potter idiota! – Draco gritou e chutou a cadeira na qual Blaise estava a ponto de sentar, fazendo o garoto cair de bunda no chão. – Imbecil! Idiota!

- Draco! – Blaise chamou do chão com uma expressão nada satisfeita. – Qual é a porra do seu problema?

- Potter é meu problema! – Draco gritou em resposta. – Aquele filho da puta é incapaz de acreditar em mim e é covarde o suficiente pra me provocar o tempo todo!

- Potter é seu problema, não eu, seu idiota! – O garoto rosnou. – Deixe de ser um imbecil, Draco. Pansy e eu estamos tentando ajudá-lo, mas a culpa não é nossa se Potter é tão cabeça dura quanto você.

Draco olhou para o amigo que fazia uma careta de dor enquanto tentava encontrar apoio pra se levantar. Respirando profundamente, o loiro estendeu uma mão e ajudou Blaise.

- Me desculpe. – Ele disse baixinho. – A culpa não é sua.

- Ah, que bom que você percebeu. – Blaise pegou a cadeira que Draco havia chutado e colou no lugar. – Eu posso me sentar agora ou você ainda quer chutá-la?

- Eu já pedi desculpas. – Draco rosnou sentando-se com raiva ao lado do amigo.

Blaise o desculpou e eles mudaram de assunto, mas nem isso tirou Harry da cabeça de Draco. Era extremamente doloroso ver o garoto nos corredores e durante as aulas e ficar de longe olhando já que qualquer tentativa de aproximação era repelida quando não pelos amigos dele, pelo próprio Harry.


O moreno realmente queria falar com o loiro, mas a tarefa sempre se mostrava mais difícil do que parecia. Cedric estava sempre lá tentando fazê-lo se sentir melhor e ele apreciava tal atitude, mas não surtia nenhum efeito.

Pelo resto do dia Harry não conseguiu prestar atenção em absolutamente nada. Ele não podia negar que sentia falta de certa presença loira, a qual ele já se acostumara de ter por perto. Sem falar nas ligações que duravam mais do que pretendido, as tardes de estudo, o tempo que eles passavam compartilhando um silêncio confortável no terraço daquele prédio desconhecido, o sentimento de ter alguém com quem contar.

Ele se viu pensando mais de uma vez naquela manhã que talvez ele pudesse tentar falar com Draco, tentar entender o que ele queria e acertar suas intenções. Mas ele não conseguiria. Não com aquelas lembranças que o assombravam e com a certeza de que não seria capaz de confiar no loiro como antes.

De repente ele se viu deslocado. Não sabia aonde ir, não sabia o que fazer, não sabia com quem falar. Não havia Hogwarts sem Draco. Não havia o sentimento de conforto sem Draco. Mas ninguém disse que seria fácil. Nunca fora, na verdade. E agora ele havia perdido seu melhor amigo, seu companheiro, seu amante.

Na hora do almoço ele se viu sentado ao lado de Cedric, encarando a comida no prato. O fato do garoto mais alto parecer estar dando seu melhor para ajudá-lo começou a incomodá-lo mais do que, de fato, ajudar.

Cedric era lindo, simpático, gentil. Ele respeitava seu espaço, sua mãe o adorava e seu pai parecia extremamente satisfeito em discutir negócios com ele. Cedric ligava quando dizia que iria, desligava quando dizia que iria. Não discutia, não contra-argumentava. E Harry não sentia absolutamente nada quando estava com ele. Enquanto Cedric tentava tirar certo loiro da cabeça de Harry, tudo o que o moreno fazia era desejar que fosse Draco ao invés de Cedric.

- Harry? Harry? – Cedric chamava estalando os dedos e balançando a mão em frente ao rosto do moreno. – Harry!

- Sim? – O moreno piscou rapidamente e virou para observar o garoto que tentava chamar sua atenção.

- Você ouviu alguma coisa do que eu disse? – Harry odiou a maneira como Cedric perguntou aquilo com ar indiferente, quase como se não se importasse. Custava reagir um pouco? Custava brigar ou gritar com ele? Ele precisava sentir.

- Não, desculpe.

- É o Malfoy de novo, não é? – Ele perguntou suspirando.

- Ele falou comigo hoje. Disse que sentia minha falta. – Harry, que até estava de volta encarando seu prato, levantou o rosto para olhar o rosto do outro. – Ele não falaria isso se não fosse verdade, falaria?

- Bem, eu acho que não. Eu não duvido que ele esteja sentindo sua falta. Eu só acho que isso não muda o que ele fez. – Cedric deu de ombros. – Ele continua sendo um idiota. Um idiota com sentimentos, mas ainda sim, extremamente idiota.

Harry assentiu e voltar a encarar seu prato. Ao seu lado, Cedric soltou um longo suspiro e virou-se pra mexer em algo em sua bolsa, voltando a olhá-lo com um sorriso, esticando a mão para o moreno cabisbaixo.

- Eu acho que isso vai te fazer sentir melhor.

Com uma sobrancelha levantada, se perguntando o que podia fazer com que ele se sentisse melhor – talvez Draco estivesse por ali. Enganou-se profundamente. Na mão de Cedric ele viu a embalagem verde cintilante que já o fizera sorrir tantas vezes antes, mas que agora apenas servia para fazer seu estômago afundar ainda mais.

- É o seu preferido, não é? – Cedric perguntou sacudindo o chocolate, esperando alguma reação de Harry.

- Eu não quero. – Disse levantando-se, pendurando a mochila no ombro.

- O que? Tudo bem, não precisa ficar chateado, eu achei que faria você se sentir melhor.

- Parece que não ajudou muito, não é? – Harry deu um sorrisinho doloroso e saiu antes que o mais alto pudesse dizer outra coisa que não chamar seu nome.

Talvez estivesse sendo ingrato, pensou enquanto caminhava pelos corredores vazios. Assim como estava sendo com seus pais. Com Sirius, com Remus, com Cedric, com Ron, com Hermione. Com qualquer pessoa que tentava fazer qualquer coisa para ajudá-lo.

Por que Draco tinha que estar com aquela mulher? Eles haviam marcado de se encontrar ali, o loiro sabia que ele estava indo. Por quê? O que os olhos não vêem, o coração não sente, era o que todos diziam. Naquele momento, Harry desejou não ter visto.

Quando tomou consciência de onde seus pés o levavam Harry se viu parado na frente do almoxarifado o qual Draco o havia levado na noite do baile e onde eles passaram a semana anterior se encontrando secretamente. Deus, ele tinha tanto a perder na época e nem sabia.

Harry ponderava sobre se ficaria ali, observando uma porta branca, mas que guardava lembranças que ele manteria para sempre guardadas no fundo de sua mente, ou se dava as costas e continuava andando pra onde quer que seus pés o levem quando passos ecoaram no corredor. Ainda de costas ele sabia quem era. Os passos não eram de tênis, eram de sapatos sociais. E só havia uma pessoa que usava sapatos sociais em Hogwarts High.

Já com o coração querendo escapar pela boca, Harry girou devagar nos calcanhares para ver Draco Malfoy vindo em sua direção. Quando seus olhares se encontraram, o loiro parou e sustentou o olhar. O tempo parecia não passar enquanto eles permaneceram apenas se olhando.

Sem dizer nada, Draco voltou a andar e passou por ele como se não o visse, deixando o rastro de seu perfume. Harry tremeu e baixou a cabeça enquanto ouvia os passos se afastarem. Palavras não proferidas morreram em sua língua. Draco havia dito que ficaria com ele para sempre, então por que estava indo embora? Por que estava dando as costas a ele quando havia jurado tão veemente que nunca desistiria deles?

O resto da quinta-feira passou inutilmente para Harry. Ele passara o dia andando pela casa e pelos jardins, com Snuffles ao seu lado. Ao fim do dia, tudo o que sobrara para o garoto era um hematoma roxo na perna e a cabeça fervendo pelas reclamações de sua mãe quando, andando distraído pela sala, Harry bateu com a coxa na quina da mesa com força e xingou tão alto que sua voz ecoou pela casa. Lily apareceu de algum buraco com o rosto tão vermelho quanto seus cabelos.


Narcissa Malfoy caminhava altiva pelos corredores da mansão, indo em direção ao seu quarto. Passara boa parte da tarde dando ordens aos jardineiros nos cuidados com seus jardins, como fazia pelo menos uma vez a cada duas semanas. Aproveitava para andar sem pressa, olhando os lustres, o carpete, os quadros, em busca de qualquer imperfeição que fosse.

Cerrou os olhos para uma teia de aranha em um dos lustres, tinha que falar com alguém sobre aquilo. Antes de pensar quem deveria responsabilizar por tal ato de negligencia, uma melodia pausada chegou aos seus ouvidos.

Olhando ao redor, se aproximou da porta de onde o barulho parecia estar vindo. O quarto de Draco. Franzindo o cenho, a loira aproximou o ouvido da porta, pousando a mão sobre a maçaneta delicadamente.

Já havia um tempo desde que tudo o que seu filho fazia era ficar trancado em seu quarto, ouvindo música. Sempre as mesmas músicas. O problema era que quanto mais escutava, mais cabisbaixo o garoto lhe parecia.

Uma noite dessas, enquanto eles jantavam – quer dizer, Narcissa jantava e Draco encarava a comida no prato –, ela se atreveu a perguntar o que o filho escutava tanto. O garoto apenas deu de ombros e disse que eram algumas músicas que Pansy o enviara. Sabendo que não conseguiria nada mais que aquilo, Narcissa apenas assentiu e pediu que Draco comesse alguma coisa.

Abrindo uma brecha da porta, não só a melodia aumentou quanto a voz de Draco veio soando baixa, quase como se estivesse falando consigo mesmo. E talvez estivesse, pensou Narcissa.

O garoto estava sentado no meio de sua cama, as pernas cruzadas e um violão apoiado em uma das pernas. Havia partituras espalhadas a sua frente e ele mantinha os olhos nelas enquanto dedilhava o instrumento com precisão.

Antes de seus dedos pararem nas cordas e ele terminar, Narcissa pode ouvi-lo dizer "sorria", a única palavra a qual ela pode de fato discernir na cantoria baixa do filho. Os olhos de Draco a fitaram por alguns segundos antes do garoto por o violão de lado e juntar as partituras, guardando-as numa pasta.

- Eu tinha esquecido que você tem um violão. – Ela disse sorrindo.

- Eu também. – Draco deu de ombros. – Achei por acaso. Papai costumava dizer que era perda de tempo, então o larguei em qualquer lugar.

- O que era isso que você estava tocando? – Narcissa perguntou, ainda parada no centro do quarto, voltando a ser fitada pelo garoto de expressão impassível. Ela já deveria estar acostumada, era uma Malfoy, mas aquela indiferença do garoto a estava matando.

- Nada demais. – Ele fez um gesto displicente para a pasta preta. – Pansy me passou algumas músicas e eu estava tentando passar o instrumental de uma delas para violão. Fazer uma versão acústica.

- E como está indo? – A loira se animou ao ver o filho se empenhar em algo.

- Bem, eu acho. Fazia muito tempo que eu não tocava. Talvez papai estivesse certo, é uma perda de tempo.

- Claro que não é, querido. – Narcissa sorria com compaixão. – Eu achei lindo. Você deveria mostrar a Pansy.

- Não, acho que não. – Draco levantou-se e pegou o violão, apoiando-o em pé em um canto e colocou a pasta sobre a escrivaninha. – Acho melhor eu dar um fim nisso antes que o papai volte.

- Eu discordo. – Ela deu alguns passos em direção ao filho. – Eu estou preocupada com você, meu filho.

- Sem motivos. – O loiro a encarou. – Eu estou bem.

- Não minta pra mim, Draco. – Narcissa soou dura. – Seu pai volta amanhã, mas você não vai parar de tocar, está certo? Deixe que eu me resolvo com ele.

- Que seja. – Draco deu de ombros novamente. – Eu vou tomar um banho. Não precisa me chamar quando o jantar estiver servido, eu não estou com fome.

Narcissa observou Draco entrar no banheiro e fechar a porta. Nunca em sua vida ela o vira tão parecido com Lucius. Sempre tão impassível quando algo estava o consumindo por dentro. Mas ela sabia os males que isso podia fazer a um adolescente. O garoto era muito novo pra mostrar tal indiferença. Com medo e sem ter certeza do que faria, Narcissa se retirou do quarto, esquecendo-se completamente do pequeno aracnídeo que tecia sua teia em um dos lustres da majestosa Mansão Malfoy.


Obrigada sonialeme, Ines G. Black, MarciaBS, Yann Riddle Black, Mila B, Jos Elias, Pandora Beaumont, Giovana PMWS, Reira Potter - Malfoy, Carlas Balsinha pelas reviews!
E muito, muito, muito obrigada ao Deryck Astaire pela private message! Significa muito para nós.

Alguns de vocês podem ter percebido que tivemos um problema para postar o capítulo 17 sábado passado. O site não estava mostrando o capítulo quando tentávamos acessá-lo. Conseguimos resolver o problema mais tarde no mesmo dia, mas pedimos desculpas pelo transtorno, caso alguém tenha tentado ler e não tenha conseguido.

Bem, aqui está mais um capítulo. Por favor, nada de tochas ou tridentes. Os créditos da ideia principal desse capítulo são de uma amiga nossa, Bianca. Então, se alguém quiser o endereço dela pra ir lá atrás de vingança é só dizer. HEHEHEHE Não, façam isso com a coitada não. É aniversário dela amanhã, ela não merece isso. Parabéns, Bee, e obrigada pela ideia.

Vale lembrar que depois da chuva vem o arco-íris, pessoal. E o sofrimento eleva a alma. De qualquer forma, espero que gostem desse capítulo.

Mais uma vez obrigada a todos e tenham uma boa semana! Até próximo sábado.