- Em Hogwarts? – repetiu o Doutor. – Não é a escola do Arry Fotter ou coisa no sentido?

- Harry Potter, Doutor. E sim, é ela mesma.

Ele olhou para o castelo e para as casas ao redor.

- Eu li o livro sete, não li? Sim, não foi a primeira bíblia de Gutenberg, tenho certeza. Ele me bateu quando eu tentei... homem esquentado. Mas realmente isso tudo parece com o que eu li – ele falou, para si mesmo. – Mas não é possível – ele disse para Rose.

- Você visitou praticamente todo o universo, Doutor, em diferentes épocas e destruiu seres inimagináveis. Tem mais de novecentos anos de vida e viaja numa máquina do tempo que é uma caixa azul...

- Caixas azuis são legais. Qual seu preconceito contra elas?

- ... Se isso aqui é impossível, você não deveria existir, Doutor – terminou Rose.

O Doutor ia falar mais alguma coisa, porém se calou. Olhava fixamente algo logo atrás de Rose. Ela se virou. Em uma das casas a porta se abriu e um sofá saiu flutuando. Logo atrás um homem veio empunhando uma varinha. O sofá foi posto na varanda e ele se dirigiu à frente da casa, onde a neve tomava conta. Apontou a varinha e a neve começou a derreter em certos pontos. Em segundos a frase "Seja bem vindo" estava escrita, em letras floreadas, na neve, um tapete de boas vindas mágico.

- Bom dia! – cumprimentou o homem, sorridente, e voltou para casa.

O Doutor ficou pasmo. Estava claro que ele havia entendido como tudo ali era real. E também estava claro, pela testa enrugada e olhos cerrados, que sua mente estava a milhões de quilômetros por hora.

- Eles conseguiram se ocultar da TARDIS com magia, ao que parece. Isso é fantástico – ele sorriu. - Um mundo de magia. Dentro da Terra. Nenhum planeta pode superar isso. Eu amo a humanidade. Vocês são inacreditáveis! – ele gargalhou e abraçou Rose.

Os dois se separaram e olharam o lugar à volta, como se estivessem vendo pela primeira vez.

- Quero ir à Zonko's. Será que tudo nos livros era verdade? – disse Rose.

- Zonko's? – o Doutor franziu a testa.

- Seu poser – ela disse rindo. – Vá ler a história inteira, ai venha conhecer o mundo real.

Eles foram, pedindo informações para saber onde era a tal Zonko's. Em alguns minutos lá entraram Lucy Barrowman e seu companheiro, o Doutor, inspetores de estabelecimentos alimentícios e credenciados pelo Ministério da Magia. Suas seguras credenciais eram nada mais do que o seguro papel psíquico que o Doutor sempre carregava com ele. Os donos da loja, muito prestativos, serviram os inspetores com o que tinham de melhor em seus estoques. Meia hora depois, Lucy e o Doutor, ou Rose e o Doutor, se assim preferir, saíram com os bolsos abarrotados de inúmeros doces e prometendo aos donos da Zonko's a melhor avaliação do mundo da magia em termos de lojas.

Sentaram-se em um banco, rindo e comendo sapos de chocolate. Ficaram vendo as pessoas que praticavam magia como se estivessem lavando o carro na frente de casa. Uma árvore que os cobria foi acertada por um raio e começou a crescer assustadoramente. Suas folhas ficaram douradas e prateadas. Um homem que passava, suspirou, puxou uma longa varinha do bolso e disse uma palavra. A árvore parou de crescer, porem continuou dourada e prateada.

- Crianças... – o homem resmungou.

Os dois só riram. Era tudo muito inédito. Rose sabia que era, porque se até o Doutor estava impressionado, era algo grande. Então ela perguntou.

- Será que poderíamos visitar Hogwarts?

O Doutor não olhou para Rose. Ficou mirando o castelo gigantesco.

- Olhe...

Mas o Doutor não chegou a concluir a frase. Um grito ressoou pela cidadezinha de Hogsmeade. A dupla estava acostumada a ouvir os pedidos de socorro pelo universo, e aquele era o básico. Eles correram para a fonte.

Passaram por algumas ruazinhas, sem precisar procurar muito, pois a população estava naturalmente se dirigindo para o local do ocorrido, uma pequena pracinha. Uma mulher chorava recostada numa parede e pessoas tentavam consolá-la. O Doutor e Rose logo atrás dele foram se embrenhando no aglomerado de gente. No começo não havia nada ali além de chão exatamente igual a todos os trechos que havia na cidadela. Mas então um relâmpago verde nascia do nada no meio do círculo de pessoas e logo desaparecia. Isso ia ocorrendo esporadicamente.

- Ele estava bem ali. Bem ali, eu estava falando com ele quando ele desapareceu – dizia um homem atordoado.

O Doutor puxou o papel psíquico do bolso e se dirigiu ao homem.

- Somos da... – ele olhou para Rose em busca de ajuda. – Superintendência... de assuntos... muito estranhos... envolvendo... raios verdes. Estranhos – finalizou o Doutor com a cara mais séria que tinha. – O que houve aqui? – continuou ele. O homem estava tão atordoado que nem ligou para o fato de um superintendente de assuntos envolvendo raios verdes não existir, e contou toda a história.

Segundo ele, um garoto, filho de vendedores de hidromel em Hogsmeade, havia desaparecido. Ele estava em um passeio, vindo de Hogwarts. O menino estava passando pela rua, e acenou para o homem, vizinho da família. Então uma luz verde brilhou no meio do caminho, uma forma de um homem agarrou o menino e eles desapareceram no espaço. O homem ficou estupefato e a mulher começou a gritar e a chorar.

O Doutor se levantou e foi até onde os raios ainda estalavam. Puxou a chave de fenda sônica e a ajustou. A luz azul se acendeu e fez um ronronar de máquina.

- Não somos os únicos estrangeiros aqui, Rose. Essa terra tem seres do espaço aqui, e eles seqüestraram uma criança bruxa. Gostaria de me lembrar da última vez em que pisei num lugar e não ocorressem problemas – disse ele com um sorrisinho triste.

E então seis homens aparataram atrás deles.

O Doutor deu um pulo e se aprumou.

- Por favor, informações. Dawlish, colete-as. Onde estão os Inomináveis que estão estudando os casos? – disse um homem de óculos redondos, parecendo não notar o Doutor. Os homens tinham aspecto oficial.

- Estão a caminho – gritou alguém.

- Não é suficiente para mim. Mandem uma coruja apressando o serviço, por favor.

Ele sacou a varinha e foi abrindo espaço na multidão só com sua passagem. Era uma figura de respeito. Viu os raios e tentou descobrir o que era. Apontou para o espaço vazio e disse:

- Revele seus segredos!

No mesmo instante um estalo agudo assustou a todos e fez o homem recuar, se levantando.

- Temos de esperar os Inomináveis, mas eles estão sabendo quase tanto quanto nós... – e um raio passou raspando pela cabeça dele.

Todos se viraram para a fonte. Três homens encapuzados empunhavam varinhas e disparavam contra os seis. Logo eles assumiram uma posição de luta e dispararam feitiços. Um louro alto gritou:

- Expelliarmus! – e o feitiço bateu no meio do tórax de um encapuzado, fazendo-o voar. Um ao seu lado disparou um raio laranja que fez as vestes de um dos seis irromper em chamas. Ele acenou e uma torrente de água caiu de lugar nenhum para cima dele, porém o fogo não se extinguiu. Então ele fez uma série de acenos complicados, e o fogo foi canalizado para a ponta da varinha, e de lá para o seu atacante. Esse foi engolfado e saiu correndo como louco.

O terceiro estava em uma batalha complicada com os seis. Era certamente muito habilidoso. Então o Doutor viu aquele que havia caído primeiro erguendo não uma varinha, mas uma arma muito diferente, em direção ao que parecia ser o líder. Ele sorriu por finalmente reconhecer algo ali e apontou a chave de fenda para ela, que soltou algumas fagulhas e não funcionou mais.

Na outra luta, seis feitiços estuporantes voaram, mas o encapuzado conjurou uma nuvem negra que as absorveu e saiu ileso. Derrubou um e ia desaparatar, pela sua linguagem corporal. Porém Rose lançou nada menos que uma tampa de barril no homem, que lançou um feitiço para se desviar. O Doutor apontou a chave de fenda que, num ajuste mais fino, fez a arma que carregava como seu companheiro disparar uma onda de choque, que eletrocutou o homem e o fez tombar no chão.

O "labareda ambulante" ainda corria, aparentemente atrás de uma varinha, já que gritava isso a plenos pulmões. Rose estendeu displicentemente um pé e depois estava rindo do homem no chão. O fogo se apagou e cordas surgiram nos pulsos do homem de capuz a um aceno de varinha do líder.

Então ele se virou para o Doutor e Rose.

- Pois bem, esse é realmente um tipo estranho de varinha – disse ele apontando para a chave de fenda sônica. – Mas nos ajudou. Eu sou Harry Potter, general dos Aurores. Vocês são...?

- Bom, eu sou o Doutor, e essa é minha amiga Rose – disse o Doutor, sem ligar para o fato de estar falando com quem devia ser um personagem. A situação era muito grave.

Alguém ao fundo gritou algo com "superintendente" e "raios verdes", mas ninguém deu atenção.

- Doutor? Doutor o que? – disse Potter.

- Só o Doutor – disse Rose.

- E de onde vocês são? – perguntou uma mulher de cabelos esbranquiçados.

- Somos de... muito longe – devolveu o homem.

- Quer dizer Bulgária ou Japão? – devolveu ela.

- Sim, Bulgária.

- E seu passaporte bruxo? – ela disse.

- Aqui – disse o Doutor, apresentando o fiel papel psíquico.

- Por favor, Jones – disse Potter. – Temos assuntos mais importantes a discutir – ele se adiantou, com a capa esvoaçando atrás. – Doutor, você e sua acompanhante parecem dominar algo sobre tudo isso que está acontecendo – disse, em um tom mais baixo, impedindo a multidão ali perto de ouvir.

- Sobre o que ocorreu hoje? Sim, talvez possa saber algo...

- Hoje? Não anda lendo os jornais, Doutor? Isso já está ocorrendo há três dias, e o Ministério está tão perdido quanto no começo. O Departamento de Mistérios está trabalhando sem parar, mas encontrar o senhor, ao que parece, é o maior avanço que fizemos até agora.

- Três dias? Quantas crianças foram levadas?

- Por alto? Umas trinta crianças. As famílias estão com medo, Doutor. Só Lord Voldemort aterrorizou tanto a comunidade como esses acontecimentos. Nos ajude, eu lhe peço.

O Senhor do Tempo fechou os olhos e franziu a testa. Rose tocou seu ombro. Então ele se manifestou.

- Me leve para algum lugar onde eu possa pensar. E onde tenha dados para trabalhar.

- Nada mais simples – disse Potter. – Vamos aparatar para Hogwarts, nossa base foi montada lá.

- Bom... acredito que o senhor possa providenciar que nos levem de outro modo a Hogwarts. Sabe, fizemos uma viagem longa, de trem, não estamos em condições de aparatar...

- Não seja por isso, nós os levamos. Dawlish, leve a mulher, por favor? – Potter pegou um braço do Doutor e então o Senhor do Tempo descobriu algo mais difícil de atravessar do que o vórtex do tempo.