- Capítulo 5 –

- Medrosa Cobra -


"Rir é o melhor remédio".


A semana terminou antes que Amy percebesse. A essa altura do campeonato, ela também já se conformara que ficaria no passado por mais alguns anos. Sabia que podia mudar toda sua vida e ainda estava indecisa sobre o que fazer, afinal, não era todo dia que você tinha a chance de decidir mudar de vida tão drasticamente.

Não entendam mal. Ela pularia numa oportunidade de salvar seus pais, Sirius e Remo a qualquer momento. Ela queria que todos tivessem uma vida além de morte prematura. Porém... Porém, se Amaryllis mudasse tantas coisas, ela ainda conheceria seus amigos? E se essa mudança a não a permitisse conhecer Ron, Hermione e todos os outros?

Não era com amor que Amy se preocupava. Ela nunca realmente amara ninguém. Nunca mesmo dera um primeiro beijo – o que podia ser explicado por sua complicada vida, mas ainda ligeiramente embaraçoso que uma garota de dezessete (quer dizer, quinze) nunca tivesse beijado. Mas, por outro lado, perder os amigos era outra questão. Ela já tinha perdido de mais.

Mas, uma vozinha ficava dizendo em sua cabeça, se você mudasse os acontecimentos, não se lembraria. Irá nascer de novo, ou você se esqueceu?

E, como se essa decisão já não fosse difícil o bastante, ensinar seus pais durante duas horas nos dois dias seguintes à quarta-feira, foi pior ainda. Ela olharia em seus rostos e veria expressões felizes. Pelo que ela repara, eram namorados com um relacionamento perfeito, amigos divertidos e vida tranquila. Claro, a guerra estava acontecendo, mas todos próximos deles estavam vivos. Saudáveis. Em suma, alegres.

Até ela nascer alguns anos depois e estragar com tudo isso.

Amaryllis suspirou, olhando seu próprio reflexo no espelho. Três dias atrás – em seu primeiro dia dando aulas (pelo menos nesse tempo) – ela tinha olhado nesse mesmo espelho. Ele dificilmente tinha mudado. A moldura ainda era de ouro com desenhos intricado e ainda ocupava a porta inteira de seu armário. Seu reflexo, entretanto, parecia de outra pessoa.

Os cabelos pretos bem escovados e longos até a cintura encontravam-se embaraçados, para cima, uma bagunça sem esperança. Suas roupas, sempre tão bem escolhidas com modéstia, no momento eram somente uma camisola azul amassada e depressiva. Se seus olhos pudessem chorar secos, era assim que Amy os descreveria. Estavam brilhantes, mas livres de quaisquer lágrimas.

Amy sabia que sua aparência podia ter muito haver com o fato de que ontem tivera um sonho com Voldemort. Ele tinha atacado uma vila trouxa, matado várias pessoas, entre elas, crianças pequenas. Isso seria perturbador para qualquer um. Mas ela sabia que também tinha haver com a grande decisão a ser tomada.

Amaryllis suspirou pelo que parecia a milésima vez naquela manhã de sábado. E, dando às costas a sua horrível aparência, foi até seu banheiro tomar um bom banho.

Quem sabe isso a ajudasse?

Sua decisão não devia ser difícil, não devia, a voz discordou.

Cale a boca, Amy respondeu, sabendo que responder a vozes em sua cabeça era insano. E, de fato, não resolvia nada.

Café da manhã, Salão Principal,

Vinte minutos depois, Amy entrava no Salão, pronta para um novo dia. Como era final de semana, ela abandonou as roupas que usava para dar aulas práticas e botou roupas confortáveis. O que queria dizer uma calça jeans azul, uma blusa de manga comprida verde clara e um pulôver branco. Era um dia razoavelmente frio nesse mês de Janeiro e Amy não queria arriscar pegar uma gripe.

Os alunos pareceram genuinamente surpresos em ver uma professora com roupas trouxas, mas Amy ignorou os olhos com maestria – afinal, tinha experiência. Na verdade, ela não somente ignorou-os como acenou para alunos lá e aqui, antes de sentar-se à mesa dos professores entre Aurora e Caridade Burbage, com as quais tinha criado uma suave amizade.

- Aconteceu algo, Amy? – perguntou Caridade assim que viu o rosto de sua amiga naquela manhã, que parecia particularmente triste.

- Nada importante, Cari. Mas obrigada por perguntar.

Amy ainda achava um pouco estranho ser amiga dessas duas mulheres, assim como amiga de Septima Vector e Holanda Hooch. Nesse tempo, elas tinham entre vinte e sete e trinta e quatros anos. Mesmo que Amaryllis tivesse idade de uma quintoanista, todas as quatro a aceitaram perfeitamente como amiga. Os professores mais velhos pareceram gostar dela também, mas ainda era mais normal sua relação para com eles, era mais... Formal? Respeitosa?

O que tornava menos estranho tudo isso, era o fato de que Septima tinha acabado de entrar na escola, como ela. E as outras também não estavam lecionando no castelo há muito tempo.

- Amy, você parece que foi até o inferno e voltou. Tenho certeza que nada está bem. – Aurora brigou suavemente. Ela tinha somente vinte e sete, entretanto tinha um espírito de mãe, pois (pelo que descobriu Amy através de Caridade) sua irmã mais nova tinha morrido poucos antes do começo do ano.

- Ok. Não estou bem. Não é nada, amanhã estarei melhor. – ela decidiu por um fim na questão, ajeitando-se na cadeira e colocando uma pequena colher de mingau em seu prato.

- Você não come muito, não é? – Holanda perguntou curiosamente, sentada do outro lado de Aurora.

- Não de verdade. – a adolescente deu de ombros, ignorando o fato. Quando morava com os Dursley, muitas vezes a comida lhe fora negada. Seu apetite melhorara um pouco ao ir para Hogwarts, mas há poucos dias mesmo ainda estava na busca às Horcruxes.

- Pois devia. – Aurora brigou de novo. Amy revirou os olhos e levou uma colherada à boca.

- Bem, o que achou de Hogwarts até agora, Amy? – Septima perguntou, sentada do outro lado de Caridade, enquanto levantava os olhos do prato.

- Ah, excelente – Amy respondeu contente em mudar de assunto. – Minha antiga escola não era tão grande, nem tão... Hm... Mágica. Acho que isso torna tudo muito melhor.

As quatro sorriram para a morena e concordaram.

- E as aulas? – Aurora perguntou, olhando a menina ao seu lado. Ela parecia mais feliz que o assunto sobre seu estado tinha trocado, mas Aurora não estava convencida de que isso significava "melhor".

- Ah, divertidíssimas! Eu não sabia que ensinar era tão legal. Só espero que os alunos gostem de mim. – Amy completou preocupada.

- Tenho certeza que gostam, querida.

- Quem não gostaria? – Caridade concordou com Aurora.

Amy corou e sorriu timidamente, sentindo-se mil vezes melhor: - Obrigada.

O grupo conversou sobre outros assuntos, sem pressa para terminar a refeição já que era um preguiçoso Sábado. Amy ouviu distraidamente Septima comentar sobre um par de Lufanos complicados, enquanto observava o Salão com olhos rápidos.

No meio da mesa dos Grifinórios estavam sentados seus pais. Pelo que pareciam, estavam tendo uma manhã muito melhor que a dela, rindo das bobeiras que Sirius fazia. Remo também parecia alegre enquanto conversava com uma garota alta de cabelos chocolate e olhos cor de mel, que Amy sabia se chamar Emmeline Vance. Alice Meadows estava sentada do outro lado de Lily, segurando as mãos de ninguém mais, ninguém menos que Frank Longbottom. Peter Pettigrew comia avidamente de seu prato empilhado com comida – mas, Amy percebeu o que ninguém tinha, lançava olhares ansiosos à mesa Sonserina.

Ela sentiu seu sangue gelar. Era isso. Ele já planejava ir para o lado de Lord Voldemort? Ou era somente indecisão? Já estavam convidando-o? Sentindo ligeiramente enjoada, ela empurrou o café da manhã inacabado para longe de si.

- Terminou? – Caridade perguntou, surpresa em ver a maior parte da já mínima porção de mingau ainda ali.

- Na verdade, estou me sentindo um pouco enjoada – ela admitiu.

- Não quer ver Madame Pomfrey? – Holanda sugeriu e, vendo o (fingido) olhar de dúvida de Amy, ela completou: - Ela é a nova enfermeira da escola.

Que estranho pensar em Poppy como nova enfermeira da escola. Em seu tempo, obviamente, ela já estava lá há algum tempo.

- Não se preocupem, tenho certeza que é passageiro. – quando Pettigrew for embora, meu enjoo também irá, ela quase completou, mas segurou as palavras em sua boca para impedir besteiras futuras.

Amaryllis começou a levantar-se e Aurora a olhou desaprovadora, mas, ao mesmo tempo, preocupada.

- Ficarei bem, Rory – sorriu, pensando em cada apelido que aparecia. Amy nem sabia que pessoas chamadas Aurora tinham apelido (o que era estúpido de sua parte), muito menos que estes poderiam ser Rory. Mas, de alguma forma, "Rory" era fofo, delicado, simples. Exatamente como Aurora Sinistra é.

A dita cuja sorriu fragilmente para Amy, e esta se pegou pensando como tinham ficado tão unidas em somente quatro dias. Acenando para o resto de suas amigas e o resto dos professores, desceu as escadas que dava para a mesa principal. Caminhou tranquilamente entre a mesa da Corvinal e da Sonserina.

Amaryllis não tinha lugar exato para ir, de forma que somente andou pelo castelo sem destino. No final, acabou indo parar no lago, bem perto de onde trombara com seu pai. Ela sorriu e sentou-se encostada a uma grande árvore na beira d'água.

Olhando a Lula Gigante nadando, a brisa tranquila em seu rosto e sua paz interior, a escolha a tomar parecia óbvia. Ela viera de uma Hogwarts destruída, onde a atmosfera era melancólica, funesta. Nesse tempo a guerra parecia tão distante!

Pó dourado passou rápido por sua vista a alguns metros de distância antes de sumir. Amy sorriu fracamente. Bryn acenou delicadamente, como somente uma fada conseguiria e voou tão alto até sumir. A morena olhou a fadinha desaparecer, desaparecer e... Ficou sozinha.

Suspirou, encostando como alguém velho a cabeça na árvore. Por que as coisas não podiam ser simples somente uma vez? Amy invejou, somente por um momento, os que viviam simplesmente. Por que não podia ser uma trouxa, sem ideia da magia, sem ideia do que era dor?

Seus pensamentos foram interrompidos pela segunda vez ao ouvir alguém rir muito alto. Olhou em volta; em outra parte do lago, sentados ao pé de uma árvore muito parecida com a sua estava um grupo de pessoas. O sol batia ali, de forma que eram facilmente visíveis, enquanto Amy estava parcialmente escondida.

Seu pai estava sentado com sua mãe entre as pernas, abraçando-a por trás e brincando com seu cabelo. Os cabelos de James, tão iguais aos seus na cor, eram mais bagunçados ainda pelo vento. Seus olhos amendoados eram tão despreocupados! Lily, por outro lado, trazia um sorriso mais discreto nos lábios, como se estivesse tendo um sonho particularmente bom. Seus cabelos ruivos vivíssimos balançavam suavemente com o vento e seus olhos – que se abrissem Amy sabia que encontraria as mais verdes esmeraldas – estavam preguiçosamente fechados.

Remo era um dos que estava encostado na árvore. Trazia um livro de capa azul escura no colo, porém este se encontrava fechado. Sua face era jovem e não tinha marcas de cicatrizes que num futuro traria. Os olhos âmbar era quase da mesma cor que os cabelos cor de mel, que ainda não possuíam partes grisalhas de cansaço. Ao seu lado, Emmeline Vance gesticulava ao falar com ele. A menina, que parecia ter mais ou menos a mesma altura de Moony, tinha os cabelos chocolate não muito compridos, caindo até os ombros em cachos. Seus olhos eram cor de mel e traziam certa inocência ao se mexerem.

Amy analisou a dupla. Ela sabia que Moony ficaria com Tonks no futuro, mas ele sempre trazia uma expressão melancólica ao pensar em ter um relacionamento com a metamorfomaga... Era por que já amara antes? Emma (como seus amigos a chamavam) e Moony formavam um bom casal. Amaryllis tentou lembrar-se do que Moody dissera em seu quinto ano... "... essa é Emmeline Vance, Voldemort a matou pessoalmente... Sirius, quando ainda usava cabelos curtos... e aquele é Lupin, obviamente...", Amy parou de pensar nisso. Já sabia o que acontecera com Emma.

Alice estava deitada de barriga para baixo, o queixo apoiado nas mãos. O rosto de Alice Meadows era tão parecido com o que Neville teria que era assustador. Traziam bochechas redondas e sobrancelhas levemente arqueadas. Os cabelos eram castanhos, mas os olhos eram azuis escuros. Frank Longbottom estava deitado ao seu lado, no entanto, de barriga para cima, os braços relaxadamente atrás da cabeça. Os cabelos eram arrumados e castanhos claros, e os olhos castanhos que trazia eram os que Nev obviamente herdara.

Alice e Lily pareciam conversar entre si, embora ocasionalmente rissem de algo que Sirius falava que era, indubitavelmente, o piadista do grupo. Padfoot era tão diferente do de seu tempo que era estranho. Os cabelos não eram longos e, de uma forma, simples. Eram curtos, bem tratados e... glamorosos – não havia outra palavra. O rosto era menos pálido e, ao invés de feições infelizes, trazia feições aristocratas, que todo puro-sangue parecia ter. Mas, diferente dos Malfoy, Sirius Black sorria tanto e tinha seu típico riso que parecia um latido, sendo possível ouvir de onde Amy estava sentada. Por um segundo, os olhos azuis céu daquele que seria seu padrinho escanearam os jardins de Hogwarts – Amy se encolheu e passou despercebida.

E, meio encolhido, parecendo quase um intruso, estava Peter. Os cabelos cor de areia ainda existiam em maior quantidade, mas os olhinhos aguados e levemente assustados eram os mesmos. Voavam de um lado para o outro, como que procurando alguém que pularia em cima dele a qualquer momento. Sua expressão era tão igual a do roedor assustado na Casa dos Gritos que Amy quis gritar em frustração.

Amy puxou os joelhos até o peito, escondendo o rosto no meio deles. Por que as coisas não podiam ser simples somente uma vez? Amy invejou, somente por um momento, os que viviam simplesmente. Por que não podia ser uma trouxa, sem ideia da magia, sem ideia do que era dor?, repetiu as palavras que há poucos minutos passaram por sua cabeça.

O grupo riu tão alto de algo que Sirius falara que a morena levantou a cabeça para olhar. Pettigrew também ria, mas parecia tão falso, tão assustado! Amy só percebeu que chorava ao sentir as lágrimas pingarem pelo queixo.

Fechou as mãos em punhos. Ela estava chorando de tristeza ou de raiva? Por um minuto, ficou confusa. Soltou o ar que não percebera estar prendendo e levantou-se. Sabia que tinha que dar uma resposta a Alvo: mudar ou não o futuro.

Então, simplesmente caminhou em direção ao escritório do diretor com as ideias de onde as Horcruxes estariam nesse tempo. A risada nervosa de Peter Pettigrew a seguiu pelos corredores, e, somente talvez, tenha sido isso que a fez continuar andando.