- Capítulo 2 –
Amaryllis
Amy sentiu o barco atracar na terra. Estivera perdida em pensamentos pelos últimos minutos, olhando sonhadoramente para o castelo. Saiu cuidadosamente do barquinho, ainda sentindo as costas ardendo um pouco. Olhou novamente para a escola e deu um suspiro contente.
O vento balançou seu capuz, mas este não caiu. Começando a caminhar em direção ao castelo, Amy afundou em pensamentos, mas mal deu alguns passos e alguém esbarrou nela.
O impacto foi forte: ela caiu sentada no chão e sentiu todo seu corpo dar um grito de dor, mas a única coisa que saiu de sua boca foi um gemido contido.
- Ah, meu Merlin! Desculpe-me! – ela ouviu uma voz familiar dizer. Repentinamente, era como se todo seu interior estivesse aquecido, mesmo que fosse inicio de Janeiro.
Ela sentiu que essa pessoa a olhava cuidadosamente, mesmo com os olhos abertos e sem enxergar realmente – tinha sido uma queda e tanto. Percebeu que seu capuz tinha caído e torceu para que, seja lá quem essa pessoa fosse, não reconhecesse suas feições de seus pais – ela suspeitava fortemente de que estava no passado. Somente precisava saber o ano.
- Tudo bem com você? Qual é o seu nome? – a voz masculina perguntou gentilmente, embora ainda carregasse dúvida. Amy quase riu imaginando sua expressão ao ver seus olhos que trocam de cor.
O rapaz que lhe perguntou estava agachado na sua frente. Então Amy levantou os olhos e finalmente o olhou. James Potter. Sua mente estalou. Amaryllis estava olhando para seu pai. Ele estava um pouco mais jovem que nas fotos, entretanto. Se ela chutasse, diria dezessete ou dezoito – mas como ele estava em Hogwarts, provavelmente tinha dezessete. Seus cabelos eram pretos como os dela, exceto que os dele eram curtos e indomáveis. Amy se perguntou qual fora a ultima vez que escovados. Seus olhos eram de uma cor amendoada e lhe encararam com preocupação atrás de lentes de óculos redondos. Ele era bem alto e tinha muitos músculos – Amy suspeitava que fosse por causa do Quadribol, como Sirius falava.
No entanto, mesmo que quisesse desesperadamente dizer alguma coisa e não tivesse coragem, alguém falou antes dela:
- Prongs, Prongs, se ia ficar com essa beldade no jardim, devia ter chamado para dividir.
Amy conhecia essa voz, ela percebeu enquanto ruborizava fortemente. Ela não se considerava bonita. Seu corpo sempre foi miúdo – ela era a mais baixa de seus amigos. Ginny tinha muito mais curvas, assim como Hermione tinha algo... Confiança? Amy não hesitaria em se atirar de um precipício para salvar alguém, mas com certeza não tinha autoconfiança.
Ninguém pareceu reparar que ela estava corando loucamente.
- Primeiro, devia ser mais educado, Padfoot, ela está obviamente desorientada. Segundo, eu só estava caminhando, trombei com ela sem quer. – James, seu pai, falou com reprovação e virou-se para ela – Aliás, qual seu nome?
Amy mordeu seu lábio inferior, nervosa. Ela não estava de frente somente para James Potter, mas também para sua mãe, seu padrinho e Remo. Todos eram muito bonitos.
Remo tinha os mesmos cabelos cor de mel, mas não havia um único fio grisalho. Os mesmos acolhedores olhos castanhos âmbares lhe encaravam e ele tinha uma expressão confusa. Ele era, dos rapazes ali presentes, o mais baixo e menos musculoso, mas era óbvio que essas características cabiam perfeitamente em sua descrição.
Lily tinha cabelos de um ruivo acaju, mas ainda havia partes mais escuras, mais vivas – ou seriam flamejantes? Olhando em seus olhos verdes jade, Amy percebeu que eram iguaizinhos aos dela, e rezou para ninguém percebesse enquanto os seus próprios alternavam entre verde e violeta. A ruiva tinha um corpo cheio de curvas, mais lindo ainda que o de Ginny. Sua altura devia ser algo com um e setenta.
E Sirius – céus! -, Amy sabia que o padrinho era muito bonito antes de ir para Azkaban. Já tinha visto fotos e ele era com certeza lindo. Mas, ao vivo, mais jovem... Amy teve que impedir-se de corar diante de tais pensamentos. Padfoot era o mais alto dos três – um e oitenta e cinco? Um e noventa? Era difícil saber – e também o aparentemente mais musculoso. Amaryllis tinha uma vaga lembrança de ouvi-lo falando que fora batedor. Seus cabelos pretos não eram compridos como no futuro, e, sim, curtos, com uma mecha caindo elegantemente sobre os olhos, que por sua vez, era de um azul claro e límpido.
- Querida? Você está bem? – Lily abaixou-se ao lado de James, tirando Amy do choque de vê-los todos. A ruiva sentia-se estranha em relação a essa desconhecida caída no gramado.
- E-estou – "droga, Amy, sem gaguejar!", mentalmente se repreendeu.
- Tem certeza? – Remo gentilmente disse – Você parece meio pálida.
- Não, agradeço, estou bem. É que eu caí nas escadas de casa ontem e ainda estão um pouco dolorida – Amy estava ficando melhor no negócio de mentir.
- Ah, desculpe! – James disse novamente, percebendo que a trombada tinha provavelmente sido mais dolorosa para ela do que para ele.
- Qual seu nome, gracinha? – Sirius perguntou charmoso.
Amy em geral ficaria envergonhada de ver um homem tão bonito prestando atenção nela, mas recusava-se a corar diante da palavra "gracinha". Ora, por favor, ela não era qualquer uma! Não era um charminho que faria cair de amores, muito menos pelo seu próprio padrinho!
- Não me chame de gracinha! – Amy reclamou. Ela era sempre muito educada... Exceto, em raras exceções, que a chamavam de algo como gracinha. Ela era o quê? Uma criança, ou, talvez, uma puta?
- Nossa, Lily-Flower, ela tem um gênio igual ao seu! – Sirius exclamou, para logo em seguida soltar uma gargalha parecida com um latido.
- Com você a cantando descaradamente, eu não estou surpresa – Lily revirou os olhos.
Amy lentamente levantou com a ajuda de sua mãe: - Obrigada... Lily, não é?
- Sim. Lily Evans, prazer – ela apertou a mão de Amy.
- Futura Sra. Potter! – James exclamou e sorriu, apertando a mão de Amy logo em seguida – Eu sou James Potter.
- Suspeitei – Amy sorriu alegremente.
Remo riu e disse: - Sou Remo Lupin. Prazer.
- O prazer é meu, Remo.
- E eu, docinho, sou Sirius Black. – o moreno deu um sorriso galanteador.
- Ah, esse nome... Ele é... De acordo com o pacote, se é que me entende – Amy sorriu com um brilho maroto nos olhos.
- Eu não elogiaria Padfoot se fosse você, ele só vai ficar com um ego maior – James sugeriu.
- Ah? Eu não estava elogiando, estava somente frisando o fato de que o nome da estrela dele estar na constelação de Cão maior.
O grupo explodiu em risadas, exceto Sirius, que fechou a cara, e Amy, que sorriu inocentemente.
- Se alguém pode tirar com a cara de Padfoot assim, já gosto de você – James disse e Remo concordou fervorosamente com a cabeça.
- Acho que ainda não me apresentei, não? – essa conversa tinha sido ótima, Amy tivera tempo o suficiente para inventar-lhe um sobrenome. – Sou Amaryllis Phoenix.
- Amaryllis? – repetiu Sirius com uma cara surpresa – Nossa, que nome estranho!
Amy olhou para baixo, ligeiramente deprimida. Seus pais tinham lhe dado esse nome; ela sabia que não era exatamente comum, mas gostava dele. Não precisou olhar para cima para saber que o som de tapa fora Lily batendo em seu futuro padrinho.
- Eu gosto de Amaryllis – disse James pensativo -, é o nome de uma flor, não é?
Amy sorriu: - É sim. Uma das minhas favoritas. E, Sirius – ela se virou para o incrivelmente bonito adolescente -, eu sei que é um nome diferente, mas você pode me chamar de Amy se quiser. Todos os meus amigos o fazem.
- Desculpe, Amaryllis – Sirius pronunciou o nome lentamente, enrolando-o na língua. Pensando bem, era um nome bonito, interessante, até. Além de tudo, essa "gracinha", como ele tão bem a titulara, parecera deprimida quando ele a ofendeu.
Sirius decidiu que não gostava dela triste.
Amy começou a levantar, mas antes mesmo de dar um passo, cambaleou, caindo direto nos braços de Remo.
- Desculpe-me – ela disse apressadamente, embaraçada que tivesse tropeçado nos braços de um "estranho".
- Não tem problema, Amy – Remo sorriu amigavelmente. Amaryllis ficou direito sobre seus pés, batendo levemente na capa das vestes bruxas, onde tinha um pouco de grama.
- Ei, Amy... – James começou curioso.
- Sim?
- O que você veio fazer aqui em Hogwarts?
Essa pergunta fez os três Marotos e Lily se sentirem estúpidos. Eram tempos de guerra esse e eles simplesmente confiaram numa estranha que estava caída perto do lago onde a lula gigante habitava. Até onde eles sabiam, podia ser uma Comensal da Morte, ou sei lá. Tudo podia vir nesses tempos sombrios.
- Eu vim conversar com o diretor, Alvo Dumbledore – constatar isso fez Amy se sentir um pouco idiota. Era óbvio que o diretor era Dumbledore. – Eu vim para a entrevista de emprego como professora de Defesa Contra as Artes das Trevas.
Amy tentou não demonstrar surpresa assim que as palavras saíram de sua boca. Como ela sabia disso? De alguma forma, sua cabeça processava o fato de que o antigo professor da matéria, Steven Noreyer, fora assassinado há poucos dias. De alguma maneira inexplicável, ela sabia que Dumbledore procurava um professor. Bem como sabia que era quarta-feira.
Que coisa estranha!
Saindo de seus pensamentos, percebeu que os quatro jovens olhavam para ela de olhos arregalados e queixos caídos.
- Quê?
- Você veio para uma entrevista de emprego? – perguntou uma chocada Lily.
- Mas você deve ter o quê? Treze, quatorze anos? – chutou James. Ele sentia-se esquisito em relação a essa garota, como se pudesse confiar nela cegamente.
Amy bufou: - Eu tenho quinze anos, muito obrigada.
E, conforme falava, Amy percebeu que era verdade. Ela não entendia como tinha passado de dezessete para quinze, mas ainda assim estava ofendida.
- Quinze? Sua testa bate no meu ombro!
- Não sei você percebeu, Black, mas você é incrivelmente alto!
Sirius tremeu ao ouvir o nome Black sair dos lábios de Amy. Estranho. O tremelique não fora por nojo de sua família, mas, sim, porque, pela primeira vez, o seu sobrenome parecia bonito.
Amy somente inspirou profundamente, tentando realmente não ficar brava com o fato de que eles estavam certos e ela era pequena, e começou a andar em direção as portas do castelo.
- Ei! Onde tá indo, Amy? – James indagou curioso, logo seguindo atrás dela, assim como todos os outros.
- Já falei: indo ver o professor Dumbledore. Não me importa se "sou jovem demais", eu já sou formada.
- Formada? – todos disseram em um coro tão perfeito que Amy quase se desestressou.
- É. Formada em uma escola de magia e bruxaria no norte da Inglaterra, em Cheshire.
- Nunca ouvi falar – Sirius falou perdidíssimo.
- Espero que nunca tenha ouvido falar da escola, pois se você estiver falando do estado Cheshire lhe darei um mapa – Amy disse, ao mesmo tempo em que virava o corredor e encontrava-se em frente a gárgula que dava para o escritório do diretor.
- Rá, rá – Sirius riu sem humor, apesar dos outros gargalharem. Amy somente deu um sorriso doce.
Virou-se para a gárgula, sentindo um embrulho no estomago. Em poucos segundos veria Dumbledore. O seu olhar paternal, o brilho nas íris azuis, os oclinhos meia-lua... Ela estava mesmo preparada para isso?
- Manteiga de amendoim – ela quase sussurrou para a pedra, que girou, dando passagem.
- Como você sabia a senha? – Remo falou surpreso.
- Como disse, vim fazer uma entrevista de emprego. Essas coisas são marcadas com antecedência. O professor Dumbledore teve a gentileza de me informar onde sua sala ficava e qual era a senha.
Tirou a parte de que, bem como outros fatos, a senha somente entrara na sua cabeça, como se tivesse sempre sabido.
- Bem, boa sorte, então – James disse repentinamente desconfortável. As suas emoções, bem como a dos outros, mudava rápido demais na presença dessa garota, e isso era muito estranho.
Que sensação era essa que os quatro sentiam de já conhecê-la?
Amy finalmente deu um sorriso largo, completo.
- Obrigada, James – ela disse suavemente, antes de virar as costas para todos e subir as escadas. Ela não queria dizer "tchau" como se fosse a última vez que se vissem. Amy queria mesmo ser a professora.
Afinal, estava num tempo onde seus pais estavam vivos. Sem Fidelius, sem ela nascida. Sem profecia. Tudo o que tinham de se preocupar eram os NIEMs no momento.
Então, o tom de quem sugeria "hei, nos vemos depois", parecia adequado. Ou, pelo menos, Amy esperava.
Ela só não sabia o que esperar de Dumbledore, porque, por ela, Amaryllis já teria corrido, abraçado seus pais, seus padrinhos e contado tudo sobre o futuro.
Como ela era suficientemente sensata para não fazer isso, Amy não fez. Sabia que era o certo.
Mas aquilo dentro dela era culpa?
