Capítulo 3:
Calada da Noite
Tão logo a refeição terminou, Shota começou a criar diversas barreiras na área, em especial nos lugares por onde alguém pudesse entrar. Elas estavam adequadamente posicionadas e possuíam diversos mecanismos de funcionamento, de forma que até mesmo um grande mago tivesse problemas para invadir sem ser notado. Ele estava bastante concentrado em sua incumbência demorando a perceber que Rider ainda não dormia, diferente da garota que já repousava há um bom tempo. Ao perceber isso, mandou que seu servo descansasse, porém este, mesmo sabendo o quão importante era estar preparado para o dia seguinte, ponderou:
– Quero apenas ter certeza que estaremos seguros! Até você terminar os encantamentos acho mais adequado que eu também fique de guarda. Assim que terminar, farei o que me pedes.
Seu mestre apenas deu uma risada disfarçada, consentindo com as condições de seu servo: ele já estava terminando e a essa altura não haveria muita diferença no tempo de sono do egípcio de qualquer modo. Lancer mantinha-se sentada ao lado do portão que era a principal entrada do local, encostada na parede apoiando sua arma sobre o ombro direito. Segurava-a com uma de suas mãos e mantinha seu joelho direito junto a si, a mesma posição que apresentara quando invocada e aparentemente gostava de ficar assim sempre que possível. Ela apenas observava silenciosamente tudo que ocorria e estava atenta a cada mínimo detalhe do lugar. Terminando seu dever, o garoto se juntou a ela, criando alguns pequenos globos brilhantes que se espalharam pelos arredores, melhorando a visibilidade no interior do galpão, ainda que não iluminasse tanto, afinal não queria atrapalhar o sono de ninguém.
A vigília da dupla prosseguiu silenciosa, sendo esse silêncio eventualmente interrompido pelo som da brisa que soprava suavemente nas folhas de algumas árvores. Rider não demorou em cerrar os olhos e agora já repousava, por outro lado Jeanne não demonstrava o menor sinal de cansaço ou fraqueza: seu turno de descanso chegaria, e até lá deveria seguir com sua função no plano. Ela estava bastante cansada, mas isso não a impedia de se manter focada. Essa certamente seria uma noite longa, e torcia para que conseguissem algo que fizesse com que as próximas fossem diferentes. De qualquer modo, acreditava que a preocupação com um ataque furtivo a impediria de ter um sono muito profundo.
Shota não se sentia muito diferente da serva, fora bastante precavido com os encantamentos de proteção e isso acabou por esgotá-lo mais do que desejava: havia se empenhado do melhor modo que podia para impedir um ataque, mas caso ele ocorresse não poderia fazer muita coisa contra o inimigo, por isso era importante que seu servo descansasse. O fato da Guerra mal ter começado para ele e já estar tendo problemas deixava-o irritado. Havia conseguido aliadas, a seu ver, bastante confiáveis e isso o aliviava bastante. Porém, Lancer não se mostrava muito fácil de lidar e temia que a aliança durasse pouco. Pelo menos estava certo que ela não iria apunhalá-lo pelas costas.
O mago que espalhara barreiras pela cidade era a maior preocupação do garoto, para ele estava ficando claro que ocorreriam outros ataques indiretos: "talvez percebesse que estavam se escondendo lá e preparasse algo para quando saíssem... existia a possibilidade de envenenar locais que vendessem alimentos, nunca se sabe o que um mestre poderia fazer para ganhar o Graal, ainda que essa não fosse uma estratégia muito eficiente... poderia até mesmo espalhar alguma doença." Ao perceber o quão neurótico isso o estava deixando, voltou-se para Jeanne e cochichou:
– Vamos trocar. Acorde a Celes – e foi na direção de seu servo.
Vagarosamente a donzela levantou-se e caminhou até a maga que foi acordada por uma mão sacudindo seu ombro. Ela deu um longo bocejo, sentou-se sobre os tecidos que a cobriam e esfregou seus olhos.
– Já está na minha vez? Parece que eu não dormi nem por trinta minutos – disse a garota de forma sonolenta, espreguiçando-se.
– Foram pouco mais de duas horas e meia, mestra. Deixas-me repousar agora? – respondeu a serva.
– Durma bem! – falou pegando seu livro e um pedaço de pano – Levarei isso aqui, parece que esfriou bastante nesse tempo.
Ao olhar para o lado a jovem viu que Rider já estava em sua posição de guarda. Caminhou até lá e ficou onde a donzela anteriormente estava, mirou o egípcio por algum tempo e então seu olhar se perdeu em detalhes do lugar. Queria conversar com o faraó, com certeza ele teria muitas histórias de sua terra e ela queria escutá-las, porém ele se mantinha imóvel em sua posição e dificultava o início de um diálogo. De qualquer forma, era melhor esperar os outros dois dormirem antes de falar qualquer coisa, ainda que estivesse necessitando urgentemente disso para não acabar cochilando. Decidiu observar o céu por uma abertura no teto, isso deveria ajudá-la a manter-se acordada, ao menos no início de sua vigília, mas o luar e o brilho antes facilmente perceptível das estrelas haviam desaparecido completamente, o firmamento agora se mostrava como algo completamente negro, não era visível um único vestígio de luz proveniente de lá, o que fez a maga finalmente notar que os globos conjurados por Shota eram a única iluminação disponível.
Lancer caiu no sono rapidamente, mas não antes do mago que desabou em um lençol tão logo seu servo se levantou e quase imediatamente começou a sonhar. O mestre de Ramsés estava um tanto diferente do que se lembrava, pensava Celes enquanto o observava. Não era uma mudança física, ainda que estivesse maior e fisicamente mais forte... Ele parecia muito mais confiante de si e de suas capacidades, e era capaz de transmitir isso. Também se mostrara bem mais hábil para lidar com estranhos, era difícil imaginar a pessoa de dois anos atrás pedindo um quarto de hotel sem se enrolar toda. O que dizer então de como se sairia frente à empreitada para conseguirem onde ficar? Ela também estava diferente, isso lhe parecia bastante natural e a deixava feliz de uma maneira inexplicável, apenas não ter mantido contato com seus antigos colegas e ter recebido pouquíssimas notícias deles fazia com que não esperasse nada caso os reencontrasse. E, pensando nas brincadeiras que faziam quando crianças e dos momentos que passaram juntos, acabou adormecendo.
As pupilas do antigo faraó voltaram-se rapidamente para a que agora dormitava, sem mudar a posição em que estava e nem decidir acordá-la. Seria vantajoso que sua aliada estivesse no melhor estado possível quando a manhã surgisse e para ele não seria necessário mais que uma pessoa acordada, desde que fosse ele ou seu mestre... Não estivessem em um lugar tão isolado na cidade, o que o tornava adequado para uma investida inimiga, todos poderiam recuperar adequadamente suas energias. Sinceramente ele não acreditava em um ataque, dificilmente alguém já os teria localizado, porém, contradizendo suas crenças, um ser já os espreitava...
Apenas um dos quatro mantinha-se acordado, era a abertura esperada, pois necessitaria agora apenas acabar com a vida de suas vítimas. O homem no portal mantinha seu olhar fixo nos dois à sua frente, aquela maga seria o alvo mais apropriado. Tinha que agir antes de ser percebido, dificilmente venceria algum servo em um combate, atacaria os magos como fizera com outros dois naquele dia e quando os guerreiros se dessem conta já seria tarde, o momento não poderia ser outro: seus membros superiores foram surgindo da sombra projetada pelo corpo de sua vitima, perfuraria seu pescoço, um golpe certeiro, já estava acostumado a fazer isso. Empunhou seu rondel e silenciosamente o foi aproximando, seria um a menos, um trabalho fácil.
Aquela inesperada figura mantinha-se tão focada em seu objetivo que não notara o canídeo que surgiu quando faltavam pouquíssimos segundos para terminar esse serviço e que investiu contra ele fazendo-o se chocar com a parede. A que acabara de ser salva despertou assustada ao perceber os movimentos próximos de si, imediatamente Rider compreendeu o motivo de sua fera surgir sem ter sido ordenada para tal e chamou por seu mestre, que não tardou em se levantar ao notar a agitação no local, ainda assim sendo mais lento do que Jeanne que já apontava sua lança para o inimigo. Quando se voltaram para o invasor puderam observar seu aspecto assustador.
Erguendo-se do impacto, com três bocas rosnando para si, havia uma pessoa que trajava uma única peça preta que cobria todo seu corpo, inclusive sua cabeça, as únicas exceções estavam em seus pés, cobertos por algo cor de sangue que liberava uma fina fumaça negra, e em seu rosto, escondido por uma máscara de osso que possuía um prolongamento que ia da testa até a nuca, criando uma circunferência. Concluíram tratar-se de um homem, devido ao seu tipo físico e aos músculos que se realçavam nos braços e pernas. Ao perceber estar cercado ele mexeu os dedos de sua mão livre, imediatamente surgindo outra arma idêntica à que já segurava e ficou de prontidão aguardando alguma reação hostil.
Não demorou para um dos lados fazer seu movimento: Ammit se mostrou uma criatura impaciente e tentou acertar com um movimento de sua pata o oponente à frente, que reagiu jogando-se no chão e rolando, o que possibilitou que entrasse na sobra do chacal e fizesse com que o golpe resultasse na destruição de parte da parede. Antes que alguém pudesse questionar o que havia ocorrido, o sicário surgiu da sombra do Tohsaka com o propósito de fazê-lo sua vítima, porém foi prontamente recebido por uma estocada de Lancer que o forçou a recuar e raspou em seu braço esquerdo. A heroína persistiu na série de ataques, que eram desviados ou bloqueados, e a cada um deles algumas chamas que eram liberadas se espalhavam pelo galpão.
Os demais presentes no lugar puderam apenas se afastar do combate, prontos para ajudarem caso fosse necessário, tentar qualquer coisa agora não seria muito sábio, poderiam acertar a lanceira e criar uma falha que com certeza seria aproveitada pelo oponente. Ramsés pegou seu mestre pela cintura, montou na criatura e em seguida recuou para um canto do cômodo que mesmo sendo amplo agora era em boa parte ocupado pela besta. Enquanto fazia a manobra o faraó cochichou algo no ouvido de Shota, que fez um gesto indicando concordar com o que havia escutado, e quando a montaria parou desceu dela e colocou a mão em suas mandíbulas do meio, de onde surgiu um rápido clarão. Com seu livro aberto e sem entender o que o seus aliados fizeram, Celes ficou de prontidão próxima do buraco na parede.
A incessante seqüência de investidas prosseguia veloz, com a donzela começando a dar sinais de cansaço, e após alguns instantes foi finalmente interrompida por um movimento da adaga que afastou a lança e possibilitou uma reação: avançou com sua outra arma em direção do peito da guerreira, que com um salto lateral conseguiu reduzir os danos para um corte no ombro e em seguida acertar um chute na barriga do mascarado. Ao ver-se vulnerável e agora cercado, decidiu novamente se esconder na primeira silhueta que encontrasse, e qual não foi sua surpresa ao perceber que nenhum dos presentes possuía sombra.
– O que foi, fujão? Algo errado? – ironizou aquela que estava à sua frente – Parece que você está sentindo falta de algo!
As labaredas espalhadas pelo galpão estavam iluminando todas as regiões dele, o que impedia que até mesmo alguma penumbra existisse, e notando essa situação o egípcio decidiu utilizar uma montaria mais apropriada para o espaço disponível: Ammit desapareceu e em seu lugar surgiu um touro branco usando um colar de pequenas pedras triangulares, não fosse sua cor anormalmente alva e seu tamanho um pouco maior que a média, aparentemente ele seria um touro comum. Um ataque agora era certo, e poderia vir de qualquer lado, a única opção para aquele homem era fugir, o caçador havia se tornado a caça.
Os membros da aliança não perderam tempo: Celes havia terminado de curar os danos em sua serva e agora suas mãos produziam faíscas, as chamas de Jeanne estavam se aproximando do inimigo, o animal batia com força suas patas dianteiras no chão, aparentemente provocaria um terremoto, e Shota segurava dois cristais entre os dedos de suas mãos... Uma combinação fatal para humanos normais e até mesmo para a maioria dos magos e alguns servos, porém o alvo dos ataques fez sua jogada antes que estes fossem realizados: com um rápido movimento amputou seu braço esquerdo, que ao entrar em contato com o solo se desfez e formou uma circunferência escura por poucos instantes na qual ele mergulhou e desapareceu.
– Acho que você não fez muito errado em chamá-lo de fujão! – exclamou Shota assim que todos pararam as preparações e olharam em volta – Pelo menos com o lugar iluminado assim acho que não sofreremos outra emboscada dessas. Só vou arrumar uma coisinha... – de suas mãos saíram diversos globos luminosos, um pouco maiores aos já existentes, que se espalharam por todo o imóvel, e voltando-se para Lancer, prosseguiu – Pode retirar seus fogos agora, vamos acabar derretendo com eles por aqui.
A heroína viu que suas labaredas não se faziam mais necessárias e as desfez. Logo em seguida caiu de joelhos, ofegante.
– O que houve? – preocupou-se sua mestra, correndo em sua direção.
– Aquele maldito... ele... me envenenou.
– Teremos que ser rápidos, nem sabemos ao certo a que substâncias um servo da classe Assassin poderia ter acesso! – reagiu o garoto, sentando-se ao lado da intoxicada e entregando para a maga um tubo de ensaio, uma agulha e um pequeno pote de vidro com um líquido incolor que estavam em sua bolsa – Vá fazendo os testes, irei retardar os efeitos do veneno e tentar algo que possa curá-la.
Mal a última frase foi terminada e Celes retirou os apetrechos das mãos de Shota, perfurou o local antes golpeado e colocou dentro do tubo as gotas de sangue que saíram, juntamente com o fluido que havia recebido, e deu pequenas batidas.
– Não tá dando nenhum resultado! – desesperou-se olhando para o mago que mantinha suas mãos unidas sobre a lanceira, algumas lágrimas escorrendo em seu rosto.
– Como assim não deu reação? É óbvio que ela foi envenenada, deveríamos detectar facilmente o que é utilizando magia... Tente novamente!
A francesa agora estava tossindo sangue, sua mestra não sabia ao certo o que deveria fazer, e sem enxergar mais possibilidades iria realizar outra análise.
– Levem-na para fora! – ordenou Ramsés – Precisaremos de espaço! Não façam perguntas, temos pouco tempo e não posso garantir que isso dará certo, mas é melhor do que isso que vocês estão fazendo! Iluminem totalmente os arredores, não vamos querer ser atacados em um momento desses.
Rider liderou a saída do lugar, saltou de sua montaria e a fez desaparecer tão logo se moveu, o mestre obedeceu às últimas palavras dele e iluminou por volta de dez metros ao redor do local de onde saíram e voltou para ajudar a maga a carregar a donzela.
– Não posso fazer isso, vão acabar nos percebendo! – reagiu o egípcio quando os demais chegaram.
– Eu e Shota vamos manter um encantamento que deixará todos dormindo e se necessário alteraremos as memórias de alguém, cuide apenas de salvá-la! Por favor! – os olhos de Celes haviam assumido um tom avermelhado e muito líquido escorria deles.
– Façam isso imediatamente então! – não foi necessário que ele pedisse novamente para que os outros dois começassem a pronunciar algumas palavras – AMMIT!
A fera já conhecida pelo grupo surgiu atrás daquele que a invocou, dessa vez parecendo estar pouco confortável em um local tão claro.
– Devemos agradecê-lo por aquilo que fez por nós mais cedo, não fosse por você já poderíamos ter sido eliminados dessa Guerra, mas agora temos que salvá-la... Você sabe o que deve fazer – disse o antigo faraó para o canídeo, que em seguida se inclinou e tocou a testa de Lancer, gerando uma forte ventania que fez a janela de várias casas tremerem. Jeanne, que estava muito pálida, teve alguns espasmos e então fechou os olhos.
– O que você fez com ela! – gritou Celes vendo a cena.
– Fique calma! Está dormindo agora, será uma noite difícil para ela, deverá sentir dores e ter pesadelos, mas se tudo der certo, sobreviverá. Vamos voltar para dentro, apaguem essas coisas – disse carregando a heroína enquanto o animal se desfazia em sombras.
Quando todos já haviam entrado e as ruas não estavam brilhantes, continuou:
– Não faço a menor idéia do que era aquilo. Ele deve ter utilizado alguma substância desconhecida por outros grupos, mesmo que vocês detectassem, não saberiam dizer com precisão o que é ou o como lidar com isso... Fiz com que o coração dela fosse comparado com a pena da verdade, é um processo que leva horas e vocês podem ver como alguém fica ao passar por isso, o que o torna inviável em combate, mas se realizado adequadamente em um moribundo pode fazê-lo se recuperar ou levar ao seu fim, por isso só é tentado como última alternativa. Fiquem de guarda e cuidem dela pelo resto da noite, já fiz tudo o que podia e preciso descansar agora.
– Está bem, e muito obrigada por isso! – agradeceu a mestra, aliviada por agora ter uma esperança de salvação para sua serva, sem obter resposta.
Cada mago foi para um lado do cômodo para ficarem vigiando naquela noite. A garota segurou por todo esse tempo a mão da ferida, que suou incessantemente. Sua expressão era de grande dor, e essa tortura deveria se estender até o amanhecer...
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– E então? Fez muitas presas hoje, Assassin?
– Consegui matar os mestres de Saber e Bersecker sem grandes problemas...
– KYAHAHAHAHA! Muito bom... – se divertia a jovem de pele albina que trajava um vestido roxo com vários babados e estufado nas espáduas. Seu cabelo rosa possuía várias tranças e estava sentada em uma poltrona, à sua frente haviam três corpos com diversos cortes. Sua expressão rapidamente mudou para uma de surpresa ao ver o estado do seu servo.
– O que houve com você?
– Fui obrigado a fazer isso para fugir de Lancer e Rider que me descobriram. Eles possuem uma criatura capaz de sentir presenças nas sombras, mas fui capaz de envenenar a lanceira, logo deverá estar morta.
– MALDITOS! – berrou com sua voz estridente e seu olhar maníaco – Cuidaremos do outro depois. O que mais você tem a me dizer?
– Bersecker parecia bastante forte, nunca vi um humano tão grande, e se não o tivesse visto duvidaria de seu tamanho. Saber também deveria ser poderoso, e ambos os magos foram aniquilados sem que percebessem. Não encontrei Archer e ainda que tivesse conseguido com sucesso apunhalar Caster e seu mestre sem ser notado, minha adaga não os perfurou.
– Estranho... Bem, vá matar algumas pessoas agora, já que eu não tenho muito dessa coisa que chamam de prana para te fornecer. Tome – disse ao atirar para o assassino o único braço intacto de um dos corpos, que foi removido com o uso do chakram que retirara de suas costas – deve ser melhor do que nada.
Silenciosamente o servo encostou o "presente" no local do corte, sendo encaixado por linhas escuras que saíram de seu ombro, porém destoava do restante do corpo e não era envolto por algo sombrio, e terminando de analisar sua nova aparência, desapareceu.
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O dia na morada dos Einzbern começou cedo para Hans e Lucy. Aquele ao qual todos se referiam apenas pela alcunha de coronel chegou ao local pouco antes que o sol surgisse, e assim que entrou dirigiu-se para um quarto isolado e mandou chamar imediatamente os pais de Celes. O casal que dormia no momento despertou-se rapidamente ao receberem a notícia de quem os chamava. Ainda que isso fosse algo de grande interesse para ambos, já que provavelmente teriam notícias de seus filhos, a preocupação que os tomava era muito maior, afinal não sabiam quais informações aquele homem teria e temiam acabar sendo descobertos se falassem algo que revelasse o que haviam feito, por isso no caminho até o militar decidiram tentar obter o máximo de informações dele antes de se manifestarem, e quando o fizessem tentariam parecer tão desinformados quanto o momento permitisse.
– Vamos, sentem-se. – disse o membro da Associação indicando duas cadeiras do lado oposto da pequena mesa ao redor da qual estava sentado, e mal a dupla o fez, prosseguiu com uma voz levemente irritada – Suponho que saibam por que mandei chamar vocês tão cedo.
– Bem... Deve ser algo relacionado à Guerra ou a algum de nossos filhos. Agora de qual deles falas eu não faço idéia. – retrucou Lucy.
– De ambos minha cara, de ambos. – continuou com uma fisionomia que parecia estar julgando aqueles à sua frente – Mas antes que eu prossiga, vocês me parecem bastante despreocupados para quem está com ambos os filhos desaparecidos.
– Desde o nascimento de Celes fomos ordenados a criarmos o mínimo de vínculos possíveis com ela. Apenas nos acostumamos a não sermos tão apegados a ela, falou o pai da garota.
– Isso eu posso aceitar e compreendo bem, ainda que esperasse maior preocupação por fazerem parte dessa casa. O que me impressiona é não terem nenhuma notícia de Kresnik e ainda assim ficarem tão indiferentes. Por acaso vocês sabem de algo que justifique isso?
"Ótimo", foi o pensamento compartilhado pelos dois. Agora eram obrigados a dar uma resposta rápida para o sujeito, além de terem que encontrar uma forma de lidar com as suspeitas que acabavam de cair sobre eles.
– Nosso filho é muito poderoso, apenas confiamos o bastante em suas habilidades para sabermos que ficará bem – disfarçou Hans – Além disso...
– CHEGA! – interrompeu de forma furiosa – Por mais que acreditem nisso ele deveria ser nosso representante nessa batalha. Encontrá-lo é, ou melhor, era, nossa maior prioridade. Vocês, mais do que todos os outros, deveriam se preocupar em encontrá-lo, e tudo que fizeram foi se juntarem às buscas por muito pouco tempo.
– Nós estávamos comandando todos nossos familiares – disfarçou rapidamente a mulher – Apenas achamos ser mais eficiente manter contato com eles e espalhá-los pela região. Seria melhor se soubessem onde estávamos e você sabe quantos deles meu marido possui. Agora, mais importante, – animou-se a mulher – você tem notícias de Kresnik?
– Sim, – prosseguiu enquanto sua irritação ia diminuindo – e devo dizer que esse garoto realmente tem algo especial. Quem diria que ele poderia utilizar o artefato que nunca saiu de nossas mãos como catalisador?
O casal entreolhou-se sem conseguir disfarçar a surpresa, isso era novidade até mesmo para eles. E dependendo do rumo que essa conversa tomasse não saberiam ao certo o que dizer. Agora, pelo menos no que tocava a esse assunto não necessitavam mais fingir saber de nada, pois de fato não sabiam.
– Isso mesmo que vocês pensaram, – retomou – o garoto é um dos mestres nessa Guerra, mas ao contrário do que devem tem pensado, ele não entrou como nosso representante. Foi o próprio cálice que o escolheu como participante. Acredito que vocês saibam o que isso significa...
– Temos outro representante. – reagiu imediatamente Lucy – Não vai me dizer que...
– Exatamente o que deve ter pensado, minha cara, – prosseguiu – assumiram Celes como nossa representante. Como vocês devem saber o Graal é forçado a aceitar um participante de cada família nas batalhas, e os outros quatro seriam decididos por ele, caso ele não aceite alguém para assumir a função de mestre essa pessoa simplesmente será incapaz de invocar um servo. Com isso podemos dizer que sua filha invocou o servo antes do garoto, e dizem que foram poucos minutos de diferença. Esse fato é irrelevante, é importante apenas que ele participe da Guerra como desejávamos, e fico aliviado dele ter decidido isso, às vezes ele só precisasse de algum tempo para aprender a lidar com o catalisador. A garota comandar um servo que é o problema aqui...
– Ela deve ter sido atacada por alguém que sabia que poderia utiliza-la como refém contra a Associação – ponderou o pai de Celes.
– Eu acho que não! – reagiu o outro homem – Primeiramente porque apenas nós três, Zouken e alguns poucos da Associação de magos têm conhecimento sobre ela, e todos eles sabem que o grupo dificilmente seria chantageada por algo assim... Essa coisa de ir atrás do irmão deve ter sido uma grande mentira, ela queria mesmo é ser um participante! Agora vocês devem supor como adoraram saber disso, – sua voz agora mesclava irritação e ironia – por culpa de vocês que foram incapazes de ficarem de olho nela acabaram colocando toda a culpa em mim. O que tem a dizer sobre isso?
– Nos desculpe. – respondeu Hans com sua cabeça abaixada, sendo imitado por sua esposa – Deveríamos ter vigiado melhor a Celes, mas simplesmente não acreditávamos que faria algo assim. Não foi passada nenhuma informação a ela que pudesse justificar isso, e como nunca demonstrou possuir interesse no Cálice... Além disso, não acredito que fosse tão egoísta ao ponto de poder estragar algo tão importante para seu irmão. Não sei ao certo os motivos que a levaram a uma coisa dessas...
– Desculpas não vão mudar o que já ocorreu! Agora vocês devem procurá-la e tentar convencê-la a desistir de seus selos de comando. As Regras de Não-Intervenção estão nos impedindo de fazer algo, é impensável que a ajudemos, porém não podemos nos dar ao luxo de permitir que aquela jovenzinha problemática morra! Cuidarei para que, quando a fizerem abandonar os duelos, vejam isso mais como preocupação materna, afinal isso também é de interesse do grupo. Posso garantir que não sofrerão qualquer tipo de retaliação.
– Entendemos, general. – replicou Lucy, que escutando sua filha ser chamada pelo homem de algo no naipe de "jovenzinha problemática" pela primeira vez teve real noção do quão irritado ele estava – Sairemos em algumas poucas horas para tentar convencê-la. Podes nos dizer sua localização aproximada?
– Hahahaha! – debochou o militar – Minha cara, acho que ainda não entendeu como as coisas funcionam, nós apenas velamos pelo adequado desenrolar da Guerra, simplesmente observamos os participantes quando acreditarmos necessário, mais que isso iria contra as próprias leis estipuladas há vários anos. Ainda assim, para evitarmos a influência de terceiros, mantivemos boa parte da cidade em uma espécie de hipnose fraca, que seria ativada apenas se testemunhassem uma quebra nas regras, obrigando-os a nos contar sobre isso... Ou seja: não sei onde ela deve estar. Acho que nada mais necessita ser dito, preciso descansar agora, nos vemos depois.
O casal imediatamente se levantou e deixou o lugar. Apenas uma bronca e o dever de convencer sua filha a abandonar os duelos, algo que não fariam de fato, nem ao menos estavam dispostos a tentar. Não foi tão ruim como esperavam, e saber que não fariam nada com ela era realmente tranquilizante, agir conforme o planejado estava dando certo, se continuassem assim deveriam evitar grandes problemas por algum tempo. O que saia totalmente dos planos era a participação de Kresnik, ele deveria voltar para casa nesse momento, não possuir um servo, mas a participação dele nas batalhas poderia ser de grande ajuda para a garota, ainda que isso os preocupasse: ao contrário do que o indivíduo fardado dissera, importavam-se enormemente com ambos, doía só de pensar nos riscos aos quais estariam sujeitos, tanto que nem chegaram a dormir nessa noite, mas eram obrigados a disfarçar para não acabarem assumindo uma atitude ainda mais suspeita.
– Querida – disse o marido instantes depois de deixarem a sala – Se a informação sobre o uso daquele pingente com catalisador for verdade, apenas um servo poderia ter sido invocado por ele...
– Sim... Acho que se pode dizer que temos três Einzberns participando dessa Guerra... Vamos tomar o café da manhã agora, teremos que ficar passeando pela cidade hoje.
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Portal do Akasha:chegamos ao final de mais um capítulo, demorei bastante para publicá-lo... Espero não demorar tanto nos próximos, me desculpem por isso... Serei mais sucinto nessa seção a partir de agora, ela estava ficando muito grande XD.
Ápis: touro adorado no antigo Egito que encarnava simultaneamente Osíris e Ptah, simbolizava a força vital da natureza e sua força geradora. Quando sacerdotes encontravam um animal com características específicas este era levado para viver em um templo, sendo visto como Ápis, e no momento de sua morte era mumificado da mesma forma que príncipes.
Benu: ave sagrada na mitologia egípcia, existindo algumas divergências quanto à sua lenda: algumas o consideram a alma de Rá, outros como a alma de Osíris após ser morto, e existem aquelas que dizem que surgiu do primeiro ovo de uma gansa, a "Grande Grasnadora". Esse pássaro foi a base para o figura da fênix. Ele apareceria na história nesse capítulo, mas após uma alteração acabei o tirando... Como foi citado no segundo capítulo, optei por deixar isso aqui.
Hassan-i Sabbah: um dos dezenove líderes da ordem Hashashin que tomaram o nome do fundador do grupo, conforme estabelecido como regra para o servo da classe Assassin. A ordem existiu desde por volta da última década do século XI até 1256, quando foram vencidos por Hulagu Khan, porém é dito que uma de suas facções, Nizarim, existe até os dias atuais.
Resposta ao comentário:
Goldfield: fico feliz em saber que está gostando dos personagens e da interação entre eles, admito que fiquei preocupado quanto a figura de Joana D'arc e sua construção. Rider, juntamente com Bersecker, foram as classes que me deram mais trabalho decidir qual figura utilizar, havia considerado o Dullahan, mas algumas regras impossibilitaram que eu fizesse isso... Acabei até gostando mais do Ramsés depois de pesquisar sobre animais sagrados. Quanto aos Einzberns, aguarde XD
