Capítulo 2:

Aliança

Um raio negro foi em direção de Lancer, atingindo-a nas costas e sendo seguido por um outro idêntico visando Celes, acertando-a também, mas aparentemente ambos foram incapazes de lhes causar algum dano. Virando-se para a origem dos ataques viram um homem montado em uma espécie de canídeo negro, plantas caídas demarcando sua trajetória. O tamanho da montaria era pouco menor que o das árvores, possuindo três bocas e aparentemente não tinha olhos. Suas patas mostravam-se bastante afiadas e seus pêlos eram tão escuros que parecia estar envolta em sombras. Sobre ela estava um homem fisicamente forte de cabelos escuros muito curtos, vestindo uma calça branca que se destacava sobre sua pele morena que calçava sandálias de couro. Em volta de seu pescoço havia um peitoral circular, ainda que seu formato e aparência pudessem fazer com que alguém o confundisse com um grande colar, cheio de pequenas pedras coloridas organizadas de maneira simétrica em várias fileiras, e sobre sua cabeça uma coroa azulada com um círculo dourado na parte inferior.

Rider! – exclamou a serva – Droga... Não queria ter uma luta contra outro servo imediatamente, ainda mais no meio dessa floresta em que a vegetação não parece ser um obstáculo para ele... E que raios de animal é esse? Celes, o mestre dele deve estar por perto, tenha cuidado e tente localizá–lo.

Focando-se apenas no oponente à sua frente e ignorando o pedido da loira, a garota abriu seu livro, mas já estava muito atrasada para o combate que havia se iniciado: a boca inferior da fera estava aberta e dela saiam esferas avermelhadas que iam em direção de Jeanne, enquanto o inimigo apontava em sua direção e dizia "Inpu blessing: Necrópolis". Em rápidos movimentos Lancer se esquivava, aproximando-se de seu oponente ao mesmo tempo em que deixava um rastro flamejante por onde passava. Quando já havia conseguido se aproximar o bastante dele saltou em sua direção, investindo com sua lança, mas seu movimento foi interrompido por um firme movimento da pata do chacal, que a arremessou contra um tronco e fez com que uma costela se quebrasse.

Apesar da grande dor que sentia a serva estava satisfeita com o progresso obtido: chamas cercavam seu inimigo e estavam cada vez mais próximas dele. Sem parecer preocupado com aquilo que o cercava, a besta apenas começou a aspirar todo o ar a sua frente, gerando uma poderosa ventania e engolindo o fogo adiante. Com o caminho livre pulou sobre a lanceira, incrédula pela inesperada sucção, imobilizando-a com uma pata e fazendo-a soltar sua arma. Uma enorme mandíbula partia em sua direção, porém foi impedida por um urso branco que acertou um soco no maxilar do canídeo, atordoando-o.

– Seu cachorro desocupado e bizarro! – gritava Celes enquanto Jeanne se levantava com um pouco de dificuldade e recuperava sua lança – Você não acha que eu deixarei que faça o que bem entender com ela enquanto eu estiver por aqui, né? –seu urso desferia inúmeros golpes no oponente, que por sua vez abriu uma de suas bocas e atirou outra esfera.

"StornierenAufruf", bradou quase que instantaneamente a maga, fazendo sua invocação desaparecer, evitando por muito pouco que ela fosse atingida, mas uma árvore não teve a mesma sorte e teve parte de seu tronco destruído. Lancer já iniciava uma série de estocadas, que devido ao impacto que sofrera estavam visivelmente mais lentas, sendo evitadas pela montaria com um pulo para trás, posicionando-se fora do alcance da serva. Tal manobra mostrou-se precipitada: as brasas atrás de Rider haviam permanecido lá e agora o queimavam, assim como o dorso da fera. Isso não pareceu ser o bastante para impedir que o chacal acertasse uma esfera rubra na donzela, fazendo com que se chocasse novamente contra uma árvore. Imediatamente a mestra terminava um encantamento:

"The madness is dominating the skies,

The Earth's calmness is meeting its end,

'Cause the nature's wrath is coming,

And I command it, proclaiming:

SKIES ARE FALLING DOWN"

As nuvens existentes se agruparam acima do local do combate e o céu escureceu, ainda que o horário tornasse isso pouco perceptível, e então um clarão surgiu, atingindo diretamente o homem e sua montaria, que instintivamente recuou. "Droga... Esperava que isso acabasse com a luta... Mas, pensando bem, não estou lutando contra um humano comum, não devo esperar que ele tombe tão facilmente... O problema é que me precipitei e calculei mal as energias que ainda me restavam, duvido que consiga fazer muita coisa agora. Pelo menos consegui deixá-lo em uma condição que facilitará as coisas para Lancer", pensava a maga. O fogo estava consumindo suas vítimas cada vez mais e Jeanne partia em sua direção em uma investida feroz, seria o fim da luta, não fosse um cristal que passou voando e explodiu entre os dois servos:

Rider, eu te disse para não sair correndo na minha frente! – gritava, ainda que de maneira ofegante, um garoto de cabelos castanhos bagunçados que vinha correndo e agora apoiava suas mãos nos joelhos. Tinha o porte esperado para sua idade, algo próximo de dezessete anos, pele um pouco mais clara que a de seu servo. Possuía uma bolsa a tiracolo e vestia um jeans, algo que começava a aparecer somente agora no Japão com a Restauração Meiji, bem como camisa vermelha com apenas uma das mangas preta, já que a outra aparentemente havia sido removida – Eu estava prestes a desperdiçar um selo de comando com essa bobagem, só não o fiz por não saber como estava o combate e considerar arriscado fazer você dar as costas para um servo imediatamente! Vamos tentar recuar, estaremos em grande desvantagem se você lutar assim. – Disse virando-se para seus inimigos, seu rosto adotando uma expressão de surpresa ao ver Celes. – Vo–vo–vo... você!

– Shota! – respondeu igualmente surpresa a garota – Faz bastante tempo que não nos encontramos! Fico feliz por ver que você se tornou poderoso o bastante para participar dessa Guerra. Sinceramente eu achava que fossem escolher outro representante dos Tohsaka, mas já que está aqui acho que teremos que nos enfrentar. Não ten...

– Vamos sair logo daqui! – interrompeu o outro.

A última magia que lançara não parecia ter sido uma boa idéia: alguns curiosos se aproximavam para tentar entender porque apenas naquele local o céu se comportava de maneira estranha, e ao se aproximarem estranhavam a existência de árvores caídas. Ainda assim a garota parecia querer terminar naquele momento o combate, mesmo que não estivesse totalmente certa se seria a melhor idéia... A possibilidade de eliminar um servo não é algo que deveria ser tão facilmente ignorado.

– Vamos logo, depois resolvemos isso! Ninguém ataca ninguém no caminho, ok?

Após pensar um pouco Celes acabou concordando, afinal ela não queria envolver outras pessoas e sabia que Shota manteria sua palavra e aceitaria um combate posterior. Então, fazendo seus servos desaparecerem ambos correram para fora da floresta, mas não sem antes apagarem as chamas e interromperem o "churrasquinho de servo" que ocorreria no caminho. Jeanne aparentava ser a menos satisfeita com essa seqüência de eventos, e após algum tempo de fuga alcançaram uma rua deserta com alguns poucos postes a iluminando, outra coisa que chegara há pouco tempo à cidade, juntamente com a eletricidade, sendo um representante de algo que atormentava alguns magos: a tecnologia estava se equiparando à magia! Apesar disso a maioria era da opinião de que os avanços tecnológicos ainda estavam muito aquém das capacidades arcanas. Nesse local a serva retornou à sua forma compórea, iniciando o diálogo e já preparando sua arma:

– Pronto, aqui já está bom! Vamos continuar de onde paramos, agora com mais um convidado.

– Calma! – reagiu o garoto – Antes quero conversar com vocês. Rider, quero que você também participe disso.

–Como você quiser. – dizia o servo enquanto se revelava, agora sem sua montaria. Era a primeira vez que ouviam sua voz sem que estivesse realizando um ataque.

– Vamos ouvir o que ele tem a dizer. – falou a maga enquanto abaixava a lança de sua serva, que, embora quisesse acabar com essa luta assim que possível, consentiu com sua mestra.

– Obrigado por me permitirem ao menos falar antes que continuássemos a luta e ignorássemos uma possibilidade... Mas antes que eu prossiga: como foi esse tempo de treinamento com sua mãe, Celes? Quase não nos encontramos depois que você passou a ser ensinada por ela, respondeu o jovem.

– Estive bem, embora os métodos dela me destruíssem muito mais, alguns dias fiquei tão quebrada que nem era capaz de me mover. Pelo menos com isso consegui aprimorar minhas técnicas de maneira bem mais eficiente do que antes. E você, como foram esses anos?

– Continuei com a rotina que mantínhamos antes de sua saída. Esse tempo foi bem produtivo e você ficará surpresa ao ver como minhas habilidades estão melhores! – respondia confiante, mas vendo a impaciência e desconfiança de Lancer, decidiu ser mais direto – Admito que não esperava te encontrar nessa guerra, pensava que encontraria seu irmão, mas já que estamos aqui e felizmente nos reunimos sem muita demora, acredito que seria melhor que nos aliássemos para termos maiores chances contra os demais servos, o que acha? – agora estava com ambas as mãos atrás de sua nuca e seu olhar perdido no céu – Convivemos juntos durante um bom tempo e nos tornamos amigos, certamente nos daremos bem como aliados. Podemos deixar essa luta para quando apenas nós dois estivermos sobrando após as batalhas.

Uma aliança... Não parecia uma má idéia para Celes, pois os novos termos definidos pela Associação para essa Guerra fariam com que não pudesse contar com ajuda de não-participantes, e por terem sido alunos da mesma pessoa e convivido juntos por anos tinham idéia de como combinar suas habilidades de maneira satisfatória. Isso também seria vantajoso para o outro mago, ele aparentava não ter segundas intenções, o que poderia haver de errado? Com isso poderiam desenvolver novas estratégias: se duas cabeças pensam melhor do que uma, quatro pensariam melhor do que duas. Sua serva, porém, não parecia concordar:

– Eu não acredito em você! Fui atacada pelas costas e agora que estão tão perto de serem derrotados querem se unir? Bastante oportuno... Como saberei que não nos apunhalarão quando abaixarmos a guarda?

– Não se precipite, conheço o Shota bem o bastante para saber que ele manterá sua palavra. Nós também não estamos com uma vantagem tão grande: já me desgastei bastante hoje, diferente dele, e você sofreu alguns danos. Ainda que eu tenha prana mais que suficiente para te manter, não acho que seja uma idéia... – reagiu a garota, surpresa por sua serva, mesmo com todo o dano que sofrera, estar tão determinada a lutar.

– Entendo que tenha dificuldade em depositar confiança em mim depois do ataque repentino que ocorreu... O que vocês acham de então eu curar todos os ferimentos que sofreram, além de revelar as habilidades e a identidade de meu servo para provar que podem acreditar na gente? Se acharem necessário, posso até mesmo gastar um selo de comando para evitar que ele as ataque antes de atingirmos as condições previamente combinadas, embora acredite que ele não faria isso de qualquer modo. O que acham? – interrompeu o mago.

– Mestre, não precisa se precipitar tanto para conseguir aliados ou adiar lutas, seja lá o que estiver pensando... E mesmo que estejamos em desvantagem, como de fato estamos agora, fazer tais coisas poderia gerar inúmeros problemas futuros. Nossa oponente também não parece lá muito confiável. Está certo de que isso valeria o risco? – questionava Rider.

"Está tudo bem", dizia o rapaz em voz baixa, mas ainda assim audível para as outras duas, "Celes é uma das melhores aliadas que poderia conseguir", e elevando sua voz continuou: "Então, iremos nos unir?"

– Aceito sua proposta – respondeu firmemente a jovem.

– Ahhh! Tudo bem... Ainda que eu não confie totalmente em vocês, irei dar-lhes uma chance, afinal cabe a minha mestra decidir essas coisas, mas saibam que observarei cada um de seus gestos e caso representem algum perigo, seja para qualquer uma de nós, não hesitarei em atacá-los – Lancer mostrava-se descontente com essa decisão, mas ao menos parecia aceitar o fato de que possuir um aliado seria útil.

Aproximando-se dela surgiu uma aura esverdeada na mão do garoto, que passou a cuidar dos ferimentos de seu servo que havia se sentado no chão, começando por suas costas:

– Vamos Rider, fale um pouco sobre você para elas.

– Se isso é o que desejas, não tenho objeções: sou Ramsés II, servo Rider, e...

– Autógrafo, autógrafo! – foi a reação imediata de Celes à apresentação do faraó, estendendo a ele um pedaço de papel que Jeanne agora via que era guardado dentro do livro, assim como um pote de nanquim que estava em seu bolso, e apontando para a francesa continuou – E nem pense que você vai sair ilesa disso, depois dele será a sua vez de assinar. Mais cedo você ficou falando e acabei me esquecendo, mas agora você não fugirá de mim!

– HAHAHAHAHA! Realmente algumas coisas não mudam, senti um pouco de falta disso. – falou descontraidamente o membro da família Tohsaka.

– Por que eu não poderia ter sido invocada por uma maga um pouco mais normal? Está certo que só o fato de serem praticantes de magia, algo que me gerou vários problemas em vida e era motivo de sentenciarem uma pessoa a morte na minha época, faz com que classificá-los como normais não seja muito correto, mas interromper alguém com informações relevantes por um motivo desses acho que está vários níveis acima na escala de anormalidade... Tomara que ela não peça vários autógrafos para o Cálice, se o alcançarmos – respondeu ironicamente a donzela apoiando seu rosto em sua mão, tampando seus olhos e não percebendo que o egípcio já havia dado sua assinatura e estava com seu indicador direito tingido de negro, sendo agora uma folha forçada a ela.

– Como vocês puderam ver, – continuou o mais velho no local enquanto a lanceira finalmente havia cedido e mergulhava um dedo no pote – minha montaria é Ammit,com a qual consigo utilizar habilidades ligadas à Inpu, ou como vocês chamam agora, Anúbis. Além dele possuo outras montarias, como Benu, a minha favorita, cada uma possibilitando um estilo de combate um pouco diferente. Acho que isso me torna um tanto versátil. Acabei vendo sua identidade nesse papel e acho que já pude ter uma idéia de suas habilidades agora pouco, creio que por hora não necessitarei de mais informações. – ignorando que Shota não havia visto a assinatura voltou-se para ele – Já está bom, cuide das feridas dela agora, depois você termina de cuidar das minhas, foi isso que você combinou com elas, certo?

Cumprindo o havia lhe sido dito, decidiu tomar a palavra:

– Acho que precisaremos de um local para passar a noite, vocês tem alguma idéia?

Olhando ao redor a Einzbern percebia que já havia anoitecido e nem havia pensado onde iria descansar... Já pensara que se fosse necessário aceitaria dormir tendo o céu como seu teto, mas se expor tanto nos momentos de maior perigo com certeza não seria uma boa idéia. Ficar em uma pensão seria uma opção, mas estava tentando economizar dinheiro para o caso da Guerra durar um tempo razoável e assim evitar maiores problemas. Sua serva interrompeu enquanto analisava as possibilidades:

– Isso é algo que eu ainda não entendi desde que fui invocada: por que tivemos que sair sorrateiramente e tão rapidamente de sua casa? Não poderíamos dormir lá se precisássemos?

– Isso se deve às regras que a Associação dos Magos definiu há vários anos, não sei ao certo se já foram adotadas na primeira edição da batalha pelo Santo Graal, já que ela terminou antes do esperado e tive acesso à pouquíssimas informações. A coisa é: para melhor testar as habilidades dos participantes, foi decidido que os membros das famílias, assim como terceiros ou qualquer um que não seja um mago, não devem agir de modo a ajudar propositalmente algum dos lados. A única exceção, obviamente, seria se algum deles sofresse um ataque, podendo agir em defesa própria. Caso alguém fosse ajudado, as penas que achassem adequadas seriam aplicadas àqueles que o auxiliaram e agiriam de modo a compensar tais benefícios. Se fossemos recebidos em minha casa provavelmente sofreríamos um ataque de magos da Associação no dia seguinte até gastamos uma quantidade de prana que considerassem justa. Eles têm noção do que ocorre com cada mestre e servo, porém não podem fazer qualquer uso de tais informações, já que há alguns deles também vigiando os próprios juízes, como são chamados os que cuidam para que as regras pré-definidas sejam cumpridas. Assim sendo, a única maneira de alguém auxiliar um participante da Guerra seria se tornando um mestre de algum modo ou sendo apenas uma pessoa comum que o faria sem ter conhecimento do Cálice, o dono de um restaurante que desse uma refeição de graça para um de nós, por exemplo – justificou a garota.

– Exatamente, só completando: ajudas prévias como os cristais que me foram dados por meus avós seriam válidas, já que no momento não seriam destinadas a um participante. Agora não entendi exatamente isso que Lancer disse... Por que vocês tiveram que sair sorrateiramente de sua casa? – perguntava intrigado Shota enquanto terminava as curas.

Haviam tocado em um ponto que a maga preferia que ignorassem, pelo menos por hora, mas não sabia exatamente o que poderia inventar para justificar tal ato, e a pergunta a desconcertava, passando a olhar para qualquer lado enquanto pensava em algo. Para a sorte dela a escuridão da noite, somada ao fato das ruas estarem mal iluminadas, camuflava um pouco do nervosismo em sua expressão. Melhor seria contar a verdade com a menor quantidade de detalhes possível, talvez alterando, ou melhor, omitindo uma coisa ou outra, afinal, se descobrissem que mentia poderia perder a confiança deles, e isso realmente não queria que ocorresse.

– Errr... Digamos que eu não deveria ser a representante de minha família... Meu irmão havia sido o escolhido, uma decisão esperada já que ele possui habilidades superiores a qualquer outro atual integrante da família. Porém, poucos dias antes de quando esperávamos que ele invocasse seu servo ele fugiu de casa, levando consigo apenas alguns componentes materiais, fazendo com que vários de nossos empregados estejam até agora procurando incessantemente por ele. Disseram que o mais provável é que ele não queria participar do conflito, e com medo de nos decepcionar decidiu fugir, mas não acho que seja isso: enquanto conversávamos ele freqüentemente falava do quanto desejava lutar... Acredito que tenha alguma coisa por trás.

Havia parado de falar, percebendo que o olhar de todos se centrava atentamente nela, e a outra mulher no grupo colocou em palavras o pensamento de todos:

– Tá, mas você não nos disse por que fugiu sem chamar atenção.

Tentar mudar o foco da conversa, revelando somente pormenores de menor relevância no momento, fora uma empreitada infrutífera, e ainda um pouco incerta sobre o que dizer para evitar levantar suspeitas, tentou continuar:

– Como eu digo isso? Err... Eu queria participar bastante disso, então decidi que carregaria o nome dos Einzbern nas lutas, mas eu sabia que não concordariam com isso, então simplesmente cuidei para que fosse reconhecida pelo Cálice e evitei encontrar qualquer parente, afinal não queria gerar discussões desnecessárias. Agora com as Regras de Não-Intervenção duvido que venham atrás de mim. A fim de reduzir suspeitas meus pais devem estar dizendo nesse exato momento que eu saí de lá para encontrar Kresnik, o que não é de todo mentira, estou um pouco preocupada com ele. Isso seria compreensível, já que sou uma das poucas pessoas que não tem problemas para sentir sua presença.

Havia se saído bem, ao menos era o que pensava, mas o Tohsaka ainda possuía dúvidas:

– Resumindo, você também desapareceu, ainda que vá demorar um pouco para perceberem isso, após invocar Lancer. O que mais estranho é como seus pais se envolveram nisso. Você não levou em conta como seu irmão se sentiria? Ele ficará furioso com você.

Kresnik, o mago mais promissor dessa geração em sua família. No seu nascimento já notaram que possuía circuitos mágicos semelhantes ao do Caster anterior, que servira seu antepassado, e por causa disso lhe deram o mesmo nome que o herói. Devido ao grande potencial que possuía, haviam decidido que teria seus pais como tutores, diferentemente de sua irmã que passou a ser ensinada juntamente com Shota e Matou Taniguchi por Tohsaka Shizuru. Haviam formado um acordo de auxílio entre as famílias, acreditando que apenas unindo seus esforços conseguiriam aperfeiçoar o uso da magia, e descendentes de cada linhagem serem treinados juntos fazia parte disso, mas por algum motivo a pouco mais de dois anos Celes passou a ser ensinada pelos Einzbern e seu irmão passou a conviver com os outros dois.

– Estavam insistindo para que algum de nós invocasse um servo. Meu ato se justifica também por eu não desejar que a participação de minha genealogia fosse revogada.

Conseguira se sair bem dessa, e aparentemente não haveria mais sabatina, pelo menos nessa noite. Levantando-se o garoto mudou o assunto:

– Bem, os adultos que cuidem desses problemas. Vamos andando, podemos passar essa noite em um albergue próximo dos limites da cidade. É um pouco longe daqui, mas não consigo pensar em um local melhor. Também podemos comer por lá.

Sua amiga assentiu com a cabeça e os quatro foram andando silenciosamente. Para evitar problemas com eventuais transeuntes, os servos assumiram suas formas espirituais. Pouquíssimas pessoas passavam pelas ruas, fato compreensível pelo dia ter se tornado inesperadamente frio, carregando a promessa de que eles não passariam por momentos muito agradáveis até o amanhecer.

O céu naquela noite se mostrara inesperadamente estrelado, a Lua cheia destacando-se com seu brilho de forma não vista há meses. Não fosse a temperatura um tanto abaixo do esperado, o ambiente estaria perfeito para um passeio, e mesmo com esse problema o relento tornava o ambiente bastante agradável. Os habitantes terem se contido em seus lares, ainda que reduzisse drasticamente as chances de afetar não envolvidos, também os tornavam mais vulneráveis, já que um local sem testemunhas seria perfeito para um ataque sorrateiro, e ainda que possuíssem vantagem numérica estavam bastante desgastados, em especial por ambos terem realizado a invocação naquele mesmo dia, sendo que a batalha já se iniciara pouco antes.

A tranqüilidade foi interrompida pela voz de Shota, que se mostrava incapaz de manter-se calado por longos períodos, e durante esse tempo os servos foram sábios o bastante para ficarem em silêncio:

– Você sabe que nossos servos se seguraram na ultima luta, né? – novamente suas mãos estavam em sua nuca.

– Como assim?

– Fantasmas Nobres... Ainda que Inpu fosse um dos que Rider possui, ele não chegou a utilizar todo seu potencial, da mesma forma que a loura que ainda não sei o nome provavelmente nem chegou perto de mostrar suas habilidades. Os poderes dos Fantasmas Nobres estão muito acima das nossas habilidades, certamente não seriamos capazes de fazer frente a eles, afinal eles não se tornaram lendas por nada, certo?

Lancer, – dizia Celes voltando-se para Jeanne e ignorando o fato de ainda não ter revelado a identidade dela – você me disse que Flamme du Procès é seu Fantasma Nobre, por acaso ainda não a utilizou em todo seu potencial?

A resposta a isso foi apenas um rápido movimento com a cabeça, confirmando as suspeitas e causando um pouco de surpresa em sua mestra. Abaixando seus braços o adolescente prosseguiu:

– Isso não é de se estranhar, provavelmente isso seria muito cansativo e ela preferiria correr tal risco apenas se realmente necessário, e me parece que fez bem... Caso ela tivesse ido com tudo vocês já teriam sido eliminados da Guerra, já que você seria incapaz de mantê-la por aqui, e a vitória seria de vocês naquele momento se eu não tivesse intervido. Mas não se sinta mal, como ela foi trazida aqui hoje, se você ainda tivesse prana para possibilitar o uso do Fantasma Nobre com força total é que seria bem estranho. Provavelmente após recuperar suas forças veremos o quão poderosa a dama de armadura é – essas últimas palavras mostraram-se mais uma tentativa frustrada de descobrir sobre sua aliada, cuja face assumia uma expressão que apenas concordava com o que fora dito.

Fantasmas Nobres... Poderiam ser ou representar algo ligado aos heróis, não sendo necessariamente artefatos bélicos, e guardavam em si poderes absurdos, poderes estes que foram capazes de permitir que a história fosse escrita... Com certeza não eram algo que deveria ser facilmente desprezado... A jovem já sabia que seriam a chave de vitórias posteriores, assim como acreditava que as habilidades da Flamme du Procès seriam apenas algo semelhante ao visto até então, porém muito mais destrutivo. Imaginar algo nesse nível a deixava mais confiante, ao mesmo tempo em que tal pensamento a assustava um pouco: o que seus oponentes seriam capazes de fazer? Ao menos saber que magos seriam pouco úteis contra eles a tranqüilizava, nunca se sabe do que a Associação é capaz, e essa espécie de carta na manga seria de grande ajuda. Após raciocinar um pouco, tomou a palavra:

– Pensando bem, acho que faz sentido: ainda que exista um abismo entre as habilidades mostradas até então e as de indivíduos comuns, e isso já seja o suficiente para alguém conceder a elas o título de lendárias, elas não seriam suficientes para justificar os feitos de quem as possui... As chamas criadas por Lancer são fortes o bastante para criar um grande incêndio, mas isso poderia ser feito por qualquer indivíduo, ainda que levasse mais tempo para isso. Temo por o que ocorrerá se algo sair do controle... Ainda que a Associação tenha preparado várias contramedidas, a primeira edição das batalhas não foi experiência suficiente para estarem totalmente preparados.

– A Primeira Guerra... Uma pergunta que me faço é como resolveram o problema com o Cálice Menor. Você tem alguma idéia?

– Errrr... Não faço idéia de como resolveram isso, – o tom de sua voz possuía incerteza – mas acho que não ocorrerá o mesmo que dá ultima vez, os servos já poderiam ter sido invocados há dez anos, mas conseguiram evitar que isso ocorresse até agora, devem ter gerado esse prazo para terminarem os preparativos.

A tentativa inicial de trazerem o Cálice Sagrado ao mundo fora bastante infrutífera e somente quatro servos chegaram a ser derrotados até que surgissem fissuras no Cálice Menor, uma simples taça metálica que deveria armazenar a essência dos vencidos, liberando aquilo que deveria guardar. Pouco depois os lutadores remanescentes desapareceram, anunciando o fim do conflito e demonstrando que não existiam recursos suficientes para que tivesse ocorrido até o final. Não queriam que isso ocorresse novamente, a espera adicional era prova suficiente disso, ainda que pudessem haver outros motivos por trás. De qualquer forma Celes preferia que não investigassem isso a fundo.

O rapaz prosseguiu:

– Mudando de assunto, você acha que o Zouken será o representante da outra família? Ele é o líder deles e certamente seria um inimigo formidável. Ainda que também seja uma das cabeças por trás dessa guerra existem regras que permitem que membros da Associação participem dela, eles apenas seriam temporariamente desligados dela e teriam algumas informações apagadas de suas mentes.

– Duvido muito que seja o caso, ele parecia mais interessado em experimentos ligados ao Akasha, e se for verdade o que dizem, de que ele achou uma forma de não morrer por causas naturais, ele poderia futuramente participar de alguma outra. Porém não sei ao certo qual poderia ser o participante deles...

– Não os conheço bem o bastante para conseguir tirar alguma conclusão embasada também. Mesmo com o acordo as três famílias não se aproximaram como esperado.

A garota apenas concordou com um gesto. Mesmo que todos quisessem obter conhecimentos e melhorar a magia como um todo, revelar tão facilmente os conhecimentos que possuíam não era algo ao qual de fato se propunham, então pouquíssimas coisas, como o treinamento conjunto, haviam sido feitas, mas era de se esperar que ocorresse uma gradual aproximação entre as famílias com o decorrer do tempo, ainda que elas mantivessem seus segredos.

Continuaram caminhando revezando instantes de silêncio com conversas sobre brevidades. Não fosse o brilho do luar as ruas pareceriam muito sombrias, e ainda que houvesse postes de iluminação na cidade, era algo que ainda estava sendo implantado e não existia em todas as vias, tornando o anoitecer mais perceptível conforme se afastavam do centro.

– Aqui estamos nós. – disse Shota após terem caminhado pouco mais de quarenta minutos – Vamos entrando?

PAF! As faces da dupla chocaram-se contra uma espécie de parede invisível, fazendo com que ambos ficassem agachados com as mãos em seus narizes.

– Vocês precisam de alguma coisa? – questionou uma solicita senhora que saia do local, presenciando a cena no mínimo curiosa de dois indivíduos de cócoras tampando seus rostos no meio da rua.

– Não, obrigada. Estávamos apenas andando por aqui em sentidos opostos, não nos vimos e acabamos nos chocando – pronto, a garota encontrara uma resposta plausível sem que parecessem suspeitos, ainda que duas pessoas se chocarem em um local deserto fosse praticamente impossível.

– Tá... – retrucou a mulher enquanto os que colidiram se levantavam – Se precisarem de algum remédio ou de qualquer coisa sintam-se livres para pedir.

–Muito obrigada, mas realmente estamos bem – dizia Celes enquanto se afastava puxando o outro.

– HEY! Mas vocês não eram dois estranhos? – gritou a dona do albergue após algum tempo, sem receber resposta.

– Maravilha! – resmungou a maga quando estavam fora de vista da senhora – Tem uma barreira mágica impedindo a nossa entrada no local. É do tipo que bloqueia apenas quem possui habilidades mágicas e pode ser quebrada facilmente, mas fazê-lo seria arriscado, já que poderia indicar que algum mestre passou por aqui. Para nossa sorte ninguém estava de passagem e viu a gente se chocando com o ar. Alguma outra idéia?

– Há uma pousada não muito longe daqui, podemos tentá–la. Só é um pouco mais cara, caso não se importe – respondeu seu amigo.

Insatisfeita com o ocorrido e já esperando que outros locais também estivessem assim, a mestra assentiu e seguiram até o local. Chegando lá suas suspeitas se confirmaram:

– Excelente! – murmurou a mestra após colocar suas mãos próximas da entrada e sentir o encantamento– O que faremos agora?

Só então percebeu que um homem que passava por lá estava olhando-a colocar suas palmas no nada. Foi a vez de Shota salvar o dia:

– Não ligue para minha amiga, – dizia meio sem jeito enquanto a puxava – ela é uma grande fã de mímicos e do nada resolve começar a imitá-los, vamos... Continuemos andando – falava enquanto voltava-se para a garota, que tentava fazer qualquer coisa relacionada à mímica que viesse a sua mente, até que estivessem longe de outros olhares.

– Mas que saco! – prosseguiu a garota ao ser solta – Temos que ficar passando por essas situações constrangedoras e nem conseguimos um local para descansar. Aposto que outras hospedarias também estão assim... Se ao menos quebrar essas barreiras não indicasse que dormimos por aqui, poderíamos fazer algo quanto ao som que destruí-las produz. Sugestões? E tire esse sorriso do rosto, Jeanne – a donzela parecia ter se divertido com os apertos pelos quais Celes passara... Ao menos parecia que um pouco de distração havia reduzido os efeitos do cansaço existentes nos servos, mas isso não fazia com que necessitassem menos de uma noite de repouso.

– Você realmente tava parecendo ter algum problema. – debochava o outro, agora feliz por ao menos saber o primeiro nome de Lancer – Vamos, tem um depósito abandonado nas redondezas. Ainda que não seja um local muito recomendado, ao levarmos em conta que encontrarmos um quarto essa noite esteja fora de cogitação, é a única opção que me vem à mente, sem falar que é próximo daqui. Só teremos que acordar cedo para não chamarmos atenção.

– AHHHHHH! Parece que um dos nossos oponentes se adiantou e tá se aproveitando das regras... Alguém que luta assim me deixa furiosa! Só quer nos estressar e torrar nossa paciência! Calma Celes, calma, assim você só vai colaborar com eles – falando consigo em voz alta toda sua frustração era expressa.

Como essa parecia ser a única escolha plausível no momento, os quatro seguiram rumo ao lugar, enquanto Shota finalmente obtinha sucesso pleno em sua empreitada:

Jeanne... É esse seu nome, né? Por acaso você seria a heroína francesa da Guerra dos Cem Anos?

– Acertou na mosca, retrucou a mestra dela com uma piscada. Legal, não?

– Alguém com tanta experiência em combate, como suponho que ela tenha, será de grande ajuda... Teria um pouco de inveja de você se Ramsés não fosse muito mais legal – respondia despreocupadamente enquanto o faraó parecia indiferente a tudo que estava ocorrendo.

O restante do percurso transcorreu de maneira tranqüila, com todos apenas observando detalhes do ambiente, dizendo que seu servo era melhor ou reclamando do frio, até pararem em frente a um local que ficava em uma esquina e ocupava grande parte do quarteirão, e o único movimento próximo que perceberam estava em uma casa vizinha, onde ocorria alguma comemoração próxima de seu final. Eram visíveis vários buracos no telhado do galpão, bem como a existência de vidros inteiros em apenas uma janela, de localização superior, e a ausência de pintura na parede. Entrando viram que o lugar não aparentava ter sido abandonado, mas sim que sua construção fora cancelada: no chão não havia pisos, possuindo uma textura áspera característica de cimento. Através de uma falha na cobertura entravam raios enviados pelos astros, indicando a existência de pouquíssimos objetos, como uma mesa rústica de madeira com algumas cadeiras a cercando e vários vergalhões alinhados em um canto. Não era de todo ruim, apesar das várias imperfeições estava bastante limpo e existiam poucos resquícios de poeira.

– Aqui estamos nós... Acho que vamos precisar disso. – dizia o garoto cedendo vários trapos que pegara em um canto do local, os servos se materializando agora – Peguem, eles serão nossos cobertores, mas acho bom que também utilizemos alguns para cobrir o chão. Aqui deveria ser uma espécie de depósito para produtos vindo de outros lugares, mas se não me engano por terem conseguido espaço em algum outro decidiram pausar as obras por aqui.

– Ótimo, agora temos onde descansar. Acho que não terei problemas com essa situação, mas acho adequando procurarmos outro local amanhã. Acredito que agora seja melhor sairmos para comer antes de qualquer coisa... Não só nós dois, mas eles também estão famintos – dizia indicando para os servos com um movimento de cabeça – É de se esperar que sintamos muita fome, afinal estaremos gastando bem mais prana do que estamos acostumados.

– Isso você pode deixar por minha conta – falava Shota tirando vários onigiris de sua bolsa – Aqui, peguem o quanto quiserem, trouxe isso por precaução.

De fato todos eles estavam famintos, como demonstrou o fato dos quatro terem atacado imediatamente a comida. Ramsés teve um pouco de dificuldades para retirar a espécie de papel que envolvia o lanche e se demorou para finalmente começar a comer, enquanto Jeanne apenas imitou o gesto dos outros dois. Aparentemente ambos os servos aprovaram a iguaria, já que a devoravam incessantemente. A donzela quis discutir um plano para quando se deitassem:

– Disseram que teremos que acordar cedo, então acho melhor irmos dormir logo. Seria adequado que nos revezássemos na posição de guarda enquanto os outros repousam... Como vocês ainda não obtiveram minha confiança pelo menos eu ou a mestra deveremos estar acordadas. Vamos sendo substituídos conforme sentirmos muito sono ou após duas ou três horas.

– Não esperava conseguir sua confiança tão facilmente... Eu também não confio totalmente em vocês, então me parece adequado que um de cada dupla fique acordado. Acho que um mestre e um servo por vez seria mais sábio. – completou Rider.

– Acho que temos um acordo aqui, tudo bem para os dois? – questionou a serva olhando para os magos.

Ambos concordaram com um aceno, já que estavam com as bocas muito cheias para dizerem algo.

– Muito bem! – continuou – Eu e o garoto começaremos a guarda.

– Para mim parece adequado, – retrucou o jovem terminando de engolir o alimento – posso colocar algumas armadilhas enquanto isso, e como sou quem se desgastou menos hoje sou o mais apropriado para isso.

Após alguns poucos momentos de silêncio a refeição terminou, com Celes manifestando-se ao final desta:

– Ahhhhh... Hora da soneca. Boa noite! Não exite em me acordar se necessário, Jeanne.

E dizendo isso recolheu-se em um canto sendo seguida pelo egípcio enquanto os outros dois prosseguiram com o plano de guarda, e ainda que as expectativas fossem de uma noite tranqüila, a escuridão era um ambiente familiar para um ser que espreitava o grupo.

-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-

Na mansão Einzbern era horário de jantar, sobre a mesa havia bastante arroz, vários sushis, tiras de filé de salmão e salada de repolho.

– Por que Celes ainda não veio jantar? – era o questionamento de um homem alto e loiro de cabelo curto e bem repartido, trajando uma farda marrom claro com algumas insígnias em seu peito.

– Também estranhei ela ainda não ter descido... Vou chamá-la novamente – respondeu a mãe da maga, escondendo com maestria o que sabia e dirigindo-se ao quarto.

Naquela refeição estavam presentes por volta de dez pessoas que conversavam despreocupadamente. Após alguns instantes o homem fardado falou em particular com o de bigode que estava ao seu lado:

– Hans, acho que devo agradecê-lo por ter cuidado de Celes e tudo ter transcorrido como planejado. Vejo que não errei ao confiar algo de tamanha importância a alguém tão disciplinado. Você seria um belo militar, caso te interesse posso conseguir uma patente adequada para você.

– Fico feliz por ser reconhecido, coronel, e continuarei fazendo o que for melhor para todos. Agradeço a proposta, mas ainda acho que militarismo não é minha praia – disse sorrindo, um pouco desconcertado pelo comentário, pensando "ele diz isso agora... Veremos quando descobrir o que houve."

A mulher voltou em disparada com uma carta em suas mãos, parando apenas ao alcançar o móvel, apoiando-se sobre ele até conseguir algum fôlego para falar:

– Aqui, leiam.

A folha foi dirigida aos dois homens, que puderam ler:

"Estou preocupada com o mano, então saí para a procura dele. Não devo demorar muito.

Celes"

Os três ficaram olhando descrentes para o papel, ainda que dois deles estivessem apenas simulando. Aparentemente o aviso escrito pela garota estava cumprindo sua função de, pelo menos temporariamente, dar uma desculpa para seu desaparecimento.

– Que garota ousada! – exclamou o militar tentando disfarçar seu nervosismo, sem grande sucesso por suas pernas tremerem – Ela pode ter feito isso com as melhores intenções, ainda mais porque precisamos localizar Kresnik com urgência, mas já estamos no meio da Guerra e a captura dela pode trazer uma grande vantagem para algum dos lados. Acho que isso ocorreu por não a termos avisado de sua importância... Não, se ela soubesse aí sim fugiria de casa sem intenção de voltar. Deixo vocês dois responsáveis por ficarem de guarda e não a deixarem sair novamente quando retornar.

– Entendido, sairemos agora mesmo em busca dela. Caso não a encontremos mandarei que alguns de nossos empregados a procurem também. Vamos querida? – chamava o pai de Celes, abandonando sua refeição e pegando um casaco próximo da cadeira. A vestimenta já estava lá como se a saída fosse algo planejado.

– Vamos! – respondeu a mulher já tendo retomado seu fôlego.

– Encontrem-na o mais rápido possível! Vou aproveitar a deixa e sair também. – falou o outro enquanto se levantava após finalizar seu jantar – Haverá uma reunião da Associação daqui uns trinta minutos, elas se tornaram bastante freqüentes desde que os servos apareceram. Acho que de hoje não passará sem termos um representante e ainda não localizamos Kresnik... Se o localizarem mandem-me um aviso imediatamente, já instruí aqueles que o estão procurando a fazerem o mesmo. Em último caso te indicarei como nossa participante, Lucy, então esteja de volta logo.

– Aceitarei de bom grado, mas com isso terá que conseguir outra pessoa para vigiar Celes – e com essas palavras a esposa de Hans terminou a conversa um pouco surpresa enquanto disfarçava um sorriso.

O casal falou algo com e pouco depois o outro gritou alguma coisa, fazendo com que cinco pessoas ali presentes o seguissem, indo para o lado oposto ao qual os dois tinham ido. Já um pouco afastada de casa a mulher iniciou um breve diálogo:

– Tudo está transcorrendo como planejado, ainda que possamos ter agido de forma um tanto suspeita. Você poderia ter parecido um pouco mais preocupado com o bilhete!

– Acho que foi melhor assim, parecermos menos ligados a ela deve reduzir as suspeitas que poderiam cair sobre nós. Agora o fato de ocorrer uma reunião tão cedo dificultará um pouco as coisas... Quando ele chegar teremos alguns probleminhas, já estará ciente de que nossa filha é um dos mestres.

– É... Mas eles serão incapazes de fazer algo com ela. São as regras, basta que finjamos não saber de nada e estarmos chocados com isso. Seguiremos com o plano: vamos dizer que ela deve ter sido atacada por alguém e invocou Lancer para se defender, sem saber de sua relevância nisso tudo.

– Façamos isso... Só não faça parecer que já sabe a classe da serva. – olhando para o céu e após alguns instantes de silêncio o mago prosseguiu – Tivemos sorte em nosso filho ter nos obedecido, ainda que tenha ficado um pouco revoltado... Amanhã ele já deve estar de volta. O que vamos fazer enquanto deveríamos estar procurando?

– Eu vou retornar daqui a pouco, aquele pedido dele foi bem inesperado. Vá para algum lugar escondido olhar para o céu, vá beber algo, sei lá.

– Acho que não tenho muito mais o que fazer. Mande algumas pessoas para procurá-la pouco depois que voltar para lá, acabei dizendo que faríamos isso.

E, seguindo as instruções de Lucy, a noite passou para o homem.

-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-

Weeeeee... Esse foi o segundo capítulo, espero que tenham gostado ^^

Comentem, digam o que acharam, fico muito feliz toda vez que vocês fazem isso XD (aparentemente muita gente na Rússia leu a história, ou pelo menos de algum modo veio parar aqui \o/).

Portal do Akasha:

Ramsés II (também conhecido por Ramsés, o Grande): filho de Seti I e da rainha Touya, faraó cujo reinado se estendeu aproximadamente de1279 a.C. a 1213 a.C, tendo sido o de maior prestígio na história egípcia. Mesmo não possuindo linhagem nobre, por seu avô, que era general de Horemheb (outro faraó), ter sido nomeado o sucessor no trono acabou recebendo o título de "filho primogênito do rei", que era o mesmo que ser declarado o herdeiro. Seu reinado foi o que deixou maior número de monumentos, como os Templos de Abu Simbel na Núbia, tendo sido o maior desses dedicado ao próprio Ramsés. Participou de várias campanhas militares, recuperando diversos territórios previamente de controle egípcio que naquele momento estavam sob controle principalmente de hititas e núbios. Faleceu com por volta de noventa anos de idade e nove outros faraós que o procederam tomaram o título de Ramsés.

Devido a seus feitos considerei que alguns deuses, como uma forma de gratidão, o teriam emprestado seus animais, então vamos ao primeiro deles:

Ammit: pode aparecer tanto como um chacal ou um híbrido de hipopótamo, leão e crocodilo. Representa a punição para todos aqueles que foram considerados pecadores no julgamento (aquele no qual o coração da pessoa era pesado e se fosse mais pesado que a pena da verdade a pessoa era condenada). Ser comido por Ammit seria o inferno para os egípcios, e quando isso ocorria a alma do indivíduo deixava de existir. Era o ser mais temido em todo o Egito.

Devia ter falado do livro que a Celes carrega no primeiro capítulo, mas como não falei vamos a ele agora:

Magecraft's Melody: como a Celes já descreveu seus usos vou me ater a seu funcionamento e às desvantagens que ela descreveu. Eu diria que ele funciona basicamente convertendo prana do usuário em catalisador para magias, mas catalisar não seria o melhor termo já que esse prana é consumido, então seria melhor considerá-lo como um reagente em excesso em uma reação química, em que a magia seria o produto, já que seria capaz tanto de reduzir o tempo para se conjurar algo ou produzir algo de maior poder (em analogia com maior velocidade de reação e maior quantidade de produto), porém diferente de reagente em excesso geralmente faria apenas uma dessas coisas. A necessidade de se escrever um encantamento diferente por página e o trabalho para se adicionar algo novo demonstram o quão difícil é conseguir algo que converta prana em "reagente adicional". Esse gasto extra pode muitas vezes ser maior que o esperado ou, ainda que traga muitos benefícios, não ser o bastante para justificar seu uso.

Ah, sim: a Celes não soltou uma música do Angra na cabeça de seu oponente, foi uma coincidência na frase, mas gostei da idéia de fazer referência a músicas, combina bastante com o nome do livro.

Resposta ao comentário:

Goldfield: que bom que vc gostou do início da história, não quero demorar muito entre a publicação dos capítulos, e saber que alguém está gostando realmente me motiva a escrever ^^ (embora a faculdade esteja complicando minha vida e não dá para garantir muito em questão de prazos Ç_Ç). Eu acabei criando a personalidade da Celes enquanto escrevia e admito que também gostei bastante do que saiu. Acho que ficou meio aparente que tem algo em seu passado, mas não se preocupe, isso não deve diminuir seu carisma XD.

Quanto à parte de explicar as habilidades eu segui mais a idéia de que se elas iriam se ajudar, o máximo de informações relevantes aos combates que pudessem obter em pouco tempo seria de grande utilidade prática, ainda assim admito que acabei fazendo uma descrição que poderia ter ficado muito melhor.

A Joana D'Arc é legal, né? Concordo que ela deveria ser um dos servos na história. Comecemos a campanha "Joana D'Arc para serva em uma próxima novel" \o/. Dois votos para ela até agora ^^

Obrigado pelo comentário e não deixem de ler as fics dele, ele escreve super bem XD